Capítulo 2 : Um julgamento muito louco
– Bellinha, acorda! Você vai se atrasar e ainda tem que me levar primeiro – uma Alice histérica entra, gritando, no meu quarto.
– Você tem carro – murmurei com minha voz de sono. A cama começou a tremer. Abri os olhos no susto, pensando ser um terremoto, e dou de cara com Alice, pulando em minha cama.
– O Jazz levou para o "lava à jato" – percebi um brilho nos olhos dela ao falar de Jasper. Queria encontrar um amor que nem o deles dois; sem as brigas, é claro. – Ele passou bem cedinho. Agora levanta daí, Bella. Assim, eu vou me atrasar e você também.
– Ai, merda! É verdade! Hoje é o dia que eu realmente não posso me atrasar.
Pulei da cama e fui correndo tomar um banho, escovar os dentes e me maquiar. Quando saio do banheiro, vejo umas roupas em cima da cama. Alice, o que eu faria sem ela?
Vesti as presas o vestido amarelo canário, o qual vai até três dedos abaixo do joelho e um blazer marrom café e sapatos altos. Peguei a mesma bolsa de ontem – não daria tempo passar tudo de uma bolsa para outra – e minha pasta de sempre.
– Toma essa fruta. Não pode ir com o estômago vazio.
– Você é a melhor amiga do mundo!
– Hum... A Rose vai ficar com ciúmes – falou, dando risada.
– Vocês duas são as melhores – puxei Alice porta afora.
Dirigi, feito uma louca, até o trabalho de Alice, que é distante do fórum. Por que o Jazz teve de levar o carro logo hoje?
– Te ligo, quando acabar, e passo aqui.
– Não é preciso. Eu ligo para Rose e ela me pega. É mais perto do escritório – falou ela, sem querer me atrapalhar novamente.
– Tudo bem. No restaurante de sempre.
Despedi-me de Alice e acelerei o carro a 100 km/h para o fórum. Estou cinco minutos atrasada e ainda vou ganhar um brinde: multas por excesso de velocidade. Ótimo! Uma advogada infringindo a lei! Mais que doce ironia. Subi correndo as escadas que dão acesso ao prédio. Nem esperei o elevador. Corri cinco lances de escadas com um salto de 8 cm. Entrei correndo na sala de audiência. Todos olharam pra mim, mas fingi não ligar. Tenho que manter a dignidade.
– Desculpe o atraso, meritíssimo. Juro que não acontecerá de novo – disse, implorando. Acho que acabei de perder a dignidade.
– É bom mesmo, Drª Swan, que isso não se repita. Dirija-se à bancada, por favor – falou o juiz seriamente. – O promotor queira retomar as perguntas.
– Olá, Sr. Fernandez. Desculpe pelo atraso – sentei-me, sussurrando para meu cliente.
– Conte-nos mais uma vez, para ficar bem claro para os jurados, como foi que a senhora presenciou a cena do crime.
Reconheci essa voz rouca e, ao mesmo tempo sexy. Ahhh! É o cara que me salvou do plioceno. Mas como pode ser? Ele que vai ocupar a vaga de Demitri? Estou começando a achar que foi uma ótima escolha, meu antigo colega, ter deixado New York.
*(Para quem nunca viu um: http:/ www. reocities .com/ arturplioceno )
– Eu estava chegando em casa e percebi algo diferente. Quando entrei, tudo já tinha acontecido – respondeu a mulher do meu cliente. Eu tenho uma prova que pode incriminá-la, só tenho que saber como usá-la com eficácia.
– Sem mais perguntas, meritíssimo. A testemunha é toda sua – Edward falou, dirigindo-se a mim com um sorrisinho maroto nos lábios (e que lábios...). Na certa, está curtindo com minha cara. Tenho certeza de que ele sabia que eu seria a advogada desse caso e pediu ao tio para arrumar um lugar ao meu lado no jantar.
– Obrigada – retribui o sorriso, mas de deboche. Se ele pensa que vai conseguir me ganhar, está muito enganado. Puxei da pasta os documentos que seriam necessários, antes de começar as perguntas – Hum, deixe-me relembrar, a senhora presenciou a cena do crime?
– Isso mesmo.
– A senhora, há pouco tempo acabou de dizer ao promotor, que chegou em casa e o assassinato já havia ocorrido, não é mesmo?
– Exatamente – exclamou dirigindo-se a Edward. Percebi o olhar que ela lançou para ele.
– A senhora está ciente de que seu marido está sendo acusado de assassinar o seu irmão e de que está sobre juramento de falar a verdade, somente a verdade, e nada mais que a verdade?
– Claro – disse confusa.
– Estou um pouco confusa, a senhora acabou de confirmar que presenciou a cena. Se presenciou, viu o seu marido atirando no seu irmão; então... como pôde a senhora chegar em casa e achar o seu irmão já morto? Ou a senhora viu ou não viu ou... está mentindo para esse tribunal.
Ela fez a cara de quem acaba de cair numa armadilha, na minha armadilha.
– Protesto, meritíssimo! A advogada está coagindo a testemunha. – Edward levantou-se, todo prepotente e másculo, e teve a cara de pau de protestar. Quem ele pensa que é? Suspirei irritada esperando voltar ao meu estado normal.
