Capítulo 2.

Na minha mente, Presidente Snow deveria ser visto na frente de grandes pilares de mármore com bandeiras de tamanho exagerados. É berrante vê-lo rodeado por objetos ordinários na sala.

— Do jeito que as coisas são na Capitol, não duvido nada que os móveis sejam diferentes desses — murmurou Íris, mordendo o lábio enquanto enrolava um fio de cabelo com o dedo.

— Mas a casa é na Vila dos Vitoriosos — observou Jake.

— Mesmo assim... Quem deve ter construído as casas foram os moradores locais — disse Íris — Usando materiais locais para dar uma decoração familiar, mesmo que usando o planejamento do Capitol. Como fizeram com os pães.

Como tirar a tampa de uma panela e encontrar uma víbora em vez do guisado.

O que ele poderia estar fazendo aqui? Minha mente volta para o dia de abertura de outros Tours da Vitória. Eu me lembro de ver os tributos vencedores com seus mentores e estilistas. Até alguns altos funcionários do governo fazem aparições ocasionalmente. Mas eu nunca tinha visto o Presidente Snow.

— Nenhum dos outros desafiou o Capitol — disse Jake.

Ele está presente em celebrações no Capitol. Ponto.

— Não tem nem coragem de aparecer nos Distritos — disse Íris, dando um sorriso irônico.

Se ele fez a viagem por todo caminho de sua cidade, só pode significar uma coisa.

— Ele tem vários transportes. Não é um sacrifício tão grande assim — disse Íris.

Estou em sérios problemas. E se eu estou, minha família também está. Um arrepio corre por mim quando penso o quanto esse homem que me despreza está próximo da minha mãe e da minha irmã. Sempre vai me desprezar.

— Ela já estava em problemas desde que fingiu se suicidar na arena — disse Jake — Ele só esteve esperando para poder se aproximar...

— Esperando o que? — perguntou Íris.

Jake não respondeu, apenas apontou o dedo para o livro.

Porque eu superei seus sádicos Hunger Games, fiz o Capitol de tolo, e consequentemente questionei seu controle.

Tudo que eu estava fazendo era tentar manter Peeta e eu vivos. Qualquer ato de rebelião foi puramente acidental. Mas quando o Capitol decreta que apenas um tributo pode viver e você tem a audácia de desafiá-lo, acho que isso por si só é uma rebelião.

— Pode ter feito para protegê-lo, mas nenhum tributo jamais fez isso antes — disse Jake — Nunca tiveram a coragem o suficiente para desafiar o Capitol.

— Talvez fizeram, mas se o fizeram não foi desse jeito tão aberto — disse Íris — E devem ter matado a pessoa.

— Ou a sua família — murmurou Jake.

Minha única defesa é fingir que estava praticamente insana de amor por Peeta. Então ambos fomos autorizados a viver. Para sermos vencedores coroados. Para ir para casa, celebrar e acenar adeus para as câmeras e sermos deixados sozinhos. Até agora.

— Ela não percebeu que nenhum vitorioso deixa de estar nas câmeras? Uma vez selecionado para os jogos, isso não termina nunca — disse Jake.

Talvez fosse a renovação da casa ou o choque de vê-lo ou o mútuo entendimento de que ele podia ter me matado em um segundo que me faz sentir como uma intrusa. Como se essa fosse a casa dele e eu a parte não convidada. Então não lhe dou boas vindas ou lhe ofereço uma cadeira. Não digo nada. Na verdade, trato-o como se ele fosse uma cobra de verdade, do tipo venenoso. Eu fico parada, meus olhos presos aos dele, considerando planos de retirada.

"Acho que vamos deixar toda a situação muito mais simples concordando não mentir um para o outro," diz. "O que você acha?"

— Não estou gostando disso... — murmurou Íris.

— Ele tem alguma carta na manga — afirmou Jake.

Acho que minha língua está congelada e falar será impossível, então me surpreendo ao responder num tom firme. "Sim, acho que ganharíamos tempo."

Presidente Snow sorri e noto seus lábios pela primeira vez. Estou esperando lábios de cobra, o que quer dizer nenhum. Mas os deles são bem cheios, a pele bem esticada. Eu tenho de me perguntar se sua boca foi alterada para deixá-lo mais atraente. Se assim for, foi uma perda de tempo e dinheiro, porque ele não é nem um pouco atraente.

