Finalmente o capítulo 2! Lamento a demora, estive meio ocupada com deveres acadêmicos e o tempo livre dediquei à preguiça. A partir daqui começa o nonsense da história, que virá a ser explicado nos capítulos posteriores. Divirtam-se.
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Em seus sonhos, Arthur se via em um lugar sombrio, tomado pelo som das lamentações. Ele andaria e andaria mas não encontraria nada, somente aquele mesmo caminho, como se o levasse a eternidade. Mas ele estaria em paz, desfrutando a própria solidão, sem que ninguém lhe atrapalhasse. Arthur amava a solidão mais do que chá. Era a sua natureza, ele jamais poderia confiar em ninguém, porque cedo ou tarde alguém lhe trairia. Que perspectiva adorável.
Ele também sonhava que alguém o procurava. A pessoa iria chamar por ele, mas ao tentar responder, Arthur via-se mudo, incapaz de chamar a atenção dele. Mas a pessoa continuaria chamando seu nome – que não era Arthur, mas o seu verdadeiro nome e ele sabia disso. Mas qual era o seu nome mesmo? Ele sempre acordava antes de lembrar.
Arthur fez uma careta ao se dar conta de que o chá havia acabado, prevendo a infelicidade de ter de sair para comprar mais a fim de renovar o estoque. Sua cabeça latejava e o seu humor para lidar com pessoas estava nulo. Arthur era o tipo antissocial, ele detestava ter de lidar com pessoas. Estava cansado delas, de suas reclamações, de seu eterno descontentamento. Ele não sabia explicar exatamente desde quando aquela raiva surgira em seu peito, mas poderia até brincar acreditando ser desde sempre. Pessoas são insatisfeitas e aí elas morrem, essa é a lógica da vida. E ele ainda tinha de lidar com a excessiva atenção de Francis desde o incidente da última missão, além de claro, das atenções dos policiais depois da constatação das duas mortes. Estes iriam continuar insistindo na culpabilidade de Arthur e de Francis, sem provas, e descrentes em quaisquer forças sobrenaturais. Para bem ou para mal, Francis tinha contatos na polícia, o que impedia qualquer ação desfavorável a ambos. Mas ainda continuava sendo um saco.
O inglês vestiu o sobretudo preto, colocou as chaves da casa em um bolso e a carteira no outro, saindo em busca de seu precioso calmante.
Mesmo no inverno, as ruas de Londres continuavam movimentadas, cheias de uma vida distraída, meio mecânica, com animais e pessoas indo e vindo, estas imersas em suas próprias preocupações, frequentemente esbarrando em todo mundo e se desculpando por isso. Haveria algum senhor lendo o jornal do dia parado em alguma esquina, pessoas nos cafés, fugindo do frio, casais de mãos dadas, mendigos implorando por um pouco de atenção e até um belo jovem de olhos azuis sorrindo só para ele.
O jovem caminhou bem na direção de Arthur, com o mesmo sorriso no rosto, até finalmente parar em sua frente. Ele perguntou as horas, com um sotaque visivelmente americano.
Arthur respondeu de maneira hesitante e, quando se deu conta, piscando no processo, o outro havia desaparecido, sem nem dizer obrigado.
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O inglês caminhava de volta para casa com sua aquisição em mãos – e mais alguns extras que se compra por impulso – cantarolando baixinho, quando viu novamente o homem de mais cedo, parado olhando para o rio à sua frente. Ele olhou para Arthur e sorriu – de novo.
Quando se deu conta, o inglês já havia caminhado na direção do sujeito e parado bem na sua frente, com um olhar inquisitor. Mas é claro, porque Arthur sabia o que ele era.
"Por que você desapareceu mais cedo?" Perguntou com toda a intimidade do mundo, recebendo mais um daqueles sorrisos radiantes.
"Não sei. Acho que fiquei com vergonha."
"Mentiroso. E pra piorar, você nem agradeceu. O que você quer, afinal?"
"Um tanto ousado você, hm? Sequer sabe o meu nome e vem me chamando de mentiroso, como se me conhecesse desde sempre." Seu tom denunciava sua diversão. Espreguiçou-se sem urgência, admirando o horizonte. O sorriso nunca desapareceu de seu rosto. "A pergunta é, quem é você?"
Arthur ia responder, mas fez um 'o' com a boca. "Você é o fantasma da casa dos Cameron."
"Bingo. Um a zero pra você. Como adivinhou?" seu tom era brincalhão.
"Só existe um idiota que conheci que respondia perguntas com outras perguntas. O que você quer de mim, afinal?" Os pedestres de passagem começaram a olhar para Arthur, que parecia bastante esquizofrênico falando com o ar. "Não, espere. Eu sei que você vai responder essa com outra pergunta idiota. Deixe-me ver... Me diga qual foi o seu objetivo ao matar aquelas pessoas."
