N/A: Entre a Batalha Final e o fim de Relíquias da Morte; nossos heróis estão com 28 anos de idade. Harry visita A Toca uma noite e tem uma conversa que muda sua vida com sua melhor amiga.

"Tivemos essa discussão milhões de vezes, Harry—"

"E teremos de novo, tenho certeza."

"Eu não QUERO tê-la de novo! Se você apenas me ESCUTASSE—"

Suspiro pesadamente e perpasso os dedos por meu cabelo. "Gin, isso é realmente sobre as vestes? Porque eu posso devolvê-las se for isso que você—"

"Você sabe muito bem que é o fato de você tê-las comprado em primeiro lugar que me deixa com raiva," ela diz friamente, deixando-me com vontade de sacudi-la. Eu não vejo ponto em ficar tão irritada por causa de um conjunto de vestes. O que diabos importa se nosso filho mais velho tem uma coisa a mais para vestir? Ela deveria ficar feliz – as mulheres não geralmente amam vestir sua prole, de qualquer maneira? Eu nunca entendi as mulheres na minha vida, e embora agora fosse uma ótima hora para começar, não estava acontecendo. Então estou sozinho no escuro, de novo, enquanto Gina explode à minha frente e James assiste silenciosamente do topo das escadas, meio escondido atrás das grades. Eu olho para ele e ele me encara solene, encontrando meu olhar tão equilibrado que parecia ter o dobro da minha idade. Meu coração dói por ele ter de nos ver brigando assim.

"Olha," eu digo calmamente, voltando-me para Gina. Ela cruza os braços sobre o peito. "O que você quer que eu faça?" Ela ergue uma sobrancelha e não responde. Suspiro novamente, quase desistindo. "Bom, se você não me di—"

"Se você ainda não sabe o que eu quero, eu que não vou lhe dizer. Você vai ter que descobrir sozinho."

Tenho vontade de arrancar meus cabelos. Desde quando é uma boa idéia a mulher deixar seu marido 'descobrir as coisas sozinho'? Desde nunca! Só me resta uma opção depois disso, pelo menos que eu saiba, e deixo minha cabeça pender, aceitando-a. "Vou buscar minha mala."

Seus olhos faíscam e eu percebo um pouco tarde demais que eu disse a coisa errada. "Por que você sempre pula para essa conclusão, Harry? Uma briguinha minúscula e você já se manda para A Toca! Você me deixa com raiva de propósito só para ir até lá? Você só está tentando se afastar de mim, é isso?"

"Pelo amor de Merlin, Gin—" Do que diabos ela está falando? Como ela poderia pensar isso? Eu nunca vou entendê-la...

"Não se faça de idiota!" ela guincha, trazendo seus braços ao encontro dos lados de seu corpo, como hastes de ferro com seus pequenos punhos no fim parecendo tacos de golfe. Seu cabelo está começando a cair do seu já desarrumado coque, mechas frouxas e desfiadas flutuando ao redor de sua cabeça. "Isso é a única coisa que pode consertar qualquer coisa para você, não é mesmo? UGH!" Quando ela fica assim, suas feições normalmente deslumbrantemente mornas se contorcem numa careta fria. Eu nunca consigo decidir se ela fica mais ardente quando furiosa ou quando fria como gelo. Uma combinação de ambos, acho. Tento ao máximo manter a calma e deixá-la ter o que quer, mas algum instinto perverso dentro de mim me tenta a atiçá-la. Talvez seja porque quando ela está irritada é o único momento que ela mostra aquela bruteza, aquela intensidade que me atraiu até ela em primeiro lugar, quando eu tinha dezesseis anos. Eu tenho que deixá-la completamente irada. Caso contrário ela nunca deixa nenhuma outra emoção senão amabilidade mostrar. Acho que ela quer passar uma 'boa impressão' para as crianças... mas começou antes de termos James, então risque essa teoria.

"Então você quer que eu fique aqui?" Pergunto cansado, e ela explode mais uma vez.

"NÃO! Saia da minha frente, saia da minha casa, vá correndo para a maldita Toca antes que eu te amaldiçoe até o meio da próxima semana!"

Com essas amáveis palavras de despedida, ela esbraveja subindo as escadas e passa ao lado de James, pisoteando o chão em seu caminho. Eu a escuto descontar sua raiva no piso e – sim, aí está o estrondo de nossa porta se fechando. Assisto nosso filho apertar os olhos ao ouvi-la. Dói vê-lo sofrendo. Ele está todo encolhido numa pequena depressão no topo das escadas, ainda me observando com o olho que não está escondido pelo corrimão. Faço um gesto convidando-o a descer, mas ele balança a cabeça, esfregando o nariz na estaca de madeira. Posso ver seus olhos começando a lacrimejar. Com outro suspiro pelo temperamento de Gina e o meu estúpido impulso de enfurecê-la, eu me arrasto pelas escadas e sento-me no primeiro degrau, enquanto ele rasteja até meu colo e enterra sua face em meu peito. Meus braços o envolvem. "Shh, vai ficar tudo bem..." eu murmuro, enquanto ele chora baixinho, embalando-o. "Foi só uma briguinha. Sua mãe e eu vamos fazer as pazes amanhã, eu prometo."

