19.05.1978 – Sexta-Feira
[and we'll fight for you like we were your soldiers]
A sala de Dumbledore era gasta. Remus sempre pensava nisso quando colocava os pés lá dentro. Um aposento vivido por inúmeros outros diretores e que ainda esbanjava vida, sempre refulgindo com o brilho das velas a multiplicar-se na superfície das dezenas de objetos. Um desfile de formas, cores e mistérios que banqueteavam olhos curiosos. A sensação de aconchego nunca abandonava completamente aquelas paredes, indiferente ao tempo sombrio que lhe obscurecia o ambiente e alheia ao teor do assunto que se desenrolaria quando a porta fosse fechada. O escritório era como uma extensão de seu atual proprietário. Dumbledore usara-o até torná-lo seu. Até manchar a mesa com tinta e esquecer-se de fechar a janela durante alguma tempestade, acelerando o processo de desbotamento apenas para metade do tapete. Remus se sentia seguro ali.
A única coisa que odiava era o silêncio.
James e Sirius estavam sentados ao seu lado, ambos cheirando a sabão, rebeldia e batatas assando. Remus ainda segurava a varinha no colo. Não fizera nenhum movimento para guardá-la, seria o mesmo que tentar esconder a verdade - um gesto inútil e tardio. E ele não se arrependia do que tinha feito. Essa certeza era o que o tranquilizava em meio ao silêncio, protegendo-o contra a ausência de som moribunda que o cutucava em busca de uma brecha por onde pudesse esticar o braço e roubar-lhe a convicção. Apertou a varinha e aguardou.
Minerva retornou depois do que lhe pareceram longas eras, tendo os lábios tão contraídos que foi uma surpresa ver que ela ainda conseguia usá-los com a mesma eficácia de sempre.
– Madame Pomfrey pediu para avisar que não há mais leitos vagos na enfermaria – ela comentou, postando-se diante da mesa de Dumbledore e virando-se para encarar os Marotos. – Talvez isso seja novidade para vocês, mas a enfermaria não está equipada para tratar vítimas de uma guerra civil.
– Vítimas? Eles atacaram o Remus! – James rebateu, indicando com um gesto amplo o ombro ensanguentado do amigo.
– O Sr. Lupin também foi atacado pelos elfos domésticos? Pelos alunos pisoteados durante a guerra de comida? – Os lábios de Minerva se espremeram, como se azedados pelas palavras. – Ou quem sabe pela bandeira da Sonserina? A Professora Sprout encontrou mais retalhos hoje, enfiados nos sacos de adubo.
– Não fomos nós que encostamos nessa bandeira nojenta – Sirius rosnou.
– Sirius, por favor.
A voz de Dumbledore saíra branda, um sussurro inofensivo se comparado com a reprimenda que McGonagall preparava. Foi o suficiente para resumir o protesto de Sirius em um olhar carrancudo.
– Nós não negamos que as coisas fugiram um pouco do controle. Mas as verdadeiras vítimas nisso tudo são aquelas gêmeas da Lufa-Lufa, e elas não atacaram ninguém. – James traduziu o ladrar de Sirius para uma argumentação recatada, porém igualmente firme.
O incidente com as gêmeas lufanas transformou o que antes eram discussões e conflitos esporádicos num reflexo sem precedentes do caos que se alastrava fora dos muros do castelo. Não eram poucos os que já se recusavam a pronunciar o nome de Voldemort, como se o nome pudesse ser tão fatal quanto a pessoa que identificava. A iminência da guerra censurava, lentamente, os pormenores do dia-a-dia; a tensão extrapolava os limites das horas, das semanas, esgarçando os nervos e colocando-os num estado de espera sem fim. As notícias de mortes, desaparecimentos e torturas se tornavam tão corriqueiras que possuíam uma sessão própria no Profeta Diário. Uma sessão na qual o pai das citadas gêmeas publicava colunas, denunciando os crimes cometidos pelos partidários de Voldemort. Não demorou muito para que outra coluna saísse, tomando nota do incêndio "misterioso" que destruíra a casa da família e do desaparecimento do pai.
Dentro do castelo o estopim se deu na última segunda-feira, quando as gêmeas foram encontradas amarradas em árvores na orla da Floresta Proibida, vestindo apenas as roupas íntimas deixando à mostra as palavras "sangue-ruim" escritas com lama repetidas vezes no corpo de ambas.