"Meus assessores estavam preocupados com a possibilidade de você ser difícil, mas você não está planejando isso, está?" pergunta.

"Não," eu respondo.

— Ela não planejava sequer sua visita — disse Íris — Poderia ter mandado uma carta avisando de sua chegada? Para uma recepção mais calorosa... De preferência envolvendo algumas armadilhas do bosque.

— Se ele tivesse avisado, ela poderia ter fugido — retrucou Jake.

"É o que eu disse a eles. Eu disse que qualquer garota que vai tão longe para preservar sua vida não vai estar interessada em jogá-la fora com as próprias mãos. E então há sua família a se pensar. Sua mãe, sua irmã, e todos aqueles... primos."

Pelo modo como ele prolonga a palavra "primos" posso dizer que ele sabe que Gale e eu não dividimos a mesma árvore genealógica.

— Até porque, provavelmente, foi alguém do grupo dele quem espalhou esses boatos para não despertar a curiosidade — disse Jake.

Bem, as cartas estão na mesa agora. Talvez assim seja melhor. Eu não sou boa em teatros ambíguos.

— Já deixou isso bem claro nos jogos — murmurou Íris.

Eu prefiro saber como vai a partida.

"Vamos nos sentar." Presidente Snow toma um assento a grande mesa de madeira polida onde Prim faz seu trabalho de casa e minha mãe seu orçamento. Como nossa casa, esse é um lugar onde ele não tem direito, mas no final das contas, todo direito de ocupar. Eu me sentei defronte à mesa numa cadeira reta e esculpida. Foi feita para alguém mais alto do que eu, então apenas meus pés focam o chão.

"Eu tenho um problema, Srta. Everdeen," diz Presidente Snow.

— Veio contratá-la? — ironizou Íris — Talvez esteja querendo desabafar com alguém...

"Um problema que começa no momento em que você tirou aquelas bagas envenenadas na arena."

Aquele foi o momento em que eu pensei que se os Gamemakers tinham de escolher entre ver Peeta e eu cometer suicídio – o que significaria não ter vencedor – e deixar nós dois vivos, eles iriam preferir a última opção.

— Acho que eles prefeririam a primeira opção — disse Jake.

"Se o Gamemaker Principal, Seneca Crane, tivesse algum cérebro, ele teria explodido vocês na mesma hora. Mas ele tinha uma infeliz tendência sentimental. Então aqui está você. Pode imaginar onde ele está?" pergunta.

— Morto — sussurrou Íris.

Apesar de ser um morador do Capitol, esse Seneca tinha permitido que seus pais sobrevivessem. Tinha feito a esperança viver em Panem e tinha feito os jogos acabarem. Era impossível não sentir pela morte dele.

Assinto, porque, pelo modo como ele fala, está claro que Seneca Crane foi executado. O cheio de rosas e sangue fica mais forte agora que apenas uma mesa nos separa. Há uma rosa na lapela da roupa do Presidente Snow, o que ao menos sugere uma fonte do perfume de flores, mas deve ter sido geneticamente modificada, porque nenhuma rosa de verdade exala um cheiro assim.

— Deve deixar o cheiro mais forte ou ter colocado algum perfume — sugeriu Íris.

E quanto ao sangue... eu não sei.

— E não quero saber — completou Jake, estremecendo levemente.

"Depois daquilo, não havia nada a fazer além de te deixar fazer sua pequena atuação. E você foi muito boa, também, com o pedaço de garota de escola louca de amores. As pessoas no Capitol se deixaram levar facilmente. Infelizmente, nem todos nos distritos caíram na sua atuação," diz.

— Porque eles estavam revoltados com o fato de terem sobrevivido duas pessoas — disse Íris — A Capitol vê como se fosse uma novela, os distritos prestam atenção nos atores dessa trama e sabem que eles não são como aparecem.

Meu rosto deve ter registrado pelo menos uma centelha de confusão, porque ele a aborda.

"Isso, é claro, não é do seu conhecimento. Você não tem acesso à informação sobre o humor nos outros distritos.

