HUMANO, DEMASIADO HUMANO
Capítulo II
Fevereiro de 2015
Sábado
8:00
Mu acordou um pouco mais tarde do que costumava – finalmente! Mas, ainda assim, não podia se dar ao luxo de dormir a manhã inteira, possuía muitos compromissos e afazeres reservados para este sábado. Dentre eles, dar atenção ao seu namorado.
Tornou a deitar-se, mas sobre as costas desnudas do rapaz de pele bronzeada, distribuindo suaves beijos por todo o torso atlético que repousava tranquilamente sobre os lençóis de tom azul suave. Passeava por cada musculatura com as pontas dos dedos, formando linhas e desenhos aleatórios. Olhava-o de jeito cálido, amável.
Já perdera a conta de quantas vezes fotografou aquele corpo esparramado em sua cama – Adorava fotografar Aiolos! Não só por sua beleza natural – aqueles cabelos castanho dourados e a pele quente, morena pelo sol grego – mas pelo seu ardiloso desejo de eternizar aquele momento. Materializar aqueles segundos de tamanha beleza, tornando-os eternos e quase palpáveis dentro de uma fotografia. Capturar a beleza em mil disparos. Capturar as mil belezas em mil ângulos possíveis daquele homem.
O grego, aos poucos, despertava com os toques suaves do tibetano. Puxando o ar com força enquanto que esticava os braços, virou-se para Mu com os olhos semicerrados e sensíveis pela luz do sol que entrava timidamente na janela. Sorriu, sem mostrar os dentes, mas docemente.
- Bom dia. – Sibilou, um pouco mais rouco do que já costumava ser. – Que horas são? – Respirou profundamente duas vezes, coçando um dos olhos.
- Bom dia, sonequinha. – Riu, bobo. – Acho que são umas oito e dez. – Depositou-lhe um beijo longo e estalado nos lábios. – Dormiu bem? – Subiu suas mãos até a testa do rapaz, acariciando-a e afastando alguns fios bagunçados.
- Dormi sim. Ahhh... – Esticou-se. – Porque me acordou tão cedo?
- Porque você sempre se faz de esquecido, Olos? – Mu ria de um jeito sacana, não conseguia falar por muitos segundos sem ter de beijar aqueles lábios e aquela pele tão morna. – Hoje é dia de treinarmos juntos! Sábado, lembra?
Aiolos franziu a testa. – Ah, é mesmo. – Um muxoxo. – Temos de ir mesmo correr na praia hoje? – Retribuiu ao sorriso do namorado, enlaçando fortemente a cintura de Mu com a mão livre. – Poderíamos treinar de uma outra for –
- Nem pensar! – Interrompeu o historiador. – Hoje você não me escapa, moço.
- Mas eu estou com tanto sono...
- Duvido! – Num salto, Mu foi para fora da cama, puxando os lençóis e em seguida os pés do rapaz deitado. Obteve alguns gritos e risadas em protestos. – Viu só? Está acordadíssimo!
Voltou-se a deitar sobre o rapaz. Depositou-lhe mais cinquenta beijos. – Vem, amor. – Sussurrou, manhoso. – Depois do treino a gente faz tudo que você quiser. – Mordeu-lhe o lóbulo. – Gostoso!
Aiolos riu baixinho, arrepiado. – Não faz assim que eu me apaixono, garoto.
- Então eu faço duas vezes!
XXXX
Sábado
9:46
Como combinado havia algumas semanas, foram para a praia de Varkiza, correr e fazer alguns exercícios. Era uma praia linda, repleta de hotéis e turistas. Fizeram um percurso razoável de bicicleta até alguns quarteirões antes para então seguir a pé.
Enquanto faziam alguns exercícios, Mu observava atentamente o seu namorado focado nas repetições. Ele era lindo. Era incrível. Sentia-se honrado por estar com ele. Sentia-se abençoado pelos deuses! E era de se concordar. Aiolos era um belo rapaz de pele e cabelos dourados, olhos verdes, alto, forte, mas dono de uma sensibilidade ímpar. Em suas feições, havia sempre algo de altivez e doçura, algo de responsabilidade e infância.
Flagrava-se então absorto por aquele sorriso enquanto alongavam os braços um de frente para o outro. Aquela testa ensopada de suor deixava-o ainda mais encantador. O cheiro dele, a praia, a areia que reluzia a luz do sol e a luz de Aiolos. Via-se embriagado por aquele espetáculo de homem.
Parou um momento. Segurou firme nos ombros do namorado para então forçar os braços para trás, cravando as pernas esticadas na areia. Forçou aquela posição por alguns segundos, enquanto que Aioros segurava seus cotovelos.
