Capítulo II – Crime e Castigo

- Modelo?

- Reploid funcional, Nanny Vênus CL03 Edição Limitada.

- Edição limitada? Quer dizer aquelas bonequinhas de luxo que estavam anunciando anos atrás?

- Pois é. Da pra acreditar? Quando a vi não acreditei. Mas é verdade. Está ai na sala ao lado esperando o julgamento.

- Quem a capturou?

- X.

- Sério? X? Caramba! Que desperdício! Aposto que nem tirou uma casquinha dela!

- Mais respeito cara! Ele já foi nosso comandante! Além do mais, foi ele quem por duas vezes pôs aquele maverick desgraçado do Sigma em seu devido lugar.

- Graças à ajuda do Zero, diga-se de passagem.

- Ajuda do Zero? Que ajuda?

- Como que ajuda? O cara se matou para salvar a pele do pamonha do X.

- Pamonha! Cara fale isso de novo que arrebento sua cara!

- Ok, ok... Vamos continuar.

- Traços físicos?

- Cabelos castanhos ondulados até o centro das costas. Olhos amendoados, cor de avelã. Lábios finos. Nariz arrebitado. Cútis branca. Um metro e cinqüenta e cinco de altura, quarenta e dois quilos. Aparência de ampuleta: oitenta e oito centímetros de quadris, sessenta centímetros de cintura e oitenta e seis centímetros de busto. Nenhuma cicatriz marcante, nenhum traço especial.

- Praticamente nova em folha. Impressionante! Ultima ocupação?

- Babá. Criança humana. Cinco anos para os mesmos patrões. Sem queixas anteriores.

- E o que ela está fazendo aqui?

- Bom ai é que a coisa começa a ficar quente. Segundo a denúncia, a criança que ela deveria cuidar estava solta no meio da rua e foi atropelada por um maverick que fugia de alguns camaradas hunters após ter assaltado uma loja.

- Acusação?

- Negligência em seu dever para com um ser humano incapaz.

- Caramba! Isso é sério. Você acha que vão condená-la?

- Bem provável. Principalmente por se tratar de uma criança humana. Mas ela tem um bom álibi. O próprio X testemunhará a seu favor.

- Oras! E porque ele fará isso?

- Porque segundo o que está escrito aqui, tudo leva a crer que ela só descuidou-se da menina porque a mãe a obrigou a tal. No caso, ordem direta.

- Mesmo assim, não vai conseguir se safar de alguma punição. Afinal ela violou uma das principais leis. Zelar pela vida humana acima de tudo.

O outro hunter bufou. Quantas vezes não violou essa lei deliberadamente. Quantos humanos não deixara morrer ou sofrer apenas por não querer complicar ainda mais as coisas. Certa vez matou um humano que tentava proteger uma irregular. Fez questão de encobrir o caso acusando a irregular do assassinato, mas nunca se esqueceu de quão poderoso se sentiu naquele momento.

O outro hunter levantou-se, abriu a pequena janela que dava para a cela, deu uma bela espiada na reploid que se mantinha encolhida num dos cantos, abraçando as pernas, de cabeça baixa, com os cabelos revoltos cobrindo-lhe a face.

- É belezinha. Sua batata vai assar. – Proferiu fechando a janela em seguida e acompanhando o companheiro para o corredor onde ainda discutindo com ele tomaram o caminho do refeitório.

Nanny não sabia quanto tempo se passara desde que chegara ao distrito escoltada por X. Os pais de Dorothy ainda não haviam prestado a queixa, mas a história já se espalhara rapidamente. A que chegou a delegacia foi que um grupo de mavericks seqüestrou uma criança humana e durante a perseguição a atiraram contra um dos chasers dos hunters na tentativa de pará-los. Não conseguiram. Um dos mavericks foi morto e a outra capturada.

Quando X e Nanny chegaram ao local a delegacia fervilhava de rumores e declarações exaltadas. Foi com muito custo que conseguiram passar pelos demais hunters e seguir até o delegado responsável, que ouvindo a verdadeira história, fez questão de salvaguardar a segurança da pobre babá até que os juízes chegassem. Normalmente um foro de Maverick Hunters decidia casos semelhantes, mas para demonstrar imparcialidade eles eram escolhidos em outros distritos onde os boatos ainda não haviam chegado.

