Nossa vida em outra vida

Capítulo 2

A primeira coisa que Mutano sentiu ao acordar foi uma lancinante dor de cabeça.

"Caaaaara!" O rapazinho gemeu enquanto pressionava o travesseiro contra o rosto e se revirou todo na cama. "Parece que o meu cérebro está derretendo..." Resmungou e, depois de alguns minutos de muita preguiça, gemidos e grunhidos, obrigou-se a se levantar.

Sonolento, sentou na beirada do colchão, espreguiçou os braços, deu um bocejo enorme e coçou os olhos semicerrados – que não tardaram a abrir de vez assim que o jovem Titã viu onde estava.

"Hum? Mas que lugar é esse?"

Completamente desperto, fez o melhor para ignorar a dor de cabeça e deu uma boa olhada no ambiente desconhecido: um quarto enorme cheio de pôsteres tanto de filmes quanto de jogos colados na parede. Deixou a cama num pulo e deu uma volta naquele quarto estranho; vasculhou o guarda roupa e as gavetas da cômoda, inspecionou as prateleiras de madeira – demorando mais quando o objeto inspecionado era um jogo de videogame ou um DVD de algum filme do qual gostava – e até mesmo se agachou e olhou em baixo da cama. Mas foi só quando passou na frente da televisão afixada na parede que viu algo muito esquisito. Na tela do aparelho, Mutano viu seu reflexo.

E não se reconheceu.

"O que foi que aconteceu comigo?" Balbuciou as palavras e olhou para os próprios braços, pela primeira vez reparando que eles não eram mais verdes, mas de uma cor pálida.

Atônito, voltou a encarar o rosto refletido na tela da televisão e correu as mãos pelo cabelo. Um cabelo que também não era mais verde, e sim loiro. Ainda mais atônito do que antes, passou a língua pelos dentes e abafou um gritinho histérico ao não sentir seus caninos pontiagudos. Por fim, tentou se transformar num animal – qualquer animal – e, quando não conseguiu, soltou um grito de horror.

Em pânico, deu vários passos para trás, bateu a perna numa cadeira e se desequilibrou. Tentou se segurar em alguma coisa para não cair, no entanto bateu os braços numa prateleira, derrubando-a no chão, e caiu de costas logo em seguida.

"Garfield! O que aconteceu? Você está bem?"

Em algum momento, a porta do quarto se abriu e pessoas entraram, e Mutano, depois de se recuperar do tombo, encarou os recém-chegados.

Um homem alto e loiro e uma bela mulher ruiva o encararam de volta, e o jovem herói, por um minuto ou dois, permaneceu em silêncio, apenas estudando o rosto dos dois adultos. E Mutano podia jurar que conhecia aqueles rostos! Ele se lembrava muito bem daqueles dois.

Uma memória distante e triste irrompeu na sua mente: África... um rio... seu pai e sua mãe morrendo... e ele chorando até a exaustão enquanto seu coração pranteava a trágica morte dos pais.

Mas se seus pais estavam mortos, então o que eles estavam fazendo ali naquele quarto?

"Filho, o que houve aqui dentro?" O homem quebrou o silêncio e avançou alguns passos até Mutano, parando de súbito ao ver como o garoto estava pálido e ligeiramente desorientado. "Você se machucou? Bateu a cabeça?"

Mutano piscou várias vezes e sentiu seus olhos arderem. Uma lágrima escorreu pela sua bochecha. "Papai? Mamãe?"

"Sim, meu amor?" A mulher falou e se agachou na frente do atordoado rapaz. "Ouvimos você gritar, Gar. O que aconteceu?"

"V-Você..." Ele gaguejou e se calou, pois não sabia ao certo o que falar, e a mulher à sua frente esboçou um sorriso pequeno, embora houvesse preocupação nos olhos claros dela. "Como isso é possível?"

"O que é possível?" A voz dela era tão bonita que parecia não ser real. Suave e encantadora.

A voz de um anjo.

"Vocês... estão vivos." Ele disse, por fim, e a mulher e o homem trocaram olhares que era aflitos e confusos.

"Claro que estamos!" Ela o respondeu. "Por que não estaríamos?"

Mutano, todavia, não pareceu escutar a resposta dela.

"Vocês estão vivos... de verdade." Murmurou, abriu um sorriso lacrimoso e pulou em cima da mulher, abraçando-a com muita força. "É você! É o seu rosto, o seu cabelo, o seu cheiro! E sua voz, mamãe! Não acredito que tinha esquecido como a sua voz era bonita!" Ele falou e chorou e, quando finalmente rompeu o abraço e se afastou da mãe, disparou para os braços do pai.

"Ei!" O homem exclamou. "O que aconteceu, meu garoto?"

"Eu não sei!" Mutano respondeu e riu em meio a lágrimas de felicidade. "Eu não sei o que aconteceu... e também não me importo! Vocês estão vivos e... e isso é tudo o que importa para mim!"

"Filho... Gar..." A mãe dele murmurou, aproximando-se dos dois. "Por que fica dizendo isso? Por que acha que nós estávamos mortos?"

