Saint Seiya não me pertence, pertence a Masami Kurumada e Toei.
Trata-se de um U.A(Universo Alternativo) já que eu só trabalho com os personagens, mas não uso a cronologia do autor e apenas alguns lugares.
Um singelo presente de aniversário para a minha grande amiga e tia virtual Nana Pizani.
Boa leitura!
"Eu não sei no que isso vai me..."
"Camus, eu acho que não lhe pedi antes, mas não me interrompa!" – ela disse de forma firme. Em geral era uma pessoa simpática, simples, humilde e amistosa, mas a gravidade da situação obrigava-lhe a ser mais rígida e severa. – "Você vai saber Camus! Vai saber!" – disse passando o dedo indicador pela boca do copo descartável que, há algum tempo atrás, conservava sua bebida.
Ela deu um suspiro longo, passou a mão nervosamente pelos cabelos, suas mãos estavam geladas de nervoso e ela não conseguia sequer encarar Camus nos olhos.
Os primeiros dias que Hyoga tinha chegado a nossa morada ele não falava com ninguém, ficava maior parte do tempo isolado em seu quarto e como estávamos em época de férias escolares não havia necessidade de grandes preocupações com relação ao seu comportamento.
Eu ia ao quarto dele pra ver como ele estava, mas não respondia as minhas perguntas e ficava apenas me encarando. Nos primeiros dias eu tinha curiosidade com relação à Hyoga, queria vê-lo, conversar, ouvir a voz dele. Coisa boba de criança, sem maldade!
Mas, passado isso, eu comecei a me sentir deixada de lado. Louise, a governanta e Camille, minha mãe, não paravam de se preocupar com ele um único minuto e isso me deixava enciumada. Ainda me lembro de alguns dias em particular, como aquele...
Era uma linda manhã primaveril, Tata acordou cedo, vestiu-se, penteou os cabelos loiros e curtos, então saiu para o corredor para tomar seu café da manhã. Quando viu a porta do quarto de Hyoga entreaberta e resolveu chamá-lo.
TOC TOC
"Hyoga?" – ela abriu a porta deixando os raios de luz do ambiente passassem para o local escuro iluminando o leito do pequeno. Ela foi até ele e cutucou-o devagarzinho.
"Acorda seu preguiçoso! Você dorme até tarde as férias inteiras e assim vai ficar doente!"
Ele abriu um dos olhos para ver quem lhe falava e quando suas suspeitas foram confirmadas ele cobriu a cabeça e virou-se de costas.
"Não faz isso seu bobo!" – ela puxou as cobertas fazendo Hyoga se encolher na cama apenas trajando o fino pijama de algodão. Era um shorts azul claro e uma blusa do mesmo tom, as mangas curtas iam até metade do braço e na frente, uma longa fileira de botões se estendia .
"Eu não quero tomar café!"-respondeu sonolento.
"Mas, não pode ficar no quarto o dia todo que vai fazer mal para você!" – disse a menina rindo. – "E eu queria te chamar para brincar comigo!".
"Brincar de que?"
"Podíamos pegar as bicicletas e andar até a praça principal!"
"Eu não tenho bicicleta!"
"Tem duas na garagem só que uma é mais antiga!" – disse – "Você não sabe andar de bicicleta!" – a menina usava um tom desafiador.
"Sei sim!" – respondeu o loiro se sentando na cama e cruzando os braços e as pernas.
"Não sabe não! Por isso que você não quer ir!"
"Mentirosa!"
"Bobão!"
"Epa epa, o que está acontecendo aqui?"- Louise apareceu para ver por que eles estavam discutindo logo cedo. Usava o tradicional uniforme azul marinho e um avental branco de renda, os cabelos castanhos e compridos presos em um coque no alto da cabeça. Apesar da pouca idade ela parecia ser mais velha por causa de seu rosto apático.
"O Hyoga me xingou!" – disse a garotinha com jeito de vítima.
"Você que veio me atentar!" – respondeu emburrado.
"Eu só falo a verdade!"
"Vem aqui sua tonta!" – ele deu um pulo na cama e se pôs na frente da garota que começou a correr dele.
"Louise! Louise!" – ela foi atrás da moça e se segurou na barra de sua saia.
"Já chega vocês dois!" – esbravejou na esperança de conte-los – "Hyoga não vai bater na Tata e você senhorita não ficar reinando por ai logo cedo! Vai tomar seu café vai!".
A menina lançou um ar contrariado à moça batendo os pés no chão numa atitude infantil, pois odiava ser tratada como uma garotinha boba e mimada. Ora essa, ela já era quase uma mulher! Pensou irritada. Hyoga aproveitou que a Louise estava de costas e mostrou a língua para Tata.
"Ele mostrou a língua pra mim!"
"Desce logo menina!" – e empurrou-a para fora do quarto delicadamente e fechou a porta.- "Menino Hyoga! Não pode ficar brigando com a Tata assim...".
"Ela que veio me provocar!"
"Vocês tem que ser amigos! Afinal a senhorita Tata é sua tia!" - ela foi até a janela e abriu as cortinas para que os raios de sol inundassem o ambiente, depois foi até o guarda roupa e pegou um conjuntinhode short e camiseta de tom verde para o menino se vestir.
"Troque-se e desça para tomar café!" – mal esperou a resposta e desceu fechando a porta atrás de si.
De má vontade ele se trocou rapidamente, escovou os dentes, penteou os cabelos e desceu os degraus da escada batendo os pés. Quando chegou a cozinha muito bem arejada e arrumada foi logo ao seu lugar costumeiro que era situado ao lado esquerdo da cabeceira da mesa.
"Bonjour¹ Hyoga!" – disse sua avó com um sorriso sincero enquanto passava os olhos rapidamente por uma página de jornal.
"Bonjour Camille" – respondeu o loiro sentando-se a mesa.
A senhora voltou seus olhares para o garoto, dobrou o jornal caprichosamente e dispôs sobre a mesa, ao lado de sua xícara de café.
"Quando vai me chamar de avó?"
