Um Amor pra Recomeçar


Cap.2 – O traidor

-Bom dia, querido!

Abro os olhos em câmera lenta, tentando me acostumar com a claridade e sinto as carícias em meus cabelos diminuírem enquanto um beijo leve é depositado em minha testa.

-Dormiu bem?

-Um pouco. A poção faz cada vez menos efeito. Estou começando a ver reflexos, imagens distorcidas e a escutar sussurros. Acho que está voltando.

-Mas você sabe que não podemos fazer nada quanto a isso, uma poção mais forte te faria dependente facilmente e não ajudaria em nada.

Ela estava certa, afinal, mas os sonhos que eu tenho são cada vez piores e se continuarem, poderei fazer de minhas memórias um filme bem útil aos comensais. "As mil e uma maneiras de torturar Draco Malfoy e mantê-lo vivo." Não agüento mais sofrer até em meus sonhos e depois ficar dando idéias bem úteis a Macnair. Ele sempre arruma maneiras ainda mais abusivas de usa-los contra mim.

-Se acalme, meu bem! Eu sei que é difícil pra você, mas nós precisamos ser fortes. Eu posso sentir que não vai demorar pra acabar. Logo estaremos livres e viveremos em paz.

Era o que eu mais desejava.

-Dormiu aqui?- perguntei enquanto observei minha mãe levantar da minha cama, onde estava quando acordei, ainda de pijamas e colocar a capa branca por cima.

-Dormi. Seu pai não estava muito bem ontem, estressado. E casa estava cheia de novo, não consegui ficar lá em baixo.

Ela tentava ser indiferente, mas eu sabia que ela estava sofrendo, eu podia imaginar o que Lucius fazia com ela, e pelo seu olhar abatido, tive quase certeza que Lucius esteve com tia Bella na noite passada.

-Eu acho que você podia dormir todas as noites aqui. Você sabe que meu pai está enlouquecendo por causa desse maldito sádico e anormal.

-Não Draco, seu pai precisa de mim, agora mais do que nunca.

-É perigoso, sabe que é. Você não precisa fazer todas as vontades dele, isso está acabando com você. Ele está acabando com você e com ele mesmo.

-Draco, está tudo bem querido- ela se ajoelhou na minha frente e tomou minhas mãos entre as suas- não se preocupe comigo, eu estou apenas evitando o pior, protegendo você. Nossa família já acabou há tempos e você sabe disso, e sabe que eu amo seu pai e também quero protege-lo, mais dele mesmo. E eu nunca deixaria ele fazer nada contra você.

Ela levantou, beijou minha bochecha, acariciou meus cabelos e caminhou até a porta.

-Vou buscar algo para você comer. Não saia desse quarto nem sob as ordens de seu pai, ouviu?

Sorri, enquanto afirmava com a cabeça e murmurava um "obrigado, mãe" vendo-a sair e fechar a porta.

oOo

Narcissa trouxe a bandeja, colocou-a sobre a cama e, sem dizer nenhuma palavra, deixou o quarto.

Ela era uma mulher forte e apesar de sua aparência freia e indiferente, era atenciosa e muitas vezes até carinhosa. Se submetia a Lucius, como prometera quando fizeram os votos, mas sabia que sempre conseguiria do marido qualquer coisa que desejasse.

Já perdera a conta de quantas vezes pegara Lucius na cama com sua própria irmã, mas isso não a abalava pois sabia que quando quisesse acabar com isso, o faria sem esforços. Ela também tinha consciência que o marido apenas estava buscando em outras o que ela não o dava de bom grado.

Eu sei disso tudo porque ela mesma contou em uma das noites em que fugia do próprio quarto para o meu. Admirava aquela mulher e tudo que era capaz de fazer por aqueles que ama.

A porta tornou a abrir e eu levantei os olhos da bandeja de torradas para observa-la entrar, pendurar uma capa no cabide e se voltar para mim, como uma expressão assustada.

-Eles descobriram Severus, Draco. - ela disse calmamente, apesar de parecer aflita, e se sentou na minha frente colocando a bandeja na escrivaninha. – Eles o trouxeram e o trancaram no antigo quarto de hospedes.

Aquilo sim eu não esperava. Snape sempre soube como ninguém a arte da discrição. Era o melhor espião que poderiam ter.

-Mas como? O que vão fazer com ele?

-Não sei detalhes de como eles conseguiram, mas pelo que escutei, me parece que o Lord mandou um outro espião sem avisar nem mesmo a Lucius e Bellatrix.

