Já estava no fim de tarde quando Selene resolveu conversar com os seus pais. As malas dela já estavam arrumadas e ela iria, com ou sem a permissão deles. Ela chegou na sala e seu pai estava lendo o jornal, e sua mãe, tricotando.
- Eu vou. - Ela falou baixo, sentando-se no sofá. - Minhas malas já estão prontas, e eu estou quase indo. - Selene suspirou. Mas a última coisa que eu queria era ir brigada com vocês. Vocês sabem o quanto eu sonhei em fazer enfermagem e o quanto eu sonhei em conhecer o mundo. É injusto que vocês não deixem eu seguir o meu sonho. Eu prometo que sempre darei notícias e prometo que sempre vou ligar pra vocês, dizendo que estou bem, com isso vocês não precisam se preocupar. - Vinco olhou para a filha com um olhar piedoso e triste.
- Mesmo você dizendo isso, tenho medo que algo aconteça com você, Selene. Como o seu pai diz, não gosta de ver seus filhos muito longe de casa e... - Lena dizia para a filha, mais calma.
- Ela vai. Pegue suas coisas, vou te levar ao aeroporto. - Vinco disse, se levantando de sua poltrona e pegando as chaves do carro. Lena o olhou, incrédula. Sabia que um olhar choroso da filha era a chave para convencer o pai a fazer o que quisesse. Lena começou a chorar. Selene se levantou e a abraçou forte.
- Não, mãe, não chore! - Selene era levemente mais alta que sua mãe. - Eu prometo que eu não vou sumir, que nada vai acontecer comigo. E que eu vou voltar logo, eu prometo, sim? Vem, vamos lavar seu rosto e colocar um casaco, você vai no aeroporto comigo também. - Selene levava a mãe dela para o andar de cima. - Bateu na porta do quarto de Victor. - Vic! Se troque! Tata e Mama vão me levar no aeroporto e você também vai. - Selene falou alto e levou sua mãe até o banheiro, ajudando-a lavar o rosto. Foi até o quarto de seus pais e pegou o casaco de sua mãe, sorrindo. Colocou o casaco nos ombros de sua mãe e foi ao seu quarto, pegar suas malas. Eram duas malas que não tinham muitas coisas, só o básico para Selene sobreviver todo esse tempo. Vic a viu tentando carregar as malas e resolveu ajudar.
- O que aconteceu que agora eles querem te levar no aeroporto? - Victor dizia entre risos.
- Eu usei aquele meu olhar pidão. - Ela sorriu docemente, descendo as escadas.
- Oh, aquele olhar tem poder. - Victor colocou as malas no carro enquanto Selene e seus pais entravam no mesmo.
No caminho do aeroporto, Selene ficava a cada segundo mais nervosa. Vic segurou sua mão e pôde sentí-la tremer e suar frio. Quando eles chegaram no aeroporto, sua mãe desabou em lágrimas, e Selene acabou chorando também. Abraçou todos e prometeu sempre dar notícias para que não ficassem preocupados. Embarcou e entrou no avião.
Próximo destino: Seattle, WA.
Chegando em Seattle, ela se aliviou. A cidade era tão fria quanto a Romênia nessa época, e ela adorava o frio. Ela olhou para os lados ao sair do embarque. Ela estava num lugar completamente novo e não conhecia quase ninguém; isso a fez entrar numa leve crise de pânico, até que ela viu uma placa escrito Selene Hartzler e um homem vestido com roupas do exército, que segurava a placa. Ela foi até o homem e sorriu.
- Olá, eu sou Selene Hartzler. - Ela estendeu a mão e ele a cumprimentou.
- James White. - Bateu continência e ela bateu continência rapidamente.
Apesar de não ser do exército, Selene tinha que saber as regras básicas do mesmo. James a levou até o táxi e eles chegaram ao centro militar de Seattle rapidamente.
- Partimos em 12 horas, senhorita Hartzler. O quarto das enfermeiras é logo a esquerda. - White indicou. Selene acenou positivamente com a cabeça e foi até lá. Havia uma mulher loira no mesmo quarto que ela.
- Oi? - Selene sorriu levemente ao abrir a porta do quarto.
- Oh! Oi! Keyla Reynolds, prazer em conhecê-la. - Selene sorriu levemente.
- Selene. Selene Hartzler. - A loira teve dificuldade em entendê-la.
- Você deve ser a garota romena. Consigo perceber pelo sotaque. - Selene colocou suas malas no chão. - Hey, você não vai precisar desse frio todo. No Iraque é mais quente do que você imagina.
- Deve ser. - Selene só acenou com a cabeça. Não era do tipo que falava muito.
- Você é muito bonita para uma enfermeira, Selene. - Keyla sentou-se na mesma cama que ela. - Nunca pensou em ser modelo, ou atriz?
- Você não é a primeira a me dizer isso. - Ela sorriu timidamente. - Não. Sempre gostei de enfermagem, de medicina; sangue... coisas que as outras pessoas não conseguem ver e eu aguento.
- Para um país recém-industrializado, que era fechado do mundo, até que você tem uma mente bem aberta.
- É. Sempre fui julgada por causa disso. - Keyla piscou ao ouví-la.
- Creio que seremos boas amigas, apesar do seu sotaque quase incompreensível - Selene riu levemente.
- Estou com fome. Onde eu posso comer algo por aqui? - Keyla se levantou e a incentivou a levantar-se também.
Iria levá-la a uma starbucks. Iria mostrar o mundo industrializado para Selene.
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- As coisas são um pouco caras aqui, não acha? Em Brasov é basicamente a metade da metade desse preço e é quase tudo fresco! - Selene olhava as vitrines da cafeteria levemente assustada com os preços.
