I PARTE
DORAN
Doran Martell era um homem cauteloso. Algumas pessoas diriam que era até cauteloso demais. Ele deveria ter lutado mais quando Elia morreu e não ter deixado Ser Gregor Clegane andar livremente durante tantos anos. Para certas pessoas, foi uma eternidade. Mas Doran tinha uma grande qualidade: ele tinha paciência, ele sabia esperar. Claro que, no fundo, levou como uma afronta aquilo que o clã de King's Landing o fez suportar. Mas não achou que fosse o momento para pedir vingança por Elia. Não achou que Robert, que odiava sequer o pensamento no príncipe Targaryen, fosse mostrar clemência pelo que aconteceu à sua mulher. Não achou que a influência de Tywin, que sempre se ressentiu por Elia ter ficado com o lugar que ele achava que, por direito, era de Cersei, ficasse do seu lado. A verdade é que Doran sabia que não teve quaisquer aliados em King's Landing durante todos estes anos que se passaram, já que Doran além de ser uma criatura paciente era uma outra coisa... Uma outra coisa que pouca gente parecia notar sequer. O Príncipe de Sunspear era inteligente.
Com o passar do tempo, com o aumentar das dores que a gota lhe trouxe, ainda passou mais tempo a pensar e mais tempo a ser paciente. Oberyn, seu irmão, não tinha as mesmas qualidades. As suas filhas herdaram o comportamento inconsequente do pai anos mais tarde, mas, mesmo assim, Oberyn esperou. Ele sabia que apesar de não concordar com Doran, ele tinha noção do que fazia. E se ele disse que não era tempo de pedir vingança, ele aceitou (ainda que não de muito bom grado, afinal o sangue Martell estava-lhes, a todos, no sangue). Depois de pensar um pouco, Oberyn percebeu que começar uma nova guerra quando aquela tinha acabado há tão pouco tempo, para ainda por cima pôr no trono alguém que não era mais do que uma criança, era uma ideia não muito feliz.
Apenas Oberyn soube do pacto feito para casar Arianne e Viserys. Não foi algo fácil de concretizar, mas assim que Doran soube que Viserys sobrevivera e seria o dono do trono por direito, percebeu que havia uma maneira de se vingar do que tinha acontecido à sua irmã: voltar a meter sangue dornês no trono de ferro. Mas não com a actual conjectura. Ele não queria ter nada a ver com as famílias que lá estavam. Então, assim que a oportunidade surgiu, ele tratou de a concretizar. Arianne seria rainha de um Dragão, assim como Elia fora antes dela. O problema é que algumas coisas são impossíveis de prever, e Doran nunca iria prever que Viserys encontraria o Estranho com uma coroa de ouro derretida pela sua cabeça abaixo.
Restava-lhe Daenerys, então. A Mãe dos Dragões, nascida na Tormenta. Ela seria a sua última hipótese para vingar a sua irmã da maneira que realmente queria. Felizmente, o pacto ainda se podia concretizar. Ele tinha um filho, Quentyn, e ele não acreditava que Danearys o recusasse. Quentyn não era o mais bonito dos homens, nem o mais inteligente, mas ele era um Martell afinal de contas. Ele haveria de conquistar de alguma forma a Rainha, nem que não fosse pela força das lanças de Dorne.
Então ele esperou. Esperou o mais pacientemente possível por notícias daquela que seria a sua última grande esperança. Não que a vingança já não tivesse começado... Ser Gregor Clegane já tinha pago por aquilo que tinha feito à sua inocente irmã e aos seus filhos. Oberyn encarregou-se disso, encarregou-se que a Montanha sofreria o máximo possível, se contorceria de dores e berraria o mais alto que alguém berraria até, finalmente, o Estranho o apanhar. Só que a vingança de Oberyn custou-lhe a sua própria vida. E enquanto esperava que Quentyn conseguisse a proeza da sua vida, estava rodeado de pessoas que queriam a cabeça de alguém pela morte do seu irmão.