-E o que eles vão fazer com ele agora?

-Ele está trancado agora. –estava ficando cada vez mais difícil para ela parecer calma – Mais tarde o Lord vem pessoalmente falar com ele. Nott disse que ele só morre quando disser tudo que sabe sobre Harry Potter e sobre a tal Ordem da Fênix.

-Então ele vai...

-Sim, ele vai sim. E de hoje não passa.

E a guerra estava caminhando cada vez mais em direção favorável ao Lord e isso não era nada bom. Se Harry Potter morresse e deixasse Lord Voldemort vivo, era questão de tempo, pouco tempo, até o mundo mágico cair em ruínas.

Não sobrariam trouxas, mestiços e simpatizantes traidores do sangue. E nem os puro-sangue que não se unirem ao lado das trevas seriam poupados.

Observei minha mãe virar o rosto em direção a porta e deixar os olhos caírem sobre a capa preta que havia trago. Seus olhos escureceram de pavor e ela se voltou pra mim, agora sim com visível preocupação.

-Eles querem você Draco. Querem que você comece o treinamento hoje mesmo e que lute na próxima batalha. Que participe do próximo ataque ao Ministério.

Ela me encarou com aqueles olhos azuis tão iguais aos meus e tenho certeza de ter visto, por apenas alguns segundos, uma determinação fora do comum, antes de me tomar em seus braços e me abraçar da forma mais carinhosa que podia.

Posso afirmar que se alguma vez Narcissa Malfoy esteve perto de perder o controle, foi a poucos segundos atrás. Mas agora, nesse momento, ela parecia completamente segura de si, e certa do que deveria ser feito.

oOo

Sim, eu estou bem. Melhor até do que eu imaginava que estaria. Não é como se eu não estivesse esperando por isso de alguma forma.

Snape me disse que um dia eu seria intimado e teria que fazer uma escolha. É óbvio que nessa escolha eu só tinha uma alternativa, que é tomar meu lugar nessa guerra, participar das batalhas. Caso contrário eu morreria. E não é que seria uma má idéia, mas eu ainda preciso agüentar mais um pouco e tentar proteger minha família, minha mãe.

Acabei de sair da sala de treinamentos improvisada por Lucius e não foi nada assustador, não aprendi nada que eu já não soubesse antes e isso me deixava aliviado, porque de alguma forma isso significava que as batalhas não eram tão injustas como eu imaginava.

Me foi permitido o uso de qualquer imperdoável e eles disseram para me preocupar apenas em deixar o maior número de pessoas de fora da batalha e que se visse Potter, a primeira coisa que deveria fazer era alertar Lucius ou Bellatrix.

Devo dizer que eles ficaram satisfeitos com meus reflexos e meus conhecimentos sobre a Arte das Trevas, mas como sempre, eu tinha que escutar alguma coisa sobre o fatídico dia em que não matei Dumbledore.

-Apenas se concentre, use seus reflexos para atacar e se defender e não se esqueça de como se pronuncia Avada Kedavra como aconteceu a alguns meses atrás, caso você precise. –Nott disse devagar, como se realmente acreditasse que eu havia me esquecido.

Não preciso dizer que já estou acostumado a esse tipo de piadinhas que rolam entre os comensais, coisa que Lucius vivia me alertando. Mas realmente não me incomoda saber o que eles falam, já que hoje eu sei que mesmo se quisesse, não conseguiria matar ninguém.

-Draco, venha até aqui. –Lucius interrompe meus pensamentos e me chama da porta do meu quarto. –Agora, Draco. Venha aqui.

Em passos largos, me distanciei da janela, de onde observava a movimentação no jardim de entrada da mansão, e que dizia claramente que alguma coisa estava errada ali.

Segui Lucius por algum tempo e paramos em frente ao escritório dele, onde ele abriu a porta e deixou que eu entrasse, para depois fecha-la com todos os tipos de feitiços possíveis.

-Draco, sua mãe lhe disse alguma coisa sobre Severus estar aqui? –ele perguntou e fiquei sem entender nada. Ele não teria me chamado ali apenas para me contar sobre o professor Snape, isso normalmente cabia a minha mãe que já havia feito o trabalho.

-Sim, ela me disse que ele foi descoberto como um traidor, que ele trabalhava como espião para a ordem. Isso é verdade? –perguntei inocente, fazendo-o acreditar que eu já não sabia disso tudo há um bom tempo.