Ele encarou-a com os olhinhos piscando e depois respondeu:
"Quando eu considerá-la uma pessoa suficientemente importante para isso"
"Não fale assim com a minha mãe!" – disse Tata que estava na cadeira defronte ao loiro.
"Ela não é sua mãe!" – respondeu hostil. – "Sendo assim não posso te considerar minha tia, o que seria até ridículo, pois eu sou mais alto que você!"
"Chega!" – pediu Camille tentando parecer calma batendo com a colher na xícara de chá. Definitivamente, as crianças podem ser malvadas e inconseqüentes quando querem.
"Ela é minha mãe! Não de sangue, mas de coração!" – respondeu Tata brava, se tinha uma coisa que não gostava era que dissessem que Camille não era sua mãe legítima. – "Pelo menos eu tenho mãe!"
"CATARINA ALEXEI CHEGA!" – disse Camille alterando o tom de voz.
"Ele que começou e a culpa é minha?" – ela saltou da cadeira e correu para a sala.
"Tata espere!" – Louise que estava trabalhando ali perto da pia, enxugou as mãos e seguiu o circuito da pequena atrás dela.
Hyoga empurrou a xícara para o lado e saltou da cadeira com ar feroz. As palavras da garota provocaram um efeito muito pior do que o esperado.
"Hyoga! Não fique bravo com ela! Ela é muito nova e inconseqüente!"
"Eu também sou muito novo e inconseqüente!" – disse irritado virando-se para encará-la. Apesar de não saber muito bem o significado da palavra inconseqüente.
Ele chutou a cadeira com raiva, sentindo-lhe os dedos do pé direito, que estavam dentro do tênis azul, latejar por causa do impacto. A mesa balançou fazendo a xícara de Camille tombar e ela ter que segurar o açucareiro e a geléia para que elas não caíssem em queda livre rumo ao chão.
O pequeno Hyoga se virou bruscamente e foi rumo à porta da sala. Quando lá chegou deu de cara com Louise afagando os cabelos de Tata e ela aninhada em seu colo como um gato, o rosto nas mãos e a cabeça encostada contra o peito da governanta.
Hyoga sentiu inveja dela naquele momento. Como sentia saudades do colo da mãe e de seus afagos suaves, suas histórias, seus beijos de boa noite, sua voz melodiosa acalmando-o nas noites de tempestade.
Ele abriu a porta da sala com violência e bateu-a com força atrás de si, desceu os três degraus da entrada, passou pelo jardim e ganhou a rua.
Se Hyoga tivesse sido um pouco mais observador, teria percebido que Tata chorava e soluçava.
"Eu o odeio!" – disse a pequena ainda chorando de raiva e tristeza.
"Não fale essas coisas menina!"
"Falo sim! Ele é um egoísta!"
"Tata ele acabou de perder a mãe!"
"E eu que nunca tive a minha de verdade!" – um soluço abafado saiu de seus lábios.
"Não diga besteiras! Você sempre teve!"
Camille ficou vendo Louise afagar os cabelos de sua pequena filha. Ela a tinha adotado quando ainda era bem pequena, logo quando a sua filha de sangue tinha saído de casa. O marido tinha morrido a pouquíssimo tempo e assim que sua filha tinha conseguido reaver a herança que herdou do pai com o falecimento deste, ela saiu pelo mundo, com dezoito anos nas costas, uma poupança gorda no banco e um filho de quatro meses na barriga.
Camille entrou em depressão, em um momento de desespero tinha tentado cortar os pulsos certa vez. O marido estava morto, sua filha tinha sumido pelo mundo e ela não tinha mais pelo que viver.
Até que um dia resolveu que deveria dar um novo rumo a sua vida e adotou a pequena Catarina, que tinha a mesma idade de seu neto, em um orfanato da cidade de Bordeaux.
Definitivamente, no começo Hyoga me irritava profundamente, mas eu não era uma menina muito fácil, devo admitir. É claro que criança não guarda rancor por muito tempo, aos pouquinhos fomos ficando amigos.
Hyoga começou a freqüentar a escola, tendo um ótimo desempenho escolar em quase todas as matérias. Quando já estávamos um pouco maiores, na pré-adolscência para ser mais exata, eu me lembro de algumas coisas engraçadas como por exemplo um dia de etudos em nossa casa.
"Vamos logo, eu quero terminar isso aqui para poder ir brincar!" - Tata estava sentada no tapete da sala, com uma pilha de livros empilhados ao seu lado, usava um caderno como apoio e escrevia uma redação com demasiada rapidez.
A pequena Catarina já não era mais tão pequena, já tinha seus onze anos. Os cabelos estavam muito mais compridos, chegando quase até o meio das costas, mas presos de qualquer jeito em um rabo de cavalo baixo.
Ao seu lado duas outras garotas estavam sentadas, uma de cabelos castanhos e encaracolados estava deitada de costas, olhando para o teto e mexendo em uma mexa do cabelo com cara de tédio. A outra estava sentada com uma enorme quantidade de papéis espalhados ao seu redor, olhando aflita para o caderno.
"Ai, como eu odeio essa matéria insuportável!" – disse uma garota de cabelos negros estilo chanel que usava óculos de uma armação leve, enquanto passava a borracha freneticamente pela folha do caderno. – "Tata, você poderia me ajudar?".
"Eu já expliquei essa conta para você um monte de vezes!" – respondeu parecendo um pouco aborrecida e sem tirar os olhos de sua redação.
"Mas, isso aqui ta muito difícil! Eu odeio matemática!" – ela jogou o caderno e o lápis no chão, depois abraçou as pernas colocando a face nos joelhos.
"Você nunca foi muito inteligente mesmo!" – disse a garota de cabelos castanhos maldosamente.
"Pelo menos ela está se esforçando ao invés de você que não está fazendo nada! Pensei que você tivesse vindo na minha casa para estudar!"
"Mas, eu vim estudar!" – protestou a outra se levantando e se sentando no tapete – "Só que estou descansando agora".
"Hunf!" – Tata deu um olhar de canto de olho parecendo irritada e voltou novamente sua atenção ao seu texto.