– Não, elas não atacaram ninguém – Dumbledore concordou, observando-os por cima dos óculos de meia-lua. – Elas também não revelaram quem foi que as atacou, mas vocês não tiveram dificuldades em identificar os culpados.
– Não é como se eles fizessem muita questão em manter o anonimato, professor – Remus comentou, apenas ligeiramente na defensiva.
– É, e não é como se esse fosse o primeiro ataque a nascidos trouxas e mestiços – James completou. – Nós tínhamos que fazer alguma coisa.
– Então iniciar uma guerra de comida no Salão Principal é o que vocês chamam de justiça?
– Não, professora. Nós só queríamos mostrar que quem tem lama no sangue são eles. Não tínhamos como prever uma reação daquelas – Sirius retorquiu, perdendo a seriedade no final da frase e permitindo que o canto da boca escapasse para cima; dando a entender que a reação fora muito melhor do que ele sonhara. Um sorrisinho que ele engoliu com eficácia e substituiu por um franzir de sobrancelhas pesaroso.
A retaliação começara algumas horas depois das gêmeas serem encontradas amarradas. Remus descia para as masmorras com o pequeno grupo de grifinórios que ainda cursava Poções no sétimo ano, todos imersos em debates sobre os recentes acontecimentos daquela manhã. Dentro da sala, entreouviram Regulus Black resmungando para um amontoado de sonserinos risonhos a respeito da dificuldade de tirar manchas de lama das vestes. Slughorn entrara na sala bem a tempo de ver o arremesso espetacular de Dorcas, que fez um caldeirão vazio sobrevoar meia dúzia de cabeças até alcançar Regulus; que teria sido atingido em cheio se não fosse por seus reflexos rápidos, deixando o terreno livre para que o caldeirão acertasse Snape no meio da testa. Depois disso as coisas não ficaram mais pacíficas, e o fato das gêmeas não passarem de crianças do segundo ano apenas contribuiu para disseminar uma indignação generalizada contra os principais suspeitos. Diversos confrontos eclodiram pelos corredores ao longo do dia, muitos resultando em duelos ou até mesmo agressões físicas entre sonserinos e alunos das outras três casas. Para Remus não havia dúvidas a respeito da identidade dos atacantes. A afinidade do grupinho de Avery e Mulciber com a ideologia de Voldemort não era recente, pelo contrário. Muito antes do autointitulado "Lorde das Trevas" ganhar renome os garotos já demonstravam aversão a qualquer coisa remotamente relacionada com o mundo dos trouxas. Os ataques aumentaram – tanto de intensidade como de crueldade – ao longo dos anos, deixando um rastro de vítimas aleatoriamente escolhidas. Os critérios para selecionar um alvo não pareciam ser muito complexos. Bastava ter a árvore genealógica errada, o sangue errado, a opinião errada.
Nos dias seguintes as batalhas nos corredores tomaram proporções de uma – corretamente ressaltada pela Professora Minerva – guerra civil. James e Sirius passaram uma madrugada transportando baldes de lama até as cozinhas e escondendo-os com a capa da Invisibilidade. Ao serem avisados por Remus (através do espelho de duas faces) que o Salão Principal começava a se encher para o café-da-manhã, Sirius fez cócegas na pera e soltou na cozinha um certo rato que carregava no bolso. O pânico cegou os elfos domésticos por alguns minutos (e cerca de cinco elfos domésticos quase ficaram cegos, após serem atingidos por uma panela de água fervente em meio a perseguição ao rato), tempo suficiente para que os dois garotos substituíssem as refeições da mesa da Sonserina por generosas porções de lama.
– E o que vocês pretendiam mostrar hoje? – Dumbledore perguntou, olhando diretamente para Remus.
– Nada, senhor – respondeu. – Eu só estava fazendo a ronda. Passava pelo Salão Principal em direção às cozinhas quando percebi que eles preparavam uma emboscada – lembrava-se de ver as sombras se escondendo na outra ponta do corredor, os passos apressados. – Quando eles tentaram me encurralar eu revidei.
– Quem são eles?
– Avery, Mulciber, Regulus e Rabastan.
Os nomes empilhavam-se em perfeita ordem em sua memória, quase uma lista. Remus anotara-os mentalmente enquanto Peter ditava deitado numa das macas na enfermaria. Este conflito em particular teve início na noite de quarta-feira, quando Peter fora encontrado inconsciente e pendurado pelos pés no lustre da sala de DCAT. Mais cedo naquele dia a bandeira da Sonserina fora retalhada sem misericórdia no Salão Principal. Talvez os sonserinos suspeitassem da participação Peter – ou, melhor dizendo, dos Marotos – ou talvez Peter simplesmente estivesse no lugar errado na hora errada. Não importava. Com James e Sirius presos em detenções pelo resto da semana, coube a Remus defender a integridade do amigo.