"Vocês não fazem as pazes," ele funga, o som abafado pela minha camisa, e eu o aperto mais forte. "Vocês só fingem que não aconteceu." Estranhamente perceptivo para um menino tão pequeno. Deve ter ficado assim por ter passado tanto tempo com Hermione. Aquela mulher... se as coisas tivessem sido diferentes... mas antes de poder seguir com essa linha de pensamento novamente, minha atenção se volta para meu filho, enquanto ele se afasta e olha para mim com seus olhos grandes e lacrimosos de três anos. Os olhos de sua mãe, castanho-claros; mas nessa luz, ou seja, quase nenhuma, eles parecem bem mais escuros. "Você e a mamãe vão se separar?"

"Claro que não. Quem disse pra você o que isso significa?"

"Cory," ele resmunga e eu fico um pouco tenso. Cory Smithson é uma má influencia para James. Ele é maduro para seus seis anos e, porque seus pais não o disciplinam, ele cresceu um pouco desenfreado. Sua irmã mais nova, Marcel tem três anos, e parece que vai ficar do mesmo jeito. Ela brinca com Rose – a filha de dois anos de Hermione e Ron – de vez em quando. Não tenho certeza se aprovo. Rose tem seu primo Albus, que tanto tem sua idade quanto é bem educado, para brincar. Os Smithsons, mesmo que boas pessoas, não têm controle suficiente sobre seus filhos, e é palpável.

Eu movo James para os meus joelhos para que ele esteja me olhando de frente, à mesma altura. "Não escute o Cory, James. Ele não sabe do que está falando e só está sendo maldoso. Eu e sua mãe nos amamos muito e nada vai mudar isso. Entendeu?"

Ele hesita por um segundo e um nó sobe à minha garganta, enquanto eu preocupo-me se ele terá dúvidas – mas ele assente, embora vagarosamente, e eu o abraço novamente, deixando-o chorar copiosamente.

Escuto uma porta abrir no fim do corredor e, reencostando-me para ver, Gina emerge do quarto com uma expressão assassina. Eu viro James protetoramente para o lado contrário dela e espero-a dizer algo. De onde estou, vejo sentimentos perpassando por sua face, enquanto ela olha para James, um após o outro – fúria, preocupação, tristeza e então de volta para raiva – antes de ela pisotear em nossa direção. "Colocando meu filho contra mim agora?" ela diz baixinho com frieza mortal em sua voz. "Saia. Achei que tinha dito que não quero você aqui hoje à noite."

Lembrar a ela que a casa é mais minha que dela seria fútil e só a provocaria mais. Um enorme desejo de dizê-lo mesmo assim surge em ondas dentro de mim, mas eu o reprimo com grande dificuldade. Levantando-me com James em um braço, sua cabeça descansando em meu ombro e encarando sua mãe através dos grossos cílios que irão atrair as garotas um dia, eu respondo com igual brandura em minha voz menos todo o ódio. Só estou cansado disso. "Não vê que ele está chateado?"

"Tenho certeza que sua preciosa Hermione vai ser capaz de acabar com todas as lágrimas dele," ela diz mordaz e eu franzo o cenho.

"Você não fala sério. Sinceramente, Gina, você não está normal hoje." Mas ela está e esse é o problema. Essa é sua natureza. Atacar quando se sente ameaçada. Eu ameaço seu poder sobre as crianças desobedecendo-a e comprando coisas que ela diz que eles não podem ter; e ela explode em chamas toda vez, usando toda arma que ela tem – ou inventando algo – para ganhar sua autoridade de volta e me magoar. Não funciona há séculos. Mas isso não a impede de tentar.

"Saia," ela sibila e eu pego minha varinha.

Ela fica tensa e em choque, então relaxa quando digo "Accio mala". Esta passa zunindo de nosso quarto atrás de Gina e, enquanto guardo minha varinha de volta em minhas vestes, ela pousa em minha mão estendida.

"Você já tinha feito as malas." É uma acusação, não uma pergunta.

"Sempre," eu digo tristemente e pela primeira vez na noite é notável que a deixei chateada. Vejo dor em seu rosto bonito, mas não tenho vontade ou energia para pedir desculpas. Eu desço as escadas e coloco a mala no chão para abrir a porta. Tendo feito isso, eu me aprumo e olho para o segundo andar. Gina está em pé ao lado da parede com uma expressão estranha no rosto. Ela não diz nada, e eu também não.

James já havia feito aparatação acompanhada antes, ele sabe como é; quando o aperto e a escuridão acabam ele deixa a cabeça pender em meu ombro e dorme enquanto eu subo a rua suja que leva à Toca. Eu me atrapalho com as chaves por um minuto quando chego à casa, puxando-a de um bolso fundo enquanto colocava a mala no chão. Finalmente consigo enfiá-la na fechadura e abrir a porta. Esta não range – uma maravilha do feitiço de Hermione – enquanto a empurro e pego minha mala para entrar, fechando a porta o mais silenciosamente possível. Lá esta ela, limpando como sempre, virando para ver quem acaba de entrar em sua casa. Ela põe as mãos nos quadris e me lança um de seus infames olhares. "O que você fez agora?" ela pergunta e eu vou imediatamente para o modo defensivo.

