BPOV

Meus pais descobriram – ou aceitaram – que havia algo de errado comigo quando, aos 5 anos de idade, eu ganhei minha primeira boneca e a transformei em um saco de pancadas. Estamos em pé de guerra desde então. Eu levava o brinquedo para todo lugar, carregando-o da maneira mais doce possível, mas bastava encontrar algo que me irritasse e eu enchia o rosto do bebê de porrada.

Não que depois disso eu saísse por aí com um boné na cabeça e um carrinho de controle remoto. Na verdade, a maioria das brincadeiras masculinas me irritavam. Só havia um único passatempo que era capaz de me acalmar: Pintura. Lápis de cor, giz, tinta, qualquer coisa que riscasse uma folha em branco estava servindo. O resultado disso é uma mente criativa na idade adulta e pais frustrados com minha alma artística demais.

Droga, sinceramente, o que estão tentando ensinar as crianças com essas brincadeiras ridículas? O que uma garota pode possivelmente aprender de útil trocando a fralda de uma boneca? Eu respondo: Nada. E é exatamente isso que eles querem! Transformem seus filhos em pequenos robozinhos ou eles vão acabar com 25 anos de idade, desempregados, trancados em seu quarto se dedicando a uma arte que ninguém liga.

- Bella, nós já estamos de saída. – Minha mãe abriu a porta como se entrasse em seu próprio quarto, rebolando em seus saltos ridiculamente caros até a janela. Abriu as cortinas e se pôs a reclamar. – Quando você pretende sair daqui, posso saber?

Eu soprei os fiapos da borracha de cima de meu desenho, retocando a parte que não deveria ter sido apagada. Sem olhar para ela, murmurei. – Nunca.

Ela andou de volta até mim e arrancou a prancheta do meu colo. Eu ergui as sobrancelhas, incrédula. – Quando tiver sua própria casa, pode enchê-la com essas coisas. Até lá, eu faço as regras. Pare de agir como uma adolescente e vá tomar um pouco de Sol nessas pernas branquelas!

Como eu dizia: Quando você cresce cercada de Barbies e aulas de ballet, acaba se tornando algo como a minha mãe. Ela atépoderia ter algum talento, mas preferiu encher a cara de pó compacto e agarrar o primeiro ricaço que se interessou por seus peitos entupidos de silicone. Eu nunca fui do tipo desleixada, e definitivamente me considero vaidosa, mas toda vez que ela voltava feliz de um longo dia de compras, esfregava na minha cara como eu ainda não estava plastificada o suficiente e continuaria solteira caso não usasse um decote maior.

A questão é que não, eu não sou do tipo que pretende encontrar o par perfeito e dedicar o resto dos meus dias a um bando de crianças ingratas. Se eu fosse um homem, esse pensamento seria admirável, mas como mulher, enquanto solteira sou considerada um peso inútil vivendo no planeta. Não sou nenhuma feminista maluca, mas acho que há algo errado nisso tudo. Sou simplesmente do tipo que acredita que quem tem controle sobre meu próprio corpo sou eu, não o mundo, e muito menos um idiota superficial que aos poucos tem total poder sobre mim.

Além do mais, eu não vejo um real motivo para uma mulher sentir vontade de passar a vida com um ser humano superficial, porco e sem o mínimo de sensibilidade. Tudo bem, podem esquecer a última parte; não sou a pessoa mais sensível do mundo. Mas, definitivamente, quando encontrarem um homem com devida higiene (em si mesmo e por onde passa) e que consiga manter uma conversa sobre assuntos relevantes para a humanidade, por favor, me apresentem!

Droga, eu tenho realmente todos os pré-requisitos para virar lésbica.

- Por que não liga pra aquele garoto bonitinho com quem você estava saindo? – Ela colocou a prancheta em cima da minha escrivaninha ao falar.

- O quê, Mike? – Franzi a testa. – Nós terminamos. Eu terminei com ele. Ele era um idiota.

- Como todos os outros? – Ela reclamou. – Querida, um dia vai perceber que não pode ser tão exigente.

