Notas Iniciais:
Um lembrete... Esta história conterá uma trupe fictícia chamada Harotsuka, qualquer fato relatado é pura ficção, mas eu me inspirei em um grupo especializado em musicais que realmente existe chamado Takarazuka Kagekidan. Por outro lado, os dados fornecidos não serão fidedignos.Sailor Moon não me pertence, não lucro nada com isto.
Olho Azul Apresenta:
Na Cabeça,
No Coração
Após depositar sua última ficha na máquina, Usagi inspirou fundo e retornou ao jogo. Antes houvesse calculado melhor seus gastos do dia, mas não ouvira que hoje apenas haveria aula até o almoço. Agora ela estava sem o que fazer e sem dinheiro para jogar mais até a hora da reunião convocada por Rei.
Ademais, desde que conhecera pessoalmente a Sailor V, ou Sailor Venus, como ela dizia preferir, tornou-se difícil controlá-la ali na máquina. Ficava pensando como seria controlar um avatar de si mesma. Bem, com a fama que a Sailor Moon vinha alcançando, logo Usagi conheceria o exato sentimento. Por enquanto, restava-lhe imaginar e...
— Droga! — Bateu com os pulsos contra a barra de controle do videogame, as palavras de GAME OVER piscavam sadicamente com mais intensidade que o de sempre agora que não tinha fundos para comprar mais fichas. Ia chutar a máquina para descarregar a ira, mas ouviu a voz de Motoki conversando ao longe. — Salva pelo gongo — disse, dando leves palmadas no controle.
Com as quase duas horas que ainda precisava enrolar até a reunião, poderia gastá-las fofocando com Motoki. Era sua intenção quando rumou ao balcão e lá também encontrou Mamoru.
Juntou um pouco de força na mão e mirou no ombro dele.
— Ai! — Mamoru reclamou, o rosto contorcido sem ainda resquício de raiva.
— Então, não melhorou, é? — Embora não o tivesse atingido com força, estava arrependida.
— Com pancadas assim, não vai nunca — agora sim seu tom transparecia o aborrecimento.
— Melhorou o quê?
Usagi e Mamoru voltaram-se para um Motoki confuso.
— Não foi nada — disse Mamoru.
Mas Usagi já estava pronta para explicar:
— Ele caiu da moto. Olhe só, justo o certinho do Mamoru foi cair da moto e ralar o ombro. Anteontem tava sangrando a blusa dele toda.
— Mas não foi nada — ele insistiu por entre os dentes.
Com a sobrancelha carregada, Motoki fitou o ombro em questão.
— Se é o que diz... — disse por fim.
— E você, por que tá me olhando? — Mamoru perguntou, afastando-se de Usagi.
Ela não conteve o sorriso cheio de intenções.
— Sabe, a Nao-san disse que eu poderia visitar o set sempre que você fosse lá.
— Usagi-chan já conhece a Sakamoto-san? — Motoki perguntou com o tom misto entre divertido e curioso. Ele segurou um tecido do lado saudável de Mamoru e o balançou fazendo beiço. — Eu mesmo ainda não a vi. Fiquei com ciúmes, Mamoru-chan!
— É que ele quer a Nao-san só pra si. Mas a Nao-san conhece tanta gente bonita e famosa que nunca daria bola pra um pirralho desses. — Usagi gargalhou, dando um tapa nas costas de Mamoru. — Foi mal — disse ao percebê-lo se contrair de dor e recolheu a mão como se pudesse descartar a arma do crime.
— E ainda quer que eu te leve? — ele perguntou com a testa enrugada, os olhos quase saltando.
— Nossa, calma, calma... eu só esqueci.
— Ele vai buscá-la daqui a pouco — interrompeu Motoki, o olhar mandando uma mensagem de vingança para Mamoru, provavelmente ou por não lhe haver contado sobre o machucado ou por não lhe haver apresentado a Nao.
Fosse qual fosse o motivo, o claro objetivo se concretizou. Mamoru parecia pronto a evaporar, tão quente parecia sua cabeça com aquela conversa.
— Mais um pouco, eu desisto e quero ver você arrumar outro assistente de confiança — Mamoru disse cruzando os braços.
— Um amigo teve que viajar a trabalho — Motoki explicou a Usagi. — E pedi ao Mamoru pra substituí-lo de assistente.
— E por que não me chamou? — Usagi perguntou francamente desapontada.
— Você é muito nova pra isso.
— E seria demitida no primeiro dia — acrescentou Mamoru, soando menos aborrecido. — Sem contar que ia se perder, quebrar os equipamentos, deixar o staff louco... E tire o cavalo da chuva, a Nao-san não conhece tanto assim os atores. A maior parte de suas cenas é com gente menos famosa que ela.
Usagi deu de ombros.
