Capítulo 2: Novos desafios

Susan não podia acreditar no que estava escutando. Caspian estava comprometido, ia se casar com outra, ela sentiu o coração oprimir-se em seu peito. Nunca antes ela tinha se sentido assim, nem mesmo durante os dias em que tinha estado longe dele. Apesar disso, ela conseguiu articular:

- Mu... muito prazer - ela congelou o seu sorriso, tentando fingir.

- Você já tem onde ficar durante a sua estada em Nárnia ? - perguntou Liliandil.

- Não, sinceramente não - ela decidiu não comentar nada a respeito da sua estadia permanente ali.

- Então pode ficar aqui, você é bem-vinda por todo o tempo que quiser, não é mesmo, Caspian ? - ela perguntou, procurando a aprovação daquele convite que tinha feito.

- Sim - disse ele, simplesmente, ainda em estado de choque. Balançou levemente a cabeça e acrescentou: - Eu tenho que me retirar, Trumpkin vai lhe mostrar o quarto que você irá ocupar - ele apanhou os pergaminhos do chão, e, sem dizer mais nada, se foi. Liliandil pareceu ficar muito surpresa com a atitude dele, mas não suspeitou que pudesse haver algo de estranho. Voltou a sua atenção para Susan e disse-lhe:

- Espero que você sinta-se à vontade. Para ser sincera, eu estou aqui há poucos dias e não conheço muita coisa, mas, se você precisar de alguma coisa, me avise - Susan apenas assentiu, diante de tamanha amabilidade, e seguiu Trumpkin no caminho pelo qual ele a estava guiando.

- Sua Majestade, está se sentindo bem ? - Trumpkin perguntou-lhe, preocupado, ao notar o longo silêncio da rainha.

Susan não respondeu, uma vez que não queria desabar na frente dele, e continuaram andando sem falarem nada. Quando finalmente chegaram ao quarto, ela agradeceu a Trumpkin pela sua atenção, e pediu para que ele a deixasse a sós por um instante. Assim que fechou a porta, ela sentou-se na cama, e, não conseguindo mais se controlar, começou a chorar; precisava pôr para fora toda a dor que a oprimia. Trumpkin, ao escutar o pranto do outro lado da porta, não conseguiu evitar sentir-se mal pela rainha, sentiu-se bastante impotente pelo fato de não poder ajudá-la.

Enquanto isso, Caspian dirigiu-se à sua biblioteca pessoal para poder pensar um pouco, ele estava sentindo-se bastante desconcertado com o que tinha acabado de acontecer. Voltar a ver Susan depois de todos aqueles anos estava revolvendo sentimentos que ele considerava mortos já há algum tempo. Ainda podia lembrar-se de ter ficado totalmente destroçado quando ela teve que ir embora de Nárnia para nunca mais voltar, e ele teve que obrigar a si mesmo a enterrar o que sentia simplesmente para poder continuar vivendo, mas as coisas nunca voltaram a ser as mesmas para ele. A pequena esperança que restava de voltar a vê-la desapareceu quando apenas Edmund e Lucy chegaram em seu barco, há alguns meses.

Ao conhecer Liliandil e ser cativado pela beleza e pela bondade dela, chegou a pensar que ela seria aquela que finalmente o ajudaria a cicatrizar completamente as feridas que Susan tinha deixado no seu coração.

Mas agora tudo era diferente, ela tinha voltado, não sabia por quanto tempo, ou por qual motivo, e, mesmo que quisesse abraçá-la com toda a afeição que ainda sentia por ela, agora ele era um homem comprometido, um homem que estava prestes a se casar com a filha de uma estrela.

Naquele momento, ele desejou que o Doutor Cornelius estivesse ali para ajudá-lo.


- Rainha Susan ? - Liliandil bateu na porta do seu quarto, onde ela tinha estado por toda a tarde. Antes de abri-la, Susan fez todo o esforço para tirar os sinais de tristeza do seu rosto, não queria que ninguém a visse vulnerável, era algo que não podia permitir. Quando ela finalmente abriu a porta e ficou cara a cara com aquela mulher que estava comprometida com o homem a quem amava, surpreendeu-se com o fato de não conseguir sentir nenhum tipo de rancor por ela, era uma pessoa que transpirava a mais pura paz e amabilidade.

- Você gostaria de nos acompanhar no jantar de hoje à noite ? - ela realmente queria conviver e conhecer um pouco mais a irmã daqueles generosos reis, que tinha conhecido há bem pouco tempo.

Susan não pôde recusar ao convite, e ambas desceram para a sala de jantar, enquanto Liliandril fazia perguntas sobre ela e sobre o mundo do qual ela vinha, parecia que realmente queria estabelecer um bom relacionamento com ela.

