Aproveitaram o aniversário de Hyoga para fazerem uma grande festa de despedida para o menino. Marin cozinhou suas comidas preferidas e todos o mimaram como nunca. O menino estava feliz, sem saber o porquê de tudo aquilo.
Depois, quando as crianças estavam na cama, Milo foi falar com os pais. Antes que entrasse na sala, ouviu Aiolia e Marin discutindo.
"Eu não sei, Ória. Não gosto da idéia do nosso menino ficar com o Milo. Ele pode ser uma boa pessoa, mas não é um modelo para nenhuma criança." Argumentava a ruiva enquanto tirava os pratos da mesa.
"Por que não, Marin? Ele é esforçado, trabalhador, carinhoso..." O homem estava sentado no sofá, catando restos de serpentina que haviam se enfiado pelas almofadas.
Marin limpou a mão livre no avental de dona-de-casa que usava e bufou de irritação.
"Ele tem os problemas dele e você bem sabe, Ória. Eu tenho medo de que, se não estivermos olhando, ele seja carinhoso demais." Concluiu quase num sussurro, lançando um olhar expressivo ao esposo.
Aiolia pigarreou, compreendendo onde ela queria chegar.
"Que é isso, meu doce? Milo é meu melhor amigo e sempre esteve aqui quando precisamos. Ele cansou de nos ajudar a criar o Hyoga e nós já cansamos de deixar as crianças sozinhas com ele. Não aconteceu nada, aconteceu? Além do mais, não é esse o... tipo dele." Aiolia praticamente balbuciou a última frase, constrangido.
Exasperada, sua esposa deixou os pratos em cima da mesa e sentou-se ao lado dele.
"Vai saber, Aiolia. Hm... Esquisitos são sempre esquisitos. Veja seu irmão, foi direto se enfiar no meio de um monte de crianças com aquele espanhol e..."
"Chega." Aiolia nunca gritava com sua mulher, mas o olhar que lhe lançou mostrava que estava a ponto de perder a paciência. "Ele é a pessoa em que eu mais confio no mundo e Aioros é meu irmão. Não quero ouvir essa conversa nunca mais, está me ouvindo?"
Ela pareceu que ia dizer mais alguma coisa, mas, conhecendo o gênio do marido, preferiu se calar. Levantou-se e foi terminar de arrumar a mesa.
Milo teve de fazer muita força para não se intrometer na conversa e pular no pescoço de Marin. Como ela ousava desconfiar que ele atacaria uma criança inocente? Ainda mais Hyoga, a quem amava como filho. Mas tinha vontade também de agradecer Aiolia que, mesmo não concordando com sua decisão e não gostando de tocar nunca no assunto, o apoiava para o que precisasse.
Esperou uns segundos para se acalmar e vestiu seu mais encantador sorriso.
"Hyoga e os outros já dormiram. Achei que não fossem apagar nunca. Bem, Ória, Marin, estou indo. Venho amanhã de manhã buscá-lo e cumprir o combinado." Comentou, entrando no cômodo e espanando as mãos na calça.
Milo reparou que Marin ainda o olhava com desconfiança, porém, após um quase ínfimo momento de indecisão, Aiolia levantou-se e abraçou o amigo.
"Obrigado, Milo. Você é a pessoa em que eu mais confio em toda a minha vida. Confio a vida do meu filho em suas mãos e sei que você nunca me desapontaria." Os olhos azuis de ambos rapazes se encheram de lágrimas.
"Se cuida, Leãozinho." Riu Milo, referindo-se a um antigo apelido de infância de Aiolia, dando um soco de leve no braço do amigo.
Aiolia riu também e, enxugando as lágrimas, devolveu o soco.
"Toma cuidado, Milucho." Entre risos, os dois se abraçaram uma última vez antes do que eles sabiam que seria um longo tempo separados.
Ainda ofendido, Milo não se despediu direito de Marin, que percebeu.
"Que é isso, Milo? Não vai dar um abraço na sua comadre?" Perguntou ela, estendendo os braços.