— Aposto que ela conhece muita gente famosa, sim. A gente não a viu naquele dia com uma menina que tá no Harotsuka?
— Aquele musical? — perguntou Motoki curioso. — Tem tanta gente lá, ninguém é realmente famoso.
— Pra vocês, não é! — Usagi insistiu.
— Isso é fantasia sua — Mamoru disse ríspido, mas com uma nuance de escárnio. — Até eu te dizer, essa sua cabecinha de vento achava que ela era um homem. Não pôde dizer nem o sexo, imagine o nome ou o nível de fama.
Ao ouvir sobre aquela confusão, Motoki não conteve um riso que durou por um tempo. Usagi encolheu-se envergonhada. Na verdade, havia esquecido que não passava de suposição sua aquela moça com a Nao ser do Harotsuka e não era um fato confirmado.
— É que elas são muitas... é difícil identificar na lata — argumentou com a voz baixa.
— E todas iguais — completou Mamoru em tom de quem concordava.
Usagi estava já assentindo feliz por havê-lo convencido, quando notou o que ele realmente havia dito. Puniu-o com um pontapé.
— Peça um favor e chute a pessoa, é sempre um método eficaz — Mamoru comentou sem demonstrar haver sentido o golpe. Em vez disso, olhou para o relógio e estalou a língua. — Droga, tenho que ir ou não chego à casa dela na hora.
Ele pegou a pasta que havia deixado sobre o balcão e se despediu de Motoki. Quando chegou à porta de entrada do salão, porém, voltou-se para trás e buscou Usagi com o olhar.
— Você não queria vir?
— Sim, sim, sim! — Usagi se juntou a ele, dando pulos literais tamanha sua empolgação.
— Vamos de trem até lá; pague sua passagem. E não perca tempo na bilheteria!
— Ai, que chatão que você é; eu tenho meu passe — disse, já revirando a bolsa da escola atrás de seu cartão.
Se houvesse usado as moedas no bolso de seu uniforme, não teria percebido seu comunicador chamando...
— Droga... — resmungou para o maldito comunicado, sabendo que seu passeio nos sets do drama e seu encontro escrito nas estrelas com o ator principal, com quem ela viveria um lindo romance, teriam que esperar.
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— O que ele está olhando tanto, afinal? — Mars perguntou irritada, não pela primeira vez.
Se havia algo que Usagi detestava mais que detenção e reuniões, era ter que batalhar youma. Acima de youma, ultimamente, encontrava-se aquela figura os observando com uma expressão entre atenta e entediada.
— Deve estar esperando aquele amigo da última vez — Jupiter comentou também atenta aos movimentos de Zoicite enquanto as quatro seguiam aplicando golpes no monstro que havia aparecido pouco antes da hora marcada para a reunião.
Usagi bufou antes de lançar sua tiara sobre a criatura.
— Ele não vai cair, não?
— Tá atrasada pra ver novela, é? — Mars indagou em tom de implicância. — Esqueceu que ainda temos algo a conversar no templo?
Sim, ela estava inquieta. Havia conseguido permissão de Mamoru para acompanhá-lo até a gravação e, quando estava pronta a segui-lo, Luna a chamara para aquela batalha. Ela nem sequer precisava estar ali, aquele monstro parecia o mesmo de sempre. Ademais, o último cristal arco-íris já havia sido encontrado.
— E se o atacarmos? — Usagi perguntou, repentinamente sua raiva estava direcionada a Zoicite. —Podíamos fazê-lo refém e exigir uma troca pelos cristais!
A risada de Zoicite as interrompeu.
— Só suas ideias para me entreter, Sailor Moon — comentou ele divertido. Então, ergueu o braço e comandou o youma a atacá-las de novo. — Força total — disse tão firme que nem mais parecia a mesma pessoa falando.
— Pulem! — comandou Mercury com urgência, provavelmente após receber as leituras da energia do monstro em seu computador.
O golpe pareceu seguir o previsto por Mercury, atingindo o chão e arrastando as pedras por mais de cem metros até atingir uma parede. Esta partiu para revelar alguém, até então protegido ali atrás.
Não foi somente Usagi que observou aquela visão incrédula, mas era certamente a que mais duvidava do que estava à frente de seus olhos. De quem estava ali.
— N-Nao-san? — disse sem conseguir emitir som e lançou todo o corpo até ela, antes que Zoicite ou o youma acabassem por feri-la. Sua sorte já estava zerada por parecer ilesa depois daquele impacto.
Mas todo o impulso para saltar até Nao voltou contra o corpo peludo do youma. Ele havia detido Usagi pela cintura, a enorme mão envolvendo suas costelas sem cautela alguma. Ela fechou os olhos de dor, apertando os dedos dele para escorregar por cima enquanto suas pernas dançavam no ar.
— Sailor Moon! — suas amigas gritaram.
