Capítulo II
O caminho até em casa fora no silêncio habitual, por ambas as partes. Miles cutucava o aparelho celular em suas mãos, concentrado demais para prestar atenção no olhar curioso de Ella sob ele.
- Achei que iríamos a casa dos meus pais pela manhã. – Disse, por fim. Deixou de encará-lo para fitar a janela, um pouco incerta sobre a resposta do marido. Levou alguns segundos até que ele desgrudasse o olhar da tela e se virasse para ela.
- Temos a semana inteira para ir.
- Você disse isso na semana passada, Miles.
- Ella. Seu pai não paga nossas contas. Os homens que me aguardam amanhã pagam.
Ella bufou contrariada. Perderia mais um aniversário de seu pai por pura teimosia e orgulho de Miles. Revirou-se no banco totalmente incomodada, sentindo um nó na garganta se formar, com milhares de coisas que queria dizer e não podia. Quem via de longe pensava se tratar de uma mulher submissa. Mas era o oposto.
Miles por fim desligou o aparelho, resmungando no seu canto como se ele quem houvesse sido negado.
- Está agindo como uma criança mimada, Ella. Sempre age como uma criança mimada.
- Está agindo como meu pai. Aliás, está sempre agindo como se fosse meu pai.
Miles reprovou-a apenas com o olhar. Não precisava subir o tom de voz para que Ella respirasse fundo para se recompor.
- É aniversário dele, Miles. Não fui ano passado, perdi o aniversário de Amélia. Por favor. Nunca te dei motivo para desconfiar de mim, muito menos sob o teto dos meus pais. Não seja tão difícil. Dê esse presente para sua esposa. Pelos sete anos.
Seu tom de voz mudara do irritado para o doce, como uma súplica. Encarava Miles com aquele brilhante par de olhos azuis, que evitava encarar a todo custo. Ele não a respondeu. Permaneceu quieto até chegarem em casa, deixando a mulher totalmente desesperançosa.
A brisa fresca balançava suavemente os cabelos de Ella, debruçada na varanda para contemplar a bela noite que fazia. Era difícil ver um céu tão limpo quanto aquele em Londres, onde as nuvens e a chuva predominavam. O nó na garganta permanecia lá. Lembrando Ella, a todo instante, do quão distante se tornara de sua família naqueles sete anos. Certo que guardava muito rancor de seus pais por terem obrigado-a se casar com Miles aos dezoito anos de idade, mas isso não significava que gostava de ficar longe deles. Muito menos de seus irmãos.
Amélia e Daniel eram seus únicos amigos. Os irmãos caçulas eram extremamente ligados a ela, fato que mudou desde que fora morar com Miles. Lembrava das longas noites viradas fofocando e rindo, lendo revistas de moda e recortando os vestidos que sonhavam em ter no armário. Amélia, embora três anos mais nova, sempre foi muito madura. Andava com Ella para baixo e para cima, conversava com seus amigos, e lhe dava conselhos amorosos quando ainda freqüentava a escola mista. As lembranças dos verões que passavam em Saint Tropez eram tão vivas, que ainda sentia o cheiro da praia, e do quarto onde costumavam ficar... Como sentia falta da sua adolescência, que lhe foi tirada de forma tão brusca. Aos vinte e cinco anos, Ella era basicamente uma dona de casa. Embora que com sonhos altos, não passava disso. Não pode freqüentar a faculdade, não pode viajar o mundo, não tinha amigos e nunca havia ido a uma boate. Os únicos lugares que ousava ir era à lojas de grifes junto com sua mãe e sua irmã, passear de barco com seu pai e seu irmão, caminhar pelos bosques perto de casa, e, às vezes, ir com Miles à alguns restaurantes e clubes de jóquei. Sua pacata vida se resumia a isso.
Podia sentir o olhar de pena vindo dos empregados, da sua família, dos familiares de Miles e da sociedade inteira. Embora a admirasse e invejassem, por dentro, todos sentiam pena da enclausurada esposa de Lorde Miles Von Unwerth, o jovem lorde herdeiro de toda a fortuna deixada por seu falecido pai. Parecia até poético posto assim. Mas Ella achava aquilo tudo uma baboseira. Sabia melhor do que ninguém que aquele título nobiliárquico não valia de nada, e que se dependesse do título de Conde e Condessa de seus pais, estaria afundada na lama. O mesmo valia para o de Miles. Herdou de seu pai, que vinha de uma família de antigos duques e duquesas, empobrecidos com a queda da monarquia ao longo dos anos. Era apenas uma pose, e um charme. Ella sentia-se bem com o título de Lady. Pelo menos algo de bom Miles lhe dera.
