Capítulo 1

por Gabi e Manu

Era uma manhã fria de inverno e a neve que havia caído abundantemente durante a noite formava um espesso e compacto tapete branco por toda a área ao redor do castelo.

Era o penúltimo dia de lua cheia, então três dos marotos, os únicos que se aventurariam durante a noite naquele frio ártico, apareceram para o café da manhã:

- Bom dia! – disse Pedro todo sorridente com suas bochechas gordas rosadas por causa do frio – E então, a noite foi boa?

- Olhe bem pra mim? – disse Sirius, apontando para as profundas olheiras rochas que se formaram no seu rosto naquela semana – Eu pareço com alguém que dormiu ? – e empurrou o gordinho para o lado, sentando-se e deitando sobre a mesa.

- Cadê o Lupin? – perguntou Pedro, olhando para os lados a procura do amigo.

- Ele foi direto para o dormitório. Ele estava horrível... – disse Tiago, depois deu uma olhada para seu estado e concluiu com um suspiro - Ainda pior que a gente. – enquanto tirava a gravata e e a jogava por sobre a mesa.

- E qual será o motivo desse estado deplorável? – perguntou a McGonagall, surgindo do nada atrás dos meninos com uma expressão bastante severa.

- Bom dia, professora. – disse Pedro para tentar quebrar a tensão – A senhora está especialmente encantadora esta manhã. Fez algo diferente no cabelo?

- Não tente me bajular, Sr. Pettigrew. E nem desviar do assunto. E então, por onde vocês andaram?

- Nós tivemos um treinamento hoje cedo. – disse Tiago, chutando Sirius por baixo da mesa. O garoto levou um susto e se levantou meio atordoado, olhando para o lado e dando de cara com a professora.

- Mas o Sr. Black não está no time.

- Eu sei disso. Ele e o Lupin estavam me ajudando a treinar. Não é, Sirius?

- Claro. – disse Sirius, encostado na cadeira, tentando abrir os olhos, mas encontrando certa dificuldade.

- É um truque que eu tenho para ter vantagem sobre os outros. Treinar em ambientes hostis ajuda a ganhar resistência. - Tiago falou com tanta seriedade que McGonagall não pôde deixar de acreditar nele, não fosse o detalhe de ela também saber que o pequeno segredo de Lupin.

- Está certo, Sr. Potter. Mas devo adverti-lo que treinamentos não autorizados são proibidos.

- Está certo, professora. Pode ter certeza que isso não vai se repetir. – falou o relações públicas oficial do grupo. Minerva deixou a mesa da Grifinória e continuou a caminhar em passos lentos pela sala, enquanto os outros alunos chegavam para tomar café da manhã, um pouco mais tarde e com mais preguiça do que o habitual já que era sábado e ninguém precisava se apressar para chegar logo à aula.

- Essa foi por pouco. – disse Pedro – Vocês têm que tomar mais cuidado com essas fugas noturnas. – abrindo o livro que estava lendo antes de ser interrompido pela chegada dos colegas.

- Sempre covarde. – observou Sirius, sentando-se direito na cadeira e puxando o livro da mão de Pedro para provocá-lo – E o que você está lendo?

- É um livro sobre os hábitos básicos de comportamento dos trouxas. O professor recomendou na sala...

- Porcaria. – disse Sirius, jogando o jornal para o lado – Quem é que quer saber como os trouxas vivem? É uma perda de tempo. Essa matéria é uma perda de tempo. Não concorda Tiago?

- Concordo com o que? – disse Tiago, já que não tinha escutado a conversa dos colegas, pois uma certa garota ruiva havia acabado de entrar junto com suas amigas no salão.

- Acho que nosso amigo aqui está interessado em estudar o comportamento de uma trouxa em particular bem de perto. - brincou Sirius.

- Não me enche Sirius. – disse Thiago, servindo um pouco de café. Tiago havia se matriculado naquela matéria optativa só para ficar perto de Lílian, mas isso não havia adiantado, pois a garota continuava dura na queda.

- Você tem que tomar uma atitude com essa garota, Tiago. Isso já está pegando mal.

