Capitulo I

I: O velho amigo

O Mestre Conselheiro subia as escadas de sua torre apressadamente, tinha em suas mãos dúzias de pergaminhos que tentava ler mesmo com dificuldades para segurar-los. Com o rei morto e os príncipes fora ele ficava encarregado pelos deveres do monarca, inclusive por falsificar a assinatura da rainha nos decretos mais urgentes. Estava tão distraído que quase deu de cara com a porta de seus aposentos, parou e mirou suas mãos ocupadas e a maçaneta, levantou o cotovelo desajeitadamente para afastar o tecido da veste e usa-lo para abrir a porta. Andava muito atarefado naqueles dias. Conhecia bem o conteúdo de metade daqueles rolos sem nem ter que abrir. Acusações de bruxaria, é do que todos falavam e já o estava irritando todo aquele pânico por uma situação que já se arrastava por quase onze anos. Já tinha dado tempo de se acalmarem.

A porta rangeu quando a abrira e entrou de ré no quarto escuro, o que era estranho para àquela hora do dia, considerando que tinha deixado a cortina aberta quando saíra. Ficou imediatamente com a guarda alta, tentou focalizar alguma forma mesmo com a pouca luz, mas demorou a ver até estar de cara com a criatura. Os olhos vermelhos reluziam como rubis a dois metros do chão e davam a cor rubra ao vapor mal cheiroso que exalada das ventas. O animal deu um rosnado esganiçado e Shion largou todos os pergaminhos no chão indo com a mão ao cabo da espada que não usava há anos, não estava lá. O suor escorreu rápido por sua testa, estava perdido, só podia estar perdido. Ouviu outro rosnado e um bocejo alto vindo de sua cama. A criatura o ignorou, foi até o leito onde as cobertas se remexiam e deitou no chão pondo a cabeça sobre a cama como um cãozinho adestrado. O homem de cabelos amarelos deu passos cautelosos até a janela e abriu a cortina de uma vez enchendo o quarto de luz.

Menos de um segundo depois a segunda pessoa no quarto levanta-se, sentando aturdido, tentando reconhecer o lugar onde estava e coçando os olhos sonolentos. Shion estreitou os olhos encarando o homem barbudo de cabelos por cortar, usava roupas surradas e havia deitado de botas sujando os lençóis brancos com grama e terra. Analisou a expressão sonolenta por um bom minuto não desatento ao dragão choramingando a seu lado, e enfim pareceu reconhecê-lo.

- Dohko? – arriscou dando um passo na direção do outro.

O homem alisou a barba, pareceu provar um gosto estranho na boca para então adquirir uma expressão completamente desperta e encarar o conselheiro real.

- Shion! – exclamou satisfeito e pôs os pés no chão dando tapinhas amigáveis na cabeça da criatura a seu lado – Até que enfim chegou! Demorou tanto que acabei tirando um cochilo. – coçou a barriga sob as roupas surradas, despreocupado.

- Você está horrível. – disse recriminando – O que está fazendo aqui? – perguntava calmo – E o que diabo é isso?! – se exaltou quando a fera espreguiçou-se abrindo as asas e subiu na cama deitando-se.

- Primeiro: Obrigado por reparar na minha aparência, muito gentil de sua parte. – disse ficando de pé e estalando os dedos da mão – Vim falar com você, é importante. – e olhou para a besta pronta para dormir confortavelmente – E isso é um dragão, ora. O que foi? Está a tanto tempo enfurnado nesse castelo que esqueceu como é um desses?

- Não, mas o que isso faz aqui? – falou bufando em seguida, Dohko não mudara nada.

- Veio me trazer. Como acha que cheguei aqui em cima? Subindo pelas tranças de uma bela princesa? – ironizou.

Shion levou a mão à face e a esfregou nervoso, tateou uma cadeira próxima a si e a puxou para desabar sobre ela em seguida. Correu os olhos pela tapeçaria e depois pelos pergaminhos espalhados no vasto tapete de pele de tigre, para então voltar a encarar Dohko com o semblante calmo.

- O reino todo está enlouquecendo por causa dessas criaturas e você me aparece aqui depois de todos esses anos parecendo um mendigo montado em um maldito dragão? É isso mesmo que esta acontecendo? – perguntou no mais suave dos tons, engolindo qualquer mísera demonstração de fúria.

- É. – deu de ombros coçando a cabeça e catando um piolho em seguida, encarando o pequeno parasita e lhe dando um peteleco – Acho que é exatamente isso. – sorriu para o amigo.

Shion pigarreou engolindo mais uma vez a raiva que subia até a garganta tentando tomar conta de sua cabeça por inteiro. Como conseguia ser tão despreocupado?

- Mas é importante o que eu vim conversar. É sobre Pandora e aquela caixa maldita.

- Foi aberta, eu já sei. Está dez anos atrasado na notícia e a propósito... Você não deveria estar lá vigiando a caixa quando isso aconteceu?

- Eu estava! Mas depois de tanto tempo estava enferrujado. Mandei uma fera atrás da desgraçada da garota, mas demorou muito a se materializar, era dia ainda, sabe? – disse com descaso.

- A desgraçada da garota é sua majestade a rainha. – Shion falou com a expressão dura.

O moreno coçou a barba com força fazendo cair o que pareciam ser farelos de pão dela, ele tinha uma expressão pensativa e andando um pouco para o lado sentou pesadamente em um baú de madeira nobre, inclinando o corpo para frente e apoiando os cotovelos nos joelhos. Remoeu durante alguns segundos mais e encarou os olhos quase vermelhos do conselheiro.

- Então devo presumir que ela não é mais tão feiosa. – disse num tom sério – Tentei mesmo impedi-la, mas quis poupar a menina e mandei a besta agarrá-la pela veste.

- Que tipo de besta?

- Um lobo. – disse suspirando – Conjurei um lobo.

- Não gosto quando mexe com essas coisas. – disse recostando-se melhor a cadeira e lançando um olhar rápido ao dragão que dormia soltando vapor pelas ventas – Ainda mais nessa situação, entende?

- Foi uma vez na vida que usei magia, Shion. De qualquer forma não é como se pudesse fazer sempre. – deu de ombros.

Dohko se coçou uma quarta vez com mais afinco que as demais e Shion inconscientemente fez o mesmo, irritando-se ao dar-se conta disso.

- Pelos céus, homem! Vá tomar um banho e fazer essa barba sebosa! Já está me dando nos nervos! – disse controlando-se para não coçar-se também. O moreno riu, mas acabou assentindo, precisava mesmo de um banho – E dá um jeito nesse dragão! – completou autoritário.

- Está bem, já vou! Rozan vai ficar aí um instante, depois eu venho buscar.

- Vai me deixar sozinho com a besta? – se exaltou.