"Foi só uma roupa!" Eu exclamo e ela ri, então parece se lembrar de ficar quieta para não acordar James. "Gina ficou possessa por isso – não entendo por que ele não pode ter uma roupa mais arrumada..."

"Uma, tudo bem. Mas ele só tem três anos e essa já é, o que, a décima que você compra?"

"Terceira!" eu insisto, ficando ligeiramente vermelho. Ela parece querer me repreender mais um pouco. "Você soou como a Gina agora."

A resposta que espero não vem. Ela sempre odiou ser comparada à minha mulher, por alguma razão. "Bom, seu quarto está pronto, como sempre."

"Rose está dormindo?" eu pergunto e ela assente. Lanço-lhe outro sorriso e pego minha mala novamente, subindo a escada velha e tortuosa até o segundo andar e pisando na ponta dos pés nos lugares que sei que mais rangem. A Toca pode estar caindo aos pedaços, mas não se pode negar que tem personalidade. Quando alcanço o quarto que é minha segunda casa, coloco James cuidadosamente na cama e o aprumo entre as cobertas, tirando seu dedão da boca, pois sei que vai estar com um gosto terrível pela manhã se ele o deixar ali. Deixo minha mala cair em algum canto do quarto sem me preocupar em desfazê-la. Posso fazê-lo mais tarde. Quero falar com Hermione; faz uma semana desde a última vez que estive aqui, parecem séculos.

Assim que ponho o pé no corredor, noto algo que não tinha dado atenção antes – o distinto, delicado cheiro de Poção do Sono. Enquanto caminho silenciosamente para a cozinha, a vejo esfregando o balcão com um pano. Sempre limpando. Eu não entendo. Há coisas melhores que ela poderia estar fazendo com seu tempo... Ela me ouviu chegar. Ela me olha por cima do ombro e parece surpresa em me ver. Abano a mão em frente ao nariz para afastar o cheiro de Poção, meus olhos pesam ameaçadoramente. "Está cheirando a Poção do Sono lá em cima. Rosie ainda está tendo pesadelos, então?"

Ela assente. "Ela não passa duas noites sem ter um."

"Coitadinha..." eu murmuro, memórias da minha própria infância infestada de pesadelos voltando a mim. Lembro de vezes em que não conseguira dormir com medo de ver aquela face pálida e luz verde. "Talvez eu devesse conversar com ela. Se eu falar sobre os meus, que ela não é a única que os têm, talvez ela se sinta melhor. Não acha?" Eu espero que sim.

Ela me sorri agradecida. "Isso seria maravilhoso. Obrigada." Ela parece tão cansada. Suprimo o instinto de abraçá-la; suspeito que só a faria ficar mais sonolenta e eu a quero acordada para que possamos conversar. Egoísmo de minha parte. Que pena. Sento na mesa da cozinha e observo-a voltar a esfregar o balcão. Meus olhos deslizam por ela, seguindo as linhas confusas de seu cabelo e como este cai ao redor de seus ombros. O completo oposto de Gina; às vezes eu as comparo secretamente. Sempre fico surpreso com o quanto suas aparências contradizem suas personalidades – Hermione indiferente com suas roupas confortáveis e cabelo solto, sempre a imagem da dona-de-casa exausta, e Gina tão meticulosa com suas roupas quanto Hermione não o é. Olhando para elas se diria que Gina seria mais dona de si e de seu temperamento, mas Hermione sempre foi a mais calma e racional. É até ela que vou depois de lidar com Gina o dia todo. Às vezes é como se Gina fosse meu trabalho e Hermione, meu lar... mas ela não é. Nossa casa em Godric's Hallow é meu lar. James e Albus amam A Toca, mas depois de um tempo eles sempre querem dormir em seus próprios quartos novamente.

Pensamentos estúpidos. Olho de relance para o relógio Weasley e sorrio fracamente ao ver meu ponteiro acima de Férias. Não seria este o nome que eu daria. Hermione quebra o silêncio.

"Você viu Ron enquanto estava lá em cima?" Eu sacudo a cabeça e ela suspira. "Ele provavelmente inalou Poção do Sono demais. Vou checar se ele está bem."

"Eu vou com você," Eu ofereço, levantando-me. Ela fica tensa por um milésimo de segundo – não acho que ela queria que eu notasse – e então me lança outro sorriso agradecido. Sinto a necessidade de justificar minha ida com ela. "Você poderá precisar de ajuda para carregá-lo se ele estiver desmaiado no chão do quarto da Rosie." Em verdade, só desejo sua companhia. Sinto me reconfortado por sua presença.

Espiamos para dentro do quarto de Rose e, certo o bastante, ele está desfalecido no tapete que Gina escolheu de presente de aniversário para ela. Suprimindo uma gargalhada – a menina está dormindo, afinal – pego os braços de Ron, Hermione pega suas pernas e nós o arrastamos pelo corredor até seu quarto. Dou uma olhada ao redor enquanto Hermione abre a porta com suas costas. Eu não entro muito aqui; eles mudaram as coisas de lugar desde a última vez que vim. A cama costumava ficar no outro canto. Hermione o solta enquanto eu o alço para a cama e me encaminho para o andar de baixo, deixando-a só para fazê-lo ficar confortável.