Uma hora depois o Sr. Dalton apareceu para prestar a queixa. Ao contrário do que esperavam X e Nanny a acusação não foi de homicídio culposo ou doloso como desejava a mãe, mas de negligência, o que era um atenuante, mas que ainda poderia custar-lhe a vida. Caso os jurados não se convencessem de que fora mesmo um ato de displicência seguido de morte, mas julgassem que a negligência fora causada por um distúrbio, ela seria acusada de comportamento maverick e provavelmente sentenciada a morte.

Para Nanny nada mais importava. Tudo era dor e medo. Não conseguia tirar de seus pensamentos os olhos de sua amada Dorothy no instante final. O ódio da multidão ao seu redor, o desespero do Sr. e Sra. Dalton. Nem mesmo a frieza dos dois maverick hunters que decidiram preencher sua ficha ao lado da cela, falando em alto e bom som todos aqueles impropérios a seu respeito a faziam abandonar aquele profundo estado de depressão. Ela repetia a cena da morte da pequena menina a todo instante, na tentativa desesperada de encontrar um meio de impedi-la, como se descobrindo tal meio, pudesse voltar de alguma forma no tempo e impedir aquela tragédia. Mas todas as conclusões a que chegava seu cérebro positrônico era que nada poderia ser feito. Nada, nada, nada...

Subitamente a porta se abriu, duas hunters entraram e a tomaram pelos braços sem nenhum pudor arrastando-a para fora da cela. Com brutalidade a jogaram para fora e ela quase se estatelou no chão recuperando o equilíbrio graças a parede mais próxima. Assustada olhou para as duas, que com expressões nada amigáveis, tornaram a tomá-la pelos braços com violência e a empurrar para o corredor.

- Para onde estão me levando? – Indagou assustada.

- Para seu julgamento. – Respondeu secamente uma delas.

- Que certamente será sua porta de entrada para o inferno! – Respondeu a outra com a voz carregada de rancor. – Maverick! – Disse cuspindo a palavra como um insulto.

Elas a conduziram por um corredor estreito até uma ampla porta de aço. No caminho, os olhares de desprezo e ódio que cruzavam com os seus prenunciavam um destino sombrio. Começou a imaginar se não seria melhor ter sido linchada na rua a ter que passar por toda aquela angústia. Quando a porta se abriu ela foi projetada para dentro quase a pontapés pelas duas guardas, que tão logo cumpriram sua missão viraram as costas e saíram de cena.

Desequilibrada, física e emocionalmente ela tropeçou nas próprias pernas e quase caiu com o rosto no chão. A sala era ampla e redonda. Havia uma tribuna onde estavam os jurados, três ao todo. Ao seu lado direito, a acusação, os Daltons. A sua esquerda sua única testemunha de defesa, o único que fez menção de ampará-la quando fora brutalmente projetada à sala pelas truculentas guardas que a escoltavam. O recinto, embora não muito grande, era opressor. Passava a impressão de que todos estavam projetando-se para cima dela de maneira assustadora. Não conhecia ninguém ali a não ser X e os Dalton. Os jurados sequer se apresentaram. Pareciam ter pressa. O júri, composto de dois humanos e um reploid, encarava a jovem com ares de impaciência esperando que ela se recompusesse para que pudessem iniciar o julgamento.

- Você é a reploid Nanny Vênus CL003?

- Sim. – Respondeu gaguejando ainda intimidada pelo ambiente.

- Você sabe porque está aqui? – Inquiriu outro jurado.

- Por causa... – As palavras morreram em sua garganta. Porque estava ali? Porque estava sendo julgada? Ela cometera um crime e todos sabiam disso. Ela sabia disso. Sua responsabilidade maior era zelar pela vida da menina. Tudo o que tinha que fazer era protegê-la. E ela falhou miseravelmente nessa missão. Não seria mais fácil terminar logo com isso?

- Bem? – Insistiu o jurado.

Ela olhou para os Daltons, a própria imagem do sofrimento. E um pensamento cruel atravessou sua mente. Agora que a filha estava morta eles se importavam com ela. Mas enquanto viva, tudo o que fizeram fora negligenciar seu amor e atenção. "Especialmente aquela bruxa que agora se faz de vítima!" – Pensou. E antes que o jurado impaciente tornasse a questioná-la falou em alto e bom som.

- Por causa da morte da menina que eu deveria proteger.