- Relaxa. Ele não morde.

E o cavaleiro saia porta a fora descendo as escadas com desleixo, se bem lembrava seu quarto ficava logo abaixo, no meio da torre mais alta, onde segundo a lenda dormia o dragão furioso guardando a donzela que dormia no quarto mais alto da torre mais alta. Ele riu. Estava certo que meio reino achava que aquela era a torre da rainha, melhor seria se fosse. Fez uma careta ao pensar em Shion como a donzela indefesa.

II: A maldição da rainha

Saori vestia um grosso roupão de camurça vermelha, os cabelos castanhos claros molhados e compridos se estendiam grudados a suas costas, na saída do luxuoso salão de banho dos príncipes uma fileira de damas de companhia a aguardava. Mesmo sendo rainha não era sempre que podia banhar-se ali, aquele recinto era exclusivo do principado. Toda riqueza e silêncio daquela sala em particular lhe tranquilizava, ela até se esquecia dos dias passando e seu aniversário ficando mais próximo. Mas estava bem, dizia-se mentalmente arrumando a gola do roupão enquanto atravessava o corredor iluminado pelas vastas janelas de vidrais, não era tonta a ponto de chegar perto de um tear.

Suas serviçais não lhe poupavam elogios, penteando seus cabelos enquanto andava, os fios lisos deslizavam sem esforço pela escova e para o deleite de suas companhias Saori cantarolava, muito contente com os planos que tinha. O casamento de Saga já estava arranjado e em breve ela passaria a coroa tão pesada adiante e então poderia realizar seu sonho. O segundo na linhagem, príncipe Aioros, era másculo, moreno e bonito, exatamente como imaginara seu príncipe encantado, e sendo o mais velho o rei... Riu de leve com o pensamento, finalmente poderia ser princesa, exatamente como sonhou! Estava nesse estado de graça quando adentrou o seu quarto com a mente longe e serelepe.

Mas quanto mais alto se está mais dura é a queda.

Estancou no lugar, os olhos arregalavam e ela suava frio, as mãos tremiam diante da visão que tinha. Próximo a sua cama, ocupando um espaço que outrora estava vazio como se sempre houvesse estado lá, repousava em mogno e bronze um tear com fios de lã negra. Recuou rapidamente ao fitar a agulha da roca e com aquela expressão de pavor soltou um grito agudo que ecoou por toda a torre.

- Tirem isso daqui! – ordenou esganiçada, recuando até a parede oposta ao objeto e se encolhendo nela assustada – Tire daqui! Tire daqui! – ordenava e afobadas as criadas empurraram com dificuldade o tear para fora – Quem fez isso?! Quem foi?! – indagou cheia de raiva.

- Senhora... – uma das servas tentou acalmar a rainha, mas foi um erro.

- Você! – apontou a outra ganhando tamanho enquanto avançava depois de o objeto de seu horror tinha ido – Foi você!

- Não, senhora! Eu... – tentava se defender, mas não teve tempo.

- Cortem-lhe a cabeça! Cortem agora! – ordenou cheia de razão na voz e repetiu inúmeras vezes a ordem sem escutar o que a pobre mulher lhe dizia.

Só calou-se quando um par de guardas a levou arrastava dali direto para a guilhotina. Respirou fundo e voltou a sua expressão leve, com um sorriso nos lábios rosados.

- Melhor assim. – disse com candura – Você, menina, me faça uma trança.

A jovem criada assustada com a explosão de outrora não se moveu do lugar. A rainha sentou-se na penteadeira e catou o espelho que havia ganhado de Pandora, admirando-se e sentindo o sangue esfriar por completo. A menina ainda com as mãos trêmulas foi de encontro a ela encorajada pelas outras mulheres do cortejo.

- Bem melhor assim. – confirmava, sorrindo para seu próprio reflexo.

III: A chegada dos nobres

Nos portões da fortaleza a ponte descia pesadamente chegando ao chão com um estrondo. Alguém gritou na torre de vigia e cornetas começaram a tocar a marcha real, todos os habitantes da grande cidade murada deixaram suas casas e lojas para alcançar a rua principal, se amontoando na cerca de madeixa para ver os nobres passando com suas armaduras douradas. As ovações se transformaram em burburinhos quando o povo avistou os três homens cujos peitos traziam o estandarte da cruz quadrada atrás de um sacerdote bem vestido demais para ser de patente baixa, ele mantinha os olhos fechados. Aldebaran olhou em volta percebendo o desconforto geral um pouco incomodado, mirou seus companheiros, Milo acenava parecendo não ter percebido o silêncio após a entrada deles, muito confortável com o público. Shaka parecia muito alheio a tudo e movia os lábios, provavelmente perdido em orações. E Camus, bem... O francês contraiu as sobrancelhas muito de leve quando as cornetas voltaram a soar, agora mais próximas, tinha a postura altiva sobre seu cavalo, mas mantinha uma mão sobre o estomago o tempo todo. Pobre ruivo, devia estar se remoendo em ressaca e o cavalo que montava não era dos mais suaves.

Traspassaram todo o comércio, enfim chegaram aos portões da construção principal e toda a multidão desordenada da rua foi substituída por um cortejo de serviçais enfileirados ao lado esquerdo do caminho que cortava um vasto jardim verde em dois. Os príncipes desciam de seus cavalos, entregavam as rédeas aos empregados responsáveis pelo estábulo que rapidamente saíram das vistas levando os animais. Na porta do castelo a rainha esperava paciente ao lado de um Mestre Conselheiro aliviado por vê-los a salvo.

- Sua majestade. – cumprimentaram a madrasta com uma reverência rápida.

- Estou feliz que estejam bem.

- Sim, é bom vê-la, Saori. – Aioros disse enquanto os outros dois estavam mais preocupados com o semblante pesado de Shion.

- Quantas? – Aiolia perguntou já cansado e sem paciência para formalidades.

- Por volta de trinta prováveis e outras tantas sem fundamento algum. – dizia cruzando os braços e vendo a careta de desgosto do mais novo – Por quanto tempo vão ficar?

- Não mais que algumas noites. – Saga respondia adentrando o castelo e fazendo um movimento discreto de cabeça em direção aos guerreiros da igreja e encarou os olhos avermelhados por um longo momento – Acomode-os, por favor.

- Sim, Alteza.

IV: A que tem todos os dons

O Mestre Conselheiro adentrava a sala do trono apressado com os príncipes às suas costas, acompanhados, claro, dos cavaleiros reais e dos templários depois de muita insistência - e teimosia – do sacerdote loiro. Mal entraram e Shion estancou no lugar fazendo todos pararem de súbito. Em frente a um escudo de prata e esmeralda pendurado em uma das paredes, entre frondosas tapeçarias, empunhando uma espada de ouro, cristal e pedra negra estava Dohko com toda a calma do mundo, sem a parte de cima de suas vestes, como se fosse dono de todo castelo. Nas costas o cavaleiro errante tinha a figura se um tigre feroz esculpida dolorosamente em cicatrizes, resultado de uma técnica que lhe tiravam tiras de pele com uma faca, para que depois tivesse aquela aparência.