Puxo uma cadeira e sento-me à mesa, batendo os dedos na dura superfície de madeira. Apesar do que digo para mim mesmo, freqüentemente sinto que A Toca é mais minha casa do que Godric's Hallow. A mesa é familiar, as luzes são as mesmas há anos, com algumas exceções – as pequenas adições de Hermione à propriedade. Solto um pequeno suspiro de frustração. Não consigo pensar em nada sem voltar de alguma maneira para ela. Minha cunhada. Eu repito a frase algumas vezes para mim mesmo e ouço passos na escada. Olho para ela e inclino minha cabeça para o lado, enquanto um pensamento me ocorre. "Você me lembrou a Molly agora, com esse avental e tudo." Sei lá. Ela parece toda caseira e maternal e cansada, como Molly geralmente fica. Hermione para na escada por um momento, corando um pouco. Pergunto-me o porquê. Ela brinca com um fio solto na barra de sua saia, então o arranca e o joga no lixo. Ao levantar o rosto para encontrar meus olhos, ela parece... tímida. Estranho para ela.

Observo-a distraidamente enquanto ela segue apressada para a cozinha, tentando parecer ocupada quando, na verdade, não faz absolutamente nada. Imagino por que ela não simplesmente senta e posso sentir meus olhos pesarem um pouco enquanto meus pensamentos vagueiam. O contorno de seu vestido muda com seu movimento quando ela gira aqui e se abaixa ali, o tecido ficando preso momentaneamente na quina de um armário e então escorregando livremente. Ela não percebe. Agora ela vira e olha para mim; eu pisco para me recuperar. "Posso ajudar com alguma coisa?" Pergunto, mesmo que claramente não haja nada mais a ser feito. Ela balança a cabeça. "Tem certeza?"

Ela dá um sobressalto, como se tivesse esquecido que eu estava aqui. "Bem, não há muito o que ser feito, na verdade; eu passo meu tempo limpando e limpando e limpando de novo, então não se tem muito para limpar no fim do dia."

"Você deveria relaxar mais."

"Com o que mais eu preencheria meu tempo."

Qualquer coisa. Ela não deveria desperdiçar sua vida fazendo nada. Ela é capaz de tudo. "Sei lá. Qualquer coisa. Só perguntei porque você parece que está tentando se manter ocupada."

"Não, não... só pra ter certeza que não tem nada mais que precise ser feito." Ela senta à mesa em frente a mim e eu me apóio em um cotovelo para desenhar espirais na madeira com o dedo. Embora não estejamos falando muito, eu não quero dormir. Claramente há algo a incomodando; ela não estaria tão distraída e estressada se não houvesse. Ah, ela tenta esconder, mas eu sei. Eu sempre sei com ela.

"Você sempre parece ocupada quando eu venho, mas você nunca realmente faz nada." Eu ouço sua respiração presa em sua garganta. Cheguei aonde dói. Levanto o rosto para ela, mas ela está encarando intensamente seu colo. Um impulso repentino de esticar a mão e tocar a dela toma conta de mim. Eu o ignoro. Eu nunca admitiria para ninguém, mas Gina não está sempre errada quanto aos insultos que ela atira a mim. Eu realmente acredito que Hermione pode consertar qualquer coisa. Ela... ah, é inútil seguir essa linha de pensamento de novo. Meus pensamentos errantes traem-me. "Hermione?"

"Claro que faço; eu limpo."

"Sim, mas tem uma hora que não tem nada mais para limpar; quer dizer... há mais para vida do que arrumar a bagunça de outras pessoas."

"Talvez, mas não é para mim."

O silêncio se estende entre nós e eu sei que as chances de uma conversa amável se foram. Dirijo meu olhar para a mesa. Se ela estiver olhando para mim, não encontrarei seu olhar. Há palavras não-ditas no ar entre nós, mas eu não sei quais são. Queria poder pensar em algo reconfortante para dizer – ela sempre está a meu dispor e agora ela precisa de mim, mas minha mente está em branco. Então eu digo o que vêm me incomodando há anos. Parece uma hora apropriada para tocar no assunto.

"Eu nunca imaginei que você seria uma dona-de-casa." Mantenho meus olhos fixos na madeira. "Achei que você estaria sempre ocupada – ocupada de verdade, não ocupada de mentirinha – fazendo tudo que se podia imaginar, dirigindo uma ou outra organização de caridade, sendo uma Medibruxa, voluntariando-se na biblioteca local e ainda acharia tempo para sair comigo e Ron e criar quantos filhos você tivesse, tudo ao mesmo tempo. Eu... eu acho que você é... desperdiçada, estando desocupada assim. O mundo precisa de mais Hermione's, e você está gastando seus melhores anos fazendo... nada. Sem ofensa. Você entende o que quero dizer?"

