Invocavi Maledictus Ventis (I Invoke Cursed Winds) II

-Eu amo o seu cheiro, sabia?

-Saga, você não deveria estar em reunião com o senil do Shion?

-Aquele velho pode esperar! Estou fazendo algo mais importante...

-... E o que é?

-Cheirando você!... Amo tanto a sua risada.

-E eu amo você.

-Kanon.. – Tantas letras naquele relatório, mas não formavam palavra alguma.

-Kanon! – Estava perdido em pensamentos e lembranças.

-Que droga! Mas o que você quer, Kraken?! – Respondeu, ríspido. Irritado por ter sido acordado de um belo sonho.

-Não brigue comigo, estou chamando você há meia hora. – O loiro viu a cara feia que o mais velho ficou e suspirou. -Hum. Poseidon e Sorento estão esperando o senhor...

-Já vou, Isaak. – Ainda com cara feia, esperou o outro sair, para encostar na cadeira, erguer os olhos ao teto e respirar fundo.

Tinha que ser duro, rígido e frio. Poseidon e Athena estavam em uma balança, e o que mediava ambos era a ameaça de deuses, uma ameaça que o precursor, era Saga. Nele, Ares retornaria, mais poderoso e mortal.

No passado, o irmão se sacrificou para que Ares fosse banido, desta vez, a guerra resultaria em algo mais profundo e Kanon temia por Saga, temia pela saúde dele. O sofrimento, preferia o de agora, o da separação, do que o repentino pela guerra.

Sua cabeça balançava pela intensidade de suas palavras proferidas há alguns dias. Necessitou ser convincente. Saga, dessa vez precisaria cair em suas mentiras, pois se houver a chance de evitar esse mal, faria de tudo para evitar que a ponte entre o seu amado e Ares se encurtasse mais uma vez.

-Onde tem bebida quando se mais precisa dela? – Resmungou enquanto se levantava e caminhava para fora de seu aposento. Penteou os cabelos com uma das mãos, ajeitando melhor a sua aparência de fim de festa.

Passou por Thétis, que lhe cumprimentou com um delicado sorriso, e em resposta, o seu foi seco para ela, mas não menos educado. A proximidade sua com Isaak e Thétis lhe amenizava a dor no peito, apenas por alguém saber que estava passando por um momento muito ruim.

De forma breve, ajoelhou-se perante Julian, que não estava em seu trono, mas em pé ante a ele.

-Que demora, Dragão-Marinho. – Em resposta à Sorento, Kanon apenas coçou a cabeça. Em um gesto que o que ouviu parecia ser um bicho zunindo em seu ouvido.

Colocou as mãos para trás, assumindo uma postura não só de general, mas como de respeito, mesmo que fosse o único de Escama ali, entre os três. -Requisitou a minha presença, Vossa Excelência?

-Sim. Não tivemos a oportunidade de conversar desde que chegou. Estive meramente ocupado, me desculpe. Mas, eu receio da notícia que tenho que lhe dar.

-Sim? – Ignorava Sirene, e não tirava o seu olhar de seu superior.

Julian se virou para o outro General, folheando um arquivo que estava nas mãos dele. -Você conhece Saga muito bem, estou certo?

Conheço melhor do que a mim mesmo. Saga será sempre a minha vida. -Sim, senhor.

Pelos momentos seguintes, Julian Solo ficou em silêncio. De costas a Kanon e sem olhar Sorento, e era mais que claro aos dois, que algo o incomodava, de forma profunda. Como se fosse realmente difícil para si, ser sincero no que teria a dizer.

-Senhor? – Murmurou o virginiano, preocupado.

-Kanon. – Falou, fechando os olhos.

O geminiano engoliu seco. Não era ingênuo e muito menos idiota, nisso, já sentia e temia a notícia que ele lhe daria, mas nada disse, pois notou que a pausa cessaria pouco depois.

-Mais do que ninguém, você sabe que a melhor forma de impedir que um Mal se espalhe é eliminando-o antes que se manifeste.

Sorento se demonstrou desconcertado por um momento, pois Julian lhe lançou um olhar sério, e depois fez o mesmo com Kanon, que permanecia sério e frio.

Não mudou a sua pose, mas sentiu-se despedaçar por dentro. Era exatamente o que temia. Desviou o olhar por um momento -Presumo, que queira que eu o elimine.

-Compreendo o quão é uma tarefa difícil. – Continuou, devagar. -Mas preciso que você o faça. Também... Porque tem acesso ao Santuário com mais facilidade que qualquer outro General.

-Senhor, se me permite interromper, ele não cumprirá isso.

Pela primeira vez, Kanon concordou em absoluto com Sorento, mas o fez em silêncio. Era uma situação de dois lados: dolorosa se fosse cumprir, e fácil para manipular tudo em volta, pois faria do seu jeito. Unicamente.

-Quer ir no meu lugar? Foi humilhado por Aldebaran de Touro e quer enfrentar Saga de Gêmeos? – Vociferou.

