Capítulo 2 – Você não é um erro
...Kagome...
Kagome.
-Kagome!
A colegial abriu os olhos lentamente, pesados de sono. A voz ligeiramente familiar era acompanhada de vozes alteradas e cansadas, abafadas pelas paredes. Eles ainda estavam brigando? Que horas são?
-Duas da manhã...?-Ela olhou para o relógio no criado-mudo e depois para os olhos de quem a acordou. Encontrou aqueles olhos cor de sol brilhando sob a luz fraca do abajur, cheios de curiosidade e preocupação. Então ela lembrou que deveria ter voltado aquela noite, e já podia até imaginar o hanyou com aquela careta de irritação e impaciência.-Inuyasha...
-O que diabos está acontecendo aqui, Kagome?-Ele perguntou, olhando por cima do ombro quando o vovô resmungou alguma coisa sobre yokais tentando possuir o gato gordo da família.
CRASH!!!
Souta levantou do outro lado da cama, perto do pé, sobressaltado. O vovô olhou sonâmbulo ao redor, murmurou alguma coisa sobre demônios invadindo a casa dos outros, e virou pro outro lado, roncando outra vez. Inuyasha olhou para a colegial com os olhos arregalados e Souta se encolheu e foi até a irmã em busca de conforto.
-Eles não pararam ainda?
-Ainda não, Souta. Mas não se preocupe, logo acaba.-Ela garantiu, dando suaves e gentis tapinhas na cabeça do caçula e esperou que ele se ajeitasse no pé da cama para dormir outra vez, usando suas pernas cobertas como travesseiro.-Boa noite, Inuyasha.-Ela sorriu sonolenta.
-Sua mãe está brigando feito uma louca com um estranho lá embaixo e você me deseja boa noite? Você sabe o que está acontecendo, bruxa?-Ele arqueou as sobrancelhas.
-É, eu sei.-Ela bocejou.-O estranho é meu pai, e a mamãe infelizmente tem boas razões pra estar brigando com ele.
-Seu pai?-Inuyasha olhou assustado para o chão quando sentiu alguma coisa colidir com o teto lá embaixo, bem debaixo dele.-Você nunca me contou sobre ele.
-Você nunca perguntou.-Ela virou de bruços e abraçou o travesseiro, escondendo metade do rosto nele.
Inuyasha observou ela fechar os olhos lentamente. Olhou ao seu redor, perguntando-se porque Souta e o avô dela estavam dormindo ali. Será que tinha algo á ver com a briga? Provavelmente. No quarto de Kagome os barulhos da confusão chegavam mais abafados, até o ponto que era possível dormir um pouco. Mas ele não conseguia entender: como Kagome podia estar tão tranqüila enquanto seus pais estavam daquele jeito no andar de baixo? Souta estava mais inquieto, e dava duro para tentar ignorar os berros. O avô preferia nem se meter, então era normal ele ignorar. Mas Kagome? Ela era filha deles! Por que estava ignorando?
-"Deve ser difícil. Ela deve estar dividida entre ficar com o pai ou com a mãe se eles se separarem. Mas... será que isso já não aconteceu?" Hei, Kagome...-Ele parou quando notou que ela estava de olhos fechados, pensando que ela estava dormindo.
-Hum?-Ela abriu o olho que não estava escondido no travesseiro. Ela não parecia mais estar com sono.
-Desculpa, te acordei?
-Eu não estava dormindo. Perdi o sono.-Ela deu uma pausa, percebendo o silêncio, até que mais gritos da mãe soaram, sem acordar o avô ou irmão.-Também, quem consegue dormir outra vez com isso?-Ela sorriu. Inuyasha não.
-Como você consegue ficar tão tranqüila enquanto seus pais ficam brigando? Você não tem medo do que possa acontecer com eles?
Ela abaixou os olhos e suspirou.
-É porque eu já sei como tudo vai acabar.-Ela sorriu fraco.-Isso está acontecendo já faz três dias.
-T-três dias? Eles estão brigando assim já faz três dias?
-É.-Ela deu de ombros e se apoiou nos cotovelos pra se levantar. Ela olhou de canto com um sorriso melancólico.-Isso que você não esteve aqui para ver meu pai revidar.
Foi aí que o hanyou notou que o homem lá embaixo não estava revidando aos berros da esposa. Ele simplesmente abaixava a cabeça e deixava ela bater, estapear e xingar. Ele, antes de pular para o quarto da colegial, viu pela janela que ele tinha um olhar de culpa. Mas o que ele fez?
-O que aconteceu, Kagome?-Ele perguntou, sentando ao lado dela na cama.
Ela olhou pra ele e suspirou. Então apoiou a cabeça no ombro dele e começou á contar.
-Aconteceu quando eu tinha 4 anos...
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-Vai demorar muito pra nascer, mamãe?-Ela olhou para a mãe que estava deitada no sofá. A mulher sorriu e tocou o ventre saliente.
-Não muito, querida. É só ter paciência.
Kagome emburrou.
-Mas ele já ta aí dentro já faz quase 9 meses! E se ele gostar e não querer mais sair?
Keiko riu, até ouvir a porta abrir, surgindo por trás dela, seu marido. Seus olhos voltaram-se para o relógio na parede e suas feições já não eram mais tão calmas. Sua filha percebeu a mudança, e se afastou alguns passos.