Encaravam-se, seriamente.
Puderam se ver um dentro dos olhos do outro, numa mistura de tons difícil de definir. É como se o tempo tivesse parado um pouco, como se o sol abrandasse ligeiramente seu calor escaldante. Tudo flutuou naqueles olhos vítreos. Como numa fotografia, capturavam o momento.
Passados os segundos, Mu soltou-se e relaxou a musculatura com uma expiração forte. Piscou lentamente, mas logo o contato entre olhos indecifráveis foi retomado. O tibetano acariciou o rosto suado do rapaz. Sério, sereno, encantado, versou: - Eu te amo.
Um sorriso largo se abriu nos lábios de Aioros, que puxou o namorado para si. Olhos nos olhos. – E eu amo você. – Flagraram-se aos cochichos. No meio da praia, no meio das pessoas e do barulho do mar, os cochichos se fizeram necessários para segredar algo que era tão forte ao ponto de ser frágil.
XXXX
Sábado
01:43
Finalizadas as edições, Kamus não se demorou muito no apartamento de Shaka, preparando-se para ir embora ao certificar-se que o amigo, de fato, não tinha nada a compartilhar. Também não insistiria. Não gostava de ser incomodado, menos ainda de incomodar.
- Eu já conversei com Milo. Amanhã, possivelmente, ele me entregará algumas sugestões de capas conforme o que você solicitou, e então você pode decidir qual o agrada. – Falou o editor, arrumando algumas fichas dentro da mochila. Fechou o zíper e olhou para o professor com um ar de dúvida, uma quase desconfiança sutil. – Precisa de mais alguma coisa para hoje?
Shaka suspirou. Estava de volta na poltrona, respondendo algumas mensagens que recebeu no celular. A taça de vinho já estava vazia. – Não, obrigado. – Respondeu, sem fitar o ruivo diretamente. – Por hoje é só.
- Tudo bem.
E o silêncio se instalou no apartamento. Ouvia-se apenas o barulho do vento vindo da varanda e dos passos de Kamus, lentos, pela sala.
"Estou a uns quinze minutos daí.", dizia uma das mensagens que o loiro leu em seu celular.
Puxou o ar com força. As dores de cabeça estavam voltando. Inferno.
- Boa noite, Shakya. – Comentou, enquanto que ele mesmo abria a porta da frente para sair. – Nos vemos em breve. – E saiu. Deixou a porta destrancada.
O loiro, finalmente sozinho, acomodou-se melhor na poltrona, afundando seus cabelos no estofado fofo e cor de terra. Olhava para o teto com um ar pesaroso – não caótico, como costumava ser, mas pesaroso.
- Porque você insiste em ficar? – Sibilou para o vento, distante. – Até quando você vai ficar?
O vento assobiou em seus ouvidos enquanto que seu cérebro parecia se contorcer em dores e mais dores. De tão acostumado, já não praguejava mais. Praguejar só piorava a situação. Apenas abraçava aquela dor como abraçara seus conhecimentos. Dor de cabeça, Nietzsche e Shaka eram meio que uma coisa só.
Uma massa pensante, dolorida, vagando por aí.
Até quando ele ia ficar?
- Deixou aberta de propósito? – Sussurrou uma voz mais salgada, grossa, do que a que ouvira minutos antes. Saga entrou a passos silenciosos, sem nem abrir a porta inteira. Em seu semblante, um sorriso cálido. – Vi Kamus saindo do prédio.
Olhou para o outro rapaz na entrada de sua casa de soslaio. Detestava quem entrava nos seus domínios sem bater ou perguntar, mas a dor era tanta, TANTA, que ele se flagrou sem condições de, inclusive, reclamar.
- Não. – Respondeu, num murmúrio inexpressivo, de olhos fechados.
O homem que entrava no seu apartamento era oito anos mais velho que Shaka. Mas seu rosto era tão jovial quanto. Saga Vetimiglia era doutor em Filosofia Clássica, excelente profissional, e, apesar de não concordar com a perspectiva niilista do indiano, assim como seu gênio indomável, orientou-o durante sua estadia na Basiléia. Aliás, não só o orientou na academia, como em seus lençóis, em sua cama, em sua vida.
Foram amantes por alguns meses. Foram, não são mais. Mas nesse pouco tempo, Saga demonstrou-se um homem atencioso e disposto a reconstruir todo o mundo que Ayesha tinha perdido com aquele outro filho da mãe. Mas o indiano não queria.