-Silêncio! – Ordenou, ao notar que o mais novo contestaria o geminiano. -Do contrário, pedirei que se retire, Sorento de Sirene.

-Perdoe-me.

-Ao contrário do que ele pensa, sim, eu cumprirei essa missão. – Julian tomou uma postura mais séria, e caminhou até o seu trono, onde se sentou. Pouco depois, ele abrandou a expressão.

-General de Dragão Marinho, confio à você a missão de eliminar, antes que desperte, o Mal.

Kanon tornou a reverenciá-lo. Porém, uma questão surgiu em sua cabeça, e a ergueu, para indagá-lo.

-Se me permite, senhor. – O outro deu a chance com um balançar de cabeça. -Athena consente com isso, certo?

-Terei que dizer que as questões políticas não constam em sua missão. – Respondeu calmo, dando uma nova pausa. -Logo os documentos estarão em sua mesa.

Kanon não ficou satisfeito com aquela resposta, mas fingiu consentir. Balançou a cabeça, pedindo a dispensa naquele instante. Levantou e se retirou.

Tornando a ficar pensativo, folheava alguns livros seus que possuía em cima da mesa. Alguns de Guerra, outros de História, e entre eles, reencontrou um que Saga havia lhe presenteado. "O Retrato de Dorian Gray". Kanon não evitou sorrir ao canto dos lábios, em travessura e carinho. Às vezes o amado lia trechos para si quando estavam deitados na cama, ora, Kanon folheava e lia. O pequeno livro estava já bem gasto, tinha anos. O mais velho carregava sempre consigo.

Chegou a recordar de um dia em que o amado foi para uma missão burocrática, e o esqueceu. Kanon saiu correndo do Santuário até o aeroporto para que ele tivesse o livro consigo.

-A nossa cara, Sa? – Murmurou, recordando-se que ele sempre dizia que achava a história parecia com ambos. Para Saga, Dorian e Kanon tinham aspectos semelhantes, o que lhe fazia gostar ainda mais do livro, e sempre tê-lo em mãos.

Em uma tarde, Saga lhe deu o livro.

Ao abri-lo, mais uma vez, releu a dedicatória do irmão.

"Ao meu amor, sempre que sentir-se sozinho, Kan, leia esse livro". Acabou por sorrir, quando iniciou a primeira página, porém, se assustou ao ouvir batidas na porta e distraído como estava, pensava ser Thétis ou Isaak. -Entre.

Adentrou o quarto, vendo-o parado à sua estante. Sem nada falar, colocou os documentos de forma sonora em cima da mesa.

-Não dormi com você para tanta educação, Thé... – Interrompeu-se ao ver Sorento ali. -Ah. Você. – Falou, desanimado. -Agradeço os papéis.

-Você não me engana, usurpador. – Kanon, ao ouvir aquelas palavras, parou de ler o livro do irmão e sorriu com malícia. Deixou o livro de lado e se virou.

-Chifrada ainda dói, não é? – Falou cínico, enquanto se aproximava da mesa.

No segundo seguinte, o braço do geminiano foi segurado com tal força, que sentiu o cosmo do virginiano se acentuar. Ambos se entreolharam com ira.

-Talvez deva se informar melhor, Usurpador de Dragão Marinho: Se eu não tivesse sido interrompido, aquela formiga de Cavaleiro de Ouro tinha sido dizimado por mim! Ele foi covarde ao me enfrentar, amendrotado, ele fugiu. – Sorriu com malícia.

-Sou bem informado. Você não teve colhões para enfrentar a Deusa. – Sorento, por um momento cerrou os olhos, pela forma que ouviu aquelas palavras.

-Se eu não convivesse com você, diria que Athena lhe interessa mais.

-Você a enfrentou?

-Não. – Engoliu, seco.

-Então é o Aldebaran de Touro o covarde? Sou eu que estou errado? E eu lhe ordeno que solte o meu braço, se não quiser se perder no Tempo e Espaço, Sorento. – Sua voz teve um timbre maior, imperiosa.

Desprezou aquele tom consigo. Desejava desmarcarar Kanon, mas ainda não teve a oportunidade. Cravou as unhas ao braço dele, ao ouvir aquilo, lhe irritando cada vez mais, porém, usou de um segundo para tornar com a malícia em sua face.

-Você engana a todos, mas não a mim. Eu sei que não vai cumprir a ordem do senhor Poseidon. E eu vou ter o delicioso prazer de mostrar à ele e a todos, o traidor que você é. O mentiroso que é. Lamento por Thétis e Isaak serem tão ingênuos na sua mão. – Por fim, o soltou. -Esteja avisado, dependendo de mim, você não será mais chamado como General. – Lhe deu as costas para sair do quarto, sem esperar qualquer resposta.

-Ele é um idiota. – Resmungou.

Trancou a porta de seu quarto para caminhar até a cama para pensar e descansar um pouco, precisando assim, de tempo para traçar o seu plano e salvar Saga. Porém, ao se aproximar do leito, segurou no dossel de sua cama, colocando a mão no peito. Sentiu-o apertado.

-Saga. – Murmurou.