O homem lhe lançou um olhar magoado.
"Eu tenho uma doença contagiosa, Marin. Não queremos que você se contagie. Talvez, doente como eu, possa vir a atacar seus próprios filhos." Retrucou, olhando-a com todo seu desprezo antes de sair sem dizer mais nada.
Na manhã seguinte, acordou cedo e, levando apenas uma pequena mochila, foi à casa dos Rastapoulos buscar Hyoga.
Encontrou Marin na sala, semi-adormecida no sofá. Milo reparou que ela tinha olheiras e, aos seus pés, uma pequena maletinha que o homem lembrava ter dado naquele ano de aniversário para Hyoga, dizendo ser uma parte da surpresa que ele teria.
Com o barulho da porta abrindo – Milo sempre teve conhecimento de onde ficava a chave extra daquela casa – a ruiva sobressaltou-se.
"Ah, Milo, é só você." Murmurou, passando uma das mãos pelo rosto e tentando espantar o sono. "Tenho tido pesadelos horríveis em que Giovanni vem nos machucar..."
Ele quase se compadeceu de Marin, mas lembrou-se de que ela não gostava dele de verdade e toda a compaixão foi embora.
"Hm... Certo. Vou chamar Hyoga." Balbuciou ela, mediante a ausência de resposta dele. Antes de sair da sala, voltou e parou diante de Milo, travando uma terrível batalha interior. "Milo, eu... eu queria te pedir perdão pelas coisas que disse. Eu não devia ter duvidado de sua integridade e o carinho que nutre pelo meu filho e minha família. Não devia ter duvidado de que fosse capaz de trair a amizade que meu marido deposita em você. Sinto muito."
Mas a raiva dele não havia passado, permitindo responder apenas um desgostoso "eu também sinto, Marin" antes dela se retirar para acordar o menino.
Sentou-se no sofá e pôs-se a olhar os detalhes do estofado. Nunca havia reparado que aquele sofá era o mesmo da sala do senhor Camiro e da senhora Acidália, pais de Aiolia.
Infelizmente, lembrar-se dos momentos infantis era lembrar-se de seu grande amor... e de Athina.
Foi despertado de seus devaneios pelo tropel de passos infantis que revelavam a presença de Hyoga na sala.
O menino saltou em seu colo, rindo.
"Tio Milo, tio Milo, mamãe falou que vamos viajar! Aonde vamos?!" Ele nem escondia a excitação brilhando em seus olhinhos azuis. Quem o visse entre os pais e irmãos, diria que era um pequeno grego como os outros.
Milo riu e tentou beijar-lhe as bochechas, como sempre fazia. Porém, Hyoga se esquivou.
"Não, titio! Homem não beija! Só criancinhas como a Berenice!" Decretou, saltando de seu colo.
Dando tapinhas amigáveis em suas costas, Milo continuou a rir e pegou a mala, levantando-se.
"Ah, sei. Quero ver se vai continuar com a mesma opinião depois de conhecer alguma menina bonita por aí."
Hyoga fez cara de nojo.
"Eca! Meninas são bobonas e beijo na boca é nojento!"
Marin interrompeu a cena, ajoelhando-se na frente do filho e arrumando seus cabelos.
"Seus cabelos estão ficando compridos de novo... Milo, me prometa que vai levá-lo a um barbeiro para ajeitar isso." Murmurou, passando a checar as orelhas de sua cria.
"Mamãe, pára!" Gritou, esquivando-se para trás do padrinho. "Eu gosto do meu cabelo assim."
Marin ficou de pé e pôs as mãos nas cadeiras, em um claro sinal de impaciência.
"Mas Hyoga, está muito comprido!"
"Eu gosto. O titio usa o dele assim. Grandes guerreiros usavam os deles assim." Retrucou, cruzando os braços ao peito e emburrando.
"Seu pai não usa assim e não estamos mais na Grécia, em tempos de guerreiros." Finalizou. "Milo, me prometa."
O homem suspirou e levou uma das mãos ao peito.