A resposta pegou todos de surpresa. O jurado prosseguiu.

- Então você confessa que matou a criança humana.

- Não! – Respondeu peremptoriamente – Não! Eu não a matei! Eu jamais poderia agir de tal maneira.

- MENTIRA! – Gritou a mãe a sua esquerda. – Você é uma vadia mentirosa! Você a matou! Você a matou!

- Ordem! – Brandiu um dos juízes, mas ninguém lhe deu ouvidos. Nanny então explodiu.

- Não! Você a matou! Vocês a mataram! Mataram aos poucos! Todos os dias que negligenciaram seu amor por ela! Muito ocupados com seus problemas para perceber o mal que fizeram a pobrezinha! Você Sr. Dalton, embora carinhoso, esteve sempre ausente! Você não a viu dar os primeiros passos, a falar as primeiras frases. Não sabia qual era sua cor preferida nem o animal de que mais gostava! O que o senhor sabia de sua filha?

- ORDEM! – Gritou o jurado percebendo que o julgamento se tornara um acerto de contas familiar. Mas a babá prosseguiu.

- E você! Sra Dalton. Foi por sua causa que ela morreu! Sempre ocupada com suas ligações, sempre furiosa e impaciente! Sua filha nunca foi sua prioridade. Nunca! As últimas palavras que ela ouviu de sua boca foram "Solte logo esse inferno de menina!" Você a matou!

O julgamento encaminhava-se para uma grande confusão quando o terceiro jurado até então calado esmurrou a mesa com tanta força que todos se calaram assustados. Ele era o único reploid e até então Nanny atordoada pela confusão mental que se encontrava não reparara nele. Mas agora não tinha como não notá-lo. Ela o conhecia, não pessoalmente, mas de todos os meios de comunicação possíveis. Era o grande herói dos reploids. O grande líder dos Maverick Hunters. Ela acreditou estar sofrendo de uma alucinação, ou coisa parecida. Mas aqueles firmes olhos azuis não deixavam dúvidas. Era ele.

- Acusação. – Disse em tom firme – O que tem a declarar?

Os Daltons, surpreendidos pela explosão de Nanny não tinham palavras. O remorso os corroia, a vergonha e a dor consumiam suas forças. Nem mesmo a explosiva Sra. Dalton teve coragem de se pronunciar. O homem murmurou entre os dentes a palavra "negligência" que só foi ouvida por todos, pois um mórbido silencio dominou a sala após a intervenção do jurado reploid.

- Defesa. – Disse olhando com firmeza para a testemunha. X levantou-se e relatou o que vira. A menina no centro da rua o pai a meio caminho. A babá em estado de choque. Não pode relatar a posição da mãe, mas testemunhos colhidos pelo reploid ferido que ficou no local do acidente confirmavam a história da babá. De que a mulher havia gritado com ela e em seguida a menina correra para a morte.

Satisfeito com a resposta o reploid voltou sua atenção para a jovem babá. Confabulou com os demais jurados por alguns instantes e em seguida dirigiu sua palavra a ela.

- Você é acusada de cometer o crime de Negligência para com um humano incapaz. Tal crime é normalmente julgado como comportamento Maverick e, portanto, punido com a pena capital. Como você se declara em relação à acusação?

Não havia qualquer sinal de clemência nas palavras do reploid. Ele fora direto ao ponto. E a resposta de Nanny, que poderia ser apenas uma, certamente a condenaria.

- Eu a amava. – Respondeu cansada.

- Não foi essa a pergunta que lhe fiz. – Retrucou com dureza.

- Eu sou culpada. – Afirmou finalmente sentindo o mundo desabar sobre sua cabeça.

- Está ciente de que ao declarar-se culpada, está admitindo que seu comportamento pode ser considerado irregular? – Insistiu o outro jurado.

Exausta, Nanny cambaleava. Até quando aquela tortura continuaria.

- Eu sou culpada. Eu a deixei morrer. Eu não pude fazer nada para impedir. Se quiserem me matar façam logo de uma vez. Eu já estou morta. Eu morri junto com minha pequena Dorothy. – Disse praticamente vomitando as palavras freneticamente enquanto cerrava os punhos e só então percebeu que estava segurando alguma coisa. Desde que toda a tragédia começou estivera segurando o lenço rosa choque e instintivamente não o largara um só minuto.