É uma coisa engraçada a guerra, não é? Parece nunca acabar. Há sempre uma cabeça a precisar ser vingada. Há sempre alguém a ficar sem filhos, sem maridos, sem irmãos. E enquanto Doran esperava, as filhas de Oberyn desesperavam. Trancá-las numa torre foi a única coisa que Doran pôde fazer. Ele precisava esperar por Quentyn. Ele não podia deixar que elas declarassem uma guerra contra King's Landing sem ter pelo menos a certeza que seria uma guerra ganha. Qual era o propósito de enviar todo Dorne para uma morte certa depois de tudo? Ele já tinha dado a aparência de ficar quieto tanto tempo, que mês a mais ou mês a menos não ia fazer diferença. Até que Varys lhe contou o plano de Cersei e o que ela queria que Sor Balon fizesse. A morte à socapa que a Rainha Regente tinha preparado naquela emboscada infantil deixou Arianne e as Serpentes de Areia de boca aberta ao ser anunciada por Doran. E, nesse momento, tornou-se crucial fazer algo para lhe dar a volta. Assim, conseguiram pôr Sor Balon com Obara Sand à procura de Darkstar, enquanto Doran mandava Nymeria Sand para ocupar o seu lugar no concelho de King's Landing e Tyene Sand para cair nas boas graças do novo Alto Septão. E assim só restava esperar que Quentyn triunfasse.
Foi num dia em de um calor, ainda mais abrasador que o normal, que notícias chegaram. Ele estava com dores incontroláveis e parecia estar quase a desmaiar quando decidiu chamar o maester para este lhe dar algum leite da papoila. Descansaria em paz durante um pouco... Pelo menos isso. Assim que o chamou, ele não demorou a entrar na câmara reservada ao príncipe de Dorne.
- Soube das notícias, meu Príncipe? Só agora recebi as cartas dos corvos – Disse o maester um pouco a medo.
Doran franziu as sobrancelhas. Não esperava, nem sabia de quaisquer notícias.
- É Quentyn? – Perguntou com medo da resposta. O maester não parecia ter boas notícias para lhe dar.
- Meu Príncipe, o seu filho, o príncipe Quentyn... Chegaram más notícias... – O maester mostrava-se desconfortável e sem vontade de dizer o que realmente acontecera.
- Diga-me de uma vez, homem! O que aconteceu a Quentyn?
- Chegaram dois corvos hoje de manhã, meu Príncipe. E um deles com más notícias... Tenho aqui a carta. Deseja lê-la? – O maester tirou o pequeno pergaminho amarrotado de dentro das suas vestes e mostrou-o a Doran, mostrando cada vez menos vontade de dizer o que ele realmente continha.
Já um pouco irritado pela falta de à vontade do maester de Sunspear, Doran apenas fez um sinal para que este se aproximasse com a carta. Sabia que eram más notícias e temeu que a missão que encarregou o seu filho de fazer tivesse corrido mal, até demais.
Assim que o maester lhe deu a carta, ele passou os seus olhos pelas primeiras letras e quase não consegui acreditar no que os seus olhos liam. Quentyn morto. Quentyn queimado por um dragão.
O seu filho falhou, mas de repente isso era o menor dos seus problemas.
- Meu Príncipe, precisa de algo? Leite da papoila, talvez? – Interrompeu-o dos seus pensamentos a voz do seu maester, que curiosamente soava como se estivesse longe, muito longe dali.
- Traga-me um pouco e deixe-me sozinho. – Pediu Doran, apenas querendo ficar em paz com os seus pensamentos. Não que muita paz o acompanhasse naquele momento.
- Sim, senhor. Mas... Chegou outra carta... Não sei se a quererá ler... São boas notícias, meu Príncipe.
- Depois. – Respondeu Doran sem muitas cerimónias.
- Mas... – Começou o maester.
- O leite da papoila, somente isso. O que quer que seja poderá esperar que eu descanse.
- Sim, meu príncipe. – O maester desistiu. Sabia da condição de Doran, e sabia que não valeria de muito insistir. Tinha sido uma notícia demasiado forte. Nenhum pai deveria viver para ver os filhos morrer.