– E por que eles decidiram te atacar? – Dumbledore quis saber.
– Porque eles não passam de covardes filhos da...
– Este é o seu último aviso, Black.
– Talvez porque eu tenha derrotado todos eles no Clube de Duelos ontem – Remus respondeu, com o tom mais humilde que encontrou, olhando de relance para Minerva, que por sua vez parecia estar escolhendo o feitiço não-verbal mais eficaz para esganar Sirius.
James estufou o peito com orgulho ao ouvir as palavras do amigo, e Remus precisou usar todo seu auto-controle para não fazer o mesmo. O Clube de Duelos reunia-se uma vez por mês, organizado pelos Diretores das quatro casas. Remus poderia descrever detalhadamente como desafiara discretamente cada um deles em meio aos exercícios de aquecimento, como se voluntariara no final da aula para duelar e como desarmara cada um deles com feitiços bem posicionados. Sabia que eles se vingariam. Estivera contando com isso.
– E quem estava com você na hora do ataque?
– Não havia ninguém comigo, professor – Remus afirmou, ligeiramente confuso.
– Lupin enfrentou os quatro sozinho. Eu supervisionava Black e Potter na limpeza das panelas na cozinha quando escutei os gritos vindos do corredor – as linhas contraídas ao redor dos lábios de Minerva diluíram. Ela aprumou os ombros. – Ao chegar lá encontrei Rabastan com a varinha enfiada no próprio nariz, Avery e Mulciber estuporados e Regulus com a cabeça presa no quadro dos monges bêbados.
– Waddiwasi? – James perguntou, num murmúrio educadamente interessado, enquanto Minerva relatava os acontecimentos a Dumbledore.
– Sim, pelo visto funciona tão bem com varinhas como com chicletes – Remus sussurrou antes que pudesse se conter.
– Muito criativo – James congratulou-o, pensativo. A julgar pelo tom de ambos, podiam muito bem estar trocando anotações sobre uma nova matéria complexa.
Dumbledore liderou uma nova leva de silêncio, encarando os próprios dedos entrelaçados.
– Tudo isso me leva a crer que vocês estão acompanhando as manchetes no Profeta Diário, correto? – Dumbledore enfim perguntou.
Estranhando a pergunta, os três concordaram com um aceno sincronizado de cabeças.
– Então vocês estão cientes da guerra que está por vir. E o que vai acontecer caso Voldemort triunfe.
– Isso não vai acontecer – Sirius afirmou.
– Não? O número de partidários de Voldemort aumenta a cada dia que passa, até mesmo dentro dos muros deste castelo como vocês mesmos acabaram de declarar.
– Nós vamos impedi-lo.
– Esse não é o tipo de batalha que pode ser vencida com baldes de lama, James. E as vítimas desses confrontos vão sofrer muito mais do que algumas escoriações.
– O senhor vai lutar, professor? – Remus perguntou, tomado por uma suspeita súbita ao reinterpretar o teor da conversa. E se, ao contrário de suas certezas ao entrar no escritório, eles não estivessem ali para receber outra detenção?
Dumbledore sorriu. Minerva se agitou sem sair do lugar.
– Sim, eu vou. Mas não nutro esperanças de vencer sozinho.
Cerca de uma hora depois, Remus, James e Sirius entraram no Salão Comunal da Grifinória. Passaram por Marlene, Mary, Dorcas e Lily – que trançavam o cabelo uma das outras e os prendiam com tiras de um tecido verde e prateado – e subiram para o dormitório masculino.
– É impressão minha ou Dumbledore acaba de se tornar um Maroto? – James fechou a porta do quarto enquanto falava, com um ar de assombro.
Os três riram, despreocupados e confiantes em relação ao futuro que em breve construiriam.
– Fawkes poderia nos acompanhar durante as luas cheias – Remus contribuiu para a situação hipotética, vasculhando o malão à procura do pijama.
– Seria uma cena interessante, desde que ele não tente meter o bico nos nossos passeios. Pelo menos nas luas cheias o Cão, o Rato, o Cervo e o Lobo não vão ficar obedecendo as ordens da Fênix – Sirius refletiu, jogando-se na cama de dossel mais próxima do banheiro.