Vetimiglia tentou arduamente conquistar o amor daquele rapaz. Sem força-lo, claro, utilizava-se de toda sua experiência, dedicação e inteligência para tê-lo. Queria-o como quis poucos homens ao longo de sua vida. Sua vida não chegava a desmoronar sem ele – era um homem feito e suas experiências passadas tornavam-no num sábio -, mas ainda ficava ressentido com a recusa do mais novo.
O que aquele maldito tinha que alguém como Saga Vetimiglia não tinha?
Enfim, o grego adentrou no apartamento sem grandes cerimônias. Parou no meio da sala, a observar o loiro perturbado. Conhecia-o. Os lábios comprimidos numa linha reta, os olhos semicerrados, as mãos abraçadas aos cotovelos, trancado. Consternado, mas indecifrável.
Pensou em distraí-lo. Puxou a cadeira do computador e sentou-se de frente para o jovem loiro. Seus olhos de um azul profundo pareciam pedir permissão para entrar em contato com os azuis vítreos do outro. Buscava-o, sutilmente.
- Você mal falou comigo na universidade. – Comentou. – É assim que recebe seu ex-orientador, que te indicou para ocupar a vaga para professor? – Riu, destilando uma amargura que não tinha.
Sabia que muito dificilmente Ayesha ia falar com ele com entusiasmo na universidade. Era formal até na cama, quanto mais num departamento. Mas mesmo assim, não custava provoca-lo para obter um pouquinho da sua atenção.
Shaka suspirou. – Eu tinha coisas mais importantes pra fazer. – Levou as mãos até as têmporas, massageando-as. – Mas você sabe que eu sou eternamente grato a você, professor. – Finalmente abriu os olhos. Seu tom de azul era infinitamente mais bonito que o tom dos olhos do homem a sua frente.
Mas isso não anulava a beleza exterior do grego. Cabelos castanhos-claro amarrados num rabo de cavalo frouxo, corpo muito bem delineado por uma camisa de botão de tecido fino e uma calça jeans preta. Seus traços eram fortes e retos, uma grosseria que dava origem a uma beleza quase robusta. Seus traços eram exatos como um deus grego esculpido no mármore, veias sobressalentes nas mãos e nos pulsos.
Tão belo.
Tão amável.
Shaka sofria em não conseguir amar aquela beleza.
Tinha-o entre os dedos na mão, sabia disso. Tinha-o como o teve no passado. Se bem quisesse, o teria gemendo seu nome com todo a sofreguidão que esperava ouvir. Como já ouvira, como já tivera. E teria mais, muito mais.
Mas porque diabos não conseguia deseja-lo para sempre consigo?
Porque seu desejo mais profundo e ardente estava reservado, ainda, a outro.
Tanto tempo.
Tanto desejo que ainda vive.
- Shaka? – Chamou o outro. O indiano piscou algumas vezes, a sua cabeça latejava.
Não tinha percebido que, agora, os olhos do outro estavam bem próximos dos seus. Perdera-se nos próprios pensamentos e na dor de cabeça. Estava delirando sem professar loucuras. Estava cego com a visão limpa.
O rapaz mais velho tinha perguntado alguma coisa que Shaka não ouvira nem estava interessado em perguntar o que era, ou pedir para que repetisse. Se limitou a encará-lo com um olhar de interrogação.
- Está com mais dores, não é? - Saga riu sutilmente. "É só um menino.", pensou.
Levantou-se da cadeira e deu dois passos até a poltrona, ajoelhando-se a altura dos olhos vítreos e azuis. Perto demais. Via a dor, via as dúvidas e a crise que nem todos os livros de filosofia pós-moderna do mundo poderiam sanar. Um corpo tão frágil, resguardado pela inteligência e arrogância de um deus. Era impossível não se flagrar apaixonado por aquele rapaz. Nada mudou.
- Eu conheço um remédio para essa sua dor de cabeça. – Levou a mão até a nuca do filósofo niilista, emaranhando seus dedos nos fios loiros.
Encaravam-se. Ayesha estava inexpressivo. Perdido nos aforismas do seu raciocínio.
"Amo aqueles que só sabem viver em extinção, porque esses são os que cruzam de um lado para o outro."(1)
Saga era um daqueles que vivia em extinção. O Super-Homem que tanto procurou, bem ali, na sua frente.
E mesmo assim não conseguia amá-lo. Tão entregue a si, o homem dos homens, tão ávido por seus beijos. Mas Shaka continuava no abismo.
