Na verdade, quando uma pessoa está a afogar-se ela inala uma única vez, antes de perder os sentidos. O instinto de não deixar entrar a água é tão forte que a vítima só o faz quando atinge o extremo, quando sente a cabeça quase a explodir e não consegue continuar. São reflexos involuntários e não adquiridos que se activam em determinadas situações de tensão. A dor termina a partir do momento em que se deixa entrar a água...de repente, chega até a ser pacífico.

A psicóloga colocou-me a hipótese de manter a boca fechada. Lutar contra o instinto e segurar o fôlego o mais que puder para ter um pouquinho de tempo suplementar e tentar chegar à superfície. Teria uma melhor oportunidade de ser resgatado, mas não havia a certeza de chegar sequer a ser salvo. Então, essa pequena porção de tempo em que o corpo lutaria para não deixar a água entrar poderia equivaler apenas a mais agonia e talvez sobreviver não fosse o mais importante, não quando a agonia se transformaria depois numa tortura eterna.

"Como Winston Churchill disse: Se estás a atravessar o inferno...continua a andar." Na altura, uma dose de dor pela sobrevivência não me parecia uma opção tão plausível como agora. Mas uma vez que, correntemente, estava apaixonado - apaixonado a sério e não apenas um primeiro encanto idiota como com Lydia -, não me interessava se o inferno era o futuro. Eu estava no presente, a afogar-me, a chegar ao fundo do mar, tudo por causa dele.

Portanto, descobri que o amor era realmente um jogo de gato e rato, de predador e presa. No entanto, não podia afirmar com todas as letras que era o lobo a perseguir-me e que não era eu a perseguir o lobo. Chegámos a um ponto em que ficou difícil perceber quem era quem, dentro da nossa peça de improviso. Éramos um do outro e a partir daí pouco importava.

Ao princípio, lutei para me soltar, para chegar à tona da água e respirar oxigénio, mas as mãos que me seguravam eram mais fortes do que eu e a negação não adiantou de muito. Por isso, chegou o desespero, a vontade de respirar quando não podia e a minha cabeça começou a latejar. A sensação de angústia consumia por inteiro; não era florido como mostravam os filmes e não se limitava à simples vontade de estar com ele. Era Derek por inteiro, o seu corpo, o seu sangue, a sua alma. Eu queria tudo para mim.

Parei de resistir, abri a boca e engoli pela última vez. A água entrou e foi pacífico. Estava a afogar-me por conta própria, mas o meu coração continuava a bater como louco. Era aquele o ponto em que eu sabia que valia a pena, ou então não sabia coisa alguma, mas continuava a deixar-me ir.

Nunca poderia culpá-lo pela situação actual. Tudo bem, se guardasse a teimosia dos Hale para outra ocasião, se ouvisse os meus planos, se não tentasse ser o herói distante e impassível, talvez ajudasse. Mas, ainda assim, eu estava naquele colchão velho a fingir que dormia, enquanto me debatia contra os meus próprios pensamentos e a culpa não era dele. Claro que não conseguiria pregar olho quando um grupo de cães assassinos andava atrás dos meus ossos, mas o que é que podia fazer? Podia tentar encontrar uma arma, sei lá...ou apelar ao bom senso deles. Hm, bem, tentar não custava. O que importava no momento era continuar a fingir-me adormecido para não preocupá-lo ainda mais; Derek já tinha demasiado às costas.

Fora inesperado, sim. E confessava que primeiro tentara confundir os sentimentos para fugir à verdade, mas não adiantava tentar tal proeza em campos tão distintos quanto o do amor. Não interessava se não conseguia respirar, se os meus pulmões sucumbiam ao peso do mar e se o meu corpo emergia a flutuar tarde demais. Era tal como quando o salvei na piscina; tinha um Kanima à minha frente e no entanto o mais assustador foi o olhar de Derek, antes de deixá-lo para ir buscar o telemóvel. Aquele olhar de quem não esperava ser salvo, como se partisse do princípio de que eu o abandonaria. Às vezes as memórias baralhavam-se e quase parecia que tinha sido eu a ficar paralisado.

Porém, estava vivo e tencionava continuar. Vá lá! Finalmente perdera a virgindade, não era justo ter sobrevivido à vaga de sacrifícios humanos para ter a recompensa tão pouco saboreada no final. Partir agora seria injusto, por isso, eu estava decidido a nadar.

Quando Deucalion chegasse, se chegasse, eu ia mostrar-lhe que realmente não fora boa ideia usar-me como isco. Fazer chantagem com Derek pela minha segurança não era uma acção inteligente, quando eu estava disposto a tudo para salvá-lo.

Eu sabia que naquela noite poderia ir ao fundo...mas quem tentasse magoá-lo iria junto, pois eu reteria o ar por mais uns minutos, quantos bastassem para travar alguém e para aumentar a minha própria agonia. Por Derek, valia a pena.