- O que está fazendo? – Shion perguntou suspirando já pronto para levar a palma a face.

- A barba, como pediu. – o moreno respondeu simplesmente sem encarar a comitiva perplexa que adentrava o salão – Já cortei o cabelo e estou quase terminando aqui. – Disse arrastando a lâmina com cuidado pela tez do rosto.

- Está fazendo a barba no salão real com a lendária Satã Imperial, lembrança maior do Rei Aspros, herança do príncipe Saga. – comunicou em tom de derrota, tentando elucidar àquele idiota o que estava errado em sua atitude.

- É, eu sei não devia a estar usando. – parou o que fazia e encarou a espada balançando-a na mão frouxa – Preferiria a Excalibur, o fio é melhor e é mais leve, mas não a encontrei em lugar algum, acho que foram roubados. – Concluiu sorrindo com uma ingenuidade que Shion preferia acreditar que era fingida.

- Dohko... – gemeu entre dentes, temendo perder a compostura.

- Terminei. – arrastou a lâmina uma última vez pelo rosto arrancando uma nota metálica dela, passou a mão pela face verificando seu trabalho e depois limpou a espada com um lenço que estava preso ao cinto, passando-o no rosto em seguida – É, até que serviu bem. – sorriu achando-se bonito no reflexo.

- Shion, quem é este homem? – Saga perguntou um tanto desinteressado de fato, mas atento a sua ousadia.

- Oh, perdoe alteza, ele...

- Eu sou Dohko, outrora conhecido como O Justo, sua alteza. – fez uma reverência leve – É um prazer encontra-los depois de tanto tempo. – lembrava dos príncipes mais velhos quando criança, brincando de serem cavaleiros, aparentemente não haviam perdido essa mania.

- Não brinque conosco, senhor. – Aioros dava um passo à frente e falava com calma – Dohko, O Justo, serviu nosso pai há décadas, seria impossível que estivesse tão jovem.

- Oh. – o moreno exclamou e riu de leve passando a mão pelos cabelos – Assim como seu Mestre Conselheiro, no entanto ele parece ter a mesma idade que vocês, não?

Houve um silêncio pesado na sala, sim, os príncipes estavam cientes que Shion não envelhecera um dia sequer desde suas infâncias, mas evitavam tocar no assunto, ou chegariam logo à conclusão óbvia.

- Bruxaria! – exclamou num tom calmo – Se mantêm feiticeiros dentro de seu próprio castelo como esperam que lhes confiemos a missão de limpar essas terras de tanto sacrilégio? Eu, Shaka, o homem mais próximo de Deus, não ficarei aqui nesse antro de heresia. – disse arrogante, mas mantendo sua voz baixa e contínua.

O sacerdote já se virava para sair, mas deu de cara com uma montanha de músculos chamada Aldebaran. O maior já estava cansado de toda aquela intolerância por parte do superior, nunca o havia confrontado diretamente, mas a chance de condenar apenas os que mereciam em vez de perseguir mocinhas injustiçadas pela sociedade lhe soava bem demais para deixar passar.

- Vamos ao menos ouvi-los, reverendíssimo. – disse tentando apartar a situação – Deve haver uma explicação lógica para a juventude desses dois. – olhou esperançoso para ambos.

- Não, não há, é bruxaria mesmo. – Dohko respondeu dando de ombros e indo por a espada no lugar onde a encontrara – Não nossa, claro.

- É mais uma maldição, na verdade. – Shion explicava e fez-se silêncio de novo.

Por algum tempo a pequena armada apenas trocou olhares pouco significativos e como se tivessem entrado em comum acordo, todos começaram a falar ao mesmo tempo. Os príncipes estavam indignados por não terem sido informados disso antes e Mu, o único ali ciente dos fatos, tentava acalmá-los, os cavaleiros reais discutiram sobre como parecia um feitiço bom demais para ser chamado maldição, Afrodite queria saber onde conseguir algo assim para ser sempre belo e os templários tentavam dissuadir seu sacerdote a ficar, a exceção de Camus que se escorara em um canto qualquer pronto para curtir sua ressaca em paz. Dohko sentou-se pesadamente, largando-se no trono com um sorriso estúpido nos lábios. Sentia falta daquela bagunça, outrora aquele mesmo salão ficava sempre assim, cheio de vozes a discutir sem chegar a lugar nenhum. Mas eram outras vozes e outro tempo. O sorriso morreu e ele trocou um olhar melancólico com Shion por um breve, o conselheiro estava em silêncio, compartilhava da mesma nostalgia.

Subitamente o antigo cavaleiro levantou-se do trono e pôs-se em posição de sentido aos poucos os tons das discussões foram ficando cada vez mais baixos até silenciar diante da nova presença que cruzava o salão, pisando macio no tapete verde e dourado. Saori ouvira parte da conversa enquanto decidia se lhe cabia ou não um lugar nessa reunião, decidiu que sim quando viu que sozinhos eles continuariam ladrando como cães. Andou em silêncio, altiva, segura e ocupou seu lugar ao trono sob o olhar perplexo dos conselheiros e príncipes que nunca antes a haviam visto tomar uma atitude assim.

- Melhor assim. – disse com um sorriso – Agora, se Sir Dohko fizer a gentileza de explicar-se.

- Sim, majestade. - disse afastando-se um pouco mais dos tronos e reverenciando a rainha e respirando fundo antes de começar – Décadas atrás, antes mesmo do reinado de vosso pai, nos tempos do rei Aspros, essa terra era uma terra de magia. Bruxos, fadas e duendes viviam em harmonia com humanos e tudo estava em paz. Mas então nasceu uma criança, uma princesa tão linda e graciosa, tão perfeita que seu nascimento por si só gerou uma sombra, uma segunda criança não esperada saiu do ventre de sua mãe.

- Todos nós conhecemos essa lenda, Dohko. – Saga se apressou em cortar – Por esse motivo nesse reino consideramos gêmeos amaldiçoados – disse com uma nota de mágoa na voz – Você não tem que repeti-la vá direto ao ponto.

- Calma, meu príncipe. – disse Saori, mesmo sem entender a atitude de Saga, que costumava ser um poço de calma – Prossiga, cavaleiro.

