Capítulo 2
Três semanas atrás…
Ada suspirou aliviada e trancou a maleta blindada sobre seu colo. os discos em cada canto giraram até que acendesse em cada um uma reconfortante luz laranja, garantindo que a amostra do Las Plagas estava segura. Ela apertou as bordas da maleta e levantou os olhos para o nascer do sol na janela do helicóptero. Sua missão fora um sucesso. Ela estava acordada há mais de 24 horas, enfrentando horrores indescritíveis. Seu corpo enrijecia pela retração da adrenalina, e seu vestido vermelho estava úmido e grudento. Ela correu um dedo por debaixo da fita preta que envolvia seu pescoço delicado e caía sobre suas costas, sentindo a umidez sob o tecido sedoso.
Só o que eu quero agora é um banho, e algumas horas de sono...
Infelizmente, a Organização não seria tão generosa. Sabendo que ela tinha a amostra em mãos, eles a exigiriam imediatamente. Na verdade, Ada dormiria muito pouco nos próximos dias. A Organização fora clara: Wesker não deveria receber o parasita Las Plagas. Ele estava correndo solto havia muito tempo, e estava na hora disso acabar. Ela o enviaria uma amostra falsa, e aí-
Falando nele…
O celular soou, abafado pelo barulho do helicóptero. Ela o posicionou na frente do rosto e tocou na tela com o polegar. Houve uma pausa enquanto o satélite estabelecia a transmissão, e então Wesker surgiu no display.
"Está com a amostra?" Ele sempre dispensava cumprimentos.
"Sim."
"Bom. O encontro segue como marcamos. Não se atrase." Com isso, ele encerrou a transmissão. Curto e grosso, como sempre.
Ada encaixou o aparelho de volta no coldre em sua perna. Ela sabia a quem pertencia sua lealdade. Desde o começo sua parceria com Wesker havia sido fachada. A organização queria que ela ficasse de olho no seu novo sócio; Wesker havia dado demasiados tiros nas costas para ser confiável. Cada passo e ação tomados por ela nos últimos 6 anos foram meticulosamente planejados e executados, desde sua fuga de Raccoon City, até a presente situação na Espanha.
Para Wesker, ela estava coletando a amostra para ele. Entretanto, a organização tinha outros planos, nos quais Wesker era apenas um peão. Já Ada…
Mais pra uma rainha...
Ela duvidava que esse seria o fim de Wesker. O homem, se é que ele podia ser chamado assim, não caía fácil. Ada sorriu para si. Certamente eles se encontrariam novamente. O que pensaria ele dela daqui para frente, que ambos haviam sido traídos pela organização? Ele a acolheria como um aliado ou a veria como inimigo?
Ele nunca confiou em mim de verdade, mas talvez ele esteja desesperado. Ha. Difícil. Quero ver ele de novo logo.
O helicóptero prosseguiu rumo ao leste, de volta ao continente. A organização estaria esperando por ela. Ada encostou a cabeça no estofado duro do helicóptero e fechou os olhos para tentar tirar um cochilo. Não tinha muita esperança de conseguir, sendo levemente sacudida pelo helicóptero e ouvindo o ruído incessante das hélices. Ela queria o silêncio do seu quarto e o conforto da sua cama para se esticar. Diferente de muitos, Ada não conseguia dormir em qualquer lugar, não importa o quão cansada estivesse.
Tipo o Leon. Com certeza ele é um desses…
Ele cumprira bem seu papel, mesmo não estando ciente. Ele cumpriu sua missão: resgatou Ashley, ajudou a eliminar Jack Krauser e destruiu o culto Los Illuminados. Ada lhe deu alguns empurrões aqui e ali, mas não eram necessários. Ele se tornou muito mais competente desde Raccoon City, quase um novo homem.
Ela continuou pensando nele, já que estava servindo bem para distraí-la da viagem desconfortável. Perguntou-se quando iria vê-lo novamente, e se seria finalmente longe dos olhos onipresentes da organização. Eles haviam se encontrado pela primeira vez em seis anos... ela se sentia mal por ter enfiado a arma nas costas dele, mas não tinha outro jeito.
Com um impressionante uso de técnica, ele conseguiu desarmá-la. Ela não sabia como ele reagiria quando descobrisse que estava viva; certamente não esperava a intensidade do seus olhos quando a reconheceu. A princípio, Ada esperava raiva por como ela o usou em Raccoon. Também esperava algum alívio por ela estar viva. Leon, porém, mostrou apensar um misto bizarro de aceitação e resolução.
