CAPÍTULO 1

UNFORGIVABLE


Lílian acordou com a luz do sol invadindo seu quarto, filtrado pela fina cortina de seda. Ainda com os olhos fechados ela se espreguiçou, alongando o máximo de músculos que conseguiu, e continuou deitada, olhando para a cortina iluminada, tentando espantar a vontade de fechar os olhos e dormir novamente.

Enquanto estava deitada, a auror relembrava a perseguição da véspera. Não acreditava que ainda era possível a existência de seguidores de Voldemort, mesmo 30 anos após sua morte. Ela sabia que aquele tinha sido um bruxo muito poderoso e que havia espalhado o terror pelo mundo dos bruxos. Mas a passagem dele pelo mundo fora assim tão marcante? Ela não sabia, nascera alguns anos depois da morte de Voldemort.

Felizmente os seguidores atuais não fazem jus ao mestre. Apesar de serem sangues-puros, o único tipo de bruxo que merecia o dom da magia - segundo Voldemort, eles não passavam de anarquistas. Não se sabe como se preservaram os nomes das Maldições Imperdoáveis, mas o que mais importava aqueles bruxos não tinham. A vontade de usá-las.

Seu pai havia dito que para usar uma Maldição daquelas, era preciso ter um sentimento profundo e cruel, a real vontade de torturar e matar. E essa vontade havia se extinguido com Voldemort e seus Comensais da Morte.

Alguém bateu na porta do quarto e Lílian se libertou de seu transe.

- Lílian, querida, o café da manhã está pronto – disse uma voz doce do outro lado da porta.

- Estou indo, mamãe.

Sua mãe, Gina Potter, fazia questão de preparar o café da manhã para ela e seu pai todas as manhãs, antes dos dois irem para o trabalho, no Ministério da Magia. Sentando na cama, Lílian pôde ver-se no espelho que estava logo acima de uma pequena estante, em frente à cama. Seu cabelo ruivo estava um tanto bagunçado e seu olhar ainda expressava um pouco de sono. Ela sorriu, dando graças aos céus de não ter herdado um cabelo tão rebelde quanto o do pai.

A auror desceu os degraus barulhentos da casa dos Potter e seguiu até a cozinha. A luz do sol iluminava o lugar, entrando pela janela que estava sobre a pia da cozinha. Havia uma mesa retangular no centro do recinto, uma lareira na parede em frente à mesa e uma porta da parede paralela, que levava a um banheiro. Harry e Gina estavam sentados na mesa, próximos um do outro: Harry tomava uma xícara de café e comia bolinhos; e Gina lia o Profeta Diário. Lílian sentiu uma pontada de tristeza ao ver sua mãe lendo, esperançosa, o jornal. O motivo pelo qual ela o fazia ainda machucava os Potter...

- Sente-se querida, não quer se atrasar, hum? – Disse Harry, percebendo a presença da filha. – Principalmente tendo sido aceita como auror há tão pouco tempo.

Harry emanava um orgulho incomensurável pela filha. O fato de ela estar trabalhando no Ministério como auror, cargo que já havia sido dele, fazia-o feliz de uma forma incrível.

Lílian sorriu e sentou-se próxima aos pais. Gina desviou sua atenção do jornal por uns instantes, olhou para a filha e aproximou dela uma pequena tigela com alguns bolinhos dentro. Uma fumaça fina e um aroma delicioso saíam dali.

Deixei os bolinhos prontos ontem à noite e os assei há pouco – disse Gina, sorridente. – Prove e me diga se estão bons.

Lílian pegou um bolinho e o mordeu. O pedaço quente queimou sua língua por um momento e ela deu um gemido de dor, mas depois de alguns segundos ela sentiu o gosto absurdamente bom do bolinho.

- Nossa, incrível! – exclamou ela, com uma expressão de incredulidade.

Sua mãe sorriu e voltou sua atenção as páginas do jornal. Harry terminou a xícara de café e pegou o bule para se servir de mais um pouco.

- Como foi ontem, Lílian? – perguntou ele.

- Tudo correu bem – respondeu ela, esfriando seu bolinho e servindo um copo de suco de abóbora. – Apenas mais um neo-comensal.

Chamavam os seguidores que aderiram aos "ensinamentos" de Voldemort após sua morte de neo-comensais. Estes não eram nem de longe tão poderosos ou cruéis quanto os Comensais da Morte do passado, mas causavam uma dor de cabeça com suas ideias de poder e dominação.

- Ele era poderoso? – Harry pareceu interessado.

Lílian balançou a cabeça, negando, enquanto colocava o resto do bolinho que tinha mordido na boca.