- Eu sei, mas isso não é tão simples assim. Não posso chegar e simplesmente agarrá-la.

- E por que não? Isso seria uma ótima atitude. Menos conversa e mais ação. As garotas gostam disso. - disse Sirius confiante.

- Como posso tomar uma atitude se eu mal consigo me aproximar dela?

- Você está fazendo disso uma tempestade em copo d'água – disse Sirius servindo-se de mingau e olhando com o canto do olho para onde Lilian estava com as outras meninas antes de continuar – Quase tão simples quanto viver como os trouxas desse livro idiota. – disse Sirius, um pouco alto demais para que Lílian pudesse escutar, já que ela estava se aproximando deles – Não há nada de mais neles.

- Desculpe, mas eu não pude deixar de escutar o que vocês estavam falando... – disse Lílian, intrometendo-se na conversa - De onde você tirou essa idéia de que ser trouxa é fácil, Black?

- Não sei, Evans... Quem sabe do fato de que nada de diferente acontece no mundo deles. É patético vê-los trabalhando feito elfos domésticos.

- É fácil ouvir isso de uma pessoa que nunca viveu uma hora se quer sem usar magia.

- E por que eu viveria sem usar magia, Evans? É algo tão pratico...- respondeu Sirius apontando sua varinha em direção a uma bela maçã e fazendo com que ela viesse voando direto para suas mãos.

- Exatamente, Sirius.É evidente que você não consegue ficar sem sua magia, e é por isso que você é tão mimado e acomodado.Você não duraria nem uma hora sem ela.

- Você está sugerindo uma aposta Evans?... – sugeriu Sirius – O que eu ganho em troca?

- Talvez respeito, mas acho que isso seria pedir muito. – disse Lílian.

- Você é muito engraçadinha, Evans. Mas falando sério, o que eu ganho quando provar que você está errada?

- Eu não vou sair com o Tiago, se é isso que você está querendo propor.

- E quem disse que eu quero sair com você? – perguntou Tiago, se fazendo de ofendido – Você está se achando demais, Evans.

- Mas é você mesmo quem vive me importunando e seria muito bom se essa perseguição acabasse, porque eu não gosto de garotos imaturos como você.

- Então por que você perde seu tempo discutindo com esses "garotos imaturos", senhorita perfeição? – disse Sirius – Faça um favor a todos nós e vá lavar as cuecas do Ranhoso que ele precisa muito de ajuda.

Lílian fez uma careta tão feia que todos pensaram que ela fosse explodir, mas ela só respirou fundo, se virou sacudindo seus sedosos cabelos ruivos e foi embora, sem se dar ao trabalho de responder Sirius.

- O que foi que você fez? – disse Tiago, segurando o ombro de Sirius – Agora que ela nunca mais vai querer olhar pra minha cara – passando a mão nervosamente sobre o cabelo, enquanto caminhavam de volta para a sala comunal.

- É isso que você pensa. – disse Sirius, depois de responder a senha para a mulher gorda – É agora que você conquista a ruiva de uma vez por todas. Sei exatamente o que nós vamos fazer para você ganhar o respeito dela. – disse com tom maquiavélico.

- E o que vai ser?

- Vamos provar que você pode ser um verdadeiro trouxa! – sem se importar com a ambigüidade contida na sentença.

- Não sei como isso pode ajudar.

- Animo homem. Essa vai ser sua chance de ganhar o respeito dela. Meninas gostam desse tipo de coisa sem sentido. É sua chance... Você não percebe?

- Continuo sem entender aonde você quer chegar.

- Você vai aproveitar o feriado de natal que está chegando para se infiltrar no exército inimigo e conseguir sua vitória.

- E eu vou fazer isso como?

- Você vai ter que viver como se fosse um trouxa durante o feriado.

- Eu não, "nós". – corrigiu Tiago - A idéia foi sua, foi você quem discutiu com a Lílian e agora você não vai me deixar sozinho nessa confusão.

- Que confusão? Descobriram os nossos passeios noturnos? – perguntou Remus.