— Não tem acesso nem aos outros distritos — murmurou Jake.

Em alguns deles, entretanto, as pessoas viram seu pequeno truque com as bagas como um ato de desafio, não um ato de amor. E se uma garota do Distrito Doze, de todos os lugares, pode desafiar o Capitol e sair ilesa, o que pode impedi-los de fazer o mesmo?" ele diz. "O que pode evitar, digamos, uma revolta?"

Leva um momento para que eu compreenda sua última frase. Então todo o peso cai sobre mim. "Houve revoltas?" pergunto, arrepiada e de algum modo feliz com a possibilidade.

— Qualquer pessoa que more no Distrito 12 se sentiria da mesma forma — disse Íris.

— O Distrito 12 é menos pior do que o Distrito 11. E já discutimos isso — retrucou Jake.

"Não ainda. Mas vai acontecer se o curso das coisas não mudar. E revoltas são conhecidas por conduzir à revolução." Presidente Snow esfrega um ponto sobre sua sobrancelha esquerda, o ponto onde eu mesma tenho dores de cabeça.

— Eu tenho na sobrancelha direita... — murmurou Íris.

"Você tem idéia do que isso significaria? Quantas pessoas morreriam? Quais condições as que vivem devem encarar? Quaisquer que sejam os problemas que qualquer um tem com o Capitol, acredite em mim quando digo que, se o controle sobre os distritos ficar frouxo, todo o sistema entrará em colapso."

— Pior do que já é nos distritos mais pobres? — disse Íris, levantando uma sobrancelha incrédula.

— Só a parte que o Capitol tem mais munição que todos os distritos juntos — disse Jake.

— É uma população inteira — disse Íris — E essa munição é conservada no Distrito 2. Eles não conseguiriam viver sem os abastecimentos dos distritos.

Estou surpresa com a franqueza e até sinceridade na sua fala. Como se seu interesse primário fosse o bem estar dos cidadãos de Panem, quando nada poderia ser mais longe da verdade. Eu não sei como eu ouso dizer as próximas palavras, mas eu digo. "Deve ser muito frágil, se um punhado de bagas pode acabar com ele."

— Ui, toma — murmurou Íris.

Há uma longa pausa na qual ele me examina. Então ele simplesmente diz. "É frágil, mas não como você supõe."

Há uma batida na porta, e o homem do Capitol coloca sua cabeça para dentro. "A mãe dela quer saber se querem chá."

— De preferência, com veneno dentro — sugeriu Íris.

"Eu gostaria. Eu gostaria de chá," diz o presidente. A porta se abre mais, e lá está minha mãe, segurando uma bandeja com o jogo de chá chinês que ela trouxe para Seam quando se casou. "Coloque aqui, por favor." Ele coloca o seu livro no canto da mesa e dá uma tapinha no centro.

— Do que se trata o livro? "Como matar pessoas sem ser detectado"? — perguntou Íris.

Minha mãe coloca o jogo de chá na mesa. Há um bule e xícaras de porcelana, creme e açúcar, e um prato de biscoitos. Elas estão cobertas por flores de cores suaves. Um trabalho que só poderia ser feito por Peeta.

— Vantagens de ter um padeiro como vizinho e ex-companheiro dos jogos — disse Íris — Sabe como é...

— Caramba, Íris — reclamou Jake — Você que está lendo fala mais do que eu.

"Que visão bem-vinda. Sabe, é engraçado como frequentemente as pessoas se esquecem de que presidentes precisam comer, também," Presidente Snow diz com charme. Bem, para relaxar minha mãe um pouco, de qualquer forma.

— Está flertando? Arg! Que nojo! — exclamou Íris.

— Poderia ser uma estratégia para que ela pense que ele é simpático e qualquer coisa que Katniss diga, ela não acreditará — disse Jake.

— Presidentes são pessoas do mal — disse Íris — Ninguém quer a paz mundial e ninguém quer o melhor para o povo. Eles querem o melhor para o bolso deles. Ah! E ela é a nossa avó, jamais desacreditaria do que a mamãe dissesse para ela.

"Posso conseguir algo mais? Posso cozinhar algo mais substancial se estiver com fome," ela oferece.