Espero que ela não entenda no mau sentido. Não quero magoá-la, isso é a última coisa que quero. Quando levanto os olhos, ela está me encarando com a boca meio aberta, como se nunca tivesse ouvido nada parecido antes. Ela engole em seco, dá um sorrisinho trêmulo e eu sei que a balancei. Ela assente. "Eu... é. Como se eu estivesse me entretendo com coisas banais em casa desperdiçando meus dias, enquanto a vida passa... É uma idéia assustadora."

"É."

Acho que a conexão entre nós se fortaleceu. Ela provavelmente nunca nem pensou em mencionar isso a Ron, mas eu o apontei, eu o vi e ela vem sentindo-o. Nós freqüentemente pensamos as mesmas coisas; sempre foi assim. Ela é minha melhor amiga. Eu nunca a vi como nada a menos. Mas a mais... talvez tenham existido vezes em que eu passei um tempo sem vê-la e quando o fiz de repente, tudo que queria era tomá-la em meus braços e... não vou nem me permitir terminar esse pensamento. Mas não posso evitar rir de algumas coisas que ela diz... e as vezes me encontro desejando agarrá-la e nunca, nuca soltá-la. É uma sensação estranha e eu não sei o que pensar. É só um hábito que nunca questionei. Ela não é minha, mas eu sou dela. Não que ela saiba. Eu não me importo com isso.

Olho para ela e ela parece tão tensa, tão preocupada, que eu não consigo não esticar o braço pela mesa e tocar sua mão. Ela me olha, aqueles olhos castanhos impossivelmente escuros brilhando mesmo a pouca luz. Palavras sobem sem serem convidadas aos meus lábios. "Você não precisa assisti-la passar." Deslizo sua mão entre meus dedos e desenho círculos nas costas desta com meu polegar, sua falta de ar me infecciona com um sentimento que eu conscientemente não identifico ou reconheço. Seu olhar fica crescentemente mais poderoso, enquanto ela se inclina para frente um espaço minúsculo e me encontro imitando-a. Algo me puxa para ela... Meu maxilar treme levemente e eu o travo.

Quando o momento chega em seu auge e eu estou tão tenso que acho que estou para agarrar seus ombros e fazer não sei nem o quê, escuto uma rangido nas escadas. Hermione tira sua mão bruscamente da minha e eu me reencosto de volta na cadeira, enquanto ela levanta, girando para ver a escada. Consigo respirar novamente. Ela mexe no vinco de seu avental, tentando esconder o quanto suas mãos estão tremendo. Imagino se serei eu que provoco esse efeito nela ou o estresse de antes. Vejo dois pequenos pés calçados com pantufas aparecerem no topo da escada, seguidos de duas curtas pernas e um menino de três anos bocejado. Meu filho.

"Papai," James começa, dando um largo e inocente sorriso. "Eu quero lanche."

"Não peça para mim, não sou eu que mando aqui," Eu respondo com um sorriso forçado próprio e ambos viramos o rosto para Hermione. Ela ainda parece que viu um fantasma e James franze um pouco a testa. Ela tenta sorrir, mas não é exatamente bem sucedida.

"Venha abraçar sua tia." Ela diz estendendo os braços e ele vai saltitando até ela e sobe em seu colo enquanto ela senta, enterrando o rosto em sua saia. Eu invejo a proximidade entre eles – quero enterrar minha face em seu ombro e sentir seus braços ao meu redor – e sinto meu rosto esquentar. Tenho que me controlar, o tenho feito há anos; agora não é a hora de parar. Enquanto observo os dois, percebo que eles bem que poderiam ser mãe e filho; se os olhos dele fossem só um pouco mais escuros como os dela e tivesse mechas castanhas em seu cabelo...

"Posso comer um lanche?" ele pede, franzindo o nariz e fazendo seus olhos ficarem grandes e pidões.

"Como é que se diz?" ela pergunta com um pequeno sorriso e ele tenta revirar os olhos. Porém ele só consegue girar sua cabeça. Infelizmente, acho que ele está tentando me imitar...

"Por favor, posso comer um lanche?" ele refaz a frase e ela assente. Com um pequeno guincho ele pula de seu colo e perambula pela cozinha para arranjar uma tigela de cereal para si. Ela levanta e ajuda. Sigo o caminho de seu braço, enquanto ela tira sua varinha do nada e com um toque de varinha devolve os ingredientes aos seus devidos lugares, volta para seu assento à minha frente e James senta na ponta da mesa e põe colherada após colherada na boca com a velocidade e classe de um lobisomem faminto.

Hermione levanta novamente – para cima e para baixo, para cima e para baixo; ela é tão impaciente e eu quero perguntar o porquê, mas não posso com James aqui – e anda até a pia, olhando para uma fotografia. James me pergunta se podemos jogar Quadribol amanhã no mini-campo nos fundos da casa, o qual Ron e eu construímos anos atrás, e eu concordo distraído, minha mente não estava nessa conversa. James segue meu olhar até sua tia, ela está encostada de frente para a pia agora. Seus ombros estão tensos e curvos. Ele olha para mim solenemente e diz com toda a autoridade de seus três anos, "Às vezes ela fica assim quando você v—"

"Eu me lembro claramente de você já ter sido posto para dormir," ela diz, o interrompendo de propósito, seu olhar parecia dizer 'te peguei'. Ele sorri culposamente e assente, dando uma última colherada de cereal antes de escorregar para fora da cadeira e, acenando, voltar a toda velocidade para o nosso quarto. O que ele ia dizer que ela não queria que eu ouvisse? Quando eu... o quê? Eu fiz algo errado? Há silêncio por alguns segundos. Eu adio a hora de falar até ter certeza que ela não o fará, então arrisco um chute que espero que não esteja correto.

