Alexandra

Philip é o mais próximo que eu posso chamar de família, ou o mais próximo de alguém que eu posso ter gratidão por me "criar", afinal, família é praticamente sinônimo de amor, e amor é algo que eu não tenho dentro de mim. Philip é meu tio paterno e o homem que resolveu me adotar após a morte do meu pai. Minha mãe morreu ao dar a luz e meu pai, segundo Philip, morreu em um incêndio na propriedade que morávamos na época. Eu não me lembro do acontecimento. Philip tinha mais um irmão, o que costumava me estuprar, David. Quando descobriu sobre os estupros, expulsou-o de casa. Eu deveria ter cerca de 13 ou 14 anos. Hoje tenho 18. Apenas pela satisfação de meu tio, obedeço a suas ordens.

Hoje viemos à festa na praça central da cidade, para comemorar o aniversario de 14 anos da princesa Rosalinda, a filha do Rei. Não sei o motivo, mais Philip tem se interessado muito por essa garota nos últimos meses. Só pode ser pela herança da pirralha, que provavelmente deve ser uma daquelas garotas nojentas e mimadas.

- Hey, Alexandra, aquela garota é a princesa.

Philip disse no meu ouvido apontando para um palanque que havia no centro, onde se encontrava uma garota sentada ao lado de um homem que aparentava ter 39 ou 40 anos.

Ela usava um vestido rodado, mesclado de azul celeste e azul turquesa. Sua pele parecia porcelana pelo tom de brancura e suas bochechas tinham um tom rosado natural, talvez pelo frio de setembro e a pouca roupa que usava. Philip me puxou para mais perto do palanque, onde pude perceber melhor a imensa beleza da garota, apesar da pouca idade. Por um momento os orbes de seus olhos se encontraram com os meus e pude notar a cor inovadora. Era de um tom Ametista. Chamava atenção pela sua pele albina e seus cabelos escuros em um tom chocolate. Seus lábios eram avermelhados e convidativos. Eu estava quase em um estado hipnótico. Uma das pessoas dentre a multidão esbarrou em mim e me fez despertar dos meus pensamentos. Continuei olhando para a garota, mas antes que pudesse pensar em algo Philip tocou em meu braço como uma forma de chamar minha atenção.

- É uma garota encantadora, não?

Pude notar o desejo em seus olhos e por um minuto um sentimento de raiva cresceu dentro de mim ao ver a cena de meu tio interessado em uma garota de 14 anos.

- Sim, ela deve ser desejada por muitas pessoas deste reino.

- Qualquer homem se sentiria honrado com uma doce criatura dessas ao seu lado.

- Não apenas homens.

Após alguns segundos pude perceber o que acabara de pronunciar, o que estava pensando? Tenho certeza que meu tio percebeu os meus pensamentos de baixo nível.

- Entendo

Ele disse me olhando de um jeito esquisito. Pude perceber o olhar malicioso que jogou sobre mim. Mesmo considerando meu tio alguém quase especial, após meus 15 ou 16 anos, percebi suas segundas intenções. Ele seria incapaz de fazer algo contra mim à força, mais se eu desse uma chance tenho certeza que ele faria algo, sempre o ouvia dizer sobre o quanto eu era bonita e tinha um corpo esbelto. Simplesmente o ignorava.

O rei Miguel Afonso tomou a frente do palanque, ainda acompanhado por seus homens, que garantiam sua segurança, e começou o seu discurso, agradecendo o apoio que teve do povo de sua cidade após o falecimento da sua esposa. Todos podiam perceber a expressão da princesa. Ao ouvir o pai tocar no assunto, ela logo abaixou a cabeça e fitou algo na plateia, enquanto o pai continuava a agradecer a todos por comparecerem e convidava todos os presentes ali para comemorar o décimo quarto aniversário de Rosalinda em um jantar mais tarde em sua casa. Após os aplausos da plateia que se encontrava naquele local, foi formada uma fila ao encontro de onde a garota estava sentada, para oferecer-lhe parabéns por mais um ano de vida, fila na qual eu entrei junto ao meu tio.

- Não faça nada de imprudente, apenas deseje feliz décimo quarto ano de vida à garota.

Ele disse em um tom exclamativo, provavelmente alertando-me pelo jeito como a pequena cidade me via. Sempre me julgavam como vulgar e em casos de muitos assassinatos me culpavam pelo simples fato de eu andar armada em quase todos os momentos. Mas os rumores estavam cada vez menos expostos, já que eu e meu tio tínhamos mudado para um lugar um tanto quanto distante. O castelo e suas redondezas ficavam na entrada da cidade. O que chamava atenção nesse reino era o seu imenso e bem cuidado pomar, e próximo dali encontrava-se nosso novo lar, onde provavelmente ninguém nos encontraria.

A fila se encontrava cada vez menor e eu cada vez mais próxima, até que chegou a vez de Philip. Ele pegou a pequena mão da garota, ajoelhou-se sobre apenas um joelho, e, olhando em seus olhos como se fosse devorá-la, depositou um beijo na mão da menina.

- Parabéns por mais um ano de vida, é uma honra.

A garotinha apenas o olhou e, certamente percebendo seu olhar, acenou com a cabeça.

- Obrigada.

Philip soltou sua mão e andou em passos lentos para distante dali, dando espaço para mim. Diferente do resto das pessoas da fila, estar ali não era uma honra pra mim, por isso iria agir naturalmente, afinal, o que uma garota pré-adolescente poderia fazer de mal?

- Parabéns...

Mas não pude me contentar com uma misera palavra.

- Você fica linda de azul.

A garota abriu um sorriso um tanto quanto bonito e hipnotizador, em minha opinião.

- Obrigada, tenho certeza que a senhora também ficaria muito bela de azul.

Apenas abri um sorriso de lado, algo que há um tempo não fazia. Ela se referia a mim como se eu fosse uma dama, isso tinha seu tom engraçado. Philip encarou-me com uma cara de desprezo, certamente não havia gostado do meu comentário para a garota.

- O comentário foi desnecessário

Ele falou enquanto continuava a andar para perto de uma carruagem que se encontrava ali.

- Aonde vamos?

- Ao jantar de comemoração

- O que deseja fazer com vossas presenças no local?

Philip olhou para os dois lados, percebeu que muitos ainda estavam ao redor do palanque onde a garota se encontrava e me puxou para trás de uma árvore.

- Nós precisamos da garota, não questione minhas ordens e minhas ações.

Velho escroto dos infernos, ele já tinha seus 45 anos, em uma munição eu acabava com ele. Mas o que ele quis dizer com "precisamos da garota"?

- Você vai sequestrar a garota?

- Não. Você vai.

- O que?

- Qual o seu problema? Esta com alguma deficiência auditiva? Sabe o quanto a herança dela vale?

- Eu me recuso a fazer mal a ela.

- Por quê? Você está com pena dela? Acha que se um dia ela olhasse pra você ela sentiria piedade? Você deve obedecer minhas ordens, entendeu?

Ele disse apontando o dedo na minha cara, mas não gritando. Ele quase cochichava, para não chamar atenção.

- Entendeu?

Perguntou um pouco mais alterado. Engoli toda a raiva que subira no meu sangue e respirei fundo.

- Sim. Não estou com dó da garota, mas ela é a filha do rei. Não vai ser um trabalho fácil.

- Não vai ser difícil mantê-la conosco, a parte difícil será o sequestro, mas você cuidará disso.