- Mais um que não sabia usar a Avada Kedavra – disse ela, com a boca meio cheia. Segundos depois percebeu a besteira que tinha feito.

Sua mãe virou bruscamente a cabeça para olhá-la e o rosto de seu pai adotou uma expressão sombria.

- Ele usou a Maldição? – perguntou Harry.

Lílian suspirou e fez uma cara feia, repreendendo-se por ter deixado aquilo escapar.

- Ele tentou usar – Lílian esperava que seus argumentos funcionassem. – Eu vi o medo no rosto dele, ele não ia conseguir usar, então não me preo...

- VOCÊ O INCITOU A USAR A MALDIÇÃO?

Harry pareceu dominado por outro ser. Gina não sabia se ficava assustada pela filha ou pela atitude do marido. Lílian arregalou os olhos e se encolheu na cadeira, olhando o pai com o canto do olho. Escapou de novo...

- Mas, papai... Você mesmo disse que não se pode ter medo para usar a Maldição. E eu sabia que ele não conseguiria.

- Você tem noção do que fez? – Harry gritava a plenos pulmões. Gina, silenciosamente, espalhou Abaffiatos pela cozinha, para que a conversa não saísse dali. – Você tem noção de como ficaríamos se aquela Maldição funcionasse?

- Mas ninguém mais conseguiu conjurar nenhuma das três Maldições depois da morte de Voldemort!

Gina estremeceu à menção do nome Voldemort. Harry bufava, mas o argumento parecia ter funcionado. Ele sentou e fitou a mesa, enquanto tomava um grande gole de café. Lílian sabia que aquilo não era fúria pela irresponsabilidade dela. Na verdade, talvez fosse, e seu pai tinha toda a razão, admitiu ela.

A auror não conseguia entender o pavor que seus pais tinham com relação aquele assunto. O nome de Voldemort ainda fazia sua mãe estremecer. Ela sabia que antigamente não se pronunciava o nome de Voldemort, mas não tinha noção da extensão do medo que aquela simples menção provocava.

Também não conseguia entender o medo em relação às Maldições. Ela ainda lembrava de como seu pai estava desconfortável contou a ela sobre as três Maldições Imperdoáveis.

...

- Você deve saber sobre esses três feitiços terríveis, Lílian, caso tenha que enfrentar algum no futuro.

Harry Potter caminhava lentamente, mas parecia tenso. Ele havia passado por isso com todos os outros filhos, no entanto era sempre um desafio relembrar aquilo. Mas ela precisava saber. Como auror, talvez algum dia ela se depare com uma situação daquelas. Principalmente com aqueles neo-comensais ainda à solta.

O homem perambulou em silêncio por alguns estantes, enquanto sua filha o fitava sem piscar, sentada no sofá da sala de estar. Harry lembrou-se de quando Olho-Tonto (que não era de fato Olho-Tonto na ocasião) mostrou a eles as maldições. Agradecia muito a Barto Crouch Jr. por ter-lhe dado a ideia de como demonstrar aquele tipo de coisa para seus filhos. Visualizando o recinto onde estavam, Harry ergueu a varinha e disse:

- Accio aranha.

De uma estante pequena num canto da sala, uma aranha pequena surgiu e voou até a mão do homem. Ele a fez crescer, exatamente como Olho-Tonto, e disse:

- As Maldições são feitiços das trevas de um grande poder, mas de terríveis efeitos – ele deu uma pausa e olhou a aranha em sua mão. – Como eu disse, são 3 Maldições: a Maldição Cruciatus, que faz com que o alvo sofra terrivelmente enquanto o bruxo que o enfeitiçou tiver forças para manter o feitiço; a Maldição Imperius, que controla a mente do alvo... – ele suspirou antes de continuar. – E a Maldição da Morte.

- Maldição da Morte? – perguntou Lílian, espantada.

Harry apenas balançou com a cabeça.

- Elas são chamadas de Maldições Imperdoáveis. O bruxo que as utilizar vai direto para Azkaban, qualquer que tenha sido a circunstância que o fez agir dessa forma.

A futura auror ainda parecia perturbada e incrédula. Ir para Azkaban já não era tão terrível quanto já fora uma vez. Principalmente porque agora era mantida por humanos e algumas gárgulas.

- A Maldição da Morte... – começou Lílian. – Ela matava mesmo?

- Ela mata, minha filha – o pai fitou-a, temendo que um dia ela tivesse de ver o que ele viu. – Só é preciso um segundo...

Lílian refletiu em seu lugar e Harry sabia que a filha ainda não estava crendo no que ele disse. Respirou fundo e limpou sua mente. Olhou para a aranha em sua mão, apontou a varinha e disse:

- Imperio.