- Desculpe a demora, eu fui pedir à nossa convidada para que viesse jantar conosco - explicou Liliandril, quando viu Caspian de pé na mesa da sala.

- Não há problema, eu estou esperando há pouco tempo - ele sorriu, e ajudou Liliandril a sentar-se na cadeira ao lado dele; depois ajudou Susan do mesmo modo, e, acidentalmente, sua mão roçou no braço dela, fazendo com que ambos sentissem uma corrente atravessar os seus corpos, mas ambos agiram como se nada tivesse acontecido.

Enquanto comiam, Liliandril continuou conversando com Susan sobre Nárnia, os anos do seu reinado, entre muitas outras coisas. Enquanto Caspian observava-as em completo silêncio, viu que sua noiva parecia uma garotinha ansiosa por explorar um novo mundo, e, de certo modo, era isso mesmo, já que estava ficando a par das terras que algum dia iria ajudá-lo a governar.

Também lhe pareceu muito interessante ver que as duas conseguiram conviver tão bem apesar das circunstâncias e, embora ele tentasse apenas observar o modo como conversavam, percebeu que sua atenção estava focada mais tempo na rainha do que em sua própria noiva, e isso não era nada bom.

- Se vocês me dão licença, eu estou me retirando - disse ele, assim que terminou o jantar, ficando de pé e, depois, tomando a mão de Liliandril para depositar-lhe um beijo - Tenham uma boa noite - ele fez uma pequena reverência para Susan - Espero que você aproveite a sua estada aqui - e, após dizer isso, ele saiu da sala.

- Acho que eu também vou sair - disse Susan, depois de alguns instantes - Preciso me deitar um pouco.

- Me avise se precisar de qualquer coisa - ela sorriu-lhe amistosamente, e Susan retribuiu do mesmo modo.

- Eu avisarei, obrigada por tudo, Liliandril.

Ela caminhou lenta e cuidadosamente até o seu quarto, porque de repente começou a se sentir enjoada e sentiu um pouco de náusea. Enquanto caminhava pelo corredor que se conectava à biblioteca, sentiu-se tão mal que precisou apoiar-se em uma parede. Naquele momento, desejou estar em qualquer lugar do castelo onde tivesse alguma cadeira, já que ela achava que iria desmaiar a qualquer momento. Então, escutou a porta de um quarto se abrir, e, poucos segundos depois, uma voz que ela conhecia muito bem perguntou:

- Susan ? - ela não respondeu, escutaram-se passos aproximando-se dela, e a pergunta foi repetida com um tom de preocupação - Susan, você está bem ?

- Eu estou bem, Caspian - ela se afastou da parede, mas imediatamente começou a cambalear em outra direção. Caspian imediatamente segurou-a entre os braços antes que ela caísse.

- Isto definitivamente não é nada bom, Susan - ele repreendeu-a, mas ainda podia ser percebida a angústia em sua voz.

- Estou me sentindo um pouco enjoada, e tenho um pouco de náusea - ela finalmente confessou - Provavelmente algo que eu comi não me caiu bem, e eu só preciso descansar - ela tentou escapar do seu abraço, porque sabia que estar assim com ele a deixava muito alterada, mas Caspian tinha outros planos em mente, já que a carregou sem o seu consentimento e levou-a para o seu quarto.

Quando chegaram, ele pousou-a com muito cuidado na cama, dando-lhes uma rápida lembrança do que tinham vivido no passado, mas que instantaneamente ambos tentaram ignorar.

- Vou mandar trazer um médico para examiná-la - disse Caspian, de modo autoritário.

- Não, eu só preciso descansar, é verdade - ela não queria que tirassem ninguém de sua casa em uma noite tão fria como aquela apenas para que a examinassem.

- Você não parece nada bem - ele comentou, percebendo que ela estava mais pálida do que o normal, e teve de conter o impulso que sentiu de acariciar-lhe o rosto.

- Amanhã estarei melhor, eu prometo.

- Você estava se sentindo mal desde o jantar ?

- Para ser sincera, não, eu me senti mal quando comecei a caminhar.

- Não posso fazer você mudar de opinião quanto ao médico ?

- Não - ela respondeu com um sorriso, tentando aparentar não estar se sentindo tão mal. Naquele momento, Caspian deu-se conta de que ela continuava sendo a mesma Susan que ele conhecera há três anos, uma rainha que sempre se preocupava com o bem-estar dos outros antes do dela.

Sem saber o motivo exato, provavelmente movido pela preocupação gerada por todo o incidente, ele tomou a coragem necessária para dizer-lhe aquilo que ansiava desde que a tinha visto pela primeira vez, naquela manhã.