Os jurados confabularam novamente. Provavelmente decidindo o destino dela. Os Dalton já se retiravam do recinto. Não lhes interessava mais o destino daquela reploid. As duras palavras dela atingiram-nos diretamente na alma e seria a punição que não esperavam receber, mas que para ela soava como uma justa vingança em nome de sua pequenina e amada amiga.

X não abandonou o recinto. Permaneceu na tribuna. Os olhos saltando dos jurados para a réu. Vez ou outra seus olhos se encontravam com os dela. E ele esboçava um sorriso nervoso na esperança de tranqüilizá-la. "Estranho reploid." - pensou. Porque se importava? Porque se dispusera a defendê-la? Porque estava ali ainda? Percebeu que naquele instante, ele era a única criatura do mundo que não a abandonara. Porque não o encontrara antes, quando ainda tinha tempo. Poderiam ser amigos. Ele certamente seria um grande amigo.

Os jurados terminaram sua conversa e voltaram a encarar a réu com expressões duras. Foi o reploid que tomou a palavra, uma vez que os demais pareciam intimidados com sua forte presença.

- Nanny Vênus CL003. Considerando as acusações e os indícios apresentados pela defesa a seu favor, assim como sua declaração, este júri decidiu-se por considerá-la culpada da acusação de Negligência para com um humano incapaz. Porém, não há indícios concretos de que esse crime tenha sido provocado por uma falha de comportamento. Assim, decidimos colocá-la sob acompanhamento para verificar se você desenvolverá ou não o comportamento irregular, como acreditamos que vá. Você será enviada para o Asilo Reploid onde permanecerá até que os responsáveis a considerem sã o suficiente para reintegrar-se a sociedade. Caso encerrado. – Afirmou categoricamente pondo fim ao julgamento. As portas se abriram e as duas hunters agressivas retornaram para levar a prisioneira, mas X adiantou-se e disse que ele se encarregaria de escoltá-la até sua sentença. Um tanto contrariadas, só aceitaram a decisão quando o líder dos Hunters se aproximou e deu seu aval aquele estranho comportamento. Assim que elas saíram, acompanhadas dos demais jurados, o líder dos hunters dirigiu-se ao subordinado num tom bastante informal, que surpreendeu Nanny completamente.

- X, qual é seu interesse nesse caso? Quando disse que precisava de minha ajuda achei que se tratasse de algo sério.

- Desculpe Zero, mas eu considero algo sério um caso de injustiça. – Respondeu num tom um pouco mais formal.

- Que seja, mas eu tenho mais com que me preocupar do que em resolver os problemas de uma babá incompetente e de pais relapsos. Da próxima vez, me avise com antecedência do que se trata. Eu poderia mandar outro hunter aqui. – Disse um tanto irritado enquanto dirigia-se a porta.

- Desculpe Zero. E... Obrigado por vir.

Ele apenas acenou de costas enquanto saia. Quando a porta se fechou atrás dele X e Nanny estavam sozinhos novamente. Um profundo silêncio tomou contado do lugar, até pouco tempo atrás dominado por gritos e insultos. Foi ela quem rompeu novamente o silêncio entre eles.

- Eu não sei como agradecê-lo senhor X. O senhor salvou minha vida, duas vezes em um dia.

- Duas? – Indagou confuso.

- Sim. Primeiro me salvou de um linchamento público. E agora de uma condenação certa pendido ajuda a seu amigo figurão. – Disse esboçando um sorriso tímido ao referir-se a amizade dos dois.

- Bem, eu queria ter certeza de que você teria ao menos um julgamento justo. Mas quanto ao veredicto, não tinha como adivinhar qual seria. Confesso que momentos atrás achei que eles te condenariam a pena capital. Quando eu o chamei, não foi com a intenção de favorecer sua causa, mas de torná-la mais imparcial possível. – Explicou – Foi o mais próximo da justiça que pude imaginar chegar.

Um calafrio percorreu o corpo dela. Isso significa que Zero poderia tê-la condenado à morte se achasse conveniente. Ou se acreditasse nas mentiras dos Daltons. No fundo pensou, ele deve ter acreditado na palavra do amigo, que parecia ser o reploid mais sincero que já conhecera. Aos poucos se afeiçoava a X. Ele era especial. Diferente. E estar com ele amenizava a dor que ainda não a abandonara, após a perda de sua Dorothy.