-Querida, hora de ir dormir. Já está tarde.-A mãe levantou-se e lançou um olhar para o marido.-Bem tarde.
Kagome pensou em usar suas táticas de convencimento, mas ao ver a troca de olhar entre os pais, preferiu dar um abraço e um beijo em cada um e correr para o quarto dizendo um boa noite. A última coisa que ouviu antes de fechar a porta foi um impaciente 'Onde esteve até agora?'. Aquela seria a primeira noite em sua jovem vida que passaria acordada até a alvorada escutando a primeira discussão dos pais.
3 anos depois
Sentada no sofá da casa no templo do vovô, Kagome aninhava o irmãozinho de três anos no colo. Por que sua mãe estava chorando sentada na cadeira da cozinha enquanto seu pai trazia todas aquelas malas pra dentro? E por que só as suas, da mamãe e do Souta? Por que ele não tinha feito as dele, pra começar?
-Você não vai ficar com a gente, papai?-Ela perguntou, confusa quando ele deixou duas malas grandes ao lado do sofá.
-Sinto muito, querida, mas não posso. O papai vai passar um tempo longe de casa.-Ele sorriu, mas a pequena Kagome não gostou daquele sorriso.
-E quando você vai voltar?
Ele sorriu aquele sorriso outra vez, e virou as costas sem responder. Estava para abrir a porta outra vez...
-Pai!
Akira virou-se, encontrando os olhos dos dois filhos. Ambos o observavam com a mesma pergunta que era fácil de entender, mesmo sem palavras: Por quê?
Ele não sorriu. Apenas virou-se outra vez e saiu no tempo frio de inverno. Kagome deixou Souta no sofá, passou sorrateiramente pela passagem que levava á cozinha, onde o avô e a mãe estavam, e correu para a porta. Correu ignorando a neve fria que passava de seus joelhos, e cuidadosamente desceu as escadas intermináveis do templo, até a rua. Lá havia um carro, o carro do papai, e dentro dele, uma mulher loura num vestido vermelho com uma estola negra de peles, olhando as unhas impecavelmente pintadas. Da escada, ela podia ver o ventre saliente, como o da mãe três anos atrás quando estava para ter Souta. Seu pai ia entrar no carro, os olhos vidrados na mulher e nevoados de uma maneira que Kagome só viu algumas vezes quando ele chegava em casa e á noite ela podia ouvir sons estranhos vindo do quarto dos pais. Uma vez perguntou ao avô, que bêbado deixou escapar uma palavra que ela desconhecia: luxúria. Ela não entendeu e não esteve interessada em descobrir na época. Mas agora ela queria descobrir o que era. O porque de seu pai estar entrando no carro com aquela mulher e deixando ela, a mamãe e o pequeno Souta na casa do vovô.
-Papai?-Ela chamou mais uma vez, na esperança dele sorrir de verdade pra ela e levá-la pro calor da casa, ficando lá com eles. Mas ele virou-se com o rosto contorcido em feições sérias. De canto, ela pôde ver o olhar de desgosto da mulher, mas ignorou. Seus olhos brilhantes e azul-cinzentos, idênticos ao do pai, só queriam saber... porque.
Mas novamente ele não disse nada. Simplesmente entrou no carro, aquecido pelo ar condicionado, e observou ela por mais alguns segundos, antes de dar a partida. Ele foi embora, no calor do aquecedor do automóvel e nos braços daquela mulher estranha, e deixou-a no frio do inverno, sem respostas. Kagome não havia dito nada, nem derramado uma lágrima. Mas seus olhos acompanharam o carro, sempre perguntando: Por quê?
~*~*~*~*~*~*~*~*___Flash_Back___*~*~*~*~*~*~*~*~
Inuyasha observou Kagome bocejar e virar pro outro lado. Já eram 4 da manhã, e ela havia adormecido quando os barulhos da briga finalmente cessaram outra vez. Ela só tinha 7 anos quando conheceu algo chamado traição. O amor entre os pais, que parecia ser perfeito, fragmentou-se ao meio. Como era sentir-se ser o fruto de um amor que não deu certo? Inuyasha olhou para Souta. O resultado de uma relação errônea, que agora era, ou não, disputado pelas metades.
-"Não..."-Ele balançou a cabeça.-"Kagome e Souta não foram um erro. Kagome me ensinou que nem mesmo eu, um meio-yokai, não fui nem sou um erro. Ela é humana, pura e perfeita. Uma pessoa perfeita como ela não pode ter sido um erro. Não quando ela me faz acreditar que eu, um hanyou imundo que devia ter sido afogado ao nascer, sou um fruto de um amor de verdade."-O meio-yokai inclinou a cabeça e deitou-a na cama, perto da de Kagome, fitando os cabelos negros espalhando-se no travesseiro como um leque de seda.-"Você não é um erro, Kagome."
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E é isso aí. Essa história só tem mais dois capítulos. ^^ Ps.: Se alguém aí prefere ler em inglês, eu estou traduzindo para o inglês também. Mais tarde vou terminar de traduzir o capítulo 2 pro inglês e postar.
O que estão achando? Boa? Ruim? Péssima?
Queria saber se tem alguém gostando. Reviews, please? ó.ò
See ya! ^^
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