- Não estamos na Romênia, Selene! Estamos na América! Aqui é o lugar onde você paga caro, mas com bela qualidade! Vai, pede o que você quer.
- Acho que eu vou pegar esse... baguete aqui... - Selene pegava um lanche pequeno na prateleira. E esse suco de laranja que está quase caindo aqui... - Selene tentou pegar o suco de laranja que caía, mas uma mão foi mais rápida e pegou o suco antes que ele se espatifasse no chão. A mão lhe ofereceu o suco e ela olhou para cima.
Um moreno de olhos acinzentados olhava para ela com um sorriso de canto. O rosto dele era angular e de leve maneira, marcante.
- Obrigado. - Selene sorriu levemente e foi até o caixa pagar o que pretendia comprar. Keyla a olhou, indignada.
- Você não é desse planeta, certo? - Keyla ria enquanto via Selene pagando seu lanche.
- Depende em que sentido. - Selene começava a comer seu lanche, arqueando uma das sombrancelhas.
- Você não viu o cara lindo te paquerando ali? - Ela olhou para trás e viu o homem que ainda olhava para ela.
- Keyla... - Elas se sentaram numa mesa perto da janela. - Eu acabei de chegar de viagem do outro lado do continente, estou cansada e definitivamente com fome. Não fico reparando nesse tipo de coisa nessas horas. - Selene se ajustava na cadeira enquanto matava sua sede com o suco. Keyla rolou os olhos e o homem passou por elas com os olhos fixos em Selene, que não reparou.
- Ou você precisa de um óculos, ou precisa ser levada para o mal-caminho. - Keyla rolou os olhos e tomou seu café.
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Selene acordou apressada. Keyla ainda estava dormindo e seu avião iria partir em uma hora. Acordou Keyla e se trocou rapidamente, fechando suas malas, e indo apressada para o porto de embarque. Mostrou sua Identidade e embarcou no avião. Deitou sua cabeça no encosto do banco, olhou para os lados e acabou caíndo no sono. Acordou duas horas antes do seu voô chegar ao seu destino. Foi ao banheiro e passou por um homem que derrubou seu café acidentalmente nela.
O mesmo homem de rosto angular e olhos acinzentados.
- Oh, me desculpe. - Pegou uma toalha qualquer e tentou limpar as roupas dela.
- Sem problemas, deixa que eu limpo. - Selene riu, desconcertada. O sotaque dela era realmente forte.
- Você não é daqui, certo? - Selene arqueou uma das sombrancelhas.
- Não... por quê? - Ele sorriu antes de dizer
- Sotaque. - Selene voltou a limpar sua roupa. Ele sorriu abertamente.
- Todo mundo está dizendo isso. Não é fácil acostumar. - Ela colocou os cabelos para trás e o viu sorrir.
- Quando você chegar na base, você troca essa roupa. - Ele passou uma das mãos pelo ombro dela e voltou ao seu lugar; assim como ela.
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A guerra estava difícil. Muitos homens do exército estavam sendo brutalmente atacados por Iraquianos com facas, rifles, metralhadoras de tecnologia antiga e bombas caseiras. O soldado James White havia sido atingido por uma bomba caseira; e depois do aeroporto, Selene havia criado um laço especial com ele. O braço esquerdo de James estava sériamente danificado e poderia ser amputado na pior das hipóteses.
Selene estava ajudando a cuidar dele, por ser um paciente em estado grave. Não era fácil olhar para ele; já que seu rosto estava machucado e seu braço poderia cair a qualquer momento em um movimento brusco, mas conversava com ele calmamente.
- Tente dormir um pouco, ok? Vou dar uma checada nos outros pacientes. - Selene acariciou o rosto dele e sorriu, colocando suas mãos na cortina. Sentiu alguém passar a mão pelo seu ombro e olhou para trás. Era o mesmo moreno de olhos acinzentados que derrubou café nela. - Em que posso ajudar?
- Tá doendo. - Ele gemeu e ela o fez sentar na maca que havia ali perto. Ela olhou suas costas e havia um corte fundo, feito com algum tipo de faca ali.
- Eu vou tirar sua blusa com muito cuidado pra evitar que o seu machucado fique pior, vou chamar o médico pra suturar e daqui a 5 dias você volta pra trocarmos o curativo, tudo bem? - Selene colocava as mãos na blusa dele.
- Você não vai fechar pra mim? - Ele ofegava, estava suado.
- Eu não faço suturas, desculpe. - Selene pegou uma tesoura e cortou no local do ferimento lentamente. Ele a olhou com um estranho desespero, como se houvesse lanças por todo seu corpo, logo após ela tirar sua camisa.
- Fique por perto. - Ele falou. Ela arqueou uma das sombrancelhas e chamou um dos médico-assistentes.
O médico-assistente suturava o ferimento do homem que mantia os olhos fixos em Selene. Ela evitava não olhar, mas era difícil. O médico fez o curativo e o homem foi até Selene novamente.
- Cinco dias? - Selene olhava um prontuário.
- Sim, cinco dias. Não foi possível ver a profundidade do corte, mas é bom que você volte daqui a cinco dias para trocarmos os curativos, por que você vai voltar pro campo e com certeza não vai cuidar do machucado. Então você volta aqui pra limparmos o ferimento. - Selene falava quase que automáticamente e o homem sorriu.
- Damon. - Ela o olhou e sorriu levemente. Ela abriu os lábios para dizer algo, mas ele foi mais rápido. - Selene. - Damon segurou a mão de Selene e beijou cordialmente.
- Cinco dias. - Ela sorriu e pegou uma seringa, logo fechando a cortina. Ele a observava atentamente. - Até mais ver, Damon.