– Protesto negado. Por favor, queira continuar a advogada de defesa.
– Isso aêe, meritíssimo! Quer dizer... obrigada. – todos no tribunal riram da minha... Como direi? Animação! – Sabe que, se mentir sobre juramento, será presa por perjúrio e também usurpação do poder do tribunal?
– Mas eu...
– Responda apenas sim ou não, ao que lhe for perguntado. – encarei-a.
– Sim.
– Estive pesquisando sobre sua família e achei uma coisa interessante: o seu irmão, antes de morrer, tinha assinado um seguro de vida no valor de 500 mil dólares. A senhora sabia disso? – todos no tribunal fizeram "ohh" de espanto e surpresa.
– Não, eu...
– Tem certeza? Porque, de acordo com as clausuras do seguro, caso acontecesse alguma coisa com o seu irmão, o valor do seguro iria para o último parente vivo em questão: a senhora. Como explica, então, sua assinatura nesse documento? – levantei a pasta na minha mão que contém a cópia do documento. – Peço que esse documento entre como prova, meritíssimo – disse, entregando a pasta para o juiz, que deu uma olhada.
– Concedido.
– Meritíssimo, pode ser uma falsificação! – Edward tentou protestar, acusando-me.
– Como ousa me acusar de falsificação? – explodi. Fiquei tão nervosa que seria capaz de pular em cima dele e arranhar seu rosto perfeito.
– Quem me garante que esse documento seja verdadeiro? – continuou ele, sorrindo perversamente.
– Peço um perito para afirmar a autenticidade do documento – falei e ouvi um toque irritante de celular.
– Desculpe-me, meritíssimo. Meu celular – Edward pulou a mesa para pegá-lo e o atendeu. Não pude ouvir o que ele falava. Deve ser uma das namoradinhas dele.
– Que falta de respeito para com o tribunal! Veja só, meritíssimo! Como pode per...
Mal acabei de falar, ouço o meu celular tocando. "Se liga" no meu toque escandaloso: Dalea tucuerpo alegria Macarena Que tu cuerpo es pa' darle alegria y cosa buenaDale a tu cuerpo alegria, Macarena Hey Macarena!
Atendi antes que sobrasse para mim. Visualizei quem era no visor, pensado se atendia ou não.
– O que você quer, Alice? É alguma emergência? – sussurrei imediatamente preocupada.
– Será que você pode me buscar quando sair daí?
– Estou no meio do julgamento. Dá pra ligar para Rose?
– A Rose não vai poder me pegar. Ela está ocupada – por acaso, eu não? – Passe aqui quando acabar.
– Tá, tá. Tchau – antes de desligar, pude ouvir um "mande um beijinho pro juiz" e uma risadinha histérica. Só Alice mesmo.
– Acabaram com a farra? Eu não permito isso no meu tribunal. Já chega! Se quiserem discutir e atender celulares, saiam daqui! Procurem outro ramo para trabalharem – o juiz deu a louca. Melhor nem dizer que Alice mandou um beijo, né?
– Desculpe-me, meritíssimo. Não foi minha intenção ofendê-lo – falei levemente e arrependida, claro. Não queria ser barrada por entrar aqui e muito menos ser presa.
– Não foi sua intenção? Não foi o que eu percebi – Edward, tentando colocar mais lenha na fogueira.
– E você? Aposto que foi uma das suas vadias ligando.
– Olha o respeito, sua advogadazinha! Quem você pensa que é pra chamar minha mãe de vadia? – opa! Peguei pesado. Não sabia que era a mãe desse... desse gostoso... promotor.
– Já chega! Passem-me os celulares. Anda!
Entreguei meu iPhone ao juiz, enquanto Edward entregou o dele. Pude ver que era igual ao meu. Até nisso, ele é um invejoso.
– Devolverei quando acabar essa sessão – disse o miserável do juiz que arrancou das minhas mãos o meu bebê. – Continue, Drª. Swan – é... diz isso agora; depois de confiscar meu celular.
– Pois não, meritíssimo – falei entre dentes. Ele que mande me prender que eu o processo. – A senhora acha o promotor fisicamente bonito?
– Protesto, meritíssimo! A pergunta não é pertinente, embora eu esteja lisonjeado – falou o prepotente com um sorriso.
– A pergunta tem propósito, meritíssimo – virei-me e encarei bem o rosto perfeito e ordinário de Edward. – Foi só uma pergunta. Não é como se eu estivesse te elogiando – novamente, o pessoal do tribunal fez uuuuh.
– Mas me acha lindo. Você mesma me disse ontem.
Agora, a plateia não se controlou mais. Pude ouvir até um "advogada safadinha" vindo dela. Isso está começando a parecer um programa de auditório.
– Quem falou isso? – perguntei indignada. – Vai falar isso pra mãe – confesso que me exaltei um pouco. Esqueci-me por um momento do lugar em que estava.
