Jamais entendera porque o pai lhe tratava com tanta aversão. Passava horas a fio no trabalho e, quando caia a noite, estava sempre irritado. Nunca tinha tempo para brincar com o pequeno Antonin — nome escolhido por Irina antes de falecer, caso ele viesse a ser um menino. Se fosse uma menina, chamar-se-ia Ania. Alegava cansaço, indisposição, ou qualquer outra coisa para não passar mais de vinte minutos na companhia do filho que, a esta altura, já havia completado cinco anos de idade. Era Zora quem cumpria a função de dedicar atenção e carinho ao garoto. Ela era sua preceptora, seria responsável por sua educação e criação. Era uma mulher severa em termos de etiqueta e estudos, ensinando desde cedo a Antonin como um homem de sociedade deveria se portar. Mas também, era dona de uma bondade imensa! Era ela quem passava noites acordada quando o garoto encontrava-se acamado. A mulher de cabelos ruivos fora a responsável por velar sua cabeceira, quando o menino lhe confessara ter medo de escuro, até que ele fosse grande demais para temer os monstros dentro do armário. Desde cedo foram impostas a Antonin muito mais atividades do que uma criança normal: tinha aulas de equitação, esgrima e natação. Tocava piano, sabia vestir-se e portar-se como um lorde antes mesmo de completar seis anos de idade. Mal sabia ele que tudo que seu pai fazia para torná-lo um digno homem da alta sociedade, alegando que seria para seu próprio bem, era na verdade uma desculpa para mantê-lo afastado de si. Se mantivesse o filho ocupado e suficientemente cansado não haveria razões para conviver com ele.

Contudo, aos seis anos descobrira a real razão de tudo e não foi da maneira mais fácil. O senhor Dolohov trabalhava no ministério Búlgaro, tinha um cargo alto e gozava da inteira confiança do primeiro ministro. Era um daqueles típicos jantares de homens de negócios, suas esposas magníficas e filhos perfeitos. Klaus aparecera em seu quarto, pela manhã, informando-lhe que às sete horas daquela noite deveria estar impecavelmente arrumado. Receberiam pessoas muito importantes e ele não iria querer passar vergonha. Antonin, então, lhe pediu para não comparecer ao jantar, alegando não estar se sentindo bem. Acordara enojado e com tonturas estranhas. Zora havia lhe pedido para permanecer deitado. Mas seu pai não quis ouvir, disse que sabia que o filho gozava de plena saúde. Forte como um cavalo, foram suas palavras. Não aceitaria desculpas esfarrapadas de um menino mimado.

Não tendo alternativas, Antonin obedeceu. Às seis e quarenta e cinco da noite estava pronto: cabelos penteados, roupas e sapatos adequados. Todavia, sua expressão destoava a de todo o resto. Não havia melhorado em nada desde a manhã, pelo contrário, as náuseas pioraram gradativamente. E somado a isso, uma dor de cabeça insuportável o assaltara. É como se algo quisesse sair de sua cabeça. Zora lhe dera um chá de alguma folha que ele desconhecia. Recusou-se a lhe dar uma poção sem antes visitarem um curandeiro, poderia piorar seu estado. Fariam isso pela manhã. Descera as escadas em companhia de Zora, mas ela não poderia permanecer à mesa com ele, pois por ser empregada não tinha um lugar à mesa nas ocasiões de festa. Contudo, garantira ao garoto que estaria por perto caso ele precisasse dela.

A sala de jantar, que era imensa, encontrava-se impecável, como sempre. Os móveis em estilo vitoriano, exalando toda aquela austeridade que só o tempo conferia às coisas. O lustre, que continha centenas de lâmpadas, estava aceso. Ao olhar em sua direção, o garoto sentiu-se ligeiramente zonzo. Teria que manter os olhos longe de muita luminosidade, caso quisesse permanecer até o fim do jantar. A prataria fora polida e os pratos de porcelana, ricamente decorados, faziam um belo conjunto com as teças de cristal. Tudo em sua casa era exageradamente amplo, agradeceu intimamente por isso! E mesmo com todo aquele espaço estava um pouco difícil respirar.

A sete e meia todos os convidados já estavam presentes, tudo exatamente como o esperado. Homens, mulheres e crianças que emanavam riqueza e elegância. Antonin estava naquela idade em que meninos e meninas se detestam e, portanto, não esboçou a menor alegria quando seu pai lhe pediu que se sentasse ao lado de uma menina de sua idade, cujos cabelos escuros e os olhos verdes contrastavam maravilhosamente bem com a pele incrivelmente branca. Para ele, ela era só uma garotinha enjoada. O jantar se passara em sua morosidade habitual, conversas que circulavam entre o banal e o trivial, embaladas pelos sons das risadas leves e contidas das mulheres; e gargalhadas estrondosas dos homens. Comer fora extremamente difícil, toda a comida parecia estar forte de mais, aumentando o enjôo que o garoto sentia. Quando fizera menção de abandonar o prato, praticamente intocado, seu pai lhe lançara um olhar severo que claramente lhe advertia para não cometer tamanha afronta, mas conseguira passar por isso.

