II
Dezesseis anos antes
O rei Christensen ia mais uma vez visitar a sua esposa e seu filho. Eles viviam à margem da corte - ela, Ruth, porque fora sua amante antes de se casar com ele; e Saga, seu filho, porque ele próprio, o rei, temia que ambos os filhos gêmeos disputassem o trono. Então, decidiu fazê-lo crescer longe do irmão o qual assumiria o trono - porém, o efeito parecia ser completamente oposto. Enquanto pensava em fazer com que Saga esquecesse do irmão e vivesse uma vida ao menos razoável longe dele, o mesmo cismava de conhecer a Kanon, o irmão gêmeo. De alguma forma, ele soubera que tinha um irmão gêmeo; ou lembrava de quando conviviam antes de serem separados, embora fossem bastante pequenos. Mas o que ocorria era que não queria ficar longe dele.
Christensen não desejava permitir que Saga e Kanon se vissem; então, ficava cada vez mais abalado ao ver o filho mirando às figuras de seu irmão - pinturas que ele exigia serem-lhe entregues, pois se não podia vê-lo, que ao menos visse as figuras dele.
Chegava ao ponto de conversar com as pinturas! Como se conversasse com Kanon mesmo!
O rei balançava a cabeça e ia reclamar com Ruth.
- Escute mulher, isso não pode continuar assim. Saga já se vê mais velho, ele precisa ter uma ocupação. Caso a tenha, pode ser que esqueça um pouco essa coisa toda de querer conhecer ao irmão.
- Penso que não faria mal permitir que se vissem. Saga não parece ter a índole de que disputaria algo com o irmão.
- Não! Vê-lo não permitirei. Mas algo diferente... posso fazer. Veja, ele já se encontra com quinze anos. Alguns rapazes na idade dele já contraem noivado.
- É muito jovem para noivar!
- Não falo disso. Noivar ainda é cedo; um homem precisa se educar um pouco mais e amadurecer para se casar. Talvez daqui uns três ou quatro anos. Falo de outra coisa, mulher.
- De que?
- Um rapaz da idade dele precisa se divertir um pouco. Penso em trazer aqui uma moça... para que ele se descubra homem.
- Céus, Chris! Uma prostituta aqui?
- Não! Uma prostituta, não. Prostitutas são mulheres que podem vir a levar a um rapazinho assim como ele para um caminho mau, pois tem muitos vícios. Mas uma moça... uma viúva, quem sabe... alguém com alguma experiência, para ensiná-lo a ser homem...
- Não acha que é cedo?
- O tempo passa rápido. Em cinco anos ele já tem vinte. Precisamos contatar uma moça de confiança, da corte mesmo, para fazê-lo.
Ruth não concordava muito com aquilo, mas a última palavra enfim era dele. Logo, Christensen contatou a uma moça da corte, a qual era viúva como ele mesmo dissera. Não podia ser muito mais velha: uma mulher já feita assustaria ao rapaz certamente. Mas uma moça de idade próxima faria com que ele se sentisse mais à vontade. De fato, havia viúvas na corte que eram mais novas; muitos maridos morriam na guerra, outros sucumbiam às doenças. Não eram raras as que enviuvavam apenas com alguns meses de casamento.
E havia ainda as viúvas que não tinham amantes. As que queriam somente se entregar dentro de um novo casamento. Mas... havia as que pensavam que não tendo "mais nada a perder", tinham amantes; e desde que os tivessem com discrição, e sem engravidar, não haveria problema.
Encontrou enfim uma que era daquela forma. O nome dela era Giannette, tinha apenas dezessete anos. Fora casada com catorze anos, em um daqueles casamentos arranjados que todos já conheciam bem, e o marido morrera quando ela tinha dezesseis anos. De lá para cá, surgiam rumores de que ela tivera sim alguns amantes. Não era como uma prostituta, a qual vivia no vício; mas também não era uma virgem esperando casar. Era o meio-termo que ele esperava.
Conversou com ela, contou a situação do filho. E ela, sorrindo, concordou em "ajudar". Assim foi combinado. Alguns dias depois, ela foi introduzida no castelo no qual Saga e Ruth viviam.
Num dia comum, quando o irmão gêmeo proscrito de Kanon mais uma vez teimava em conversar com as pinturas que tinha do gêmeo, quando chegou seu pai com aquela moça.
- Meu filho, esta é Giannette. Ela tem dezessete anos e vai ser sua... amiga. Converse com ela, sim? Eu os deixarei a sós.