- A lenda não dá nome às crianças, mas eu darei. A primeira chamaram de Pandora, a que tem todos os dons – Saori tremeu ao ouvir o nome e lembrou da repreenda saída da boca de uma fada em uma gruta escura, sentiu o fantasma da dor no corpo - e a segunda, esquecida, criada quase que completamente pelos servos chamaram de Sasha. As meninas cresceram em harmonia, Sasha se tornando a cada dia mais prestativa e bondosa e Pandora mais bela e orgulhosa. Apesar de ter todos os dons de uma princesa mais velha, ela sentia uma inveja infundada da mais nova e o ódio cresceu como um espinho em seu coração. Uma noite quando já era adolescente ela viu sua irmã sendo cortejada por um belo rapaz, um camponês qualquer, e encheu-se de ciúmes, mas não queria sentir-se assim. Não fazia sentido que tivesse inveja da irmã.

- Não mesmo. – Máscara da Morte interrompeu – E quando eu digo que mulheres são todas loucas ou burras vocês me chama de misógino. – disse indignado aos companheiros e Dohko pigarreou, trazendo a atenção para si novamente sem dar tempo de a rainha retrucar – e com certeza ela iria.

- Ela correu naquela mesma noite até a floresta aturdida por seus sentimentos conflitantes, quanto mais pensava mais seu coração doía e o espinho ficava maior, a ponta começava a traspassar a pele branca.

- Sim... E ela arranca o espinho e morre pela irmã deixando apenas a sombra para trás, já conhecemos todo esse conto. – disse Aiolia cruzando os braços e mudando o peso do corpo para apenas uma das pernas.

- Deixe-o terminar. – Shion pediu pacientemente, já sabia aquela história de cor, mas eles deveriam conhecer a versão que não foi para os cânticos.

- Pandora puxou a ponta do espinho que tinha já quase o tamanho de uma estaca, arrancando da pele e sangrando no chão do bosque, dali surgiram três feras aladas: A Garuda, o Griffon e o Wyvern que beberam de seu sangue e lhe perguntaram por que sofria. Ela lhes falou de sua dor e que estava livre de seu ódio e agora amava a irmã, mas não queria morrer ainda. Os três disseram que poderiam salvar sua vida, mas em troca ela teria que espetar aquele mesmo espinho em um coração puro antes que o sangue de seu corpo terminasse de se esvair. Ela recusou dizendo que estava farta de invejar a irmã sem motivos, mas os três lhe garantiram que isso não iria mais acontecer.

Saori suava frio em sua cadeira, as lembranças daquele dia lhe vinham em quadros rápidos a mente, e de alguma forma pode sentir de novo o corpo queimar, mal percebia que ofegava.

- Você está bem, minha rainha? – Shura perguntou precipitando alguns passos na direção dela, mas com um gesto ela o acalmou.

- Apenas prossiga. – disse a Dohko com a voz vacilante e o moreno podia entender bem por quê.

- Pandora voltou correndo ao castelo com o vestido embebido de seu sangue, mas não sentia dor ou fraqueza, levava o grande espinho em uma das mãos e apressava-se sem saber onde achar um coração puro. Quando chegou aos portões viu o pobre camponês de outrora retornando para casa a pé e não pensou duas vezes, não se importou de magoar a irmã um pouco se isso significasse não mais invejá-la. Seguiu o camponês, ele era belo, tinha longos cabelos loiros e olhos azuis como o céu da manhã. A certa altura o rapaz percebeu que era seguido e perguntou quem estava ali procurando a presença em um bosque escuro. Pandora mostrou-se e escondendo o espinho atrás do corpo caminhou até ele fingindo dor. O jovem correu para acudi-la e quando se aproximou ela o beijou, não resistiu à oportunidade de demonstrar o quanto era superior a Sasha, mas logo sentiu uma pontada forte no peito, afastando-se do rapaz que estava confuso com tudo aquilo e sem mais receios cravou o espinho no coração dele. – o tom de Dohko ficava mais sóbrio a cada passagem da história e os outros podiam sentir o desfecho avizinhando – No mesmo momento o sangramento cessou e os cabelos do garoto ficaram negros, as três feras aparecerem, a Garuda e o Griffon capturaram o rapaz e voaram com ele para longe e o Wyvern tomou forma humana e fitou a princesa com desdém dizendo:"Não mais sentirá inveja de sua irmã", sorriu maligno, "não sem motivo." Em seguida os dons de Pandora a deixaram um a um a transformando em uma moça feia e sem jeito e foram de encontro a irmã que ficou conhecida mais tarde como a flor mais rara e bela de todas. – Dohko calou-se por um momento, o olhar se perdendo nas espadas e brasões que estampavam as paredes.

- E daí? – disse Shaka imponente – Não ouvi explicação para a bruxaria, é só um conto de fadas.

Shion olhou para o amigo e o viu um tanto incerto sobre continuar, respirou fundo e decidiu que ele mesmo o faria.

- A pontada que Pandora sentiu no peito era um segundo espinho que crescia e com ele negociou poderes com o Wyvern que a transformou em uma bruxa poderosa e a levou consigo de encontro aos outros três. O rapaz levado pela Garuda e Griffon é conhecido hoje como Alone, o que se proclamava Imperador do Mundo Inferior.

- Só pode estar brincando. – o sacerdote continuava – Já estou farto de contos de fada.

- Não são contos – Shion repreendia – Isso é a história de nosso reino! Alone formou um exército com todo mago ou bruxa que conseguiu encontrar, o exército dos cento e oito espectros, e iniciou uma guerra que durou exatos dez anos e matou quase todos os envolvidos.

- Quase. – Dohko repetiu a palavra encarando o conselheiro de forma pesada.

- Com a ajuda de Sasha conseguimos lacrar parte dos poderes de Pandora em um espelho, a princesa se sacrificou por isso. O Mago Asmita nos deu meios de vencer os cento e oito espectros, prendendo o poder de cada um em uma semente de Surplice, que depois foram usadas para confeccionar um rosário. – olhou para o objeto que enfeitava a parede acima do trono do rei - Conseguimos banir toda magia e criatura do reino lacrando-a em uma caixa, Alone por ser originalmente humano foi morto pelo rei Aspros e príncipe Deuteros, porém antes de dar um fim definitivo à guerra Pandora surgiu das sombras e tomou a caixa para si fugindo para longe, mas antes... – Shion hesitou – Antes de ir lançou uma maldição sobre únicos dois sobreviventes.

- "Que vocês vivam suficiente para testemunhar meu triunfo". – Dohko repetiu as palavras exatas até mesmo imitando o tom de voz fino e esganiçado – E aqui estamos jovens e belos, não perdemos um dia sequer.

- Dez anos atrás, - o conselheiro ignorou o moreno e prosseguiu – a caixa foi aberta por mãos humanas e o espelho levado à luz do dia. – olhou duramente para a rainha que tinha uma clara expressão de culpa – Agora estamos nessa baderna infernal. – concluiu.