- Eu realmente senti a sua falta, Susan - isso a pegou totalmente de surpresa, fazendo com que o seu coração se acelerasse a um ritmo impressionante - Pensei que jamais voltaria a ver você.

- Eu também pensei o mesmo - respondeu ela, com sinceridade - Mas a vida nos reserva muitas surpresas.

- Disso eu me dou conta agora - ele baixou o olhar para as suas mãos, antes de acrescentar: - Você sabe porque Aslan a trouxe, desta vez ? Por que você veio sozinha ?

- Não - ela mentiu completamente. Caspian pensou por um instante, antes de acrescentar:

- Bem, seja qual for o motivo, fico feliz que ele o tenha feito e que tenha faltado com a sua palavra - ele sorriu-lhe, e, sem nem mesmo de dar conta disso, começou a aproximar-se cada vez mais de Susan e, bem quando os lábios de ambos estavam prestes a se encontrarem, Trumpkin bateu na porta, que estava entreaberta, fazendo com que ambos os reis se separassem o mais rápido que podiam.

- Trumpkin, o que você quer ? - perguntou Caspian, anda afetado pelo que estivera prestes a fazer.

- Só vim ver se a Rainha Susan precisava de alguma coisa - ele esclareceu, surpreso com o que tinha acabado de ver.

- Agora eu estou bem, Trumpkin, um pouco enjoada, mas bem, não preciso de nada.

- É melhor que nós deixemos você descansar - disse Caspian, enquanto se levantava e caminhava até a porta - Se você continuar se sentindo mal, não hesite em nos falar - Susan apenas assentiu, e, após terem deixado-a a sós, ela percebeu que agora estava mais confusa do que nunca e sabia que precisava esclarecer as suas idéias, mas também sabia que precisava fazer isso quando não se sentisse tão mal quanto se sentia agora, por isso tentou conciliar o sono, tentando esquecer do que havia acontecido há poucos instantes.

O pior, para ela, foi que nem no dia seguinte e nem no dia posterior a esse os enjôos passaram, embora ela sempre tentasse aparentar estar bem na frente de Liliandil e Caspian. E, embora os seus enjôos e as suas náuseas tivessem se tornado cada vez mais constantes, nunca se sentira tão mal a ponto de procurar um médico.

Quando se completou exatamente uma semana da sua estada em Nárnia, todos começaram a organizar os planos para o casamento, que havia sido programado para acontecer dentro de três meses, e Susan, desde então, procurou não estar no castelo, passava o tempo visitando os lindos vilarejos que havia pelos arredores, e freqüentemente encontrava-se com amigos que tinha feito em sua última visita. Quando estava no castelo, ela evitava Caspian a todo custo, e falava apenas com os serviçais, com Liliandil ou com Trumpkin. A única coisa que não pudera evitar, desde o dia em que chegara, foram os momentos nos quais era absorvida por uma tristeza tão grande, os quais faziam-na passar horas chorando no seu quarto, para que ninguém a visse.


Durante uma tarde ensolarada, Susan decidiu dar um passeio por uma das florestas que ficavam próximas ao castelo, e, enquanto estava ali, começou a sentir-se mal novamente, mas, ao contrário das vezes anteriores, desta vez ela não teve tempo para reagir, e desmaiou no mesmo instante.

Ao acordar, ela viu que estava deitada no que parecia ser uma poltrona, e imediatamente percebeu que estava em uma casa que não conhecia, o lugar era um pouco pequeno, mas parecia muito acolhedor. Ela pôde perceber que o lugar tinha adornos tanto telmarinos quanto narnianos, e, ao longe, viu uma senhora de meia-idade com um vestido simples que estava cozinhando algo. Quando ela percebeu que a rainha tinha acordado, encheu um prato com a sopa que estivera preparando e correu até ela.

- Como se sente, Majestade ?

- Eu me sinto bem, o que... o que aconteceu comigo ?

- Aparentemente, você desmaiou, felizmente eu a encontrei enquanto estava passando por ali para colher algumas plantas, e trouxe-a à minha casa - ela entregou-lhe o prato de sopa que trazia nas mãos - Beba isso, vai ajudá-la a ter forças para mais tarde - Susan deu um pequeno gole, antes de responder:

- Muito obrigada, qual é o seu nome ?

- Breeaty, Sua Majestade.

- Me chame de Susan - disse ela, com um leve sorriso - Eu agradeço pelo que você fez por mim, a verdade, é que eu me senti um pouco enjoada antes de perder a consciência.

- Ultimamente isso tem acontecido muito ?

- Sim, mas ainda não sei o que é que eu tenho.

- Às vezes essas coisas acontecem, quando uma pessoa está na sua condição.

- Minha condição ?

- Sim, quando uma pessoa está grávida.


N/T: Continua no Capítulo 3.