Do lado de fora pode se ouvir o barulho portão se abrindo e alguém entrando a passos rápidos pelo jardim. A amiga de Tata de cabelos castanhos e encaracolados logo se levantou, estufou o peito e sentou-se no sofá fazendo uma pose muito artificial. Uma pessoa passou a chave na porta e entrou rapidamente, fechando-a logo em seguida, não demorando a andar pelo longo corredor, indicando que teria que passar na porta da sala antes de seguir para os outros cômodos da casa. E ele apareceu:
"Bom dia meninas!" – disse Hyoga com um belo sorriso no rosto parecendo muito à vontade. Estava um pouco suado e com o peito arfando, passando um braço pela testa tentando enxugar o suor.
"Oi!" – falou Tata sem ao menos fazer menção de olhar para ele. Era apenas o Hyoga de sempre, como ela já estava acostumada a ver todos os dias.
"OLÁ HYOGA!" – disse a garota de cabelos encaracolados com um sorriso ensaiado e cruzando as pernas – "Como vai?".
"Hum, muito bem e você?"
"Ótima!"
Hyoga estava maior, aos onze anos já era consideravelmente alto para sua idade. Um garoto desengonçado, de braços longos e um pouco desproporcional, conseqüência da fase de transformações que ele estava passando. Os cabelos loiros tinham sido cortados recentemente, mas a franja estava bagunçada como sempre, os olhos azuis mais brilhantes e serenos do que nunca.
"Camille já voltou?" – perguntou encarando a pequena Catarina.
"Ainda não! Ela foi as compras e levou a Louise com ela! Acho que vão demorar a voltar!" – disse fechando o caderno no seu colo, sinal de que tinha finalmente terminado seu texto – " Onde você estava?"
"Estava jogando bola com Henri" – respondeu se sentando no chão e cruzando as pernas. – "Estou morto!"- depois voltou sua atenção para outra pessoa - "Qual o problema Julieta?" – perguntou o loiro olhando para a menina de cabelos negros e chanel – "Você está chorando?" – chegou perto dela e colocou os fios de cabelos que lhe caiam pela face atrás da orelha para que pudesse ver seu rosto.
"Eu não entendo isso aqui! Não posso continuar indo mal desse jeito!" – lágrimas caiam-lhe pelas pestanas.
"É uma chorona!" – disse a outra de cabelos castanhos – "Não liga pra ela Hyoga, é uma bobona mesmo, chorar por uma besteira dessa!"
"Boba é você!" – responderam Tata e Hyoga ao mesmo tempo, olhando com raiva para o rosto da garota que ficou espantada com a reação dos dois. Por uma fração de segundos os olhos deles se encontraram num ato de cumplicidade.
"Suzane, você não pode falar essas coisas só porque te deu vontade!" – disse Tata que não suportava mais o jeito da colega, era mais do que claro que ela não tinha ido lá para estudar e apenas queria secar Hyoga. Além de tudo estava sendo inconveniente falando aquelas coisas para Julieta que era uma menina muito sensível e não retrucava provocações, guardava tudo para ela.
"Certo, desculpa Julieta! Eu não queria te magoar!" – disse a garota de má vontade.
"Vamos, qual é o problema?"- perguntou Hyoga atenciosamente. Tinha essa mania de tentar ajudar todos ao seu redor, mesmo que não demonstrasse se importar muito no dia-dia.
"É a matemática!" – respondeu enxugando as lágrimas com as costas da mão direita – "Eu não consigo entender".
"Hum, mas isso tem jeito! Para tudo nessa vida se dá jeito...".
"Menos para a morte!" – completou Tata lembrando-se daquele velho ditado popular. Hyoga emudeceu instantaneamente e olhou para o rosto da garota de forma demorada.
"É! Menos para a... morte!"
A garota percebeu que tinha falado uma grande besteira, pois tinha feito o garoto se lembrar de sua mãe.
"Desculpa!" – sibilou parecendo chateada.
"Tudo bem!" – respondeu o garoto tentando sorrir para amenizar a situação. – "Julieta, não se preocupa! Eu vou te ajudar a estudar! Certo?".
"Jura?"
Ele fez que sim com a cabeça e abrindo um sorriso.
"Mas, só se você parar de chorar!" – sorriu de volta. Se a pequena Julieta precisava de um herói naquele momento porque não ele?
Ela sorriu depois de um soluço e encarou-o. Tinha pelo garoto uma afeição especial em virtude de seus tratamentos gentis e não apenas por ser bonitinho. Eles passaram o resto da tarde muito ocupados, estudando e depois foram assistir alguns desenhos na TV.
Hyoga não era aquele menino briguento que adorava azucrinar as meninas, preferia virar amigo delas. Não era a toa que metade das meninas da minha classe eram fascinadas por ele, isso deixava os outros garotos muito irritados.
Eu também me dava muito bem com os amigos de Hyoga. Depois que crescemos mais um pouco tínhamos que começar a ir para a escola a pé e não mais de ônibus escolar como estávamos acostumados. Eu e ele morávamos um pouco mais longe do colégio e tínhamos que percorrer cerca de uns vinte e cinco minutos de caminhada todos os dias. Vinte e cinco para ir e vinte cinco para voltar. Apesar de ser um tanto quanto cansativo eu sempre me divertia na volta para casa, pois normalmente voltávamos em quatro. Eu, Hyoga, Henri e Jean-Pierre.
Já era passada da hora do almoço, Hyoga e Tata maiores e mais velhos esperavam sentados na escadaria da entrada da escola. Hyoga, agora com seus catorze anos, tinha conseguido alcançar a incrível marca de 1,73 m de altura, os cabelos um pouco mais compridos como sempre esteve acostumado a usar, os braços estavam começando a ganhar músculos e ficando definidos e por ser um jovem precoce já tinha dois fios de barba despontando próximo ao queixo.
"Eles estão demorando demais hoje!" – respondeu Hyoga.
"Pois é..." – falou a menina conferindo o enorme relógio que ficava no alto da fachada da instituição de ensino. Tata já não era mais tão menina assim, já estava adquirindo corpo de mulher, a cintura fina, o quadril ficando mais largos e os seios em processo de desenvolvimento. Ainda assim não era muito alta, alcançando apenas 1,60 m de altura. Os cabelos tinham sido repicados na frente e indo até a metade das costas, o rosto um pouco mais bronzeado por causa do sol.