Doran virou-se a custo na cadeira, enquanto ouvia o maester sair da câmara e ir buscar o leite da papoila. Finalmente sozinho com os seus pensamentos, Doran chorou. Porque não era justo, pois não? O que estava a acontecer àquela família era demasiado doloroso. Será que o desejo de vingança apenas os iria destruir? Talvez fosse apenas tempo de parar. Parar de vez. Deixar que a guerra destruísse tudo o que tivesse a destruir, desde que o resto da sua família ficasse a salvo. Nunca deveria ter obrigado Quentyn a sair de Dorne. Agora a última imagem que tinha do seu filho tinha sido o beijo na sua testa e o pedido que rezaria por ele a todos os sete. E Doran rezou. Rezou tanto nos últimos tempos que até lhe parecia a ele um pouco ridículo a quantidade de fé que estava a depositar naquela missão, que acabou por ser suicida, em quem mandou o seu filho. Porque teria ele sido queimado por um dragão? Porque a Mãe dos Dragões não o impediu? A carta não revelava muitas mais informações, tirando que os sobreviventes que regressariam a Dorne assim que conseguissem... O que levava a que a única coisa que Doran pudesse fazer fosse esperar. E, de repente, Doran estava demasiado cansado para pensar, para esperar, para qualquer coisa.
Ouviu o maester a voltar com o leite da papoila, tomou-o sem demoras e o líquido devolveu-lhe a paz das dores físicas que o afligiam e, assim, Doran deixou-se dormir.
-x-
Doran acordou horas depois meio entorpecido, mas o seu primeiro pensamento foi o de Quentyn, e o Príncipe de Dorne preferiu ficar na cama até que alguém anunciou que a Princesa Arianne queria falar com o seu pai. Doran pensou por uns instantes sobre a notícia que tinha que lhe dar e o quão egoísta tinha sido por ter preferido sofrer sozinho, quando quer ela quer Trystane tinham tanto direito como ele de o saber.
Assim que Arianne entrou como um furação pela câmara, ele soube que já não havia novidades a dar. Ela já tinha sabido, pelo maester, provavelmente. Ainda bem que alguém teve mais cabeça do que ele para a avisar das notícias. Asas escuras, palavras escuras, era aquilo que era costume dizer.
- É verdade? – Perguntou ela simplesmente.
- Lamento dizer que sim – Respondeu. Não havia muito como tentar que as coisas fossem mais simples, ou menos dolorosas. – Não sei o que aconteceu em detalhes, teremos de esperar que eles voltem...
- Estou farta de esperar, pai! Como é que a única coisa que fazemos é esperar? Vingança, pai! Essa tão proclamada rainha é tão má como os que governam King's Landing! Quentyn foi queimado vivo, senhor meu pai, vivo!
- Eu sei, Arianne. Mas não podemos ter o teu irmão de volta. Já não há nada a fazer de maneira nenhuma...! – O desespero era visível na sua voz – Teremos de nos manter como agora, completamente afastados das lutas de Westeros até elas nos baterem à porta.
- Unbowed, Unbent, Unbroken, meu pai! Nós não somos Martell se não reagirmos! – A fúria de Arianne era visível a cada palavra. O desgosto com a aparente passividade do pai só fazia com que aumentasse a sua fúria a cada palavra que pronunciava.
Doran observou-a durante uns momentos até finalmente dizer:
- Não! Não me faças fechar-te na torre outra vez! Dorne está fora da Guerra pelo Trono de Ferro e não há nada que tu ou as tuas primas possam fazer para alterar isso.
Arianne percebeu que era uma guerra que não podia vencer e lançou-lhe um olhar de desprezo ao sair. Isso ainda doeu mais em Doran, que naquele preciso momento só queria manter os seus restantes filhos vivos. Já chegava de mortes para a família Martell. Se continuassem assim chegariam ao final da Guerra como uma família extinta. Ele sabia que não duraria muito mais. As dores aumentavam e eram uma constante na sua vida. Arianne precisava ficar viva para governar Dorne. Trystane era ainda pouco mais que uma criança, Arianne precisava manter-se salva para o manter a salvo também. Às vezes parecia que estava condenado a ficar sozinho. Primeiro o abandono da sua esposa, depois as mortes dos seus irmãos, agora a do seu filho. Arianne e Trystane iam ficar vivos custasse o que custasse. Dorne não se pronunciaria.