- Ainda acho que devíamos queimar os dois. – Shaka murmura no canto da sala, mesmo tendo compreendido a situação – Mas então o que sugerem que façamos?

- A bruxa Pandora é a causa maior dessa situação, ela ainda tem o segundo espinho e provavelmente está em busca de um coração puro para espetá-lo. Temos que detê-la ou veremos uma verdadeira guerra, senhores. – o conselheiro encerrou.

- Temos alguma ideia de como encontrá-la, mestre? – Mu se pronunciou um tanto incerto e viu o mais velho balançar a cabeça desolado.

- Então o melhor que fazemos é continuar a procura de bruxas e limpar o reino delas como podemos. Em algum momento chegaremos a Pandora. – Saga falou olhando para os irmãos que prontamente concordaram.

- Dohko, você tinha dito que tinha algo importante sobre Pandora. – Shion lembrou-se de súbito e o cavaleiro confirmou com um gesto de cabeça.

- Cruzei com ela semana passada, tivemos uma breve luta e ela fugiu, mas antes disso consegui queimar-lhe parte do corpo com carvão em brasa. Ela quase ficou inteira em chamas, se vamos caçá-la não há hora melhor que agora. – ninguém discordou – Vim justamente buscar seu apoio, meu amigo. - dirigia-se ao Mestre Conselheiro.

- E a terá, meu caro. – respondeu a ele e virou-se aos príncipes – Dessa vez também irei.

Tão logo ficou resolvido, os treze homens foram para uma sala vizinha à sala do trono se dispondo em uma mesa redonda e analisando os pergaminhos com casos que Shion considerava mais verossímeis. No resto do dia a armada traçou a rota de sua próxima jornada e mais apressados do que nunca, se preparavam para partir.

V: O segredo do herdeiro e seu dever

À noite, cansado de tantos problemas, Saga dirigiu-se a sua torre particular sentindo a cabeça doer. Que reino teria que assumir, não que reclamasse do poder, estava certo que a coroa maior lhe cairia muito bem. Passou os dedos pela tiara dourada em sua testa e sorriu de forma cínica, havia ao menos uma coisa que estava certo de mudar. Abriu a porta de seu quarto já farto de tantas escadas e espiou lá dentro antes de entrar. Fechou a porta ficando um pouco mais entusiasmado.

- Onde está? – perguntou ao quarto vazio e gelou quando não ouviu resposta – Kanon, seu idiota, onde se meteu?! – sussurrou entre dentes, e foi até uma tapeçaria na parede, afastando-a e fazendo força para empurrar a rocha abrindo uma passagem – Kanon! – chamou mais alto.

Estava preocupado, deveria ter vindo verificar o irmão assim que chegara, mas toda aquela novidade de templários havia requisitado sua atenção. Poucos segundos depois de chamá-lo o gêmeo do herdeiro ao trono surgiu na penumbra da passagem secreta, acenando ao seu irmão, ofegante.

- O caminho por dentro das paredes é mais longo. – disse pegando fôlego quando finalmente terminara os degraus.

Mal chegara a entrada da passagem e abraçara Saga dando um soco forte nas costas, que foi prontamente revidado. Os gêmeos permaneceram unidos por mais alguns segundos e então se afastaram, Kanon indo jogar-se na cama para descansar as pernas.

- Não faça mais isso, achei que tinham pego você aqui. – repreendeu.

- E eu achei que você tinha morrido. Não deveria ter voltado semana passada?

- Sim, mas você sabe bem como é. – disse revirando os olhos.

O mais novo inspirou profundamente e sentou na cama encarando o outro que se aproximava com o andar folgado. Saga segurou sua tiara com as duas mãos e a ergueu da cabeça, alisando seus cabelos em seguida, ficou de frente ao irmão que lhe dirigia aquele constante sorriso cínico e lhe colocou a peça de metal na fronte. Olhou-o por um longo minuto e jogou-se de bruços na cama, sentindo-se deveras cansado.

- Boa sorte com aquele sacerdote, não queria estar no seu lugar. – riu irônico e fechou os olhos já pronto para cochilar.

- Pois é, você pega as partes boas e deixa as difíceis para mim. – Kanon gracejou, havia visto toda a reunião escondido em uma passagem, olhando por trás de uma tela de quadro fina e ouvindo cada disparate do loiro contra os métodos daquele reino.

- Depois te conto sobre a viagem, agora estou com sono. – falou acomodando a cabeça sobre os braços.

Saga mal fechara a boca e ouvira batidas na porta. Os gêmeos trocaram um olhar longo e um pouco preocupado sobre se haviam escutado sua conversa. As paredes e portas daquele castelo não eram nem de longe finas, mas com tantos servos abelhudos por aí nunca se sabe se não há uma orelha grudada a cada porta.

- Meu príncipe, atenda, tenho algo importante a lhe falar.

Reconheceram a voz da rainha, mas o mais velho não fez menção de se mexer, Kanon lhe deu uma tapa na perna e indicou a porta com a mão para que ele fosse atender. Saga ergueu uma mão da cama a muito custo e tocou a própria testa com indicador de dedo médio duas vezes, chamando atenção à ausência de tiara, depois disso puxou o lençol e virou-se na cama para o lado oposto ao que o irmão estava, pronto para tirar uma boa soneca. Kanon riu da preguiça repentina de seu gêmeo e levantou indo apressado até a porta, abrindo apenas uma fresta para encarar a mulher ali parada com um sorriso bondoso. Mas aquele sorriso, todos os príncipes já sabiam, não era coisa boa. Não mesmo.

- Preciso falar-lhe, saiu tão rápido da reunião que não o vi passar.

- Não pode esperar até amanhã? – disse com a voz sonolenta, fingindo o cansaço que Saga de fato sentia depois de um dia como aquele.

- Amanhã você não terá tempo para mim e é importante. – Kanon a olhou intrigado por um momento – Posso entrar? – perguntou e o rapaz segurou a porta com mais firmeza, mantendo o irmão deitado na cama fora do campo de visão dela.

- Não seria apropriado. – Respondeu duramente.

- Ora, mas sou sua madrasta. – disse com um riso melódico.

- Mas não é minha mãe. Temos quase a mesma idade, Saori, e não fica bem a uma dama entrar no quarto de um homem solteiro. – repreendeu-a mesmo sabendo que o interesse da rainha estava na torre ao lado, onde Aioros devia estar dormindo alheio a tudo aquilo.

- Certo. – revirou os olhos – Acompanha-me até meus aposentos, então?

O rapaz assentiu e sem abrir a porta um milímetro sequer saiu do quarto e acompanhou a jovem viúva até a torre norte, a segunda mais alta do castelo.