"Não, não poderia ser mais perfeito. Obrigado," diz, claramente a dispensando. Minha mãe assente, lança-me um olhar, e vai embora. Presidente Snow serve chá para nós dois e preenche o dele com creme e açúcar, e depois leva um longo tempo misturando. Pressinto que ele disse o que queria e está esperando que eu responda.

— Eu já teria até esquecido o que ele falou com o tempo que passou — comentou Íris.

"Eu não quis começar nenhuma revolta," digo a ele.

"Acredito em você. Isso não importa. Seu estilista revelou-se profético na escolha do seu vestuário.

— Nada a ver com o fato do Distrito 12 ter relação com carvão e o fogo — debochou Íris — Seria demasiado óbvio. É tudo uma conspiração de uma organização secreta.

Katniss Everdeen, a garota em chamas, você pode fornecer uma fagulha que, deixada de lado, pode crescer em um inferno que destrói Panem," diz.

"Por que você apenas não me mata agora?" solto.

— E se ele não tinha pensado nisso? Ela estaria assinando seu assassinato nesse mesmo momento! — reclamou Íris.

— Claro que ele teria pensado nisso! — disse Jake.

— Mas poderia ter repensado — retrucou Íris e começou a ler antes que Jake retrucasse.

"Publicidade?" ele pergunta. "Isso apenas acrescentaria combustível às chamas."

"Arranje um acidente, então," digo.

"Quem acreditaria?" pergunta. "Não você, se estivesse observando."

— Todo mundo acreditou na explosão da mina de carvão, não? — retrucou Íris.

— Minas de carvão são perigosas — disse Jake — Podem acontecer explosões e isso não quer dizer que seja sabotagem.

"Então apenas me diga o que você quer que eu faça. Eu farei," digo.

"Se fosse assim tão simples." Ele pega um dos biscoitos floridos e o examina. "Bonito. Sua mãe fez esses?"

"Peeta." E pela primeira vez, não consigo encarar seu olhar.

— Ele sabia — disse Íris — Por isso perguntou.

Estendo a mão para meu chá, mas volto atrás quando ouço a xícara chacoalhando contra o pires. Para disfarçar, rapidamente pego um biscoito.

"Peeta. Como está o amor da sua vida?" ele pergunta.

"Bem," digo.

"Em que ponto ele percebeu o grau exato da sua indiferença?" pergunta, mergulhando seu biscoito no chá.

— Quando chegaram no Distrito — respondeu Jake.

"Não sou indiferente," digo.

"Mas talvez não tomada pelo jovem como você estaria para o país acreditar," diz.

"Quem disse que não estou?" digo.

"Eu," diz o presidente. "E eu não estaria aqui se eu fosse a única pessoa que tivesse dúvidas. Como está o primo atraente?"

"Eu não sei... eu não..." Minha revolta com essa conversa, com a discussão de meus sentimentos por duas pessoas com as quais eu mais me importo com Presidente Snow, me choca.

— Porque ainda não se decidiu por qual deles se importa mais e não quer escolher — sussurrou Íris.

— Até porque é um assunto que você quer muito conversar com um completo estranho — disse Jake.

— Estando são. Pessoas bêbadas ficam usando o barman como psicólogo — disse Íris.

"Fale, Srta Everdeen. Eu posso facilmente mata-lo se não chegarmos a uma solução feliz," diz. "Você não está fazendo um favor a ele desaparecendo na floresta com ele todo domingo?"

— Um favor a ambos — disse Íris.

Se ele sabe disso, o que mais ele sabe? E como ele sabe? Muitas pessoas poderiam lhe dizer que Gale e eu passamos nossos domingos caçando. Não aparecemos no final do dia carregados de caças? Não fizemos isso por anos?

— Dedurar seria admitir que compra caça ilegal — disse Jake — E que os peacemakers não trabalham, só recebem.

A pergunta real é o que ele pensa que acontece na floresta além do Distrito 12. Claramente eles não nos seguiram até lá? Ou seguiram? Nós poderíamos ter sido seguidos?

— Quase ninguém que vem do Capitol é bom o suficiente para entrar na floresta — disse Jake — Pisariam forte demais e vocês perceberiam.