A verdadeira tragédia deu-se no momento em que Klaus guiara seus convidados a uma sala menor, onde lhe serviria bebidas e café. Serviu uma dose generosa em um copo adequado para se tomar firewhisky e pediu que Antonin entregasse-o ao Ministro. A esta altura da noite, o garoto já se encontrava lívido, o suor começando a brilhar na testa e colando os cabelos na mesma. Ao se aproximar do homem, que ostentava uma bigodeira imensa e possuía olhos cruéis, sentiu o cheiro de tabaco invadir-lhe as narinas. Era forte demais! Antonin sentiu-se bambear e não foi capaz de conter o fluxo que lhe subiu pela garganta. Só teve tempo de abaixar a cabeça. Vomitara aos pés do Ministro, deixando o copo de bebida cair bem ao seu lado. As vozes lhe chegavam aos ouvidos de modo indistinto, mulheres ligeiramente histéricas perguntando o que acontecia, as crianças o observavam de olhos arregalados e os homens permaneciam em um silêncio mortal. Pareciam esperar por alguma reação da parte de Klaus, mas ele estava estático em seu lugar com os olhos demonstrando a fúria que sentia. Antonin sentiu braços quentes e seguros lhe envolverem, não precisaria nem mesmo olhar para saber que pertenciam à Zora, pois o perfume leve a denunciava. Ela o levou para fora da sala dizendo a ele que tudo iria ficar bem.

Se acalme meu menino. — Ele era o seu menino, pequeno, indefeso e desprotegido. Ele continuava a vomitar, já longe dos olhares curiosos. Passou a mão na boca, tentando inutilmente amenizar toda aquela sujeira, porém, ao fazê-lo sentiu um líquido quente e viscoso escorrer por seu nariz, manchando sua mão de carmim. Estava sangrando.

— Zora, o que está acontecendo? Eu vou morrer? — Perguntou, pela primeira vez, em anos, sua voz demonstrando a idade que realmente tinha. Ele era só uma criança.

— Não, você não vai morrer seu infeliz. Você nunca morre, não é? — Aquela não era a voz de Zora. Era outra carregada de ódio. Era seu pai quem lhe falava.

— Seis anos depois? Não acha meio tarde para adoecer? — Antonin não entendia porque o pai gritava tanto com ele. Sua cabeça parecia que ia explodir a qualquer instante. A dor era tanta, por que ele fazia isso?

— Era você quem deveria ter morrido naquela maldita noite. Irina deveria ter consumido com sua existência logo que descobriu estar grávida. Você não serve pra nada, é um desperdício de espaço no mundo. — O rosto de Klaus estava contorcido em uma máscara de asco e fúria. O pequeno Dolohov jamais vira algo tão assustador, nem mesmo em seus pesadelos.

— Você matou a sua mãe! É por sua culpa que ela não está aqui. E agora quer destruir a minha vida, garoto infeliz! — E antes que Antonin ou Zora pudessem fazer qualquer coisa, o punho cerrado de Klaus atingira em cheio a face do filho. O sangue que saia pelo nariz de Antonin misturou-se ao de seu lábio inferior que agora exibia um corte feio.

Aquilo fora o resultado de seis anos remoendo ódio e repulsa pelo filho. Sabia bem que o primeiro Ministro não se importaria em comprar sapatos novos e que aceitara sinceramente seu pedido de esculpas. Todavia, havia uma necessidade pungente em atirar aquilo na cara daquela criatura a quem se recusava a se referir como filho em seus pensamentos. Aquele ser envolto em uma aura de tragédia e morte. Tinha nojo dele. Mais do que isso. Detestava-o com todas as suas forças! E só não o enxotara de casa quando teve a oportunidade em respeito à memória de Irina, pois sabia que ela desaprovaria essa decisão. Contudo, ela não poderia obrigá-lo a amar aquilo. Não poderia.

A cabeça do menino parecia prestes a explodir e, então, ele irrompera em um choro convulsivo, todo seu corpo tremendo, enquanto ele continuava a sangrar profusamente. Zora, que observava a cena horrorizada, finalmente tomara uma atitude. Retirou Antonin do alcance do pai, levando-o para a segurança de seu quarto. Enquanto subia as escadas, pode ouviu o barulho de vidro se espatifando. Podia ser assim: Algo havia sido irremediavelmente quebrado e ela não pensava no espelho rachado que exibia a imagem transtornada de Klaus em pequenos mosaicos, ela pensava era em outra coisa que fora desfeita: a relação entre pai e filho. O que estava quebrado era algo bem mais significativo do que um mero espelho.

Antonin passou a noite em claro. Mesmo após o banho e de ter seus ferimentos tratados por Zora, ele ainda sentia muita dor. Não só fisicamente, mas tudo dentro de si estava em frangalhos, fragmentado como um pingente de cristal que se desfaz em mil pedaços. Chorava até alcançar a exaustão e, quando finalmente conseguiu atingir a inconsciência, sonhos terríveis o assaltaram. Irina não estava sorridente como nas fotos que Zora lhe mostrava, ela chorava, estava sangrando e sua expressão denotava imensa dor. Ao lado dela um anjo de cabelos cinzentos como o inverno e de asas negras como carvão lhe sorria maldosamente.

— A culpa foi sua Antonin, somente sua. — Ele repetia maldosamente. E Antonin acordava aos berros. Fora assim durante um mês. O garoto definhava lentamente, ameaçando sucumbir ao mal que lhe acometera. Mais de uma vez teve vontade de estender as mãos para o anjo maldoso, porém, ele sempre lhe despertava antes disso.

Ainda não é a sua hora. Não é a sua hora.