- Então, o que queria conversar comigo, minha madrasta? – dizia já com uma postura defensiva.

- Estive pensando durante essa sua última viagem, meu enteado, vocês se arriscam demais nessas jornadas.

- Pelo bem de nosso povo. – elucidou erguendo uma sobrancelha, aquilo já havia sido discutido milhões de vezes, por que retomar o assunto agora, e àquela hora da noite?

- Sim, mas entenda, Saga, a meu ver você está também negligenciando seu dever para com o povo, como herdeiro do trono, claro. – Kanon revira os olhos, aquela conversa em especial não cabia a ele – Digo, já passou dos vinte um anos, já é hora de casar e assumir o trono. Veja bem, sou uma mulher sozinha e não entendo muito sobre monarquia, lembre-se de que não tenho berço de ouro... – dizia gesticulando.

- Pelo que sabemos, não tem berço algum. – Kanon juntou a mãos nas costas e com a postura militar sorriu debochado para a garota – De onde mesmo minha madrasta disse que era?

- Mas o que isso importa agora? – disse levando uma mão ao peito e piscando de forma inocente, sempre ficava na defensiva quanto ao seu passado e depois de toda aquela conversa sobre Pandora era melhor mesmo que não abrisse brechas – O que estou tentando dizer, meu enteado querido, - disse com demasiada candura na voz – É que arrumei uma noiva para você! – falou excitada.

- Noiva? – perguntou surpreso.

- Noiva! – dizia exaltada, juntando as palmas das mãos com um ar risonho – Ahh, um casamento com certeza animaria o reino! Precisamos de boas novas por aqui! Você vai adorá-la! Não a conheço, mas o rei Lion me garantiu que é um amor de menina!

Kanon olhava para a mulher espantado e indignado enquanto Saori continuava a falar sobre o quão maravilhoso seria um casamento com arranjos de magnólia ou qualquer devaneio do tipo. O príncipe negava com a cabeça, tentando processar a ideia, mas não adiantava, continuava sendo absurda. A rainha já rodopiava imaginando a dança e música da festa, se vendo claramente acompanhada de Aioros e sem uma coroa pesada para atrapalhar os dois, mas foi arrancada de seus delírios por um agarre de mãos fortes nos ombros e viu o semblante nada satisfeito do príncipe.

- Está louca, mulher?! – ele a sacudia para ver se a cabeça dela estava funcionando direito – Ele não vai casar com uma desconhecida nem em um milhão de anos! – falou com rispidez.

- Ele? – A rainha piscou algumas vezes confusa e já tonta por tanto sacolejo.

- Eu! – corrigiu-se querendo dar um soco na própria cara – Eu disse eu! Você está bêbada por acaso?! – tentava convencê-la, bufando e soltando-a em seguida, passando a mão pelos cabelos nervosamente, quase derrubando a tiara no processo.

- Ah, mas tem que casar. – ela dizia com a voz melosa – Produzir alguns herdeiros, sabe? Além do mais já está tudo arranjado, não pode voltar atrás em sua palavra. – ela lhe dizia com ar professoral, balançando o indicador enquanto falava.

- Mas eu não dei palavra nenhuma. – Kanon falou com seriedade, emburrando e cruzando os braços.

- Mas eu disse que deu. – ela riu com um ar travesso – E ai de quem disser que a rainha mentiu. – piscou um olho para ele – Agora boa noite! – virava-se para partir – Amanhã mudaremos os planos da jornada para que você passe no castelo para conhecer sua noiva. Terá um baile, acredita?! - exclamou animada - Tenha bons sonhos!

E seguiu saltitando pelo corredor deixando um Kanon mal humorado e boquiaberto para trás. Sentiu-se culpado por um segundo por não ter tido força o suficiente em seu discurso para dissuadir a rainha, mas duvidava que se fosse Saga ali seria diferente. Deu de ombros e voltou ao seu quarto a passos largos, esperaria a manhã chegar para contar-lhe a novidade, queria só ver sua cara.

VI: Favor e maldição

Saori entrava ainda risonha em seu quarto, mas o sorriso morreu ao ver o tear de mogno de volta a onde estava pela manhã, no exato mesmo lugar, vinte minutos atrás quando deixara o quarto tudo estava normal, como havia voltado tão rápido? O grito de pavor se formava em sua garganta e estava prestes a liberá-lo quando uma mão de pele áspera, queimada, tapou-lhe a boca e o nariz arrebitado e outra pressionava sua nuca, agarrando-lhe os cabelos com força. Os olhos azuis se encheram de lágrimas quando foi forçada a se aproximar da roca e fitá-la de perto. Fazia mais e mais esforço para gritar, mas então ouviu aquela voz e a sua se perdeu o no caminho da laringe a boca.

- Quietinha, princesa, só quero conversar.

Até mesmo com aquela expressão de mais absoluto pavor Saori era bela, ela tremia de medo, a mão sobre a boca foi sendo liberada dedo a dedo e ainda esperou alguns segundos antes de se afastar por completo do rosto dela, garantindo que não tentaria gritar. Vendo-se livre do agarre a rainha virou-se de súbito, mas não pode ver nada além de fumaça negra se desfazendo no ar. Saori olhou pros lados assustada, a respiração entrecortada, as lágrimas descendo grossas pelos olhos.

- Ora, mas não fique assim, vim só fazer uma visita. – a bruxa se materializava sentava confortavelmente no vão da janela, os cabelos lhe cobrindo a face, mas era possível ver queimaduras em seus braços e colo – Até trouxe um presentinho. – riu de leve.

A mulher gelou ao fitar o tear de novo e voltou-se a bruxa secando as lágrimas com violência usando a manga do vestido. Encarou Pandora com a postura altiva, mas por dentro se remoia de medo. A bruxa lhe olhou com a face risonha, ainda que seus olhos não estivessem visíveis e falou com a voz manhosa.

- Melhor assim... – virou fumaça e apareceu de novo em frente à rainha, levando as mãos a seu rosto e acariciando – Minha querida, já está quase com vinte um, não é?

- Sabe que sim. – respondeu com a voz suave, encarando o chão, entedia que estava cativa.

- E não quer morrer, quer? – Pandora ficava cada vez mais melosa acariciando os cabelos castanhos como se ela fosse uma criança pequena.

- Não. – engoliu o choro duas vezes para responder – Não quero.

- Então talvez possa me fazer um favor! – segurou as mãos dela, os cabelos negros da bruxa ainda voavam como se estivesse no centro de um furação. – Faça-o e quem sabe lhe tiro a maldição.

Saori a olhou esperançosa e apertou as mãos queimadas de Pandora nas suas assentindo apressadamente com a cabeça.