"Você acha que eles vão ficar na escola hoje?".
"E aqueles dois lá gostam de estudar? Claro que não!" – respondeu o garoto chutando uma pedrinha.
"Desculpem o atraso!" – um garoto de cabelos ruivos com tendência ao loiro, com um corte curto e com franja apareceu sorrindo para eles. Tinha a altura de Hyoga, um pouco mais magro e olhos azuis apareceu sorrindo com a mochila nas costas.
"Onde você estava?" – perguntou a menina irritada.
"Detenção!" – ele passou a mão pelo pescoço e sorriu com os olhinhos brilhando – "Não sei por que tanta implicância comigo! Eu sou tão bonzinho!".
"Henri você não é e nunca será bonzinho!" – retrucou-a sorrindo.
"Hunf! Falou a dona da verdade!"
"Não começa!"
"Ah, me salvem! Ela vai me fazer sofrer!" – disse o menino com ar teatral e colocando uma mão na testa – "Lindo, forte e incrível Hyoga, aquele que todas as garotas idolatram como um deus acuda-me!".
O garoto foi até o loiro e abraçou-o pelos ombros tentando parecer uma donzela indefesa.
"Sai pra lá! Hahaha...".
"Onde está o Jean?" – perguntou a garota.
"Ele já vem! Ele se empolgou de novo com a aula e ficou lá conversando com o professor de filosofia!" – respondeu – "Hum... olha ele ali!".
Um garoto alto, de olhos castanhos, cabelos muito negros e um pouco mais encorpado que Hyoga e Henri apareceu. Era um mulato bonito, com os cabelos levemente cacheados e revoltos e um ano mais velho que eles.
"Ils excusent me le retard²".
"Sans problèmes³". – disse Tata sorrindo gentilmente para o garoto que corou um pouco parecendo nervoso.
"Vamos então?" – perguntou Henri andando na frente e conversando animadamente com Hyoga deixando Jean e Tata para trás e caminhando paralelamente.
"Como foi seu dia Tata?"
"Puxado, mas muito divertido! Poderia ter sido bem mais agradável se você não tivesse demorado tanto".
"Eu sei! Não tive a intenção...". – ele olhou para a garota que carregava o fichário e uma pequena pilha de uns três livros nas mãos parecendo estar cansada. – "Você quer ajuda com esses livros?".
"Hãn? Não precisa!"
Tarde demais, ele já tinha chegado perto dela e arrancado todo material de sua mão. A garota enrubesceu quase que instantaneamente.
"Bem, não precisava! Mas, já que insiste...".
E o pequeno bando de estudantes continuava a andar, Hyoga já afrouxava a gravata que fazia parte do uniforme do colégio e enrolava as mangas da camisa branca.
"Hyoga..." – chamou Henri abaixando o tom de voz para que somente o loiro pudesse ouvir.
"Que?" – ele não o olhava, estava ocupado demais ajeitando as roupas para que elas ficassem mais confortáveis.
"Você não acha que de uns tempos pra cá esses dois estão meio... han... estranhos?"
"Estranhos como?" – eles trocaram um olhar de cumplicidade e olharam para trás discretamente fitando o casal de amigos.
Hyoga, por um momento não reconheceu a garota, era uma nova Tata. Mais alegre, mais bonita, os olhos com um brilho cativante, já tinha ouvido Camille comentar algo sobre o brilho que conservam os olhos das mulheres apaixonadas.
Jean-Pierre estava sorrindo radiante para ela, carregando os livros debaixo do braço, tinha estufado um pouco peito e tentava não demonstrar cansaço, o amigo parecia mais vivo do que nunca mesmo depois de um dia cansativo de aula.
Um sentimento estranho se apoderou de cada músculo do corpo de Hyoga, um sentimento estranho, uma raiva sem igual. Quem aquele Zé maná pensava que era para arrastar asa para a sua tia?
É claro que gostava de ver a garota bem e feliz, mas só ele sabia o que se passava na mente pervertida de um garoto de catorze anos e o tipo de segundas intenções que ele poderia ter.
"Aquele traidor!" – resmungou emburrando a cara.
Durante todo o trajeto Hyoga permaneceu em silêncio, os olhos estreitos e chutando com violência algumas pedras na rua.
"O que é que você tem?" – perguntou a garota quando viu Hyoga chutar um pedaço de cascalho com demasiada força.
"Não interessa!" – falou ríspido.
"Nossa que grosseria!" – reclamou virando a cara para o garoto que deu de ombros e não se importou com o que ela disse.
Quando chegaram ao casarão da família Alexei, Tata fez o convite que fazia todos os dias para os amigos.
"E ai? Hoje vocês vão ficar para o almoço ou não?"
"Tata, que saudades da comida da Louise! Já que você insiste..." – Henri já se adiantou um passo à frente, mas foi impedido de prosseguir por Jean que segurou a gola da camisa do rapaz, enforcando-o um pouco.
"Ele não vai poder ficar! Prometeu que ia comigo arrumar o porão lá de casa. Afinal, foi ele que fez aquela bagunça quando pediu o local emprestado para praticar um pouco de marcenaria."
"É mesmo! Já ia me esquecendo... hehe... fica pra próxima querida!" – respondeu Henri de forma amigável e reparou que quase instantaneamente Jean tinha voltado a puxá-lo pela gola da camisa, enforcando-o um pouco.
Hyoga, com o comentário, também fuzilou o amigo com olhar, aprovando em seu íntimo o gesto de Jean.
"Tata, toma os seus livros!" – Jean estendeu a pequena pilha de materiais à garota que recebeu de braços abertos.
"Obrigada!"
"Não tem por onde!" – ele sorriu.
Eles se encararam demoradamente, Hyoga notou e bufou pelo nariz.
"Vamos logo Catarina Alexei!" – ele empurrou o portão pesado de ferro com violência, passou pelo jardim, subiu os três degraus da escada e chutou a porta com violência para que pudesse passar.