Isso parece impossível. Ao menos por pessoas. Câmeras? Isso nunca atravessou minha cabeça até esse momento. A floresta sempre foi nosso lugar de segurança, nosso lugar além do alcance do Capitol, onde estamos livres para dizer o que sentimos, ser o que somos.

— Isso antes dos jogos — apontou Jake — Mesmo que não soubesse pelos moradores que visita a floresta regularmente, suas habilidades na arena só poderiam ser adquiridas por experiência.

— Ou talvez não foram colocados dentro da floresta, precisamente — disse Íris — Podem ter colocado na cerca ou em árvores próximas para observar a movimentação dos cidadãos. As revoltas podem até ficar conhecidas de boca em boca, mas o descontentamento se vê no rosto.

Ao menos antes dos Games. Se nós fomos observados, o que eles viram? Duas pessoas caçando, dizendo coisas traiçoeiras contra o Capitol, sim. Mas não duas pessoas apaixonadas, o que parecer ser a implicação de Presidente Snow. Estamos salvos nesse quesito. A menos... a menos...

— "A menos"? — repetiu Jake, levantando-se da cadeira — Não consigo, Íris. Desculpe. Me avise quando isso acabar.

— Jake! — gritou Íris, mas ele seguiu seu caminho para o banheiro onde se trancou.

Como se o banheiro fosse a prova de som externo... Revirou os olhos para a atitude dele e continuou lendo em voz baixa.

Aconteceu uma vez, apenas. Foi rápido e inesperado, mas aconteceu.

Depois que Peeta e eu chegamos dos Games, passaram-se algumas semanas antes de eu ver Gale sozinha.

— Falta de tempo, talvez — murmurou Íris.

Primeiro houve as celebrações obrigatórias. Um banquete para os vencedores que apenas pessoas de mais alta classe compareceriam do Capitol. Dia do Pacote, o primeiro de doze, nos quais pacotes de comidas eram entregues para cada pessoa do distrito. Isso foi o meu favorito. Ver todas aquelas crianças famintas de Seam correndo, acenando com latas de molho de maçã, carne, e até doces.

— Quanto tempo não devem receber um banquete desses... — murmurou Íris e ficou em silêncio, mas lembrou-se que Jake tinha saído e terminou — Deve valer a pena esse sofrimento todo na arena se for para ver essa cena.

Em casa, grandes demais para carregar, estariam sacas de grãos e latas de óleo. Saber que uma vez por mês, por um ano, todos eles receberiam outro pacote. Essa foi uma das poucas vezes em que me senti bem por ter ganhado os Games.

— Seria como o tesserae, mas em grande quantidade — disse Íris.

Então, entre as cerimônias, eventos e documentários sobre cada passo meu, enquanto eu dirigia, agradecia e beijava Peeta para a audiência, eu não tive nenhuma privacidade. Depois de algumas semanas, as coisas finalmente se acalmaram. Grupos de câmeras e repórteres foram para casa. Peeta e eu assumimos um relacionamento que temos desde então. Minha família se estabeleceu na nossa casa na Vila dos Vitoriosos. A vida cotidiana do Distrito 12 – trabalhadores nas minas, crianças nas escolas – voltou ao normal.

— A parte boa deve ser não ser obrigado a trabalhar nas minas durante as comemorações — disse Íris — Pelo visto, os outros distritos são obrigados a não trabalhar durante a turnê da vitória.

Ela parou para pensar por um momento e percebeu, então, que eles veriam em primeira mão a revolta dos outros distritos diante de dois tributos em vez do um prometido.

Esperei até que achei que estava tudo limpo, e então, num domingo, sem dizer a ninguém, levantei-me horas antes do amanhecer e fui para a floresta.

O clima era quente o bastante para que eu não precisasse de uma jaqueta. Coloquei na minha bolsa comidas especiais, frango frio, queijo, pães e laranjas. Descendo para minha casa antiga, coloquei minhas botas de caça. Como sempre, a cerca não tinha mudado e era simples deslizar floresta adentro e reaver meus arco e flechas.

— Ou a cerca não era lá muito resistente ou alguém fez um buraco aí — disse Íris — Porque duvido que a cerca tenha os pedaços tão afastados a ponto de uma pessoa conseguir passar.