"Está bem, Marin, eu prometo." Mas Hyoga viu que a outra mão, escondida nas costas, tinha os dedos cruzados. "Agora temos de ir ou vamos nos atrasar. Ainda temos de tomar café na lanchonete e depois pegar o ônibus." Concluiu, olhando o relógio de pulso e puxando Hyoga pela mão.
Com os olhos cheios de lágrimas, Marin ainda se abaixou para estreitar o filho nos braços uma última vez e beijou-o, ignorando seus protestos.
Aquilo deixou o garoto um pouco impressionado, afinal, a viagem com o tio não poderia ser muito longa...
Ainda pensando na cena, na lanchonete, Hyoga decidiu pressionar Milo para saber aonde iam. O homem pigarreou e tomando coragem, decidiu contar a história.
"...por isso vamos te esconder na Califórnia com seu tio até que a situação se acalme." Concluiu, finalizando o refrigerante também.
O menino o olhava transtornado e teve de engolir o bolo que se formava em sua garganta antes de poder falar.
"Eu não vou. Não quero deixar Nova Iorque. Não quero deixar o Bronx. Não vou sair daqui." Milo cometeu o erro de se distrair um instante com um atendente que lhe estendia a conta.
Foi o suficiente para Hyoga se aproveitar da multidão que enchia a lanchonete, pegar sua mala e sair correndo dali. Quando Milo virou-se para argumentar, ele tinha sumido.
O menino não conhecia muito bem aquela área da cidade, mas precisava ir a um lugar onde seus pais ou Milo não frequentassem, um lugar onde não fossem reparar em mais um garoto.
Não podia voltar para casa, não o queriam lá. Para onde iria?
O letreiro luminoso do fliperama era por demais atraente para ser ignorado.
Hyoga entrou, indo jogar pinball.
Na máquina, estava um homem que nunca vira antes em sua vida. Ele era alto, esguio e ruivo. Os cabelos eram tão compridos quanto os de tio Milo e ele usava uma jaqueta de couro parecida com uma que ele descobrira no fundo do armário do tio.
"Tio, deixa eu jogar...?" Murmurou, usando o inglês pela primeira vez naquele dia, já que gregos falavam entre si em grego.
Os olhos castanhos e frios o encararam com algum desprezo, mas ele pareceu reconhecer em si algo que Hyoga não sabia o que era.
"Qual o seu nome, moleque?"
"Hyoga Vardalos" Torceu a cara. O homem parara de jogar, mas não saíra da frente da máquina de pinball.
Os olhos castanhos do homem se arregalaram. Foi como se, naquele instante, o que pensara ser apenas um vislumbre, se confirmasse.
"Sou Albert Camus. Me chame de Camus, apenas." E estendeu a mão para o garoto. "Um Vardalos, hã? Mas não parece muito ser filho de Aiolia."
Nisso, ele ia saindo da loja e, como se possuísse um magnetismo natural, Hyoga o seguia involuntariamente.
"Conheceu meu pai?" Perguntou, confuso.
"...E esse seu nome não é muito grego, também." Já haviam atravessado a rua e chegado à sorveteria. "Tem dinheiro para um sorvete, garoto?" Ele fez que não com a cabeça. "Pena. Nem eu."
E saiu da loja, com um menino totalmente confuso atrás. Camus sentou em uma moto grande e negra e sorriu para o menino de um jeito estranho. Era como se não existisse sorriso nenhum, apenas um rasgo no meio do rosto tão bonito.
"Hyoga, por que não está em casa com seus pais a essa hora? E por que tem uma mala nas mãos?" Enquanto falava ia colocando o capacete, aparentemente, aquele homem não era muito de conversas pouco objetivas.
"Não me querem em casa. E eu não quero voltar para lá. Nem quero sair do Bronx." Mal terminou a frase e o ruivo lhe estendeu a mão, ainda com aquele sorriso estranho no rosto.
"É assim que se fala, garoto. Afim de um pouco de diversão?"
"Claro!" Gritou em resposta, estendendo-lhe a mão e subindo na moto.