Alguns instantes depois a garota entrou em casa, fechando a porta atrás de si cuidadosamente, depositou a pilha de material em um pequeno armário que ficava ali no canto do corredor, logo abaixo de um espelho. Caminhou pela passagem longa e estreita até passar pela sala de TV e encontrar Hyoga esparramado no sofá, livrando-se do resto da gravata.
"Catarina Alexei? Você só me chama pelo meu nome completo quando está bravo! O QUE FOI QUE EU FIZ?"
"Hunf, não sei! Você que tem que saber se fez alguma coisa ou não! Mas, acho que deve estar com culpa no cartório já que a carapuça serviu!"
"Do que você..."
"Você não se dá ao respeito! É isso!" – ele se levantou, passando as mãos pelos cabelos loiros, jogando-os para trás.
"Eu não me dou ao respeito?" – os olhos dela brilharam perigosamente, colocou uma mão na cintura e a outra deu uma cutucada firme com o dedo indicador no meio do peito de Hyoga. – "E me diga querido sobrinho, DE QUE LUGAR DA SUA MENTE DOENTE VOCÊ TIROU ESSA IDÉIA?".
"É só olhar pra você e ver como você trata tão bem o Jeanzinho".
"Então é isso! Escuta aqui, eu não tenho nada com ele e mesmo que tivesse eu não te devo satisfações!" – ela girou nos calcanhares e rumou para fora do corredor seguindo para a cozinha.
"Não me deve satisfações? Claro que deve! Eu só quero o seu bem e não quero você se envolvendo com gente como ele!"
"Gente como ele? Você se refere ao fato dele ser de uma família de muçulmanos?"
"Não tem nada a ver!" – ele fitou os pés.
"Tem sim! Não seja hipócrita! Existe esse preconceito bobo só por causa da descendência dos novos estrangeiros! Mas Jean é francês, nascido em Bordeaux!"
"Mas..."
"É claro que eu sei que esse preconceito idiota está vivo, mas ninguém assume diretamente! Esperava isso de todos, menos de você!"
Hyoga envergonhou-se por um momento. Realmente, relevou a possibilidade da descendência do rapaz e sempre se cobrou para não tratá-lo com indiferença, mesmo por que, odiava esse preconceito imbecil que tinha se espalhado pela França, causando um pouco de xenofobia(4) na população.
"Não é só por isso, mas também por que os garotos dessa idade não estão interessados em nada sério! Falo por mim, eu sou um deles!"
"Você está quase namorando a Julieta!"
"É diferente!"
"Por que é diferente?" – ela virou ficando de frente pra ele.
"É diferente por que eu gosto dela! Só por causa disso!"
"E, suponhamos que o Jean também goste de mim."
"Ele não gosta de você!"
"E como você sabe?"
"Por que ele ia querer alguma coisa com você? Se enxerga menina!"
"Hyoga, você é um grosso!" – ela deu um chute na canela dele de raiva. – "E quer saber de uma coisa? Se o Jean quiser alguma coisa séria comigo eu vou aceitar! Por que ele é um garoto maravilhoso e não é do seu tipinho que só quer saber de se aproveitar das meninas!" – ela subiu a escada enraivecida, deixando Hyoga massageando os joelhos.
"Certo, mas SE VOCÊ FICAR MAL FALADA NÃO DIGA QUE EU NÃO AVISEI!"
"Será o possível?" – uma mulher nova com cabelos castanhos e compridos, cacheados e soltos apareceu. – "Mal chegaram e já estão brigando?".
"Eu não fiz nada Louise!" – Hyoga foi até ela como um garoto manhoso, só que cresceu demais e abraçou a mulher com carinho, afagando-lhe os cabelos e tendo que encurvar um pouco as costas para poder repousar o queixo no ombro dela. – "Só você me entende Louise!".
"Não adianta você vir me bajular mocinho!" – ela soltou o rapaz com um sorriso divertido nos lábios. – "O que foi que você aprontou?".
"Nada!" – de repente, ele voltou a ficar sério como se tivesse se lembrado de algo, segurando as duas mãos da mulher que ele aprendeu a tratar como uma tia. – "E então? Você vai mesmo me abandonar?".
O sorriso sumiu do rosto dela e de repente ficou mais sério, com os olhos tristes, fitando as suas mãos que estavam entrelaçadas com o pequeno Hyoga. Era seu garotinho, um garotinho que cresceu demais, mas ainda sim era o seu menino que já se tornava um homem e que ela criou desde pequeno.
"Vou ter que ir querido, meu pai está adoentado e vai precisar de mim para cuidar dele. Também vou ajudar minha irmã com o empório da família na Marselha, você sabe que a vida está cada vez mais difícil não sabe?" – ela colocou uma das mãos no rosto do pequeno que tinha ficado triste. – "Mas, eu vou sempre me lembrar de você e vou vir visitá-los sempre que puder!".
"Não vai ser a mesma coisa!"
"Você não quer me fazer ficar com peso na consciência?"
"Não! Eu sei que você tem que ir, mas não vou fingir que estou feliz com isso."
Tata, que tinha se lembrado que ainda não tinha almoçado, descia as escadas novamente quando ouviu o final da conversa dos dois.
"Você vai embora Louise?"
"Vou minha querida! Vou sim..." – os olhos dela não escondiam mais a emoção e já brilhavam por causas das lágrimas que teimavam em rolar pelo rosto. – "Mas, eu vou com vocês dois no meu coração! Tenho-os como meus sobrinhos, meus pequenos, minhas crianças!".
Tata também desceu as escadas e pulou no pescoço da governanta, abraçando-a com carinho. Louise puxou os dois loiros para um abraço apertado, ao mesmo tempo, quase os fazendo chorar também.
Naquele ano Louise nos deixou por motivos particulares, e não preciso dizer que isso abalou profundamente o ritmo da casa. Minha mãe, Camille, se recusou prontamente a colocar qualquer outra pessoa no lugar da antiga governanta, afinal, ela era mais que uma funcionária, era praticamente parte da família. E foi justamente nessa época que Hyoga e eu intensificamos nossa relação, ficamos mais amigos, passamos a brigar raramente e, acredite ou não, acabamos virando confidentes.