- Aquele cavaleiro maldito me queimou, já sabe. – disse sumindo e aparecendo sentada a penteadeira pegando seu espelho que a muito estava sobre posse de Saori, admirou-se com uma expressão de desgosto – Infelizmente fiquei fraquinha, só o esforço pra me manter viva foi... – ela parou de falar de súbito e deixou os cabelos irem para trás, revelando a queimadura sobre o olho, ficou tão horrorizada com a visão que perdeu o fio do seu discurso - Estou precisando de uma força extra.

- Não entendo. – Saori falou se aproximando da bruxa.

Pandora estava distraída com seu próprio reflexo naquele espelho e ignorou a jovem perdida em lembranças sobre seu passado.

- Não sou tão má assim, sabe? Como aquele homem falou... – disse com um tom melancólico – Foi culpa de Sasha! Só dela! Que não soube se recolher a sua insignificância. – terminou com voz chorosa – Você entende, não é? – Saori assentiu apressadamente.

- O que posso fazer por você, Pandora? – perguntou com gentileza unindo as mãos em frente ao corpo.

- Seus enteados estão saindo para caçar bruxinhas por aí... Não seria nada mal se pudessem trazer duas ou três vivas ao castelo. Para restituir minhas forças. – falou inocentemente, o cabelo negro cobrindo-lhe os olhos de novo, mas deixando o sorriso infantil a mostra.

- E como vou convencê-los a isso? – perguntou aturdida – Se acharem uma bruxa de verdade vão querer jogar direto na fogueira. – disse caindo sentada na cama, desolada, com as costas curvadas e os ombros baixos.

Percebeu os cabelos negros voando por cima de seu ombro e deu-se conta da presença da bruxa, jogada na cama atrás de si.

- Se Minos de Griffon a vê sentada assim eu tenho até dó de você. – a menção ao nome a fez se por reta de imediato e a bruxa riu – Mas você dará um jeito, use seus dons, dobre os príncipes ao meio com seu charme, ponha-os de joelhos a seus pés... Em outros tempos eu certamente o faria. – riu mais alto – Agora me vou! Deixo meu presentinho aí caso pense em mudar de ideia.

E então um adeus soou cantarolado como um eco distante, quando a rainha deu por si estava sozinha. Deitou-se bem alinhada na cama e fechou os olhos. Mas duvidava muito que conseguisse dormir.

VII: O sapatinho de Cristal

Em um outro reino, não muito distante dali uma princesa se esgueirava pé ante pé nos corredores do castelo, seu destino? A biblioteca. Tinha em seus braços um exemplar de um livro grosso de capa verde, na calada da noite seguia para devolvê-lo e pegar um novo. Seus pais não lhe permitiam muita leitura, é verdade. Uma princesa com a cabeça cheia de ideias poderia afugentar qualquer pretendente, eles diziam.

As longas ondas ruivas desciam rebeldes por suas costas e algumas pelo rosto, cortando como sangue a visão da pele alva, ela se escondeu em uma fresta na parede do castelo, onde uma armadura completa repousava de guarda quando ouviu vozes dos serviçais que atravessavam conversando sobre a vida de seus senhores.

- Estou lhe dizendo! A rainha de Copas estava metida com magia negra, e a menina coitada, desapareceu depois da morte dos pais. Dizem que ainda está viva, mas vai saber? – um velho senhor dizia indignado.

- Um absurdo! Absurdo! – uma senhora que o acompanhava concordava – Isso é o que dar não casar logo a filha, onde já se viu princesa metida com magia, Nicolau? Querendo poderes! Ia parar direto na fogueira, com certeza! – ao lado do casal um menino seguia apenas atento a conversa – Espero que as majestades não demorem a casar essa daqui, já está passando da idade, pois imagine você: a menina brinca de correr com a plebe! – sussurrou a última frase como se falasse uma infâmia.

- Pior que isso! Disseram-me que ela tem o costume de ler! – o homem respondeu fazendo uma careta, arrancando uma expressão assombrada da mulher.

Enquanto eles falavam mal da princesinha, que por sinal estava escondida na fresta desaprovando em silêncio cada frase, a criança se distraiu dos pais e pode ver os olhos verdes vivo da ruiva brilhando ao lado da armadura. Ela pôs o dedo em frente aos lábios pedido silêncio e o menino sorriu assentindo, enquanto seus pais continuavam a tagarelar. Ele era um amigo de brincadeiras e ela sabia que não delataria.

Tão logo eles passaram e a menina foi rápida em sua ação furtiva a biblioteca, não demorou muito e estava em seu quarto carregando um livro de capa azul, entrava de ré verificando alguma presença no corredor e fechando a porta devagar para evitar que rangesse. Soltou um riso alegre e abraçou o livro, virando-se pronta para jogar-se na cama. Mas toda sua felicidade pelo sucesso da missão esmoreceu ao ver sua mãe de braços cruzados sentada na cama lhe esperando. Fez uma expressão de derrota com um gracioso bico nos lábios rosados.

- Oi, mãe. – gemeu já antecipando a bronca.

- Oi, Juliet. – a mulher respondeu com uma expressão ríspida – Eu ia perguntar onde você estava, mas já está óbvio.

- Não conta pro papai. – pediu abraçando mais forte o livro.

- Não conto. – a mãe sorriu e deu palmadinhas na cama pedindo para que a menina sentasse – Tenho que conversar com você.

- Ah, mãe! Qual o problema de ler livros? Eles são tão incríveis! O último, por exemplo, falava de... – a mãe fez sinal para que ela se calasse e a ruiva o fez.

A mais velha sorriu e pegou uma caixa de madeira que repousava atrás de si. A menina estranhou a calma da mãe, normalmente entrariam em uma discussão fervorosa sobre os deveres de uma princesa e a falta de direitos da mesma.

- Seu aniversário está chegando, vai fazer dezesseis em alguns dias – abriu a caixa revelando o interior de veludo roxo sobre o qual repousava o mais delicado par de sapatos de salto – Quero que os use no seu baile de debutante.

- Sapatos de vidro? – a ruiva deixou o livro sobre a cama e puxou a caixa para seu colo analisando melhor o conteúdo.

- De cristal, meu bem. – a mãe corrigiu – São de cristal. Graças a eles e eu e seu pai tivemos nosso final feliz e queremos que também tenha o seu.

- Mas eles não vão quebrar quando eu ficar de pé? Quem é que dança sobre sapatos de cristal? – dizia pegando um deles nas mãos, parecia mesmo muito frágil.

- Eu dancei. – a mãe respondeu – Dancei até a meia noite com eles. Você também dançará, vai ver. – tocou o braço da filha – Quando seu príncipe chegar você não vai...

- Mamãe, já disse que não quero me casar com esse homem! Eu nem o conheço!