– Silêncio ou terei que pedir para todos se retirarem! – o juiz ficou nervosinho. – E vocês dois: – disse apontando pra mim e Edward – Concentrem-se no julgamento e não na vida pessoal de vocês! – agora ele está bem sério. Acho melhor eu nem pensar em processá-lo, se não quem perde o direito de advogar sou eu.
– Por favor, a testemunha queira responder a pergunta da advogada. Todos nós queremos saber, inclusive eu – "desmunhecou" o juiz. Sabia que essa Coca é Fanta. Ele nunca me enganou. Entendi tudo. Ele estava era com ciúmes de Edward comigo ou, devo falar..., ELA?
– O que a senhora acha do promotor? – repeti a pergunta.
– Acho-o lindo! Irei me divorciar do meu marido. Se ele estiver livre, podemos sair – ela falou e piscou na direção de Edward que se encolheu na cadeira. – E você acha o quê? – falou como se fofocássemos.
– Eu acho... Acho que... A pergunta é pra você, que é a testemunha; não eu – coloquei a cabeça no lugar. Essa pergunta tirou o meu foco. Se bem que Edward é um pão... Um pão sujo, isso que ele é! Ele me chamou de advogadazinha! Como pôde?
Tentei uma cartada final, que poderia cair pela culatra ou não. Mas vale a pena tentar.
– E o seu amante, como é que fica? Foi ele quem te ajudou. Você não teria capacidade para matar o próprio irmão, sozinha. Aposto que ele deve ser jovem e forte para carregar o corpo. Pela sua idade, ele deve estar com você pelo dinheiro do seguro. Irá te largar quando você receber. Vai fugir com o dinheiro e te deixar – falei comovidamente e com uma dose de desespero pra ver se ela se rendia e contava tudo de uma vez.
– Protesto, meritíssimo! A advogada está conduzindo a testemunha.
– Drª. Swan, peço que se controle. Está acusando a testemunha de cometer o crime. Isso é uma acusação grave. Se isso voltar a acontecer, serei obrigado a afastá-la do caso.
– Desculpe-me, meritíssimo. Vou reformular a pergunta – falei, olhando ameaçadoramente para Edward que impediu minha linha de raciocínio, protestando e mordendo os lábios. Recompus-me e voltei a perguntar.
– A senhora tem uma relação extraconjugal? Um amante?
– Protesto!– Edward tentou falar, mas seu paquera (o juiz) não permitiu.
– Negado. Dá para parar de falar "protesto" toda hora? Está ficando chato. Por favor, queira responder, Srª Fernandez.
– Sim, tenho – disse receosa.
– Se a senhora foi quem cometeu o crime, fale agora, porque será pior enfrentar vários processos e, onde quer que seu amante esteja, eu vou procurá-lo com um mandado judicial e ele será obrigado a depor – falei um pouco simpática, tentando atenuar as coisas que ficaram bem tensas de repente.
– Se eu contar, vou ter uma pena reduzida?
– Farei o possível – prometi.
– Eu e o Michael o matamos. Não era pra matar; era só pra ficar inválido. Eu li o contrato do seguro e dizia que, se meu irmão ficasse inválido, eu receberia metade do valor do seguro. Só que o idiota do Michael errou o tiro e acabou o matando. Quando ouvimos o meu marido abrindo a porta, pulamos da janela e caminhei para a porta da frente. Aí, o idiota do meu marido pegou a arma e se sujou de sangue. Aproveitei a chance de não ser presa, dizendo que tinha acabado de chegar, quando vi meu irmão morto e o Fernandez com a arma na mão. Eu não tinha a intenção de matar meu irmão e nem de incriminar meu marido – ela começou a chorar compulsivamente.
– Encontrem o tal amante – ouvi o juiz falar para um policial. – Diante desta confissão, o Sr. Fernandez está livre de qualquer acusação. O julgamento está encerrado – ele bateu o martelo. – Drª. Swan e Dr. Cullen, aqui estão os seus respectivos celulares.
Puxei meu celular com tanta força que o juiz teve que se apoiar em Edward. Com certeza, ele aproveitou pra passar a mão nas costas dele. Lembrei que, ontem, eu tive essa chance. Ah, que costas esse homem tem!
Saí dali o mais rápido possível. Falei rapidamente com o Sr. Fernandez, que ficou agradecendo várias vezes e chorando pela mulher. Coitado dele. Pelo menos, ele vai receber o seguro. Que faça bom proveito do dinheiro. Quando finalmente entro no elevador, Edward aparece, impedindo as portas do elevador de se fecharem.
– Vai entrar ou ficar aí atrapalhando? – falei grossa. Já chega por tudo que ouvi hoje.
Falei na intenção dele sair, mas não... Ele fez o contrário: entrou. Por que homem sempre faz o contrário do que as mulheres dizem?
– Desculpa, Bella. Eu ... – interrompi-o. Não estava de bom humor. Parece que minha falta de sorte só aumentou depois que o conheci.
– Não me chame de Bella. Quem te deu essa intimidade? – falei quase pulando nele. Eu nem sempre fui tão agressiva assim, mas parece que quando estou perto dele, tudo se intensifica.
Do nada, o elevador parou sem chegar ao térreo nem nada. – Ai meu Deus, o elevador quebrou!