Não perdemos o contato com Louise, a revíamos em tempos de festas. Certa vez, Hyoga e eu fomos passar uma curta temporada na Marselha com ela e sua família. Estava tão mais alegre, mais bonita e estava noiva. Ela nos convidou para participar das bênçãos, mas Camille não permitiu que fossemos porque era uma religião contrária a que ela pregava em nossa casa. Foi uma das poucas vezes que repreendi minha mãe, ela tinha uma séria dificuldade em aceitar outras crendices, já que era católica assídua e não admitia qualquer tipo de conversa sobre os ensinamentos contrários a isso.
No começo isso nos influenciou de maneira negativa, afinal, éramos crianças e acabamos aceitando e acolhendo as idéias e ensinamentos dela. Quando crescemos começamos a formar nossas próprias opiniões e aceitar as pessoas sem nenhum tipo de preconceito por sua religião, crença ou qualquer outra diferença. Depois de um tempo minha mãe também melhorou bastante com relação a isso, ela diz que foi por causa da convivência com nós dois.
O tempo passou, fomos crescendo juntos, a transição pela adolescência até que foi tranqüila. Fomos jovens normais, saudáveis, bem sucedidos no estudo, cercados de amigos, paqueras e tudo o mais. Anos incríveis eu diria!
Tata olhou para o enorme relógio que estava fixado na parede da lanchonete. Tinha se empolgado e já estavam naquela conversa fazia quase uma hora, Camus silencioso quase não piscava e mal respirava tentando não perder uma única palavra proferida pela garota.
"Já acabou?" – perguntou o homem de cabelos ruivos e compridos com um tom gélido na voz, demonstrando indiferença.
"Não! Só dei uma pausa, mas já vou prosseguir!" – ela lamentou o fato da cantina ter sido fechada e apenas o salão estar aberto. Não poderia comprar mais um café e sentia que quando ficava nervosa somente a cafeína poderia estimulá-la a continuar.
Camus percebeu isso e empurrou seu café, que estava meio vazio, ao lado dela.
"Você, aparentemente, precisa mais disso do que eu!"
Ela não fez cerimônia, precisava realmente de um pouco mais daquela bebida que já estava quase gelada, mas bebeu com gosto. Necessitava de forças para continuar seu relato, não poderia omitir um único detalhe, por mais desprezível que ele parecesse ser.
"Obrigada!" – disse limpando os lábios nas costas das mãos de forma até meio infantil.
Camus achou graça, era exatamente o mesmo movimento que Hyoga sempre repetia de forma mecânica depois que bebia algo. E, novamente, a dura realidade voltou a atormentá-lo, pois em algum lugar entre aquelas salas frias, seu protegido estaria acorrentado a tubos e bolsas de soro, cercado por médicos e enfermeiras que estavam tentando salvá-lo. Mais uma vez, ele ficou mais atento e agitado.
"Catarina, por favor, eu PRECISO saber por que isso é tão importante no momento!"
"Para o bem do Hyoga e pelo seu bem, é bom você ouvir a história inteira!" – respondeu. – "Vou agilizar o ritmo da conversa.".
Até que finalmente chegou o dia em que eu temi por muitos anos, o dia em que Hyoga ia nos deixar para seguir carreira em Paris. Apesar de Bordeaux ter excelentes faculdades, ele vivia repetindo que só se sentiria plenamente satisfeito profissionalmente se fosse estudar na capital e que seu sonho, desde que se entendia por gente e pôs os pés na França, era justamente esse.
"Você vai se cuidar não vai?" – Catarina estava, agora com os cabelos loiros mais lisos e lhe descendo até o ombro, agarrada ao pescoço de Hyoga com toda força que podia.
"Já disse que vou Tata!" – respondeu abraçando-a e levantando-a alguns centímetros do chão. Tinha crescido um pouco mais, os cabelos loiros iam até o ombro, como já era costume, a barba rala, os olhos azuis brilhando como nunca, o corpo mais definido, a voz mais grave. O rapaz tinha se tornado um homem.
"E os rapazes? Vem se despedir de você?"
"Acho que hoje não! Já festejamos a minha despedida ontem com algumas garotas em uma casa de boas meninas.
"Hunf, e você me fala isso na maior cara de pau é?"
"Jean foi junto!" – comentou colocando a garota no chão.
"E quem disse que eu me importo? Você se esqueceu que eu não sou mais a namorada dele?"
"Sim! Mas, vocês namoraram por muito tempo, depois terminaram, depois voltaram, depois terminaram novamente, então voltaram e mais uma vez...".
"Dessa vez não tem mais volta! Ele não é o homem certo para mim! Eu resolvi que vou investir em material importado, agora eu quero um estrangeiro." – disse sorrindo vendo Hyoga fechar a cara.
"Olha lá hein? Não quero você aprontando enquanto eu estiver fora!"
"Bobão!" – ela puxa o loiro para baixo pela gola do casaco para poder ficar no mesmo nível que ele e deposita um beijo gentil em sua fronte.
"Camille não vem?" – perguntou um pouco mais sério encarando sua querida tia, que para ele era mais uma prima.
"Você sabe que ela não aprovou a sua decisão não é? Mas, eu não sei o que esperar e... OLHA ELA ALI! EU SABIA QUE ELA VINHA!"
Hyoga se virou esperançoso e logo reconheceu a avó que vinha a passos lentos, desviando de malas e passageiros para poder transitar pela plataforma.
"Achou que ia se livrar de mim tão fácil? Enganou-se mon petit (5)!" – ela tinha um bonito semblante, os cachos loiros que iam um pouco mais do queixo estavam definidos e alguns fios brancos já começavam a surgir, os olhos castanhos já começavam a se encher de lágrimas.
"Camille!" – ele correu para ela e abraçou-a. Aprendeu a amar a avó e faze-la parte importante de sua vida. – "Achei que não vinha!".
"Você achou que eu ia perder a despedida do meu único neto? Que espécie de avó eu seria?"