- Não é como se eu tivesse uma lista de exigências ou algo assim. – Deitei na cama, praticamente me jogando nela. – E também não sou do tipo que "espera o cara certo aparecer". Não estou esperando nada, eu realmente não preciso disso. Além do mais, o cara me deu um gato de presente! – Grunhi, - Isso é o que eu chamo de me conhecer bem. – Completei, me referindo a intensa alergia que eu carregava desde criança.

Renée revirou os olhos e se direcionou para a porta outra vez. – Tudo bem, querida, você é quem sabe o que está fazendo com a sua vida. – Ela tentou fazer um final dramático. - Peça para Sue quando quiser jantar. Nós voltamos logo.

Eu já estava com os olhos fechados quando ouvi a porta bater. Tive apenas mais alguns minutos de calmaria, ali deitada em minha cama maior do que o necessário, e estava prestes a dormir quando alguém bateu desesperadamente do lado de fora. Eu sentei e franzi a testa, esperando que a pessoa entrasse.

- Isabella! – Nossa empregada, Sue, gritou com uma alegria estranha. – Você tem uma visita!

É claro, suspirei enquanto me levantava. Sue trabalhava naquela casa desde que me conhecia por gente, mas ela tinha o hábito irritante de deixar entrar qualquer um que ela aprovasse, e barrar qualquer outro que ela odiasse logo de cara, sem perguntar para qualquer morador sobre o assunto. Normalmente os que ela convidava para sentar no sofá da sala eram alguns ex-namorados idiotas, ou quase namorados idiotas.

Não é como se eu sentisse prazer em terminar com todos os caras que eu saia. A culpa era minha se todos tinham o cérebro do tamanho de uma noz?

Quando abri a porta, ela já não estava mais lá, mas pude ouvir seus passos pesados descendo as escadas. Eu fiz o mesmo caminho preguiçosamente, me apoiando no corrimão com os olhos fechados. Na metade dos degraus, decidi abri-los para descobrir quem era a ilustre visita que Sue tanto adorava. E minha vontade, assim que o fitei, ficou entre correr de volta para o meu quarto ou pular dali mesmo e chutar sua garganta.

Edward Masen era a criatura mais repugnante que eu já tive o desprazer de conhecer. Quando um homem perturba seu almoço para se apresentar, com a frase "quero te comer" praticamente tatuada em sua testa, você não pode esperar por muito mais. Porém, no fundo, e bem mesmo no fundo, até mesmo uma mulher como eu imagina que um dia um cara com aquele cabelo maravilhoso irá surgir do nada e cair aos seus pés. E, porra, com aqueles olhos ele podia ser um maluco estuprador que eu não iria me importar tanto. E... Droga, não! Ele era um idiota, o maior dos idiotas. E eu ainda me recusava a acreditar que gastei quatro meses da minha juventude em algo que foi um relacionamento-quase-sériopara só, mais tarde e bem mais tarde, descobrir o que realmente se passava por sua mente machista e pervertida. Nós já estávamos até mesmo na fase em que eu, sempre muito educada, aceitava ir em todos os jantares para os quais sua tia Esme me convidava. Um doce de mulher, se você é fã do tipo "vivo nos anos 50 e nunca seria nada sem meu marido". E aí, depois de muita dedicação para que nosso namoro conturbado funcionasse (já que não éramos o tipo de casal que concordava em muitas coisas), ele veio com um papinho ridículo que eu traduzi na hora como "cansei de te comer."

O meu maior sacrifício em todos os namoros que já tive com certeza era bancar a namorada perfeita e estúpida. Quer dizer, quem foi que inventou toda essa merda sobre o convívio social obrigatório com os membros da família do seu namorado? Alguém realmente fica animado com isso? Eu mal conseguia ser educada com meus pais, e precisava sorrir o tempo todo e fingir boas maneiras para pessoas que eu provavelmente nunca mais veria na vida. Porra! E como se não bastasse, a ausência dos pais de Edward fazia com que a família toda (e eu digo toda) caísse em cima de mim com o dobro de atenção. E ainda tinha aquele gato, aquele maldito gato! Argh! Mas, é como acontece com todas, você sempre acha que encontrou o cara certo (não sei exatamente pra quê) quando procura defeitos nele e não encontra.

Mas issoé porque ele escondia bem demais. E aí, depois de um tempo, eu descobri que seria melhor namorar até o primo retardado dele. Pelo menos o garoto tinha algum escrúpulo.