Tinha outra coisa também...não se engane. Balançou a cabeça. Não, não é possível que ele ainda sinta isso. Foi há tanto tempo…
Ada se permitiu mais um sorriso, e dispersou seus pensamentos imaturos. Quando abriu novamente os olhos, estava aterrissando. Estava atônita por aparentemente ter dormido o caminho inteiro. O helicóptero pairou sobre o chão por alguns segundos, e então tocou suavemente o concreto da pista de um aeroporto na Espanha. Ada pegou a maleta e saltou para fora da aeronave, enquanto o piloto a desligava.
Seus saltos pretos estalavam alto no chão, sobrepondo o som decrescente das hélices parando. Dois jatinhos da organização esperavam na pista à sua frente. Ela caminhou em direção ao da esquerda, enquanto uma brisa fria da manhã levantava seu vestido, fazendo as borboletas estampadas dançarem sobre suas pernas arrepiadas. Ela sabia quem a esperava lá dentro.
Ignorando o homem de terno nas escadas, ela entrou no avião. O silêncio no interior era inquietante, contrastando com os ruídos externos de aeronaves decolando. A cabine era ricamente decorada; todas as quinas cobertas com madeira escura polida. No lugar dos assentos normalmente presentes havia uma mesa arredondada na lateral da cabine, parcialmente cercada por um assento acolchoado. Ada sentou na ponta, colocando a maleta sobre a madeira lustrosa da mesa.
O avião era seccionado em duas áreas, separadas por uma meia parede e uma cortina. Instantes após Ada sentar, surgiu uma mulher do outro lado da divisória, usando um uniforme preto justo de aeromoça. Ela até seria bonita, com suas longas pernas com meias-calças e seus cabelos loiros, se não fosse pela expressão morta. Sem uma palavra, ela pegou a maleta de cima da mesa e levou para o outro lado. Houve uma pausa, e então Ada ouviu o clique das travas eletrônicas sendo liberadas. Outra pausa.
"Bom trabalho, Wong," disse uma voz masculina detrás da cortina. "A organização agradece."
"Fico contente em servir." Ela respondeu fria.
A voz do outro lado era polida e expressiva, com um leve sotaque britânico. Apesar de já ter a escutado antes, ela nunca conheceu seu rosto. Tinha apenas sua imaginação: trinta e poucos, bonito (é claro), cabelos curtos com um topete arrepiado de gel, e talvez umas costeletas bem aparadas. Não que sua aparência importasse; o dono daquela voz era do núcleo central da organização, e tinha a maior influência. Ada não sabia seu nome, mas foi instruída a referir-se a ele por seu codinome: Crow.
Mas claro, pura especulação. Ele pode ter uns 60 anos e ser horrível.
"A retirada foi tranquila?"
Ada abafou um sorriso. "Na medida do possível." Velcro rasgando quebrou o silêncio da cabine quando ela começou a remover o coldre da coxa. Contido nele: sua arma, arma de gancho e celular. Ela o largou em cima da mesa e coçou as marquinhas que a alça deixou na sua perna. Sentiu algo arenoso se acumulando sob as unhas, retraiu a mão e viu marcas vermelhas. Sangue seco.
Na vila do Los Illuminados ela se descuidara ao ajudar Leon. Após um dardo no pescoço e um breve cochilo, Ada acordou na linha de ataque do machado ritualístico de um dos nativos. Ela piruetou para fora do caminho, mas sentiu uma fisgada forte na perna. O olhar que jogou para o nativo depois fez ele encolher. A compressa improvisada que ela havia feito caiu em algum momento durante a última luta com Saddler.
"Que foi? Algum problema?" perguntou a voz agradável do Crow.
"Não, nada," Ada respondeu raspando o sangue das unhas, então cruzando as pernas. "Um dos aldeões exagerou na intimidade."
Crow riu. "Espero que você tenha aliviado pra ele."
Ada forçou um riso. Ela já estava cansada de papo. Queria tomar banho, dormir e voltar para os EUA. Debruçou-se sobre a mesa e apoiou o rosto em uma mão, com o punho na bochecha.
"Eu devo me desculpar por ainda não ter elogiado sua indumentária." Disse Crow. "Vermelho é claramente sua cor. De todos os nossos agentes, você é com certeza a mais bonita. E a mais eficiente."
Ada levantou sutilmente a cabeça, seus olhos disparando para o teto.
Idiota. Você não estar vendo ele não significa que ele não tá te vendo.
A câmera minúscula acoplada na aeronave assistia a ela atentamente. Seus olhos treinados podiam ver a lente contraindo, dando zoom. Crow definitivamente era mulherengo. A saia da aeromoça era alguns centímetros mais curta do que o permitido.
Um pouco desagradável, mas melhor que o Wesker. Aliás…
"Nosso plano continua o mesmo?"