Fui para nosso lugar, do Gale e meu, onde tínhamos dividido café da manhã no dia da colheita que me mandou para os Games.

Esperei pelo menos duas horas. Tinha começado a pensar que ele tinha desistido de mim nas semanas que se passaram. Ou que ele não se importava mais comigo.

— Talvez tenha se desacostumado — disse Íris — Ou acabou se esquecendo...

Passando a vida inteira indo aos Domingo para a floresta era pouco provável se desacostumar ou esquecer. Talvez tenha perdido a hora.

Que até me odiava. E a idéia de perdê-lo para sempre, meu melhor amigo, a única pessoa em que confiei meus segredos, era tão dolorosa que não podia suportar. Não acima de tudo que aconteceu. Eu podia sentir meus olhos se enchendo de lágrimas e minha garganta começando a se apertar como sempre acontece quando fico abalada.

Então eu olhei para cima e ele estava ali, a três metros de distância, me observando.

— Ele deve ter estado ali bastante tempo — murmurou Íris — Pensando em como se aproximar ou só a observando.

Sem mesmo pensar, eu me levantei e atirei meus braços ao redor dele, fazendo algum som estranho que combinava riso, sufoco e choro. Ele me abraçou com tanta força que eu não pude ver seu rosto, mas só depois de um longo tempo que ele me soltou e então ele não teve muita escolha, porque eu tinha tido esse crise inacreditável de soluços e tinha de beber água.

— Beber água não para o soluço. Credo! Pareci o meu irmão agora...

"O que ele está fazendo lá dentro? Olhando para a parede?" perguntou-se Íris, olhando para a porta fechada do banheiro.

Fizemos o que sempre fizemos naquele dia. Tomamos café da manhã. Caçamos, pescamos e recolhemos plantas. Conversamos sobre as pessoas na cidade. Não sobre nós, sua nova vida nas minas, meu tempo na arena. Só sobre outras coisas. Quando chegamos ao buraco da cerca que era próxima ao Hob, acho que eu realmente acreditei que as coisas poderiam voltar a ser o mesmo. Que nós podíamos continuar como sempre. Eu tinha dado toda a caça a Gale, dado que nós tínhamos tanta comida agora.

— Justo...

Disse a ele que não iria ao Hob, embora eu estava querendo ir lá, porque minha mãe e minha irmã nem sabia que eu tinha ido caçar e deviam estar se perguntando onde eu estava.

— Elas deveriam adivinhar, depois de tantos anos fazendo o mesmo. Que ela queria simplesmente que tudo voltasse a ser como antes.

Então, de repente, enquanto eu estava sugerindo fazer a caça todos os dias,

— Com ele trabalhando nas minas é um pouco difícil...

ele tomou meu rosto em suas mãos e me beijou.

Eu estava completamente despreparada. Você pode pensar que depois de todas as horas que eu tinha passado com Gale – observando-o conversar, rir, e franzir o cenho – que eu conheceria tudo sobre aqueles lábios.

"Amigos não prestam atenção nos lábios do outro" pensou Íris, como se fosse óbvio.

Mas eu não tinha imaginado como eles seriam quentes pressionados contra os meus. Ou como aquelas mãos, que poderiam criar as armadilhas mais intricadas, poderiam facilmente me prender. Acho que fiz algum tipo de barulho com a minha garganta, e vagamente lembro-me dos meus dedos presos fortemente contra seu peito. Então ele me soltou e disse, "Eu tinha de fazer isso. Pelo menos uma vez." E se foi.

Apesar do fato de o sol estar baixando e minha família pudesse ficar preocupada, eu fiquei numa árvore próxima a cerca. Tentei decidir como eu me sentia com aquele beijo, se eu tinha gostado ou me ressentia, mas tudo que eu me lembrava era da pressão dos lábios de Gale e do cheiro de laranjas que ainda estava em sua pele. Era inútil compará-lo com os muitos beijos que troquei com Peeta. Eu ainda não sabia que algum deles contava.

"Está comparando. Isso já quer dizer algo" pensou Íris.

Finalmente fui para casa.