"Quando eu venho?"

Ela fecha os olhos com força antes de olhar para mim e tenta dar uma risada. "Crianças. Eu nem imagino o que ele—"

"Pode me contar, Hermione." Ela engasga, surpresa por eu ter sido tão direto. "Accio tigela". Esta voa até suas mãos e ela gira para colocá-la cuidadosamente na pia, então se inclina sobre o balcão e encara janela a fora. Preciso saber já. Levanto-me da cadeira e dou a volta até seu lado da mesa, ficando atrás dela, encarando seu reflexo por sobre seu ombro na vidraça. Seu olhar está cruelmente determinado; não há outras palavras para descrevê-lo. Meu coração dói por vê-la desse jeito. Por menos másculo que seja – Gina riria de mim se dissesse algo assim em sua presença –, é verdade. Sinto-me icapaz.

"Você está bem?" Sei que não, mas talvez ela me conte se eu perguntar...

"Nnh—sim. Estou bem." Seus braços começam a tremer ligeiramente por causa da pressão que ela está fazendo para manter-se de pé e não consigo assisti-la fazer isso consigo mesma. Dói saber que ela não confia em mim o bastante para dizer-me o que está acontecendo. Tomo um pequeno passo até ela, resistindo ao impulso de tocá-la.

"Você não está bem. Desde quando você mente para mim?"

"Eu não estou mentindo. Só estou casada."

Franzo a testa. "O quê? Hermione, do que você está falando?"

De repente, ela gira em seus calcanhares para encarar-me e o olhar desesperado em seu semblante me assusta. Ela pressiona o corpo contra a pia como se tentasse ficar o mais longe possível de mim. "Nada! Esquece! Por favor, vai embora; eu não posso lidar com isso agora!"

"Não pode lidar com isso, ou comigo?" Tenho um pressentimento de que eu sou a causa de sua aflição, ou pelo menos m fator. Quando seus olhos se arregalam ainda mais, minha suspeita é confirmada.

"Isso! Com isso! É só – aconteceu uma coisa hoje – eu estou estressada e cansada—" ela silencia, tentando inventar alguma explicação. Nunca a vi assim antes. Ela sempre foi tão calma sob pressão. Agora vejo lágrimas se formando em seus olhos, e, enquanto dou outro passo à frente, ela se encolhe para trás. Bom, que pena; a necessidade de acalmá-la agora é devastadora e eu estico os braços, trazendo-a para mim, envolvendo-a com meus braços, encaixando sua cabeça embaixo do meu queixo e murmurando palavras de conforto contra seu cabelo. Seu corpo estremece, oprimido por soluços sufocados. Uma chama de raiva queima em mim pelo que quer que a tenha deixado nesse estado. Tudo que desejo é levantar sua frágil forma em meus braços e niná-la, mantê-la a salvo do mundo, como um homem deveria fazer por sua... cunhada.

As palavras de ódio voltam e eu fecho meus olhos. Ela é a melhor amiga da minha mulher. Tento miseravelmente ignorar o sentimento familiar de estar afundando que sempre acompanha esse fato quando lembrado e me concentrar em confortá-la agora. Talvez ser direto funcione melhor. "Olha... o que está errado?"

Ela me empurra para longe. Encaro, alarmado, seus olhos castanhos faiscando. "NADA. Nada que eu possa mudar, de qualquer maneira. Porque tudo é tão irritantemente perfeito, que eu não posso mudar a única coisa que não é."

"E o que está errado?" Ela ainda não me diz. Movo-me como que para puxá-la para perto de novo – ela precisa, precisa mesmo –, mas ela coloca uma mão firme em meu peito, mantendo-me à distância de um braço.

"Pare de tentar me consolar. Eu não consigo lidar com isso sozinha. Eu o tenho feito por— tempo de mais, não importa, tudo que importa é que você, por favor, me deixe em paz para que eu possa me acalmar e a gente continue fingindo que isso nunca aconteceu."

Estou muito confuso agora. "O que diz não faz sentido. O que não aconteceu?"

Ela pausa, se recompondo talvez. "Eu—eu não me sinto bem," ela começa a dizer, mas eu cruzo os braços e faço-a calar-se. Não quero ouvir mais nenhuma desculpa.

"Nem vem, Hermione. Eu conheço você por dentro e por fora." Ela cora violentamente por alguma razão. "O que? Viu isso, agorinha – você nem olha para mim. O que o James disse – que às vezes você fica assim quando eu venho? Eu fiz algo errado...?"

"Não!" ela geme, finalmente encontrando meu olhar. "Você fez tudo certo. Sempre. Esse... esse é o problema."