Doran foi interrompido, mais uma vez, pelo maester que entrou na sua câmara a perguntar se já se sentia melhor.
- Chega a um certo ponto em que não há leite da papoila que alivie. Certamente não alivia a dor de perder um filho. – Respondeu amargamente.
O maester não sabia sequer o que responder àquelas palavras. Não estava habituado a ouvir o príncipe de Dorne a falar assim. Então, decidiu que era mais do que tempo de ele ler a segunda carta que tinha chegado.
- Meu senhor, a segunda carta... Acho que necessita lê-la o mais rápido possível.
- Não sei se percebeu, caro homem, mas neste momento posso muito bem viver sem cartas, sem notícias, sem coisa nenhuma. Não há nada que me possa aliviar neste momento. Mais tarde, talvez. – Respondeu Doran quando se tentava virar para outro lado, para tentar arranjar uma posição confortável.
- Meu senhor, lamento insistir, mas a carta é de Jon Connington.
- Jon Connington? Ele está vivo? – De súbito Doran parou e tentou processar o que podia sair dali.
- Quer lê-la, meu príncipe? – perguntou o maester.
- Não, diz-me o que lá está. E depressa.
- Jon Connington regressou de Essos, meu príncipe. Eles conquistaram Storm's End.
- Eles? – Interrompeu Doran.
- Ele diz que está acompanhado pelo verdadeiro herdeiro ao trono, o príncipe Aegon Targaeryan!
- Aegon? – Doran saboreou as palavras, como se tivessem um gosto estranho. – O meu sobrinho? O filho de Elia? Ele está morto!
- Segundo Jon Connington não, meu príncipe. Ele conseguiu escapar! A criança que Sor Gregor Clegane matou não foi ele. O seu sobrinho está vivo e conquistou Storm's End! – Disse o maester, visivelmente emocionado.
Doran não estranhava a emoção do maester. Todos que conheciam Elia ficavam enamorados pelo seu bom coração e boas maneiras. Ela havia sido uma pessoa querida por todos.
- O que quer ele de nós? – Perguntou apenas, com a morte do filho ainda demasiado presente para se sentir muito feliz, ainda que a volta do seu sobrinho aquecesse um pouco o seu coração.
- As vossas lanças. O vosso apoio. Jon Connington sabe que ainda quererá vingar a morte da sua irmã e pede-lhe a vossa ajuda para que isso aconteça.
Doran pensou brevemente. Poderia ser um impostor. Era um risco que poderia correr ao aceitar. Mas Connington não correria esse risco nem se enganaria com uma matéria tão importante. Ele sempre foi demasiado leal a Rhaegar, na sua curta vida. Ele não o vingaria usando um impostor. E, no final de contas, o que havia nesta vida de guerra além do desejo de vingança? O desejo de poder, talvez. Aquilo que guiou os Lannister até ao trono que não lhes pertencia. Mas, o desejo mais primitivo, aquele que pareceu guiar quase toda a guerra foi a vingança por alguém. E talvez agora Doran conseguisse vingar até Quentyn. Mas Doran não entraria numa guerra as cegas. Ele reflectiu durante alguns instantes e disse claramente:
- Quero vê-lo. Mas eu não posso ir até ele na minha condição. Diz-lhes que se eles querem as lanças de Dorne, a minha condição é que Aegon venha até mim.
N/A: Como dá para perceber, vamos manter a lógica do tio Martin de dedicar um capítulo a cada personagem. A fic está dividida em partes, que de certa forma delimitam "acontecimentos". A primeira parte é dedicada mais a por todas as peças no lugar do que a grandes desenvolvimentos. Espero que as pessoas que estão a ler gostem e nos mandem feedback, que é muito importante. Nós temos muito carinho por este monstrinho que estamos a criar e é importante saber se acham que alguma coisa está estranha, etc.
Outra coisa importante: cometemos uma gaffe com a personagem do Bitterstell no prólogo, que muito bem nos foi apontada, e já modificamos isso.