Uma risada doce saiu de seus lábios. Era algo que envolvia o melancólico, o irônico. Ria de si mesma para tentar prender as lágrimas que teimavam em sair de seus olhos, inebriados. Ella se tornara mais forte e indiferente em relação ao marido ao longo daqueles sete anos, mas não podia negar a saudade que tinha de se sentir amada, desejada e querida por alguém. As palavras e movimentos frios e distantes de Miles a tornavam uma pessoa tão frígida quanto. Às vezes tinha medo do quão superficial e robótica estava se tornando, graças aquela casa e aquele casamento.
Acordou de suas divagações quando ouviu a voz de Miles atrás de si.
– Não vai dormir? – Perguntou, aproximando-se dela calmamente, para se pôr ao seu lado no peitoril da varanda. Miles não a encarava nos olhos quase nunca, e por essa razão, observava a lua como se fosse o objeto mais interessante do mundo. Podia até ser, mesmo.
- Só estava admirando o céu um pouco. Não fica assim todo dia. – Ella disfarçava as lágrimas, se afastando um pouco. Limpou com o dorso da mão, embora não conseguisse evitar as que desciam. Queria morrer quando isso acontecia. Não queria, nunca, se mostrar fraca diante Miles. Mas ele reparara.
– Espero que não esteja chorando por não irmos amanhã ao seu pai.
Ella riu. Debochada.
– Precisa de mais para me fazer chorar, Miles. – Seu tom era um tanto quanto frio, vazio, rancoroso. Não queria estender a conversa, pois podia ser um pouco mais ignorante do que ele merecia.
– O que é tão sério, já que está chorando?
O cenho franzido da mesma forma irônica que ela trazia aquela sensação de que mais uma briga estava para começar. Até que demorou dessa vez, pensou Ella.
– Além de ser obrigada a ficar em casa te esperando, todo santo dia, para receber palavras frias e distantes, ainda tenho que compartilhar contigo cada maldito pensamento meu? – As palavras da mulher foram literalmente cuspidas, espontâneas e surpreendedoras. Era raro ela explodir daquela forma. O homem se surpreendera, mas não recuou.
– Está dizendo que sou um marido frígido?
– Miles... Me diz qual foi a última vez que me abraçou. Que me beijou! Me diz qual foi a última vez que fez amor comigo. Porque eu não me recordo... Eu me sinto abandonada nessa casa! Eu me sinto sozinha. Mesmo quando estamos deitados na cama, juntos. Eu me sinto sozinha agora.
As lágrimas desciam rapidamente, e ela não podia evitar. Não queria. Anos de boca calada faziam com que aquele momento fosse crucial para ela. Para que não explodisse. Precisava por aquilo tudo para fora, ou ia acabar morrendo sufocada. Miles encarou seus olhos estáticos. Não se mostrava irritado, surpreso, nada. Encarava sua esposa com o olhar mais apático que tinha. Não sabia o que responder. No fundo, no fundo, ele não tinha uma resposta pronta como Ella sempre tinha.
– Não sei porque está me cobrando isso agora, Ella. Você nunca esperou e quis carinhos da minha parte. Nunca foi uma mulher carente e sedenta por atenção... Sempre admirei isso em você.
Miles usava um tom nervoso, confuso. Tentava atacá-la para não precisar recuar. Mas ela só chorava e soltava sorrisinhos debochados.
– Eu sempre cobrei. E você sempre ignorou. Eu sempre esperei atenção, amor, carinho. E você nunca deu! Miles... Por que é tão frio? O que eu fiz para você?
– Nada, Ella! Céus! O que deu em você hoje? Não vou discutir com você. Vou dormir, e espero que faça o mesmo. Acordarei cedo para trabalhar. Kevin vai te levar até a casa dos seus pais, às nove, e te buscará para o almoço.
Dito isso, ele se recolheu, saindo da varanda para a cama do casal. Quando o homem por fim se acomodou, uma série de soluços saiu do peito da mulher, que não conseguia se sustentar em suas próprias pernas. Encolheu-se no chão, sentindo como se seu peito fosse explodir. As lágrimas molhavam todo seu robe, mas limpavam a sua alma. Chorava pela frieza de Miles, pelo seu casamento, pela vida que estava perdendo, pela família distante, e os amigos que nunca teve. Chorava por si mesma. Afinal, sabia que enquanto seus pais dependessem dela, ela estaria ali. Deitada naquela cama, com aquele homem. Que nunca lhe dera amor, atenção, carinho. Que nunca a fez se sentir especial e única. Pelo contrário. Muitas vezes Ella se questionara se o marido não tinha uma série de amantes. Nenhum homem podia ficar tanto tempo sem sexo. Ella não se lembrava da ultima vez que o marido a tocou. Passava de meses, certamente.
Quando não havia mais nada o que chorar, Ella se reergueu. Levantou-se do chão, secando os vestígios de lágrima que ainda tinha para se dirigir a cama em que Miles dormia profundamente.
xx