"Porque vocês estavam mortos. Eu me lembro do que aconteceu lá na África! Vocês... vocês..."

Sua cabeça começou a dor de novo, e Mutano pressionou os dedos na testa suada. As lembranças tristes da sua infância no continente africano estavam lá, mas, por alguma razão, pareciam nubladas, desfocadas, e, sempre que Mutano tentava se concentrar nelas, sua cabeça começava a latejar.

"África?" O adulto perguntou, suas sobrancelhas franzidas. "O que aconteceu na África?"

"Eu não tenho certeza." Mutano respirou com dificuldade, seu peito apertado e sua visão embaçada. O que tinha acontecido mesmo na África? Por que ele não conseguia mais se lembrar? "Vocês morreram, eu acho... mas não me lembro como..."

A mulher exalou um sopro de ar. "Ah, Gar! Eu te avisei que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Você fica jogando esses jogos violentos no computador até sabe-se lá que horas da madrugada... e agora está tendo pesadelos!"

Pesadelo, ele pensou e fechou os olhos com força. Poderia estar assim por causa de um pesadelo?

"É... pode ter sido." Confuso, sentou-se numa cadeira e descansou os cotovelos sobre os joelhos dobrados. Olhou para as próprias mãos e, por um momento, não as reconheceu.

Podia jurar que elas costumavam ser de outra cor, mas não conseguia se lembrar qual cor exatamente. Assim como também não conseguia entender o que estava acontecendo com a sua cabeça e por que a sua memória estava falhando tanto.

Engoliu em seco. "Eu acho que não estou me sentindo muito bem... devo ter batido a cabeça quando caí."

Os pais do garoto se entreolharam mais uma vez, e o homem tomou a palavra.

"Se quiser, não precisa ir à escola hoje. Pode ficar em casa, o que acha?"

"Ficar em casa?" Mutano perguntou e ergueu o olhar.

"É, Gar! Eu e sua mãe estamos de folga e... que tal fazermos um 'dia da família'?"

"Dia da família?" Ele repetiu debilmente. "Passar um dia com vocês dois?"

"E por que não?" A ruiva piscou e riu, e Mutano ficou hipnotizado pelo som daquela risada. "Não gostaria de passar um dia com seus pais?"

Se ele gostaria de passar um dia com os pais? Não, ele não gostaria.

Ele adoraria.

Encarou os dois adultos e abriu um sorriso largo. "O que vamos fazer primeiro?"

TT ~ TT ~ TT

Aquele estava sendo, sem sombra de dúvidas, o melhor dia da sua vida.

Mutano passou metade da manhã jogando videogame com o pai e a outra metade revendo álbuns de fotografias com a mãe. Sua memória ainda estava muito estranha, pois ele se lembrava de coisas que não podiam ser reais – uma torre no formato de um T gigante, um rapaz que era metade máquina e metade gente, uma princesa alienígena que soltava raios pelos olhos, um garoto mascarado e uma menina de temperamento difícil que escondia o rosto bonito sob um capuz –, no entanto, cada vez que aprendia mais sobre a vida de Garfield Logan, aquelas lembranças esquisitas pareciam ficar mais e mais distantes.

Como se não passassem de um sonho.

No início da tarde, almoçaram pizza e assistiram televisão, e aquilo foi ótimo! Seus pais eram divertidos, carinhosos, inteligentes e maravilhosos. E eles o amavam, assim como Mutano os amava muito... acima de qualquer outra coisa na vida.

"Seria bom se todos os dias fossem assim." Murmurou, deitado todo esparramado no sofá da sala, sua cabeça repousando no colo da mãe.

"Todos os dias, Gar?" Ela perguntou com aquela voz que lhe enchia os ouvidos e deixava sua mente entorpecida. "É isso o que quer?"

"Sim... é isso o que quero."

A mulher sorriu, satisfeita com o que escutara. "Se é o que deseja, então prometo que, a partir de hoje, todos os dias serão assim. Será como... um eterno dia da família."

"Um eterno dia da família." Repetiu Mutano. "A melhor ideia de todas!"

TT ~ TT ~ TT

Em algum momento, acabou cochilando ali mesmo no sofá e acordou de repente ao sentir algo ser jogado sobre seu colo.

Uma luva de beisebol.

"Não acredito que vai passar a tarde dormindo!" Ouviu a voz alegre do pai e viu que ele estava segurando um bastão e uma bola de beisebol. "Quer treinar um pouco?"

"Beisebol?" Mutano franziu as sobrancelhas. "Nós jogamos beisebol?"

O homem vacilou um pouco antes de responder. "É, eu sei que faz um tempo que não treinamos juntos... mas o que acha? Quer aproveitar o restante da tarde?"

"Claro que quero!" O garoto se levantou num pulo, extremamente animado. "Isso é muito maneiro!"

"Ótimo!" O pai gargalhou. "Me espera lá fora, tá? Vou só avisar a sua mãe que vamos ficar jogando no jardim."

