- PARANÓIA -

PARTE II: O COMEÇO DO FINAL

Capítulo 16


"Sinto muito", sussurrou, sem conseguir encará-la.

E ela sorriu, tristemente. E ele fechou os olhos, resignado, pois sabia que seria assim.

Só não esperava que realmente acontecesse.

Muito menos tão rápido.

Ginny cruzou seus braços e pernas, indicando estar completamente fechada a qualquer diálogo, repelindo até mesmo o olhar que ele lhe lançava. E Draco a conhecia o suficiente para entender que o pedido de perdão mudo chegava a doer mais nela do que as palavras que ele tinha dito minutos antes, assim como percebia que sua inquietação a incomodava.

Nos olhos castanhos ele identificou apenas raiva e decepção. E isso o machucava, expunha sua culpa, cobria-lhe de arrependimentos e manchava-o de vergonha.

Ele sentia muito.

E ela também.

Mas os motivos eram diferentes.

"Ginny, é por isso que-"

"Por que me contou?"

"Como assim? Por quê? Ginny, não está óbvio?", questionou impaciente, em sua voz cansada. Respirou profundamente, pensando no que poderia falar e voltou-se para ela novamente: "De qualquer forma, de que valem motivos se eles não precisam de motivos", acrescentou, nervoso.

"Você faz parte do eles", intimou firmemente.

"Ginny, eu não preciso que você entenda o modo como agem, só precisa entender o que eu quis dizer com-"

"Acho que você quer dizer que eu não preciso entender o modo como vocês agem. Se inclua no meio deles e não seja covarde. Não negue o que você mesmo acabou de me confessar, Malfoy", exigiu, fazendo questão de frisar o sobrenome que há muito deixara de ser o maior dos problemas.

As luzes da Londres trouxa davam ao quarto escuro do Caldeirão Furado uma tonalidade avermelhada. Isso incomodava Draco. Ele deu um sorriso torto, desviando o olhar da janela para a jovem que estava sentada em uma cadeira à sua frente.

"Seja sincero com você mesmo", Ginny recomeçou, quase suplicando. "Você mentiu. Acredita mesmo que isso ainda pode dar certo? Veja como está a situação e lembre-se o que aconteceu. Tudo está tão diferente, Draco, e você..."

"Só porque eu fui um comensal?"

"Fico admirada com a forma simples como você fala sobre isso", ela desviou o olhar. Em sua expressão estava marcado o limite entre o choro e o deboche. "Ser um Comensal da Morte não é ser um Comensal, Draco", ela o encarava, sem sair de sua postura defensiva, e ele, por sua vez, retribuía o olhar firme de quem estava longe de se render.

"Weasley, você diz que entende a gravidade da situação, não é mesmo?", questionou e ela confirmou. "Pois eu entendo muito melhor que você. Sei perfeitamente o que é ser um Comensal e não é um passatempo. É a minha realidade, não a sua! Você não sofreu o que eu sofri", ralhou entre os dentes.

"Eu sofri tanto quanto você, Draco Malfoy!", ela se levantou e, pela primeira vez, seu tom de voz não respeitou os limites do bom senso. "Eu também vivo nessa guerra, esqueceu? Isso tudo importa, pois é algo que influi diretamente na minha vida e das pessoas que eu amo!"

"Claro que influi. Você é uma traidora do sangue, sua família, seus amigos também o são! Acredita mesmo que ia ficar longe disso? Basta que qualquer um de vocês se atreva a cruzar o caminho deles e-"

"No entanto, você não fez o que deveria quando deveria, mas ainda assim prejudicou pessoas que são importantes para mim", gritou.

"Isso não vem ao caso", falou abanando a mão, como se não se importasse, mas estava visivelmente perturbado. Em seguida fechou as cortinas, olhando rapidamente para o lado de fora, como se procurasse algo.

"Claro que vem ao caso, Draco", ela perdeu a firmeza da sua voz, e suas palavras soaram ansiosas e inseguras. "Se você tivesse matado ele, as coisas seriam mais fáceis para você, então por que enfrentou tudo isso? Não cansou de bancar o bonzinho?"

"Não estou bancando o bonzinho", suspirou. "Não pensou que agi dessa forma por medo? Não pensou que escolhi esse caminho por amor? O que teria feito se fosse a sua família?" questionou e, em seguida, apontou a varinha para os castiçais presos à parede. "Incendio".