Infelizmente, já era demasiado tarde. O ônibus já começava a ligar os motores e toda a bagagem de Hyoga já se encontrava no bagageiro. Ele encarou as duas com um brilho de excitação e ao mesmo tempo, tristeza no olhar.
"Olha aqui rapaz, você vai se cuidar, vai estudar direitinho, vai se alimentar bem, nada de ficar só na gandaia direto e vai me escrever no mínimo uma carta por mês."
"Oui! Ma chérie grand-mère (6)".
Os olhos de Camille se encheram de lágrimas e ela abraçou o neto com todas as forças do seu corpo. Era a primeira vez que ele lhe chamava daquela maneira, lhe chamava de avó.
"Mien adorée petit-fils (7)!"
Ele não conteve uma lágrima de alegria e ficou ali abraçado com ela.
"Vamos, você vai perder o ônibus meu bem." – ela soltou-o com dificuldade e limpou as lágrimas. – "E não volte para casa sem aquele diploma!".
O motorista do ônibus buzinou para que ele se apressasse.
Ele sorriu, deu um último beijo nas bochechas de Camille, depois se virou para Tata, pegou sua mochila que ela segurava, deu um beijo em seu rosto e cochichou:
"Torça por mim!"
Saltou para dentro do ônibus e se acomodou em sua poltrona, passada às emoções fortes, ele fechou os olhos e pegou num pesado e reconfortante sono.
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"Acho que é aqui!" – Hyoga estava parado na frente de um enorme casarão de cor verde, muito chamativo, com um grande jardim cheio de flores, com uma pequena varanda na entrada.
Ele segurou a alça da bolsa que jazia ao seu lado, depois apertou a campainha de aspecto estranho que fez um barulho muito diferente do convencional, fazendo-o se assustar por um momento.
Uma senhora de cabelos bem curtos e grisalhos apareceu na porta para recebê-lo. Era uma figura, no mínimo, exótica. Usava uma bata amarela que vinha-lhe quase até os joelhos, chinelos marrons decorados com muitos enfeites brilhantes, tinha entorno de seus 1,65 m, olhos castanhos e serenos, pele um pouco bronzeada nos braços e no rosto.
"Hum, sinto boas energias emanando dessa pessoa que bate em meu portão! Você é o Hyoga certo?"
"Sou sim! E a senhora é?"
"Oh não meu rapaz! Não me chame de senhora, me chame de você! Senhora é uma palavra muito pesada sabe?" – ela abriu o portão de ferro. - "Me chamo Olímpia.". – ela estendeu a mão para ele que aceitou o cumprimento. – "Sou a dona dessa pensão. Espero que possamos nos dar muito bem e também espero que você não atrase o aluguel!".
O loiro levantou uma sobrancelha, nunca tinha visto uma figura como ela. Na sua cabeça, a dona da pensão que tinha combinado de se hospedar era uma senhora de meia-idade, gorda e rabugenta. Mas, nunca esperou encontrar uma senhora de aproximadamente seus sessenta anos e com jeito de hippie.
"Vamos entrando! Você está com sorte, vai poder conhecer os outros rapazes! Eles estão reunidos na cozinha para o lanche da tarde". – ela enlaçou seu braço sem cerimônia no braço esquerdo do loiro e começou a guiá-lo cuidadosamente. – "Quer ajuda com as malas querido?".
"Não! Merci(8)!" – ele segurou a mala com uma das mãos e foi seguindo-a.
"Pode deixar as malas aí!" – disse apontando para a bagagem assim que entraram na casa, que era muito bonita e com estilo muito parecido com o da dona. Muitos armários de madeira, cortinas de cores vibrantes e aspecto psicodélico decoravam o ambiente. Pela enorme janela entrava os últimos raios do sol poente, deixando o céu um pouco alaranjado e dando ao ambiente um aspecto muito acolhedor e bonito. Olhando naquela direção Hyoga pode ver um objeto que parecia uma peneira, decorada com penas e pedrinhas rosa e azuis, com guizos dependurados nas pontas.
"O que é isso?" – perguntou curioso.
"Isso? É um filtra-sonhos! Ele não permite que as energias negativas entrem na casa, impedindo que os pesadelos nos tomem as noites e somente os sonhos venham nos abençoar. – ela fez um movimento gracioso com as mãos como se pudesse flutuar como uma pluma. Hyoga não pode conter o riso.
"Rapaz, você riu de mim? Ou para mim?"
"Sinceramente, dos dois!" – disse rindo mais alegremente.
"Vamos nos dar bem! Uma das coisas que mais admiro é a franqueza! Chega de tagarelar, vamos conhecer os rapazes!"
Eles foram entrando por um corredor, até chegar a cozinha em que um grupo de sete rapazes sentados em uma mesa se encontrava, falando muito alto, alguns discutindo e outros dando risada.
"Me passa a droga da geléia Amamya!" – bradava um rapaz de cabelos loiros e curtos muito irritado e ficando vermelho, com uma veia saltada na testa.
"Não ouvi você dizer, por favor!" – um outro jovem mais alto, de cabelos curtos e azuis e olhos azuis, com uma cicatriz no rosto, próximo à testa e os olhos, se equilibrava nas pernas traseiras de uma cadeira de madeira, carregando um pote de geléia.
"Eu não vou falar isso pra você!"
"E eu também não vou passar a geléia!" – respondia o outro debochado, fazendo os amigos que estavam ao redor rirem, menos um menino de cabelos verdes e curtos que estava na outra ponta da mesa.
"Ikki! Dá logo isso pra ele e vamos comer em paz!"
"Ora Shun, eu só estou querendo um pouco de gentileza por parte do nosso amigo Jabu aqui! Afinal, é o mínimo que ele pode fazer para retribuir toda a minha dedicação!"
"Eu vou retribuir a sua dedicação Amamya!" – ele se levantou de um salto e com o punho fechado tentou acertar o rosto do rapaz, que fez um movimento rápido se desviando e acertando um soco certeiro no queixo do outro, fazendo-o se desequilibrar e cair no chão.
"Controle-se! Você ainda não está em condições para arranjar briga comigo calouro!"
"Isso vai ter volta!" – disse colocando uma mão no queixo.