- Eu tinha uma outra impressão dele, quando o via pela TV. – Comentou enquanto o acompanhava até a porta. – Ele parecia um reploid menos... – Interrompeu seu comentário imaginando que poderia ofender seu amigo, mas X tinha sido sincero e não achava justo não retribuir sua sinceridade. – Um reploid menos rabugento.

O Hunter emitiu uma sonora gargalhada, surpreso pela coragem da babá em admitir aquilo em alto e bom som, sobre alguém que acabara de lhe salvar do cadafalso. Ele não tinha errado quando decidira interceder a seu favor. Ela não era irregular e muito menos maverick. Era só uma infeliz vítima das circunstâncias. Ele a conduziu até a viatura que estava a espera para levá-la ao Asilo. Fez questão de ir pilotando.

Sentada no banco de trás, Nanny observada os prédios de outra perspectiva. Os observava bem, pois não sabia quando poderia vê-los novamente. Sua liberdade agora era um passado distante. Ir para o Asilo poderia significar nunca mais voltar. Muitas lendas circulavam a respeito daquele lugar. A mais assustadora era a de que os sãos acabavam induzidos a acreditarem que eram loucos, após o contato constante com outros loucos. As luzes da sirene da viatura hunter iluminavam seu rosto desesperançado. Em breve a vida que conhecera até então acabaria. Dentro daqueles muros uma nova começaria e ela não tinha idéia do que poderia ser. Estava em areia movediça e não existia terra firme ao seu redor. Sua única ancora com a realidade naquele momento era o Maverick Hunter X, que a conduzia com tamanha serenidade, tal qual a estivesse levando para o teatro ou ao cinema. Divertiu-se com o pensamento de que um dia, quem sabe, isso pudesse acontecer. Lembrou-se então das palavras de Dorothy, que dizia querer ser uma criança para sempre. Seu desejo, embora de forma trágica, se realizara. Quem sabe, de alguma forma, e ela esperava que não tão trágica, os seus também se realizassem.

Seus devaneios foram interrompidos quando o veículo parou de se mover. X desceu e abriu a porta para ela. Quase como um chofer. Mas no lugar do tapete vermelho, estava um chão acinzentado, cheio de sulcos, provavelmente feitos por aqueles que não quiseram entrar por livre e espontânea vontade. Diante dela um imenso arco emoldurava um portão negro e reluzente. Atrás dele nada se podia ver, ouvir ou sentir.

- Não tema. As histórias que contam desse lugar são mentirosas. Eles costumam tratar bem os internos. A maioria não sai por que não quer. – Tentou tranqüilizá-la enquanto estendia a mão para ajudá-la a descer da viatura.

- Você é um amor X. – Disse sorrindo. - É uma pena que tenhamos nos encontrado em circunstâncias tão adversas. Vou sentir sua falta, embora só o conheça há poucas horas.

X ficou encabulado com a declaração da reploid. Não sabia como agir nessas circunstâncias. Estava sempre habituado a que caçoassem dele por seu jeito cortes e solícito. Mas nunca a receber elogios por isso.

- Prometa-me que ficará bem aqui fora. Se um dia eu sair, gostaria de reencontrá-lo.

- Prometo que o dia que sair. Estarei aqui te esperando. – Respondeu com convicção.

Embora gostasse de acreditar naquela promessa, Nanny sabia que ela nunca se concretizaria. Mas de alguma forma, aquilo lhe trouxe esperanças para enfrentar o desconhecido. Saber que teria alguém lá fora a sua espera a tornava mais forte. Saber que um dia poderia reencontrá-lo a animava de uma forma pouco usual. Estava confusa quanto a seus sentimentos. Mas de uma coisa tinha certeza. Aquele reploid azul mexeu profundamente com ela.

Ela se despediu com um abraço caloroso. Outra coisa que X não estava acostumado a receber e que o deixou surpreso e ainda mais envergonhado. Foi um longo e demorado abraço, interrompido tão abruptamente quanto iniciado. Nanny se desvencilhou dele e com passos decididos seguiu em direção ao portão. Não teve coragem de olhar para trás. Não queria se lamentar do que estava abandonando. Queria manter viva na lembrança aquela promessa. Sua última imagem do mundo deveria ser a mesma que encontraria quando retornasse.

Aqueles profundos e melancólicos olhos verdes emoldurados pelo tímido sorriso do Maverick Hunter X.