Eu pulei o último degrau direto para o chão, sem tirar os olhos do homem parado no meio da sala de estar com um sorriso ridículo nos lábios. Cruzei os braços, prestes a mandá-lo embora, quando ele soltou: - Eu cruzei com seus pais no jardim. Sua mãe é sempre muito agradável. – Disse, irônico.

- O que você está fazendo aqui? – Ralhei.

- Uh, ok, direta! Tenho uma proposta pra você. – Seu sorriso aumentou. – Podemos conversar? A sós?

Imediatamente olhei para a porta da cozinha, onde Sue nada discretamente babava ao observá-lo. Eu ergui as sobrancelhas para a mulher numa pergunta muda, e ela voltou ao trabalho, envergonhada. Assim que fechou a porta, eu voltei a encarar as órbitas verdes de Edward.

- Por que eu deveria ouvir qualquer coisa que você tem a dizer? – Completei, dando um passo em sua direção.

- Porque... – Ele respirou fundo, como se escolhesse as palavras, mas seus olhos mostravam que só estava jogando comigo. – Envolve muito dinheiro e eu sei que você não é de recusar isso.

Num primeiro instante, fiquei ainda mais irritada ao perceber a imagem que ele tinha de mim. Fiquei irritada porque percebi que era verdadeira. No tempo em que estávamos juntos, eu falava constantemente sobre viver com meus pais reclamando de mim, do meu trabalho e de como eu morreria ao passar um dia sozinha em meu próprio apartamento. Edward sabia mais do que ninguém que eu daria tudo para dar o fora dali o quanto antes e que a ideia de arrumar qualquer emprego que não envolvesse ficar sozinha com meus desenhos não me agradava. Eu estava aceitando qualquer oferta rápida para ganhar dinheiro. Meu orgulho em relação ao meu pai era maior do que meus escrúpulos.

Pedi que me seguisse escada acima até meu quarto, o mais longe possível dos ouvidos de Sue. Entramos e eu fechei a porta. Imediatamente, seus olhos pousaram na imensa caixa de vidro no canto, e ele se afastou. Ali vivia Mimosa, minha cobra nada-venenosa-mas-que-a-bicha-do-Edward-morria-de-medo. Ok, todo mundo morria de medo. Exceto eu, e talvez a maluca da minha melhor amiga, Alice. Por trás daquela pose de patricinha irritante, havia uma coisinha realmente corajosa. De qualquer maneira, Mimosa era linda, e era uma ótima companheira. A melhor parte é que não tinha infinitos pelos para entupir meu nariz e minha garganta.

- Estou ouvindo. – Resmunguei para ele, um pouco curiosa.

Ele suspirou, sabendo que estava vencendo, e sentou em minha cama como se morasse ali. – Bom... Deixe-me ver. Quando eu ainda era uma criança, meus pais sofreram aquele acidente, e a coisa toda, você conhece a história. A parte que você não sabe... – Ele fez uma pausa dramática ridícula, erguendo as sobrancelhas para mim. – É o porque eu ainda não recebi o dinheiro que era meu por direito.

Continuei em silêncio a sua frente, realmente interessada.

- Acontece que existe uma cláusula ridícula no testamento do meu pai, falando algo sobre meu tio ter o "poder" – ele mostrou as aspas com os dedos – de decidir quando eu estarei pronto pra receber tudo aquilo. E você conhece Carlisle... – Ele fez uma careta entediada. – Mas tudo bem, já que você gosta de ir direto ao assunto, eu vou colocar as cartas na mesa. – Ele sorriu. – O único jeito de conseguir a grana é impressionando o cara. E não há nada que ele goste mais do que um bom casamento, uma família feliz, e essas coisas. E não há nada que eu odeie mais do que isso. Assim como você, não é?

- O quê... – Fiz uma pausa, pensativa, e então arregalei os olhos. - Eu não acredito que você veio até aqui me pedir em casamento! – Gritei, já entendendo o que ele queria dizer.

- Não é um casamento de verdade, você sabe. – Ele disse com aquele sorriso irônico que eu odiava. – É muito simples; nós nos casamos, você finge tudo direitinho, dividimos a grana, e quem diria? Nos divorciamos alguns meses depois. Realmente uma pena. O que me diz?

