O Diário Invisível dos Exilados

Capítulo II

Mamãe era uma mulher alta, de cabelos louro-platinados, como os do meu irmão, mas os seus olhos eram iguais aos meus. Às vezes, quando me vejo no espelho, seu rosto vem à memória. Isso é muito ruim, eu preferia esquecê-la de uma vez por todas. A lembrança dela me deixa triste, e esse sentimento se torna maior graças ao mundo escuro onde vivemos. A tristeza me enfraquece, e eu não posso ser fraco. Meu irmão precisa de mim.

A imagem do meu tio, um homem de feições rudes e cabelos vermelhos, matando meu pai em uma luta desigual, é algo que eu não quero esquecer, embora pense ser o melhor...não quero passar a vida toda pensando em como os laços de família mais sólidos podem se desfazer, por causa da visão diferente que as pessoas podem ter sobre a mesma coisa.

Eu tinha seis anos na época, e quatro anos depois daquilo, as pessoas ainda me consideram traumatizado. Nenhuma delas imagina o quanto eu penso a respeito. Sinto que parte dessa gente já planeja uma campanha para me transformar em uma eterna criança frágil e desajustada aos olhos do meu irmão, e assim tomar o lugar de confiança que pertence à mim em sua vida, mas isso nunca vai acontecer, pois não darei essa oportunidade à eles. Já é o bastante ter aquele espectro putrefado assombrando os corredores do palácio e se metendo onde não é chamado.

Demando odeia meu tio, e tudo o que se relaciona à ele, inclusive nosso primo, Rubeus. Ele o acusa, não publicamente, é claro, de também ter sangue de traidor. Isso é muito injusto. Eu amo Rubeus, e o quero sempre perto da nossa família.

Foi tudo culpa do maldito Wiseman. Ele foi encontrado por nosso pai e meu tio durante uma expedição, quando os dois ainda eram jovens. Nemesis não tem belas paisagens como a Terra, mas eles adoravam viajar juntos.

Nunca vi o que há debaixo do manto onde aquela coisa se esconde, mas Tio Peridot certa vez o descreveu, tal como era quando o descobriram: estava um tanto fraco, mas não de uma forma vulnerável...como se estivesse repousando para ganhar forças...não se parecia com um humano, mas também não era totalmente monstruoso...era algo indefinido..."a voz rouca de um velho e a coerência de um sábio"...ele afirmou ter viajado muito antes de encontrar o lugar ideal para descansar e repor suas energias...falou um monte de bobagens sobre o planeta Nemesis estar destinado a se tornar o ponto de equilíbrio do universo...gracas a nossa coragem e capacidade de acreditar em nós mesmos.

Meu pai era um homem muito inteligente e cauteloso, mas meu tio, que sempre foi bem mais despreocupado, ficou sozinho em sua desconfiança. Como dizem os terráqueos, ele 'não foi com a cara' do Wiseman desde o início. Esse "sábio", enquanto isso, convenceu meu pai de que nossos ancestrais foram banidos por Neo Queen Serenity ao terem tentado lutar contra a maldição do Cristal de Prata, dizendo ter sido ele mesmo vítima desse mal.

Nosso povo sempre planejou consertar a situação com a rainha de modo diplomático, mas meu pai mudou de idéia após transformar Wiseman em seu conselheiro. Meu tio ficou furioso com o rumo que a nossa política tomou quando papai assumiu o trono e passou a nos preparar para a guerra. Tanto a nobreza quanto os cidadãos comuns compraram a idéia de que deveríamos agir com violência e provar nossa razão.

Tio Peridot foi perdendo o controle sobre si mesmo. Ninguém mais o ouvia. Ele era alvo de chacota e de duras críticas. Chegou o dia em que meu pai o acusou de estar ressentido com o fato de jamais assumir o trono, e não ser o mentor da empreitada gloriosa arquitetada pelo clã...

No auge do desespero, meu tio cometeu atos terroristas e tentativas de homicídio contra membros do governo, tornando-se um criminoso político. Ele finalmente perdeu a pouca sanidade que lhe restava, e decidiu invadir a sede do reino com a ajuda de mercenários.

"Saffiru!"

Ouvi a voz do meu irmão, vinda do corredor, gritar por mim. Era noite, e todos deveriam estar dormindo. Eu acordei e sentei na cama, jogando as cobertas no chão. O quarto estava escuro, a porta fechada, mas havia um vulto se movendo na minha direção...eu vi a lâmina da espada descendo sobre mim, quando de repente minha mãe golpeou o sujeito pelas costas. O sangue dele espirrou por todos os lados. Naquele momento, fiquei sujo e paralisado.

Mamãe me pegou no colo, e correu em direção a janela: os guardas se espalharam por toda parte, prontos para enfrentar os muitos invasores. Todos brandiam armas, com as quais rasgavam a carne uns dos outros. Apenas alguns tinham poderes mágicos, mas as rajadas de energia disparadas por suas mãos causavam explosões e tremores suficientes para detonar o pânico entre a população, que enchia as ruas desorientada.

"Cadê o meu irmão?", eu perguntei, tentando fugir dos braços de mamãe. Ela me apertou com força, me machucando.

"Ele está aí fora, ajudando seu pai na luta. Seu tio quer destruir o palácio, Saffiru. Eu e você vamos fugir e depois seu pai e irmão vão nos encontrar em um lugar seguro!"

Eu era muito jovem, e ainda sou, naturalmente, mas estupidez não é uma das características do meu povo. Desde muito cedo, aprendemos tudo o que é importante para vencer e sobreviver. Eu sabia que o objetivo real do meu tio era nos matar.