Naquela semana eu fiz armadilhas e deixei a carne com Hazelle. Eu não vi Gale até domingo.

— Claro, o trabalho nas minas...

Eu tinha toda uma fala pronta, sobre como eu não queria um namorado e nunca planejei casar, mas acabei nem a usando.

Íris não sabia como se sentir quanto a isso. O jeito como sua mãe falava no passado sobre não querer se casar, ter filhos... Doía, é claro que doía. A fazia se perguntar o que tinha mudado nesses anos, o que tinha acontecido para ela mudar de ideia. Foi só os jogos terem acabado? Um evento desses poderia mudar uma opinião formada desde criança?

Gale agiu como se o beijo nunca tivesse acontecido.

Talvez ele estivesse esperando que eu dissesse algo. Ou o beijasse de volta. Em vez disso, eu apenas fingi que nada tinha acontecido, também. Mas tinha. Gale tinha quebrado uma barreira entre nós e, com isso, qualquer esperança que eu tinha de reassumir nossa velha e descomplicada amizade. Mesmo que eu fingisse, eu nunca poderia olhar para os lábios dele da mesma forma.

Todos esses vislumbres passaram pela minha cabeça em um instante quando os olhos do Presidente Snow me deixaram consciente da sua ameaça de matar Gale.

Íris deu um suspiro, tinha até se esquecido da visita do presidente Snow.

Como eu fui estúpida por pensar que o Capitol iria apenas me ignorar depois de eu retornar para casa. Talvez eu não soubesse sobre as revoltas em potencial. Mas eu sabia que eles estavam irritados comigo. Em vez de agir com a extrema cautela da qual a situação necessitava, o que eu fiz? Do ponto de vista do presidente, eu ignorei Peeta e expus uma preferência pela companhia de Gale diante de todo distrito.

— E nem Haymitch se lembrou disso — murmurou Íris — Mas o distrito pensa que são familiares, estão matando as saudades.

E fazer isso deixou claro que eu estava, de fato, zombando o Capitol. Agora eu pus em risco Gale e sua família, minha família e Peeta, também, por causa do meu descuido.

"Por favor, não machuque Gale," sussurro. "Ele é apenas meu amigo. Ele tem sido meu amigo por anos. Isso é tudo que há entre nós. Além disso, todo mundo pensa que nós somos primos agora."

"Eu estou apenas interessado em como isso afeta sua dinâmica com Peeta, e conseqüentemente afeta o humor nos distritos," ele diz.

— Papai certamente sabe fingir melhor do que a mamãe — disse Íris.

"Será o mesmo no Tour. Eu estarei apaixonada por ele como sempre estive," digo.

"Como você está," corrige Presidente Snow.

— Dá no mesmo — reclamou Íris.

"Como eu estou," confirmo.

"Só que você tem de se esforçar para que as revoltas sejam evitadas," diz. "Esse Tour será sua única chance de virar o jogo."

"Eu sei. Eu vou. Vou convencer todos nos distritos de que eu não estava desafiando o Capitol, de que eu estava loucamente apaixonada," digo.

— Me pergunto como eles reagiriam se tivesse outro casal apaixonado que tivesse se matado no final... — murmurou Íris — Revoltados?

Presidente Snow se levanta e passa um guardanapo nos seus lábios inchados. "Mire mais alto se não quiser falhar."

"O que você quer dizer? Como eu posso mirar mais alto?" pergunto.

"Me convença," diz.

"Se conseguir convencê-lo, conseguirá convencer a todos" pensou Íris.

Ele deixa cair o guardanapo e retoma seu livro. Não o observo enquanto ele caminha para a porta, então eu me contraio quando ele sussurra no meu ouvido. "A propósito, eu sei sobre o beijo." Então a porta se fecha atrás dele.

— Sabe, eu pedi para você me chamar quando a cena acabasse — reclamou Jake, abrindo a porta do banheiro.

— A maioria do capítulo se tratou disso — replicou Íris.

— Já acabou? — perguntou Jake, franzindo o cenho.

Íris não respondeu, colocou o livro na cama, mais afastado de si. É claro que ele saberia do beijo, senão não agiria dessa forma tão preocupada.

Capítulo 3.