Isso não faz sentido – até que ela arfa e cobre a boca com uma mão. Ela sente algo por mim. Caio em mim como se uma onda gelada me atingisse. Meus olhos arregalam-se. Descrença me preenche, assim como choque. Vejo o crescente pânico em seus olhos e subconscientemente preparo-me para impedi-la caso ela tente sair correndo. Um pensamento ridículo, mas ele está aí, não obstante. "Você..." Não consigo forçar nada mais a sair da minha boca. Minha garganta deixou de funcionar, minha voz está rouca. Eu devo parecer com um completo idiota.

Todos esses anos e eu nunca soube? Quando eu tenho deitado ao lado de Gina à noite e imaginado seu cabelo castanho e revolto ao invés de ruivo e liso? Quando eu tenho passado os últimos três anos deliberadamente tentando não me perguntar por que passo tanto tempo pensando em uma mulher que não era minha esposa? Como... Como ela ousa esconder isso de mim? Por que ela esperou até agora, até termos três crianças em nossas vidas que asseguram-nos de que nunca poderemos ser mais do que já somos?

"Harry..." ela suspira, sua voz áspera, cheia de emoção. Não sei o que fazer. "Sinto muito. Eu nunca deveria ter—"

"O que? Nunca deveria ter me contado?" Estou inexplicavelmente irritado.

"Eu não—"

"Mas você—você—" Assim como ela, não consigo pôr as palavras para fora. Forço minha língua a contorná-las. "Você... sente algo? Por m—não foi isso—não foi isso que você—" Me detenho; ela fechou os olhos.

"Sinto muito," ela sussurra. Eu olho para ela.

"Sente pelo quê?"

"Por tudo," ela cochicha miseravelmente e eu enterro minha mão em seu cabelo em frustração. O que ela espera que eu faça? "Eu sinto tanto. Desculpe—eu deveria—a gente não pode simplesmente fingir que isso nunca—"

"Quanto tempo?" eu pergunto abruptamente, preciso saber. Ela hesita.

"Desde o fim da guerra."

Recuo pela terceira vez essa noite, tropeçando contra a mesa atrás de mim, agarrando uma das bordas para me apoiar. Minha mente rodopia em choque. Desde... desde... a Guerra... a primeira vez que me encontrei sufocado por um medo verdadeiramente paralisante pela vida de outra pessoa foi quando estava trancado no porão dos Malfoy, ouvindo seus terríveis gritos no andar de cima. Precisei de toda a força de vontade que consegui reunir para me forçar a pensar claramente e só fui capaz de fazê-lo pois seria o único meio de salvá-la. Ron fez mais barulho porque tive mais autodisciplina.

Só consigo encará-la agora. Juntando todas as peças do quebra-cabeça. Ela nunca está realmente ocupada quando visito... ela só precisa manter-se longe de mim. Será que é tão... forte? Um pensamento me ocorre repentinamente e eu franzo as sobrancelhas. "Então... e o Ron? Você nem—o que ele foi, uma transa conveniente até eu perder o interesse em Gina?" Não pretendia que isso soasse tão grosseiro, mas o que foi dito está dito.

Ela recua e eu sei que a machuquei profundamente. "Isso é provavelmente a pior coisa que você já me disse." Ela diz, baixinho. Eu não peço desculpas – tenho que saber se ela só esteve enrolando meu melhor amigo todo esse tempo.

"E então?"

Ela respira fundo para se acalmar. "Ron não foi uma transa conveniente. Ele era o certo para mim na época. Eu o amava. Eu o amo – só não como eu deveria. Ele foi... ele estava lá. Ele me amava e era o que tinha que acontecer. Todo mundo sabia. Até eu. E eu já estava quase apaixonada por ele até aquele—aquele último ano, durante a busca às Horcruxes e então... as coisas... mudaram."

Meu peito parece apertado. Meu coração não agüenta ouvir isso. Não agora. "Você não pode me dizer isso, Hermione! Eu—eu sou casado! Você é casada, pelo amor de Merlin, com meu—nosso melhor amigo! O que você espera que eu—"

"Eu não espero nada," ela diz, seus olhos finalmente se enchendo de lágrimas. "Nada. Eu nem—eu nem tinha a intenção de te contar nada—foi só que essa noite, minha cabeça estava toda—eu sinto tanto, Harry, por favor, não me odeie—"

"Odiar você?" Minha boca pende um pouco aberta por pura surpresa. Como posso odiá-la por amar-me se posso me acusar de fazer o mesmo? "Odiar você?" Digo mais uma vez. "Você?"

Ela toma fôlego. "Olha. Por favor. Eu estou pedindo, como sua amiga, para esquecer tudo isso e fingir que eu nunca—"

Meu olhar está fixo na área geral dos seus joelhos agora. Estendo uma mão para impedi-la de continuar falando. "O que eu não entendo," digo devagar, "é porque você nunca... fez nada. Principalmente, durante aquele ano das Horcruxes. Você nunca disse para ninguém, você nunca—"

"Você estava feliz."

