Nos dias que se seguiram, Grissom não recebeu nenhuma visita e não deveria ficar surpreso. Catherine deixou bem clara a sua atitude e dificilmente tinha contado para todo o laboratório sobre isso. Aproveitando que tinha alguns dias de licença, Grissom ligou para sua mãe e decidiu que estava na hora de visitá-la. Talvez ele contasse sobre a cirurgia, mas o importante no momento era estar com alguém que não o abandonaria, apesar das suas atitudes.
Mrs Grissom ficou surpresa ao receber o telefonema e a noticia que ele estaria na sua casa no dia seguinte. Tentou descobrir o que tinha acontecido para ele quase implorar, mas foi inútil. Disse por fim que ficaria muito contente de ter o filho por perto, mesmo que por poucos dias.
Grissom desceu do táxi carregando apenas uma mala. Ficou olhou para a casa durante algum tempo antes de andar até a porta. Todo ano a visitava no dia do aniversário, mas naquele dia não era aniversario dela e se no telefone conseguiu esconder o que estava acontecendo, ao vivo seria impossível.
"Como você esta mãe? Bem eu espero" disse ele quando ela abriu a porta. Sua mãe tinha perdido a audição quando grissom era ainda uma criança então durante grande parte da sua vida ele se comunicou com sinais.
"Muito bem, obrigado. Entre"
"Desculpe não ter ligado antes... eu..."
"Não seja bobo, Gil. Sou sua mãe e você é bem vindo a qualquer hora"
"Mãe, posso te abraçar?"
Tudo bem que grissom nunca foi muito de abraçar, beijar e coisas desse tipo, mas com sua mãe era diferente e se ele estava pedindo antes de fazer, a coisa não era boa.
"Vá guardar suas coisas enquanto vou preparar um chocolate quente para nós" disse ela.
Ele colocou as coisas no quarto, tomou um banho quente, e desceu até a cozinha onde encontrou sua mãe sentada na mesa com duas canecas na sua frente. Ele não disse que queria chocolate, mas ela sabia que não ia recusar.
"Como vão as coisas em Vegas?"
"Não muito boas". Ele sempre diz que estava tudo bem, mesmo quando não estava. "Há algumas semanas atrás, uma das salas do laboratório explodiu, ferindo gravemente um dos meus csi e deixando outro machucado.".
"Conseguiram ajeitar tudo?"
"Sim. Catherine teve que responder por todo o dano e foi muita sorte ela não perder o trabalho"
"Sei. Catherine é aquela que você pediu ajuda com um caso envolvendo uma outra csi, que veio de fora para ajudar...?"
"Não. Esta é Sara"
"Ah sim. Como ela esta?"
"Não sei..." disse ele olhando a xícara de chocolate. "Outra coisa... que acho que você deve saber é: fiz a cirurgia para consertar meu problema de audição"
"pensei que, depois de tanto tempo, você tinha escapado disso tudo"
"Nestes casos não há idade mãe. Mas funcionou então, não tem que se preocupar com isso"
"Fico feliz por isso filho, mas por que não me disse? Teria ficado do seu lado, durante a cirurgia e depois. Sei como é assustador ficar surda"
"Eu sei, mas realmente achei que ia ser mais fácil se não envolvesse ninguém no assunto... Só contei a Catherine por causa do laboratório. Ela ficou encarregada dos meus casos enquanto estivesse fora".
"Tenho certeza que ela ficou feliz em ajudar"
"Sim"
"Você sabe, é nas horas que a gente descobre quem são nossos amigos."
"Acho que sim" Grissom terminou o chocolate quente e lavou as duas xícaras que usaram. "Quando acordei da cirurgia, ela estava lá."
"Catherine?"
"Não. Sara. Depois de saber que eu estava fora de perigo, Catherine achou que seria uma boa idéia contar e ela estar comigo quando voltasse da anestesia"
"E você gostou de vê-la?"
"No começo sim. Mas depois fiquei com vergonha dela me ver naquele estado e com raiva por Catherine ter contado a verdade... Eu disse com todas as letras que... ela não deveria estar lá"
"Pelo menos conseguiu explicar por quê?" perguntou Mrs Grissom depois de pensar um pouco.
"Quando tentei, era tarde demais... Não a culpo por ir embora, mas..."
"Ninguém quer ouvir isso de alguém que gosta ou se preocupa".
"Eu sei. Mas quando estou perto dela acabo sempre dizendo a coisa errada ou não dizendo nada, e das duas formas ela fica machucada... A machuquei tantas vezes no passado mãe, mesmo sem querer e acho que desta vez... Eu a perdi"
A única vez que Mrs Grissom viu tamanha tristeza nos olhos de filho foi no dia que seu pai foi embora, por não querer ficar numa família com problema de surdez. E agora 53 anos depois, lá estava ele, do mesmo jeito. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e ele não fazia questão de enxugar. Seu coração estava em pedaços.
"Sei que você não gosta quando as pessoas te conhecem de verdade, com pontos fortes e fracos, mas se ela é tão importante tem que conversar com ela. Pedir desculpas, se explicar... parar de usar a cabeça e deixar o coração falar"
"Não acho que ela me ouviria depois do fiz ou disse...".
"Não vai ser fácil, mas é hora de deixar esse medo de lado. Não percebe que é esse medo que faz vocês dois infelizes? Ela não merece isso e nem você! Sugiro que ligue para ela pela manhã"
"Ela vai estar dormindo pela manhã mãe. E agora esta no trabalho, se não pediu demissão a essa altura"
Mrs grissom deixou a cozinha, mas não antes de dizer com todas as palavras: "ou você liga ou eu vou". Grissom ficou imóvel. Esse tipo de atitude é para crianças! Mas ele estava sendo um.
Desde a visita ao hospital, Sara mudou completamente. Nada a fazia ficar de bom humor. Nem piadas, nem elogios, nem resolver casos a faziam sorrir. Os rapazes estavam ficando preocupados, mas não podiam sequer abrir a boca, sem que ela lançasse um olhar cortante ou saísse da sala.
Catherine bem que tentou conversar, quase a obrigou, mas sara continuava dizendo 'esqueça'. A coisa estava ruim! E ela desconfiava que enquanto Grissom estivesse fora ela conseguiria pelo menos fazer seu trabalho, mas quem sabe o que ia acontecer depois.
Sara estava se preparando para tomar banho quando o telefone tocou. Olhou para a máquina, mas optou por não atender. Do banheiro ouviu o recado "Sara, sou eu. Preciso falar com você. (silêncio) Por favor, eu sei o que eu disse e não era verdade. Você precisa saber a verdade e toda ela. (silêncio de novo) No laboratório vai achar o telefone da minha mãe. Meu celular está desligado e não pretendo ligá-lo tão cedo. Por favor, Sara, deixe-me explicar, nem que seja pela última vez... Eu preciso de você. Tchau".
Cada dia ficava mais difícil respirar e não chorar. Como podia continuar gastando forças e lágrimas por um cara como ele? E por que ouvir a sua voz era tão poderoso que fazia seu coração bater mais forte, e um desejo de correr para os braços dele?
TBC