Num suspiro profundo – o arrepio pelas mãos hábeis de Vetimiglia em seus cabelos – beijou-o. Sem mais delongas, sem mais indiretas de um jovem mestrando, beijou-o.
Entregar-se-ia, mais uma vez, a quem podia abarca-lo com as mãos.
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Fevereiro de 2011
Madrugada
Basileia, Suíça
- Ele não está atendendo.
- MERDA! - Saga voava na Avenida, furando todos os sinais vermelhos e cortando carros que estivessem a sua frente. Ao seu lado, Kanon – seu irmão gêmeo – tentava insistentemente ligar para o seu ex-orientando. As chamadas perdidas já se acumulavam em dezessete.
- Ele tinha que aparecer JUSTO no dia da seleção? – Berrava o grego ao volante. Viu como Shaka saiu da avaliação da banca, e viu como ele tremeu dos pés à cabeça quando aquele ser diabólico apareceu na sua frente. O que diabos ele estava fazendo na SUÍÇA?
- Eu vou arrumar um jeito de confiscar o passaporte desse MALDITO. – Dizia o professor, entre dentes. Estavam já próximos da casa alugada do indiano, faltavam poucos quarteirões.
- Saga. – Pontuou Kanon, se agarrando no banco do carro. – Vá devagar, em nome de cristo. E você é um professor de filosofia, não o Don Corleone.
O Vetimiglia mais velho freou o carro na frente do condomínio universitário, fitava o irmão mais novo com fúria. – Não é hora para gracinhas, Kanon.
Saíram do carro sem render a conversa. Saga marchava nervoso por entre as casas, procurando a numeração do alojamento de seu ex-orientando. Era uma das últimas.
Ao chegar, viu que as luzes estavam acesas. Tocou a campainha seguidas vezes.
- Merda, merda, merda, MERDA! – Praguejava. Forçava o trinco, com desespero. Kanon tentava encontrar brechas nas cortinas que cobriam as janelas. Em vão.
- Arromba logo isso, Saga! – Disse o irmão, também nervoso.
O professor tirou o terno, folgou a gravata e se afastou da porta. Passou as mãos raivosamente pelos cabelos e puxou o ar com força.
Seu amado precisava de ajuda.
E assim o faria.
Correu, e canalizou toda a sua força para a perna direita, chutando a porta com toda a força que tinha. Mais de noventa quilos muito bem distribuídos contra uma porta de madeira prensada, claro que esta cedeu. Entraram na casa sem ligar para o estrago da porta.
O estrago maior, aliás, estava desmaiado sobre o chão da sala de estar. Havia manchas de vômitos e sangue no carpete. Os pulsos do rapaz loiro, muito abaixo do peso, estavam encharcados de sangue. Os fios loiros se espalhavam pelo chão formando um desenho estranho. O rosto, marcado por lágrimas e olheiras profundas, parecia dormir "tranquilo" em meio aquele caos.
Saga lançou-se de joelhos no corpo inerte e tratou de levantá-lo num impulso só. Seu joelho, que ainda sentia o impacto da porta, agora não doía mais por conta da adrenalina. Shaka estava gelado em seus braços, e não sabia se ele ainda estava vivo. Não queria saber. Pelo menos, não agora. Precisavam ir ao hospital.
Kanon discava o número da emergência no celular. Num alemão sotaqueado, falava com a atendente. – Estamos levando um rapaz para o hospital universitário. – Pausa - Sim, estamos no condomínio da universidade. – Pausa. – Não, temos um carro.
- Vamos, Kanon, VAMOS! – Saga disparou para fora da casa, correndo com toda resistência em direção ao seu veículo. O gêmeo mais novo, ainda no celular, encostou desajeitadamente a porta e seguiu pelo mesmo caminho.
Em meio a todo esse caos, com olhares de desespero e doses impensadas de adrenalina, o loiro sonhava – ou via? – coisas turvas. Sentia-se chacoalhado ao mesmo tempo que flutuava. Tentou abrir os olhos, devagar. Estava tudo pesado demais, turvo demais.
Pelas brechas que sua visão permitia, viu uma figura acima de si. Robusta, escura pela noite. Quente.
Seu coração, ainda que fraco, deu um pulo. Tentou sorrir, tentou falar, mas sua garganta queimava como as chamas do inferno. Algo o arranhava. Tinha engolido areia? Não se lembrava. Será que tinha confudido Xanax com areia?
Meu deus do céu, tente se concentrar, Shaka!
Em nome de todos os deuses, era ele?
Era Ikki?
CAPÍTULO II – Fim
Frase de Nietzsche, no livro "Assim Falou Zaratustra".