"Tenho tanto medo de você!" – riu desdenhoso.
"IKKI!" – Shun saiu de seu lugar e foi ajudar Jabu a se levantar. – "Você está bem Jabu?".
"Sai de perto de mim!" – empurrou Shun para o canto. – "Não preciso da sua ajuda!" – replicou de forma grosseira, levantando-se sozinha e saindo em disparada da cozinha, passando por Olímpia e empurrando Hyoga na passagem.
"CUIDADO!" – disse o loiro irritado pelo comportamento grosseiro do outro.
"Tsc, tsc, tsc... esse foi o comportamento de um péssimo perdedor!"
"Rapazes! Rapazes se aquietem, por favor!" – ela fez um movimento rápido com o braço para que todos pudessem ouvi-la e imediatamente todos se calaram. – "Esse é Hyoga, o novo hóspede, é estudante assim como vocês! Espero que o recebam bem e o acolham no seio de nossa família". – fez um movimento rápido com as mãos – "Agora, apresentem-se, por favor!".
"Eu sou Seiya!" – disse um rapaz de cabelos castanhos, olhos castanhos e porte atlético.
Hyoga fez um aceno com a cabeça e sorriu.
"Shiryu!" – respondeu outro de longuíssimos cabelos negros como o ébano, olhos verdes meio puxados, alto e de um belo físico. – Seja bem vindo Hyoga!".
"Chamo-me Shun!" – respondeu o mesmo rapaz de olhos verdes que tinha tentado ajudar o tal de Jabu a se levantar. Tinha um tom de pele muito clara, olhos verdes e cabelos do mesmo tom, um rosto dócil e sereno e um sorriso encantador e cativante. – "Aquele é meu irmão Ikki!" – apontou para o outro rapaz de cabelos azuis e curtos, olhar debochado e corpo bem definido. Ele fez um aceno simples com a cabeça, não se ocupando muito com o novo hóspede.
"Sou Ichi". – disse um rapaz de pele macilenta, cabelo meio moicano, pintados de branco e com fundas olheiras estampadas em seu rosto.
"Nachi!" – respondeu por fim o último dos estudantes que tinha cabelos negros e curtos e olhos do mesmo tom.
Hyoga se sentou em uma cadeira na ponta da mesa, cumprimentando todos.
"De onde você veio?" – perguntou Shun curioso.
"Bordeaux e vocês?"
"Somos estrangeiros, isso aqui é quase um intercâmbio pra gente!" – respondeu Seiya comendo uma torrada.
"Eu sou da China!" – falou Shiryu.
"E o resto de nós é do Japão!" – completou Shun.
Olímpia fez um movimento com a mão para que todos se calassem e o silêncio novamente se fez.
"Bem, eu ia falar as regras da pensão apenas para o nosso novo integrante, mas em decorrência dos últimos acontecimentos, não é senhor Ikki Amamya?".
Ikki bufou e cruzou os braços revirando os olhos.
"Gostaria de lembrar a todos que brigas e discussões são expressamente proibidas! E se eu descobrir outro clima hostil como esse que acabou de se suceder, o responsável ou os responsáveis serão convidados a se retirar da minha pensão.".
Ela fez uma pausa.
"Também não são permitidos animais, porte de armas, drogas e...mulheres!" – Seiya deu um sorrisinho significativo – "Gostaria de relembrar em especial ao senhor Seiya de que isso é uma pensão e não um motel!".
"Viu Seiya? Controle seus hormônios!" – respondeu Ikki sarcástico e fazendo todos os rapazes da mesa inclusive Hyoga rirem da piada.
"Bem, acho que é só! Espero que goste da sua estadia aqui querido!"- disse de forma bondosa- "Agora, permita-me, vou retirar-me para conversar com o cosmo!" – ela fez um movimento com as mãos e se retirou fazendo todos darem ótimas gargalhadas.
"Eu não agüento essa Olímpia!" – respondeu Shun.
"Vai se acostumando, ela é maluquinha!"- disse Shiryu para Hyoga.
"Mais é boa gente." – completou o garoto de cabelos verdes.
"E boa cozinheira!" – falou Seiya rindo.
"Seiya! Seiya! Só pensa em comida e sacanagem!" – falou Shiryu rindo da própria piada.
"Até tu Shiryu?"
Hyoga passou o resto da tarde conversando com seus novos amigos, jogando conversa fora e rindo muito.
E assim Hyoga começou uma nova fase que mudaria sua vida para sempre...
Vocabulário:
¹-Bonjour - Bom dia.
²-Ils excusent me le retard - Desculpem-me o atraso.
³-Sans problèmes – Sem problemas.
(4)-Xenofobia - aversão às pessoas ou coisas estrangeiras.
(5)- Mon petit-meu pequeno.
(6)- Oui! Ma chérie grand-mère - Sim! Minha querida avó.
(7)- Mien adorée petit-fils – Meu adorado neto.
(8)- Merci – Obrigado.
N/A: Mais um capítulo e espero que tenham gostado!
Abusei um pouquinho mais de certas expressões em francês, mas foi para dar o estilo, afinal, a fanfic é passada em Bordeaux e, agora por causa de acontecimentos recentes, Paris.
Eu tratei de um tema um pouco polêmico que é a xenofobia na França, tanto que por causa dela, ano passado tivémos aquele conflito entre cívis no país. A xenofobia(significado mais ou menos aceitável: aversão às pessoas ou coisa estrangeiras) é um problema que atua em vários países do mundo, em especial o Brasil, e para dar um ar um pouco mais real a fic, opitei por abordar o tema.
É polêmico, é super atual, está presente em todas as classes da sociedade de forma mesmo que indireta e isso tem que mudar! Estou fazendo a minha parte por um mundo melhor e tentando começar um processo de conscientização de alguns temas através das minhas fics, pois não só de histórias fantásticas vivem os escritores certo!
Espero que tenham gostado do capítulo! A fic atingiu um número consideravelmente expressivo de hits e isso me deixou feliz! Eu escrevo para todos, inclusive para os tímidos.
Por favor, comentem logado ou deixem seus e-mails para que eu possa responder ok?
Beijos