Ada ouviu um pequeno suspiro do outro lado. "Infelizmente, houve uma mudança de planos enquanto você estava fora." A aeromoça voltou, trazendo a maleta, e colocou-a sobre a mesa. "Você vai entregar a amostra pro Wesker, como ele espera."
Ada levantou a cabeça da mão e olhou para a cortina.
"O que é isso?" Ela não esperava uma resposta direta. Ela era apenas um intermediário.
"Devido a uns… incidentes, a organização vai ter que efetuar um plano de contenção. O plano pro Wesker vai ter que esperar."
Ada não pôde conter seu suspiro de irritação.
"Entrega a amostra pro Wesker," Crow repetiu. "Você vai ser informada de novas ordens."
"Não é um tanto arriscado?" Ela perguntou. "A gente sabe que ele vai entrar em contato com a S em algum momento. Você quer mesmo que eles tenham acesso a um parasita vivo?"
"É um risco sim, que estamos dispostos a correr. A gente consegue lidar com a S, com ou sem parasita. Sua preocupação é garantir que o Wesker permaneça no escuro."
"E como eu faço isso? Ele vai desconfiar alguma hora."
Crow riu. "Você sempre foi a favorita do Wesker. Tenho certeza que você dá conta."
Ada fechou a cara com o comentário. Às vezes eu não sei por que aturo isso. Ela suspirou de novo. Crow não era muito melhor que Wesker às vezes. Como ele, tudo o que importava para Crow eram coisas, e como usar os outros para obtê-las…
Bom, olha o lado bom, pelo menos assim você vai poder tomar aquele banho agora.
Ada colocou as mãos sobre a maleta, e raspou levemente suas unhas na superfície. O metal reluzia friamente, escondendo o pequeno monstro em seu interior. Ela se perguntava o quão sensata era a ideia de entregar o parasita para Wesker. Era um apocalipse esperando para acontecer. Mas então pensou nas outras amostras que ele já possuía: o G-vírus e o T-vírus, cada um dos dois também um apocalipse em potencial. Pelo menos eles estariam apenas dando mais uma opção a ele, que já tinha duas.
"OK," disse Ada, tentando não soar muito ingrata.
"Ótimo," disse Crow. Houve um leve som de tecido se movendo, como se ele estivesse mudando de posição na cadeira. "Seu pagamento já foi transferido. Como sempre, foi um prazer."
"E tenta não fazer cara feia, Wong," Crow adicionou enquanto se levantava. "Não combina com sua beleza."
Arrogante. Você tá nesse mundo de negócios há quantos anos, Ada Wong? Por que você tá surpresa? Você faturou um pagamento de 6 dígitos e odeia seus chefes. Garota-propaganda dos Estados Unidos.
Ada recolheu a maleta com uma mão, o coldre com outra, e marchou para fora do jatinho, voltando para o seu. Era praticamente a mesma coisa: pequeno, elegante, fornecido pela organização com seu poder aquisitivo quase ilimitado, mas este não tinha divisória; ela tinha a cabine inteira para si. jogou a maleta e coldre em uma das poltronas, e sentou-se quando começaram a acelerar na pista. Assim que o avião atingiu altitude de cruzeiro, Ela se levantou e se dirigiu ao banheiro, que dispunha de uma ducha.
Somente após se livrar de seu vestido e sentir a água quente sobre si Ada sentiu que sua missão havia acabado. Alguns hematomas começaram a surgir em seu corpo, em consequência de suas ações na Espanha, mas eles sumiriam logo. O corte na sua coxa era outra história. A água dissolveu o sangue seco, que escorreu pela sua perna e se acumulou no chão de plástico do chuveiro. Ada cutucou-o com o dedo e inspirou entredentes. Era um corte longo - uns dez centímetros - mas não muito profundo. A cicatriz seria suave, não muito visível. O sangue finalmente parou de escorrer, começando a coagular e endurecer sobre a ferida.
Relutantemente, ela interrompeu o banho logo. O avião não dispunha de um tanque muito grande, e não tinha nada pior para Ada do que pegar água fria num banho. Ela esticou o braço para fora do banheiro e puxou a toalha do gancho, se secou brevemente, e se enrolou. Depois de aplicar um spray antisséptico e gaze no machucado, vestiu uma simples camiseta branca e jeans.
Seria um tempinho até chegarem nos EUA. Ada se acomodou numa poltrona ao lado da maleta e tentou adormecer de novo. O zumbido suave do avião era relaxante, mas ela ainda não conseguia dormir. Estava um tanto incomodada de ter que continuar sua farsa com Wesker. O que poderia ter obstruído os planos da organização?
Seus pensamentos voltaram para Leon. Ele a ajudou a dormir antes, ela esperava que funcionasse novamente.