A aranha, que estava se movimentando lentamente na mão de Harry, parou. Lílian voltou sua atenção para o inseto na mão do pai. A aranha, então, começou a se mover pelo braço de Harry. A filha dele mal pode acreditar no que via. De repente a aranha pulou para o ombro de Lílian. Ela deu um grito e se encolheu no sofá.

- Shhhhh, calma – disse Harry. – Ela não vai fazer nada, eu juro.

Enquanto isso a aranha caminhava pelo pescoço da mulher, subindo à cabeça e então dirigindo-se a seu rosto.

- Tudo bem, já chega papai – disse ela em protesto.

Harry sorriu e trouxe a aranha de volta para a palma de sua mão.

- Vê? Elas existem. Elas funcionam.

- E as outras? – perguntou a ruiva, radiante. – Mostre as outras Maldições!

- Não! – o semblante de Harry se entristeceu. – Eu não posso usar as outras...

Lílian percebeu que tinha falado algo que não devia, mas resolveu ir adiante. A curiosidade sempre tinha se mostrado maior que seu bom senso.

- Por que?

- As Maldições são feitiços das trevas, Lílian – respondeu seu pai. – Você não pode simplesmente usá-las. Você precisa querer machucar... Querer matar...

Harry se aproximava lentamente enquanto falava, prendendo a atenção da filha e deixando-a apreensiva. Ele olhou para a aranha, fazendo a filha olhar também. Apontou a varinha para o inseto e disse, calmamente:

- Avada Kedavra.

A ponta da varinha se iluminou com uma luz verde. E um segundo depois, apagou-se. Lílian deu uma olhada na aranha, que aparentemente estava viva na mão do pai.

- Não é fácil usá-la – disse Harry. – Não se pode ter medo das consequências. O bruxo que usá-la deve se deixar dominar pela raiva e pela vontade de matar. Mas ela tira de você a sua vida também... – ele viu o olhar assustado da filha – Não imediatamente, nem da mesma forma. Mas é algo que você ainda não precisa entender. Wingardium Leviosa.

A aranha começou a flutuar e o bruxo a levou de volta de onde tinha vindo, atrás da estante. Lílian afundou no sofá, tensa. Harry suspirou e fechou os olhos, vendo muitas cenas que desejava esquecer havia trinta anos...

- Nunca as use, Lílian – aconselhou o pai, olhando para o teto. – Pois as trevas poderão um dia vir cobrar pelo poder que você usou.

...

Harry baixou a xícara de café. A lembrança da noite em que contou para Lílian sobre as Maldições trazia consigo todo o pesar das vezes em que viu as maldições em ação. Da própria vez em que ele tentou usar as maldições...

- Esse homem que vocês capturaram ontem. O que vocês sabem sobre ele? – perguntou Gina, tentando mudar de assunto.

- Ainda não sabemos muito, mas ele não parece importante – respondeu a filha. – Ele levava um livro estranho. Sem título, páginas em branco. Me lembrou o Mapa do Maroto – ela olhou para o pai, tomando um gole de café.

Harry olhou para a filha inexpressivo. Lílian trouxera o Mapa do Maroto de volta para casa quando terminou seus estudos em Hogwarts.

- É provável que seja um mecanismo parecido – disse ele. – Você precisa encontrar a chave que o faz revelar seus segredos nesse caso.

- Sim, pretendo fazer isso hoje – respondeu Lílian. Ela virou a xícara de café depois de falar. – Já vou indo para o Ministério – concluiu, se levantando.

- Certo. Eu vou daqui a pouco – disse Harry.

A filha lhe dirigiu um sorriso carinhoso. Foi ao banheiro para fazer suas necessidades matinais e pentear seu cabelo. Voltou à cozinha, se despediu dos pais com um beijinho e se dirigiu à lareira. Num potezinho pendurado nas pedras, ela pegou um punhado de pó e, então, entrou na lareira.

- Ministério da Magia – disse ela, jogando o pó no chão. Uma chama verde se ergueu e consumiu a bruxa, fazendo-a desaparecer.

Harry levantou-se, resmungou algo sobre "dar uma volta" para Gina, e foi em direção da porta da frente da casa, em passos lentos.

Gina assentiu ao resmungo quase ininteligível do marido, ainda focada em sua leitura. Ela não se cansava de procurar. Era apenas uma pista, uma informação. Se acontecesse estaria lá, ela sabia. A bruxa sentiu um aperto no coração e uma lágrima escorreu rosto abaixo. Já fazia seis meses que ela lia o Profeta esperando por algo, e nada.

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Continua...