"Tentar trazer para realidade o que planejou para a sua vida já não é mais uma opção. A Ordem tinha um trato com você, eu tinha um trato com você, mas tudo isso exige uma coragem que você não tem e nós não podemos esperar. Apenas trago as informações: o trato, a confiança... Nós... Acabou".

"Não acabou coisa nenhuma, Ginny", rebateu, inquieto. "Eu quero que você entenda que eu sei perfeitamente onde estou me metendo e que você não sabe de absolutamente nada sobre o que é ser um Comensal".

"E eu já falei o meu ponto de vista", ela se encostou à parede, apertando a varinha com força entre seus dedos. "Além de todas as coisas e da sua relação com a Ordem, também tem o fato de que eu não quero segredos e mentiras. Não vou mais mentir para a minha família e, conseqüentemente, não permitirei que minta para a sua. Além do mais, já passou da hora de retornar para eles, não? Volte para a sua segurança fora daqui, a Inglaterra não é segura para você".

"Ótimo!", exclamou com raiva e sarcasmo. "Poderíamos fugir juntos e assim viveremos felizes para sempre", adicionou com notas de veneno. "Ora, Ginny, meu tempo está acabando... Você sabe que longe da proteção eu não ficarei livre nem por mais uma semana, e eu seria morto antes que você conseguisse falar Harry Potter".

"Quer parar de agir como uma vítima? Deixei a escolha em suas mãos, não sei do que está reclamando, Malfoy. Terminou! Acabou a brincadeira. Eles não confiam mais em você", ela virou as costas e se dirigiu à penteadeira, para pegar sua mochila.

"Você já sabia o que eu era, Ginny", falou tentando manter a calma, mas suas mãos tremiam. "Sempre... Sempre soube, e ainda assim ficou ao meu lado. Por que isso agora?"

"Porque você mentiu para em algo extremamente importante! Porque disse que tinha se afastado, quando na verdade ainda está trabalhando para eles e executando missões que incluíam matar pessoas importantes para mim!"

"Por Deus, Ginny... Eu já disse que não tenho nada a ver com-"

"Tudo o que eu tinha para falar, eu já falei", interrompeu.

"Eu não dei a mínima quando a Ordem me abandonou e não me interessa o que eles pensam sobre o que eu fiz, se os traí ou se fui ingrato, mas eu não vou admitir que você faça isso", informou, com acentuado tremor na voz.

"Vou embora", ela o ignorou. "E me faça o favor de não me procurar mais, porque prometi a mim mesma que não vou mais me relacionar ou confiar em alguém que tenha uma tatuagem grotesca no braço".

Ginny já se preparava para rodopiar em seus calcanhares quando Draco a segurou pelo braço.

"Eu não vou deixar! Você não pode me abandonar agora!"

"Solte-me!"

"Não vou soltar e, se você aparatar, vai ter que me levar junto", ele falou, devolvendo o olhar firme. "Eu não estive envolvido no ataque de ontem, eu juro... Ginny, eu não vou desistir. Eu vou até a Ordem, eu sei de coisas, eu preciso de vocês..."

"Lamento te desapontar, Malfoy: eles já desistiram de você... E eu também", respondeu apontando sua varinha para o jovem e, sem que ela ao menos pronunciasse uma palavra, um jato de luz vermelha o atingiu, lançando-o contra a parede.

O rapaz não pôde fazer mais nada a não ser observar a ruiva rodopiar graciosamente antes que desaparecesse em um estalo.

Raiva. Decepção. Medo. Esperança.

Os sentimentos se misturavam de forma incoerente e convergiam para o mesmo ponto e sua única saída: precisava convencê-la, precisava de uma chance. Voltar para segurança e proteção da Ordem da Fênix era a única chance que tinha de continuar vivo e de proteger seus pais.

Precisava consertar a bagunça que tinha feito.


N/A.: A história pareceu solta no ar. E de fato está. Ela não será postada na ordem cronológica, portanto, vocês só saberão como eles chegaram a esse ponto mais para frente. Quer saber como eles ficaram juntos? Leia! Quer saber exatamente porque brigaram? Que acordo foi feito? Que perigo eles realmente correm? Basta ler Paranóia! XD COMENTEM!