- Mas vai conhecer. No seu aniversário, e se apaixonará por ele, filha, tenho certeza. Saori disse que Saga é um dos homens mais belos...

- Tá, mas e se ele for chato?! – interrompeu tentando argumentar, mas era impossível, pois sua mãe parecia viver no mundo da lua, sempre sonhando com finais felizes não importava a situação.

- Ora, não se preocupe com isso agora. Na festa se conhecerão e eu espero para que você diga que eu estava certa. Agora durma, meu bem. – beijou-lhe a testa e levantou.

- Boa noite, mãe. – suspirou derrotada.

- Boa noite, Juliet. – disse saindo e deixando a ruiva a sós.

Assim que se viu sozinha a menina deixou os sapatos de lado e deitou de bruscos na cama, abrindo seu livro e devorando a primeira página. Lia sobre amor, o amor dos camponeses, o que não precisava de títulos ou dotes e com esse amor ela sonharia.

~0~

Olá, pessoas!

Muito obrigada por terem mandado suas fichinhas! Várias das histórias me encantaram e sinceramente eu gostei de todas então tomei uma decisão importante! Irei usar a todas na história, se me permitem :D

Mas, sim, sempre há aquelas escolhidas para ficar com nossos douradinhos lindos e amores e... E vamos parar com a rasgação de seda que vocês querem mesmo é o resultado, né? xD

Bem ficou assim, na ordem das doze casas:

Scarlet: Mu

Como já tinha dito, gostei da sua ficha, o jeito machona dela é demais, amei xD E obrigada pelas dicas, com certeza vou aproveitar! Dessa vez non deu pra ficar com o divo supremo do universo, mas fica com o carneirinho *-* Beeehh *apanha* Isso aí! o_ob

Margareth: Aldebaran

Shina-sama! \o/ Adorei a caçadora, ela ficou bem diferente das outras e adooorei os melhores golpes da danada! Eu ri xDDD Vou fazer esse exercício mental de pensar em sete coisas impossíveis pra escrever melhor com ela, muito obrigada pela sua ficha!

Esmerald: Saga

Ah, Paulinha... Você cheatou, neh? xD Adoro a Esmeralda e o "dramática" me deu ideias malignas já de começo, sem falar na vidência! Mah, neh? Tem que colocar a nega sexy pro Saguinha, pq também amo de coração ;)

Anna Gahan: Kanon

Vou falar sério... Foi difícil, mas muito difícil largar o Kanon x.x Tava já fazendo uma ficha minha pra poder pegar ele ahuaahuah xD Mas senti o drama da Anna, nossa senhora, ser sacrificada... Mas pelo menos pode se vingar, Avengers na veia \o/ Gostei muito do jeito dela e do poder, vai dar muito pano pra manga, bigada ;)

Sophia: Mask

Nossa, geeente, coitada da menina, foi acusada no embalo xD Quase pega fogueira. E tadinha, pois é Sophia, também não sou muito apta pra esses trabalhos domésticos não xD Tamo junta o/ Obrigadinha pela ficha! E boa sorte no vestibular o/ *feliz por jah ter superado essa fase*

Alice: Aiolia

Jules-sama! Essa foi uma das fichas que me encantou! Muito mesmo, pegou bem o espírito da coisa! Adorei a história que você criou, adorei mesmo! Tudo ficou tão Ahhh Sei nem o que dizer! Gamei na Alice! :D Nhaa... e me deu uma vontade de jogar Alice MacGlee de novo, saudades x.x

Kendra: Shaka

Huahauh Ele vai querer jogar ela na fogueira o tempo todo, mah tudo bem xD Adorei a historia dela! As mamães tem um jeito todo legal de educar, neh? xD Juro que teia ficado com ódiiiio também hauaha Gostei do jeitão dela! Fada madrinha má? Muito boa ideia e tipo foi tão bom ver um Bruxa ali na classe, porque ao contrario do que eu tava esperando não teve muitas. Obrigada pela ficha, adorei ela.

Kourin: Dohko

Sabe, eu fiquei na duvida se deixava as duas curandeiras na história, mas acho que fiz boa coisa deixando sim! Gostei do jeito mais tímido da Kourin e da paixão fervorosa dela pelo trabalho, mo legal. E obrigada pela dica, com certeza vou aproveitar ;)

Ceres/Luna: Milo/Camus

Coloquei as duas juntas aqui pq, neh? xD Já tão coladas mesmo! Mas é, já falei pra vocês, depois desse caps dá pra ter mais noção do que falei antes da maldição dos gêmeos ter caído como uma luva! E eu já tinha dado a opinião a vcs duas entao não tem mais o que eu tá falando aqui xD

Sahel: Aioros

Milena é você? O_O Putz, adorei a história dela, além de amaldiçoada ela tem poderes mágicos e o jeito todo sedutor me convenceu! E olha, também custei a largar o Aioros, nhaaa, tenho que aprender a desapegar desse homi. Tambem sou fã incondicional da Jasmine!

Anúbis: Shura

Nhaa.. pode crer aquelas coisas de supernatural da medo mesmo, eu assisto de boa, mas depois fico custando a dormir xD Non sei pq... e.e Enfim, Anubis, Nhaaa, Bagera criou ela, non sei pq lembrei de Mogli quando li! Mas gostei muito e comassim "felinos tem focinho né?" Eu ri xD Claro que tem, neh? Huahaauha Gostei de ela ser mais pro mal que pro bem, curti mesmo

Juliet: Afrodite

Pois é, sabe quando falei que alguma fichas de encataram? A da Juliet foi uma delas, sou realmente louca por contos de fada e não é a toa que a Juliet foi a primeira a aparecer, no momento que li eu já escolhi, tinha nem pra onde correr! E encaixou tão perfeito nesse inicio da historia que nem sei, viu? Alecto-sama, muito obrigada! Espero que goste da fic :D

Merida: Shion

Haru-chan! Vou confessar que simpatizei com ela logo depois de ler o nome xD Também gostei muito dele e tipo, como já falei antes, foi muito bom ver um Bruxa escrito ali na classe! Adoro o Chesire cat e os poderes dela ficaram muuito legais! A adorei! Muito obrigada pela fichinha!

As não escolhidas... Bem, eu irei usar as chars, como disse gostei de todas, mas resolvi escolher as que melhor se encaixavam na história. Muito obrigada por mandarem! E tentei não ficar chateadas comigo e... Nossa como converso xD Vou encerrar por aqui que já falei demais!

Ah, só mais uma coisa, juro, é a última: Já tinha dito antes, mas não custa repetir, as char vão aparecer aos poucos, vou tentar dar atenção a cada uma a seu tempo até estarem todos juntos! Gradecida pela paciência e espero que tenham gostado!

Beijinhos!

V. Lolita