— Ora, temos uma civil no meio do nosso parque de diversões? — ouviu Zoicite comentar, mas não conseguia virar o corpo para ver o que ele pretendia.
Uma rosa cortou o ar, acertando o grosso pulso do youma, que ganiu. Usagi aproveitou a distração para saltar para longe, ajoelhando de dor sobre o terreno, mas livre.
— Tuxedo Kamen! — disse antes mesmo de localizá-lo.
Por fim, encontrou-o ao lado de Nao, segurando-a para levá-la embora.
— Não tão cedo. — Zoicite conjurou um trio de farpas de gelo, arremessando-as contra o chão onde Tuxedo Kamen e Nao estavam antes de escaparem por pouco. — E sinceramente, não precisava ter demorado tanto se arrumando agora que nos conhecemos tão bem. — Ele sorriu malicioso, fazendo Usagi engolir em seco. — Quase perdeu o melhor da festa.
Em seguida, ele saltou para o espaço à frente de seu youma e mostrou a palma da mão.
— Que tal ser um bom menino e me dar logo seus cristais?
— Temo que este nosso compromisso tenha que ser adiado mais uma vez — Tuxedo Kamen respondeu sem alterar sua expressão grave, a mão fixa sobre o ombro de Nao.
Zoicite levantou o indicador e o balançou.
— Pra você me dar outro bolo? Vamos decidir isto aqui mesmo.
Ainda sem compreender aquela conversa, Usagi percebeu o olhar de Tuxedo Kamen passar por ela e por suas amigas antes de voltar ao rival.
— Temos uma audiência grande demais. — Ele apontou para o youma, o qual aparentava estar congelado tão inerte restava desde que Zoicite entrara à sua frente.
— Isto o assusta? Pode deixar, não faremos nenhum mal à sua amiguinha — disse, estalando um dedo.
No instante seguinte, múltiplas pétalas circularam o youma, que pareceu duplicar de tamanho. E então rugiu, os olhos mais raivosos que antes encontraram os das amigas de Usagi e naquela direção ele avançou, e um golpe energia causado pela transformação do monstro as atingiu antes mesmo disso.
Zoicite sorriu.
— Basta me manter ocupado agora. Preparado?
Ele jogou todo o corpo na direção de Tuxedo Kamen, brilhava contra o sol uma adaga em sua mão, feita de um material semelhante a gelo.
— Nao-san! — Usagi gritou. Sem qualquer plano sobre o que fazer, pulou no meio da batalha e segurou Nao nos braços, puxando-a pela mão para o mais longe que as pernas de ambas aguentassem.
Um lado de sua barriga doía mediante o esforço repentino e, mais de uma vez, ela havia pisado errado, mas precisava afastar Nao até onde ela própria pudesse fugir em segurança. Atrás de si, sentiu o impacto contra o ar provocado por algum golpe de Zoicite.
Olhou preocupada para Nao, mas esta assentiu de volta com confiança embora a expressão contraída dissesse o oposto. Usagi tentou apertar o passo, mas continuavam em campo aberto, alvos fáceis para Zoicite e suas criaturas. Agora que pensava melhor, deveria ter escolhido outra direção, talvez àquela altura já houvessem adentrado alguma rua entre os prédios.
— Nao-san, sinto muito... — disse antes de virar para a esquerda. Ainda dava tempo de corrigir, repetia em sua mente. Ainda dava tempo de afastar Nao. — Só mais um pouco — acrescentou ao perceber que a estava puxando cada vez mais.
Mas chocou-se contra uma parede e as duas caíram. Usagi olhou de volta desnorteada. Não havia parede alguma à frente, mas havia sentido algo ali.
— O que houve? — Nao perguntou, tentando se reerguer.
— Eu só não achei nada legal esse pique-pega que vocês decidiram jogar. — Um homem apareceu onde a suposta parede invisível estava.
Olhando para trás, onde Tuxedo Kamen e suas amigas pareciam ocupados demais até para verem que ela não havia escapado, Usagi sentiu a garganta seca.
— Você é—
— Kunzite. — O homem curvou com exagero. — Creio que já nos encontramos faz pouco tempo.
— Vocês já têm os cristais, o que mais querem? — ela demandou, lutando contra o desespero ameaçando afogá-la. Quando apenas recebeu um sorriso de escárnio — um que a fazia pensar em como nunca mais deveria chamar assim os de Mamoru —, Usagi mudou de estratégia e fez um sinal com a cabeça para Nao. — Deixe-a ir. Ela não tem nada a ver com nossa luta. Só estava no lugar errado!
Pelo olhar de Kunzite, percebeu que era a primeira vez que ele se dava conta da presença de mais uma pessoa ali. Ele a estudou por mais um momento antes de voltar-se para Usagi.