Meus olhos o analisaram dos pés a cabeça quando ele ficou em pé, se aproximando. Seu perfume me deixou tonta. – Vamos, Bella. Você precisa da grana, não precisa? E eu estou te oferecendo uma oportunidade de ouro aqui. Você é a garota perfeita pro papel!E não precisa gostar de mim. Eu prometo que serei um marido bonzinho.

Ele estendeu a mão, esperando que eu a apertasse. Recuei, erguendo o queixo. – Eu quero comunhão de bens. E isso vai acabar assim que conseguirmos o dinheiro, nem um dia a mais. E se vai ser um casamento de mentira, vai ser realmente de mentira. – Eu disse, esperando que ele entendesse do que eu falava.

- Prometo que não vou fazer nada sem que você implore. – Ele rebateu, se divertindo até demais.

Sua mão continuava estendida para mim, e apesar de seu rosto demonstrar que estava prestes a rir da minha cara, ele parecia esperançoso. Eu não tive tempo o suficiente de analisar todos os prós e contras na minha cabeça, mas aquela com certeza seria a maneira mais fácil de conseguir o que queria. E, para melhorar ainda mais, Renée ficaria encantada ao saber que sua filhinha estava finalmente desencalhando. Apesar da convivência com aquele homem ser o inferno para mim, acho que poderíamos lidar com isso para que ambos saíssem ganhando.

- E... E não vai ser por causa de um tratinho que vamos ser melhores amigos! Vamos enganar meus pais e seus tios até isso acabar, e então eu não pretendo mais olhar pra sua cara. Você me ouviu? – Completei.

Ele não respondeu nada, mas seu sorriso aumentou.

"Isso é por você, garota." Lembrei a mim mesma. "Se quer continuar pintando, se quer fazer o que bem entende da sua vida, vai ter que tomar algumas medidas drásticas aqui."

Eu fechei os olhos rapidamente, grunhindo ao apertar sua mão. Ele riu alto, e sua felicidade me irritou. Quando dei por mim estava erguida do chão, presa em um abraço. Eu teria vomitado se não fosse tão confortável.


A fic foi tão bem recebida, gente, nós ficamos muito felizes! Eu sei que esse não é um Edward que se ama logo de cara, e muita gente tava apostando que a Bella daria um jeito nele, mas bem... Ela também não é flor que se cheire, né? Vocês estavam ansiosas pra ver como ela seria e espero que eu tenha atingido as expectativas. É um pouco difícil criar personagens que fogem do padrão assim, porque todo esse egoísmo de ambos tem o perigo de fugir da comédia que a gente quer e transformá-los em vilões, entendem? Mas enfim, tudo o que vocês precisam saber sobre os dois está nos próximos capítulos, agora sim a história vai começar de verdade.

E a notícia incrível de hoje é que nós decidimos que SIM, vai ter capítulo semanal! (quem não lê minhas notas finais depois vai vir com pergunta cretina, juro que não vou responder) Afinal, como eu disse os capítulos estão bem adiantados, não tem porque segurar eles aqui comigo, né? Mas vamos colaborar, gente, boa parte do meu metabolismo funciona com reviews!

E como eu sou fofa e estou emocionada com o pessoal tão animado, aqui está um trechinho do próximo capítulo:

" - Eu sei que parece precipitado, mas eu pensei muito na conversa que tivemos, tio. Eu amo Bella, e quero recomeçar minha vida. Com ela. – Expliquei.

Todas as cabeças se viraram para a noiva. – Hm... Eu amo Edward. – Ela sorriu.

Houve uma pausa, uma realmente longa e constrangedora pausa, até que Esme resolveu se pronunciar. – Pois eu acho ótimo. Vocês formam um ótimo casal e fico feliz que estejam retomando o que um dia erraram ao acabar. Parabéns, queridos!

- Eu acho mesmo precipitado. – Charlie murmurou, quase para si mesmo. Renée, ao seu lado, se mexeu na cadeira, e ele se sobressaltou com uma careta de dor. – Mas... A decisão é sua, Bella, é claro. Se ele a faz feliz, eu estou de acordo."

Até quarta que vem, gente!