Christensen saiu do quarto, enquanto ela, sorrindo, se sentou perto dele.
- Olá! Me disseram que seu nome é Saga, não?
Ela era bonita, bem arrumada, colocara um decote bastante provocador. Bastante perfume, também. Ele, isolado da corte como era, poucas vezes convivera com mulheres que não fossem Ruth ou mesmo as criadas que o serviam.
- Sim. Prazer em conhecê-la.
- Venha cá, já teve alguma... namorada?
- Namorada? Não. Aqui, isolado, não tenho como ter.
Ela sorriu.
- Sabe que eu procuro um namorado?
- Pois sim?
- Sim. Já fui casada, com a sua idade já era uma senhora! Oh, que peso que foi! Ser casada desde cedo é algo realmente bastante incômodo para uma menina que preferiria estar nos bailes. Mas meu marido morreu apenas dois anos após nosso casamento! Então, preferi viver a vida! Ir aos bailes, vestir vestidos elegantes, fazer penteados bonitos... e principalmente, ter namorados!
- Namorados...
- Por que não frequenta a corte? Um rapaz tão bonito...
- Não posso. Sou recluso aqui.
- E por que?
- Meu pai não me deixa ir. Tem algo a ver com... com alguma possível disputa com o trono.
- Ah, e você disputaria o trono como seu irmão?
- Não. O trono não me interessa.
- Talvez ao ver-se na corte, se sentisse tentado a disputar o trono... mas enfim! Talvez seja por isso de não poder frequentar a corte, que seu pai me fez vir aqui vê-lo... se não pode ter namoradas lá, pode ter aqui!
Ela sorria, maliciosamente. Era clara a diferença entre ambos: Giannette já com um casamento nas costas e várias presenças em bailes e outros eventos da corte; e alguns amantes naquele ano solteira. Já Saga, mal saía da torre para os jardins. Ela de antemão já sabia do porque de ele não poder frequentar os bailes, a vida social; Christensen lhe explicara tudo. Mas fingia não saber para puxar assunto.
Em seguida, decidiu ser um pouco mais ousada...
- Já conheceu uma mulher de perto?
- Como assim?
- Ah, você sabe... conhecer uma mulher, tocá-la... veja, como pode ser macia a pele de uma mulher.
E então ela tomou a mão dele e colocou sobre seu colo descoberto. Mas quando ia colocá-la dentro de seu vestido, para que ele pegasse em seus seios, ele a retirou bruscamente.
- Ah, é tímido. Bem, talvez não possamos fazer o trabalho todo de uma vez hoje! Mas só um beijinho... que há? Tem medo de mulher?
Ele tentava se esquivar, mas a moça se aproximou dele e, muito rapidamente, lhe roubou um beijo, um selinho muito rápido.
- Pois sim! Acho que por hoje já basta. Penso que amanhã poderemos continuar e - por que não? - ir devagar. Apressado come cru e queima a língua!
Ainda sorrindo, Giannette soltou um beijo no ar para ele, e antes de partir, disse:
- Hoje à noite, sonhe comigo! E com o toque de minha pele, e com o suave toque de meus lábios nos seus! Até amanhã!
E saiu, fazendo barulho com as saias e espalhando o cheiro do perfume forte que usava.
Saga ficou sentado, ainda aturdido. Não gostara dela; muito menos da ideia de que seu pai a colocara ali para "namorar" com ele. Mas de qualquer forma, por mais que não gostasse dela - por mais que não desejasse seu toque, seu beijo e nem sequer sua presença - mesmo assim as palavras e as maneiras daquela mulher fizeram com que, ao dormir, ele tivesse novas ideias.
E aquelas ideias fervilhavam dentro de si - por menos que ele as considerassem boas. Pois ele as tinha não com ela, com a moça que seu pai trouxera para que ele se sentisse homem.
Ele as tinha, quase que involuntariamente, com seu irmão.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
E a fic saiu do hiatus! Não sei se repararam, mas fiz uma fanfic de Xica da Silva logo após começar esta - uma fanfic nada romântica, retrata um relacionamento abusivo - e o plot da mesma me dominou de tal forma, que parei de escrever essa! O plot simplesmente havia sumido da minha cabeça, tive de reformular tudo!
Mas finalmente voltei - nenhuma fic minha ficou totalmente em hiatus sem ser retornada após 2005, rssss!
Beijos a todos e todas! Espero que ainda estejam acompanhando!