— Não tenho nada com ela. — Mas uma espada havia surgido em sua mão, que agora a erguia com a lâmina na direção das duas. — Ela pode tentar fugir enquanto acabo com você, Sailor Moon.
A espada baixou tão rápido — ou talvez fosse ela quem estivesse mais devagar tão cansada se sentia — que Usagi pôde apenas virar o corpo para proteger Nao e fechar os olhos.
Quando os abriu novamente, novo milagre havia acontecido e algo acabara de laçar a espada de Kunzite, segurando-a firme como se a pessoa brincasse de cabo de guerra com ele. O próprio Kunzite chegou a olhar confuso para onde Tuxedo Kamen ainda lutava corpo a corpo com Zoicite e também para o youma, que seguia ocupado com as demais sailor senshi.
— A idade o deixou bem enferrujado, né? — perguntou a recém-chegada. Sailor Venus estalou a língua várias vezes. Então, gritou para Usagi com um tom nada parecido com o anterior: — Sailor Moon, fuja!
Usagi pegou o braço de Nao novamente e voltou a correr para os prédios. Desta vez, viu claramente o que a detivera quando a espada de gelo de Zoicite voou bem perto de seu nariz. O mesmo apareceu e a puxou com força, segurando-a com a mão em seu pescoço enquanto usava a outra para chamar sua arma de volta.
— Cansei desta brincadeira. Hora de me passar os cristais, Tuxedo Kamen. — A lâmina passou rente ao pescoço de Usagi.
— Nao-san, cuidem da Nao-san! — ela gritou sem nem saber se haveria qualquer pessoa para atendê-la.
Abriu os olhos, que nem notara haver apertado até ver pontinhos brilhantes na escuridão, e notou que suas amigas haviam chegado enfim.
— A Nao-san! — repetiu.
— M-mas... — Jupiter ainda argumentou.
Contudo, foi Zoicite quem complementou o ponto de Usagi, lançando farpas de gelo na direção de Nao assim que entendeu de que se tratava o assunto.
— Vão pegar — disse ele como se tivesse acabado de arremessar uma bola para o cachorro.
— Droga! — Usagi ouviu Mars esbravejar antes de pedir ajuda para cumprir com o pedido.
— Voltaremos logo, Sailor Moon! — disse Mercury, apontando na direção que seu computador parecia exibir.
— Que bom... — O alívio de Usagi durou até a sensação da lâmina contra sua garganta tornar real. — O que quer fazer? — perguntou a Zoicite, seus olhos sem encontrar Tuxedo Kamen em lugar algum. — Ele já foi embora.
— Duvido! — Zoicite gargalhou e então chamou em voz alta. — Tuxedo Kamen, pare de blefar. Não vou me distrair, nem adianta. Sei que não fugiria. Porque agora sei quem você. Um simples homem. Nada mais que um verme de um homem que se importa sim com o que acontece a qualquer outro homem. — A lâmina se aproximou mais e Usagi sabia que já havia a arranhado embora superficialmente. — Principalmente com o que pode acontecer a esta aqui. Cansei! — Zoicite afastou a espada para tomar impulso.
O laço de Sailor Venus salvou Usagi pela segunda vez, chicoteando contra o braço de Zoicite. Contudo, Kunzite pareceu recuperar a vantagem na batalha e derrubou Venus antes que pudesse interferir mais.
A distração, todavia, pareceu funcionar para o plano de Tuxedo Kamen. Uma chuva de rosas afastou Zoicite ainda mais de Usagi, agora salva nos braços de Tuxedo Kamen. Ele correu a segurando, mas Zoicite já os seguia.
— Não me importa o quão covarde seja! — gritava ele raivoso. — Vou arrancar os cristais de você esta noite!
Gentilmente devolvida ao chão, Usagi sentiu Tuxedo Kamen prender momentaneamente a respiração. Ele não reagiu mais que isso, continuando a corrida para salvá-la.
— Pra que fugir? Enfrente-me! — ainda gritou Zoicite. Usagi espiou sobre o ombro de Tuxedo Kamen e notou que ele havia parado de segui-los. — Fuja para onde quiser, pois eu vou encontrá-lo, Mamoru Chiba!
Sabia não haver entendido errado, mas Usagi ainda torcia para o errado ser aquele general do Dark Kingdom. Afinal, ele não podia estar certo. Todavia, a expressão de Tuxedo Kamen em nada se assemelhava a alguém que acabara de ouvir um absurdo como aquele.
Na verdade, a expressão que Usagi encontrou ao encarar Tuxedo Kamen era... de Mamoru Chiba.
Continuará...
Notas da Autora:
E aí? E aí? Tô morrendo de curiosidade pra saber a opinião de vocês. Não me deixem aqui no silêncio, por favor... (autor insegura)
Comentem e comentem sempre!