- Nada disso, Lupin. – disse Tiago que narrou toda a cena que se passara durante o café da manhã e o plano de Sirius para conquistar o "respeito" de Lílian.

- E então, não é um plano perfeito? – disse Sirius que se achava um grande entendedor dos mistérios femininos.

- Não parece de todo mal. – disse Lupin, mais interessado no efeito que algum tempo sem poder fazer uso de magia teria sobre seus companheiros do que nas conseqüências que essa atitude teria sobre os sentimentos de Lílian - E eu posso ajudar vocês a vencerem esse desafio.

- E como você vai fazer isso? – perguntou Sirius, já pensando em alguma forma de trapaça.

- Vocês vão ver... – disse Lupin, com um sorriso misterioso no canto da boca – Venham comigo.

Lupin levou Tiago e Sirius até a biblioteca e apresentou-lhes a seção de "estudo dos trouxas", até então pouco visitada pelos dois.

A mesa quase não suportava o peso dos livros que Lupin não cansava de carregar e que já formavam uma muralha envolta de Sirius e Tiago:

- Você acha que isso é mesmo necessário? – perguntou Tiago, sentindo pela primeira vez o quanto o amor pode ser trabalhoso.

- Claro que sim. – disse Lupin, com o cabelo cheio de teias de aranha por ter se metido em cantos da biblioteca há muito tempo não explorados para achar mais livros – Agora vocês estudem esse material enquanto eu vou cuidar de uma outra coisa...

- Acho que o Lupin está levando isso a sério demais. – disse Tiago, enquanto folheava o primeiro livro.

- Também acho. Não deve ser tão difícil viver sem magia. – fazendo um movimento com a varinha para trazer um livro que estava mais afastado para perto de si e passando as páginas também com a ajuda da varinha – Eu vou é pegar aquele livro do Pedro que parece ser bem resumido só pra não dizer que eu não li nada. E você? Vai ler isso tudo?

- É... Eu também acho que isso é desnecessário. – disse Tiago fechando o livro que começara a ler – Agora só preciso saber como vou explicar para minha mãe que não vou passar o natal com ela.

- A garotinho da mamãe ia pra casa neste natal?

- Pois é. Prometi para ela que iria...

- É só você dizer que não pode ir por causa do time de quadribol. Que o campeonato está difícil esse ano e outras ladainhas desse tipo. Seu pai, fanático do jeito que ele é, vai apoiar a decisão de não voltar pra casa no feriado. Em momentos assim que eu fico feliz por viver em uma família desequilibrada que não está nem ai para o que eu faço ou deixo de fazer.

- Você sabe que isso é uma coisa terrível para dizer sobre sua própria família... – disse Tiago.

- Mas é a mais pura verdade. A propósito, também é verdade que você está atrasado para seu treino de quadribol de verdade. – disse Sirius, recostando na cadeira e olhado para o relógio que estava logo atrás de Tiago.

- Perdi a noção do tempo. – disse ele juntando suas coisas rapidamente – Só não sei ainda como a Lílian vai ficar sabendo o que nós vamos fazer.

- Não se preocupe amigo. É pra esse tipo de coisa que o Rabicho serve.

Dito e feito. Antes mesmo do treino de quadribol acabar a maioria dos alunos de Hogwarts já sabia da "aposta" e boatos sobre os supostos prêmios já começavam a surgir. Não foi difícil espalhar a notícia depois da cena no café da manhã, mas crédito deveria ser dado a Pedro que sabia exatamente como espalhar informações.

O que os garotos não podiam prever quando começaram era a proporção que seu inocente desafio tomaria. O colégio se dividiu em duas facções: os que acreditavam que Tiago e Sirius conseguiriam viver como os trouxas, pois não havia dificuldade nenhuma nisso e naqueles que acreditavam que eles não conseguiriam lidar com as situações sem fazer uso de sua magia. Partidários de ambos os lados, bruxos e trouxas, passaram a se enfrentar e a diplomacia de Dumbledore teve que entrar em ação para acalmar os ânimos e distribuir castigos para os mais exaltados.