Mutano fez que sim com a cabeça e correu até o jardim daquela típica casa do subúrbio americano.

Sentia-se em polvorosa e estampava no rosto um sorriso mais iluminado que o sol. Há muito tempo não se divertia tanto, e mal podia acreditar que viveria assim pelo resto da sua vida. Empolgado, calçou a enorme luva de beisebol e deu alguns socos nela enquanto aguardava pelo pai. Até que, de repente, viu algo estranho na rua.

Havia uma menina andando pela calçada. Ela tinha cabelos pretos e um rosto bonito, embora estivesse todo vermelho e um pouco inchado, como se ela tivesse chorado muito, e parecia andar com perceptível dificuldade, seu corpo esbelto oscilando a cada passo dado.

"Ei!" Preocupado, Mutano tentou chamar a atenção da garota, no entanto, ela não o escutou e continuou andando tropegamente. "Ei!" Chamou de novo e correu até ela. "Você está bem?"

A jovem parou de súbito e apertou os olhos ao encará-lo.

"Não estou bem." Respondeu ela, sua voz fraca e rouca. "Preciso achar o meu amigo, mas não sei onde ele está." Fez uma pausa e abaixou a cabeça, olhando para os próprios pés. "A verdade é que eu também não sei onde eu estou."

Mutano sentiu o coração doer pela garota. "Você está perdida?"

"Acho que sim." Ela fungou algumas vezes e ergueu o olhar um mínimo, mas que foi suficiente para que ele pudesse ter um vislumbre dos olhos dela.

Azuis como o mar tempestuoso.

"A sua voz me lembra muito a dele." Falou a jovem perdida, e Mutano franziu as sobrancelhas.

"A minha voz? Sério?"

"Sim. Mas... ele e você são muito diferentes. Ele é... ...verde."

"Verde?"

Ele tentou se lembrar de onde conhecia um garoto verde, no entanto sua cabeça voltou a doer, e ele levou as mãos à testa.

"Você está bem?" A mocinha perguntou e, aproximando-se dele, tocou-lhe o ombro.

Foi algo estranho o que aconteceu, porque, no instante em que ela o tocou, Mutano sentiu a dor de cabeça desaparecer. Sua mente clareou, e suas memórias, que antes não passavam de um borrão, ficaram nítidas feito um dia ensolarado.

"Ravena?" Piscou várias vezes ao reconhecê-la, e a garota se sobressaltou.

"Como sabe o meu nome? Todos aqui me chamam de Rachel. Como sabe que meu nome é Ravena?"

"Ah, Rae! Sou eu, o Mutano!" Ele sorriu para a amiga e a abraçou, e a Titã se retesou toda nos braços dele.

"Mutano? Mas você... você... você não está mais verde. Como isso é possível?"

Ele rompeu aquele forte abraço e balançou a cabeça para os lados, rindo. "Não faço a menor ideia! Tudo o que sei é que, quando acordei, eu estava assim: normal!" Fez um gesto amplo com os braços, como se englobando o corpo inteiro. "Não é incrível?"

"É... é mesmo..." Ravena foi obrigada a concordar, seu olhos arregalados absorvendo a cena.

"Mas você não pode falar nada de mim, hein!" Comentou e passou a mão pelo cabelo preto dela, ajeitando uma mecha atrás da orelha. "Afinal, você também está diferente. Ficou muito bonita de calça jeans!"

A empata sentiu sangue escaldar-lhe o rosto. "Não achei meu uniforme. E, assim como você, acordei desse jeito por algum motivo." Murmurou baixinho e, depois, se recompôs. "Sabe o que está acontecendo? Onde estamos? Como viemos parar aqui?"

Mutano fez que não com a cabeça. "Ai, não faço ideia. Tô tão perdido quanto você."

"Está tudo bem. Pelo menos eu te encontrei, Mutano. Estou andando há horas e já estava quase desistindo de procurar por você." Cansada, suspirou fundo. "Mas o que importa é que estamos juntos! Vamos..." Puxou o rapaz pela mão. "...temos que achar um jeito de sair daqui."

"Sair daqui?" Ele puxou a mão de volta e estreitou os olhos. "Quer dizer... deixar esse lugar?"

"Claro. Tem alguma coisa errada acontecendo. E esse lugar... nós não pertencemos a esse... essa realidade. Temos que achar uma saída."

Um conflito se instalou dentro do jovem rapaz. Por um lado, sabia que ela estava certa, que aquele não era o seu lugar. Todavia sentia-se tentado a ficar ali.

Olhou para trás, na direção da sua casa, lembrou-se do dia maravilhoso que passou ao lado dos pais e experimentou um aperto no peito.

Sentia-se muito, mas muito tentado a ficar ali para sempre.

"Mutano." Ela falou com mais firmeza. "Vamos."

"Eu..." Vacilou antes de respondê-la. "...eu não sei se eu quero sair daqui, Rae."

"O que disse?"

Inspirou fundo. E expirou devagar. "Eu disse que não quero ir embora. Quero ficar aqui. Para sempre."