Eu franzo a testa. Gina e eu tínhamos terminado naquele último ano da guerra. "Eu não estava com—"

"Qualquer um podia ver que você ainda queria estar com ela. Tão certo que assim que tudo terminou, ela correu até você e eu vi quão felizes vocês estavam... eu não podia estragar aquilo," ela diz, simplesmente, como se não houvesse nada no mundo que ela pudesse ter dito ou feito. "Além disso, eu já tinha praticamente me prometido a Ron. E eu sentia algo por ele. É só—"

Ergo um dedo para calá-la novamente, então lentamente levanto minha cabeça para encontrar seus olhos. "Dez anos?" Ela acena. "Sem uma palavra?" Ela acena de novo. "Isso é mais que um terço das nossas vidas. E metade do tempo que nós nos conhecemos." Ela acena uma terceira vez e lembra-me de uma daquelas bonecas que ficam em painéis de carros; tudo o que fazem é balançar suas cabeças para cima e para baixo. Toda a raiva desaparece de dentro de mim e uma onda de forte emoção preenche o espaço. "Queria que você tivesse falado algo."

Ela me encara confusa. Espero que eu não tenha que dizer o que sinto. Nunca fui bom nisso. Mas assim é diferente; seu marido, meu melhor amigo, está dormindo no andar de cima. Meu filho está dormindo no andar de cima. A filha dela está dormindo no andar de cima. Desta vez não é só um garoto de 15 anos desajeitado chamando alguém para um passeio em Hogsmeade. Desta vez são duas pessoas casadas com filhos e cônjuges que são irmãos. Mas nós nos metemos nessa confusão e temos que arranjar um jeito de sair dela.

De repente ela parece extremamente cansada. "Eu nunca pensei que você fosse descobrir assim. Aqui, agora; soa tão ridículo e infantil. Desculpe-me por fazer você passar por isso; se você puder achar em seu coração que pode me perdoar e meio que... esquecer que isso aconteceu... eu ficaria agradecida."

Encaro-a, incrédulo. Eu quero morrer e, ao mesmo tempo, quero cantar. Embora tenha certeza que seria horrível se cantasse. Ninguém iria querer ouvir isso.

Ela limpa a garganta e se apruma, limpando poeira imaginária de seu avental. "Eu tenho que ir para cama. Espero que ainda tenha sobrado outro frasco de Poção do Sono no banheiro, senão não conseguirei dormir nun—"

Eu a beijo.

É tudo que tenho dito a mim mesmo, pelos últimos três anos, que não quero. Três anos; é um longo tempo para ficar se enganando. Ela é macia, quente e tenra e sou preenchido com a necessidade de contá-la que a... mas sinto uma gentil pressão em meu peito, enquanto ela me empurra e fecha os olhos. Minhas mãos se erguem por vontade própria e mergulham em seus cabelos, descobrindo sua suave textura. Seus dedos se pressionam contra meu peito novamente e fecham-se em punho ao redor da superfície acima de meu coração. Ela balança a cabeça.

"Não, era tarde demais dez anos atrás, é tarde demais agora."

Algo se despedaça dentro de mim, devido suas palavras sinceras. "Hermione..." Minha voz está baixa e rouca contra o silêncio. Eu te...

Ela suspira, olhos ainda fechados, mãos ainda jazidas em meu peito. "Eu esperei para você dizer meu nome assim por Merlin sabe quanto tempo. Não me importo o quão estúpido soa. Mas tornou-se tarde demais para nós no segundo que você viu Gina naquele dia."

Depois de um momento de infantilidade – não, por favor – eu assinto, reconhecendo a amarga veracidade disso. Surpreendo-me ao sentir meus olhos ardendo e, quando ela olha para mim e vê as vergonhosas lágrimas começando a se formar, ela parece surpresa também. Eu nunca choro. Não consigo me lembrar da última vez que o fiz. Ela ergue um dedo e limpa uma gota que escapou do meu olho. Reencosto minha bochecha contra o toque antes de ela baixar a mão.

"Estou grávida."

Meus olhos se arregalam e meu queixo cai. "É sério?"

Ela assente de novo. "É um menino, eu sei que é. Instinto materno. Eu queria chamá-lo Harry... mas poderia ficar confuso com vocês dois por aqui... talvez apenas algo que comece com H."

Encaro-a, comovido. Outra lágrima ameaça escapar e eu esfrego os olhos por detrás de meus óculos, piscando furiosamente para livrar-me do resto delas. Ela me diz coisas silenciosamente com o olhar e eu a entendo. Também desejo que o filho fosse meu.

"Hermione... nós poderíamos ter—"

"Eu sei." Eu acho que ela não quer me ouvir dizê-lo. Ainda não a contei que a am... Não consigo nem mesmo fazê-lo para mim. É difícil demais admitir. Talvez algum dia eu arranje coragem... mas isso não importa agora e não importará então. Ron, Gina, James, Albus e Rose portam-se firmemente entre nós como um recife entre o barco e a praia. Talvez algum dia tudo será diferente... há esperança... mas é improvável. Teremos que lidar com isso como os adultos que somos. Eu intimamente resolvo nunca tocá-la novamente, temendo não ser capaz de esconder meus sentimentos. Porém, quero que ela saiba uma coisa.

"Eu teria sido tudo que você quisesse que eu fosse." Eu falo sério. Eu te...

"Eu sei." E acho que ela sabe mesmo.

...amo.