-Sim, é verdade. Mas ela disse mais alguma coisa? Alguma coisa que ela faria para ajuda-lo a sair daqui ou algo parecido?

Meu sangue gelou. Liguei essa conversa ao olhar de minha mãe durante nossa conversa ontem a noite e sua vontade de que essa guerra acabasse logo, e me vi em um de meus pesadelos. Minha mãe tinha feito alguma coisa para libertar Snape, e provavelmente já a tinham descoberto.

-Não, ela não me disse mais nada, só me respondeu algumas perguntas.

-E ela pelo menos sabia onde ele estava?

-Sabia, ela me disse que ele estava trancado no antigo quarto de hóspedes lá de cima e que estava esperando o Lord.

-MALDITA. –Lucius gritou e pela primeira vez eu o vi se descontrolando na minha frente. –Como ela pôde fazer isso comigo? Como ela pôde nos trair desse jeito?

Minha vontade era de dizer ao meu pai que Narcissa não poderia ter traído ninguém já que ela nunca jurou lealdade ao Lord das Trevas, como todos os outros comensais, mas isso não era uma boa idéia.

-Pai –chamei incerto, tentando conseguir a atenção do homem mais velho. –o que aconteceu? Onde está minha mãe? O que foi que ela fez?

Ele me olhou com certa relutância e desprezo pelo meu tom de voz preocupado, mas me respondeu já se recuperando e sentando atrás da mesa.

-Ela libertou Severus, Draco. Fez uma chave de portal para ele e ninguém sabe onde ele está agora. Ela planejou tudo e libertou o homem antes da chegada do Lord, antes que descobríssemos alguma coisa.

Estava surpreso, mas não tanto assim já que eu pude ver no olhar de minha mão, o brilho característico da mulher decidida que ela era. Mas uma coisa me chamou atenção, se Lucius sabia o que havia acontecido, provavelmente os outros que ali estavam, também sabiam de alguma coisa, então logo minha mãe estaria na mesma posição de Snape.

-Onde está minha mãe? –a pergunta veio e eu não a prendi, precisava saber o que iria acontecer com ela.

Ele me olhou novamente e eu temi sua resposta. Talvez porque soubesse do que o homem a minha frente seria capaz por conta de suas crenças absurdas e de um maníaco sem alma.

-Sua mãe está morta Draco. Narcissa está morta. –ele disse em um fio de voz que alguns associariam a tristeza, mas eu conhecia como neutro e sem emoções.

Olhei para ele durante alguns segundos me perguntando se alguma vez ele sentiu alguma coisa pela minha mãe, e só o que eu tive foi a confirmação das minhas teorias. Lucius amou Narcissa, mas amou muito antes de priorizar suas convicções, o que eu chamo de amor por conveniência.

Mas isso não importava agora. Eu me encontrava em um estado de choque consciente onde eu me perguntava o que faria da minha vida de agora em diante.

Fique por um tempo olhando para o nada e sendo observado por um par de olhos azuis questionadores. Nem me dei conta de quando levantei e comecei a me afastar dele, chegando na porta e me voltando para fazer a última pergunta que estava pronta para sair. "Quem?". Eu sabia que não adiantava saber, mas mesmo assim me vi ansiando pela resposta, que não demorou a vir. Talvez ele já estivesse esperando pela pergunta.

-Bellatrix. –foi a única coisa que ele disse antes de se virar na cadeira e eu bater a porta com força, andando rápido até meu quarto.

Não pude fazer mais nada além de deitar em minha cama e enfiar a cabeça no travesseiro, chorando copiosamente. Não teria mais minha mãe para me aconselhar, me informar, me consolar, me confortar nas noites mal dormidas, me tratar como um bebe... Não teria mais minha mãe. Agora eu estava sozinho.


N/A: Well, esse capítulo não demorou tanto como eu havia planejado, mas está pronto, apesar de sem betagem. Não gostei de ter matado Narcissa e ouvi muitos xingamentos da minha irmã por isso, mas eu não pude evitar, para o bom andamento da fic. E no próximo capítulo teremos o Remmie.

Agradecimento especial à Bella Potter Malfoy pela review que me incentivou a continuar, (muito obrigada mesmo, espero que tenha curtido esse capítulo, que está um pouco maior, mas triste também, e que continue acompanhando) e à Marina que mesmo não podendo mais betar, ainda acompanha minhas loucuras.

Obrigada a todos que passaram por aqui e que não puderam ou quiseram comentar, mas que continuam acompanhando.

Beijos e até o próximo.