"Você parece me conhecer bem, apesar de não conseguir me controlar, sr. Caçador. Mas eu já lhe respondir essa pergunta! Eles não queriam chamá-lo, entende. E a mulher tentou se livrar de mim, de qualquer jeito. Eu realmente precisava chegar até o senhor, só não sabia como. O sr. Sabe, essa história de fantasmas... Nunca sabemos onde estamos e pra onde devemos ir até que tenhamos algo concreto para alcançar. Somos tão ambiciosos que admiro sua paciência em lidar conosco."
"Não havia necessidade de matá-los, git."
"Aww, mas é tão divertido! Diz se não é? O que mais você pensa em fazer, quando está entediado, hm?"
"O-o quê? Você está insinuando que eu penso em matar pessoas quando estou entediado?"
"E não pensa?"
Aquela pergunta pegou Arthur de surpresa. Ele jamais admitira para ninguém que não a própria consciência que sentia certas ondas homicidas tomarem conta de si quando entediado. Nessas horas, matar parecia-lhe uma atividade extremamente divertida, mesmo que jamais chegasse ao extremo de havê-la posto em prática.
"... Não vou dizer que não penso. Mas nunca cheguei a matar ninguém!"
"Você tem certeza?"
"Absoluta!" O outro fez um bico, aparentemente descontente.
"E a sua alma?"
"Que que tem a minha alma?"
"Você tem uma alma?"
"Mas é claro que eu tenho!" Milhares delas, na verdade. Pensou de maneira involuntária. Olhou quase estupefato, com uma confusão aparente no rosto, para o sujeito com sotaque americano, que sorria triunfante. "Você não tem nada a ver com isso."
"Você se engana, eu tenho tudo a ver com isso!" Riu, virando-se de costas e dando alguns passos, antes que Arthur o chamasse.
"Onde você vai?"
"Embora."
"Por quê?"
"Não sei."
Arthur suspirou, em parte realmente irritado com as afirmativas do outro, em parte aliviado por se livrar de tamanha dor de cabeça. "Olha, só me prometa uma coisa: que você não vai mais matar ninguém ou causar confusão. Quando precisar falar comigo por Deus sabe o motivo, venha diretamente pra mim, ok? Evite me causar mais problemas."
"Me desculpe, mas eu não prometo nada." Riu de maneira travessa, desaparecendo no ar.
Um tempo mais tarde, Arthur se viu em frente à casa de Francis, esperando que o colega abrisse a porta, com o cacoete típico de bater o pé no chão.
"Artie? O que aconteceu? Você deveria estar em casa, repousando." Arthur meneou negativamente a cabeça em resposta.
"Eu vi aquele fantasma," Explicou, entrando na casa sem cerimônia. "Na rua, quando fui comprar chá."
"Quando?" O francês perguntou surpreso.
"Ainda agora. Vê? Ainda tenho a sacola de compras comigo." Francis ignorou a irritação na voz do outro. Era usual. Sinalizou para que Arthur sentasse no sofá e se dirigiu à cozinha.
"O que ele queria?"
"Falar comigo. Mas quando perguntei o que, ele respondeu com uma pergunta. Ou então me deu respostas vagas. De qualquer forma, falei com ele naquele dia, na casa dos Cameron – e lamento não haver dito antes."
"Sem problemas, eu presumi isso. Chá ou café?"
"Chá, sempre chá."
"Então, um fantasma evasivo, hm? Aposto que ele quer brincar com você."
Arthur assentiu. "Com certeza. Ele parece o tipo que prega peças. Ele tem um humor meio sádico e ele gosta... De me provocar." Irritado, levou uma mão à testa, massageando-a. Não conseguia nem imaginar o que o fantasma queria dele, embora soubesse que ele não desistiria até conseguir o que quer que fosse.
"Provocar? Isso tem alguma coisa a ver com o fato de ele haver mencionado a sua incapacidade em controlá-lo?"
"Sim, tem. Eu não esperava que ele... Na verdade, minha esperança era que ninguém jamais soubesse – e isso obviamente incluia você. – Mas ele simplesmente sabia. Quero dizer, no geral, os fantasmas percebem minha tentativa de controlá-los, mas normalmente já é tarde demais." Arthur olhou para o outro com certa expectativa, esperando que Francis não se ofendesse com a omissão. Seria muito problemático se ele perdesse o apoio do colega com a perspectiva do perigo que o recém-surgido fantasma representava.
"Isso explica muita coisa." Riu, recebendo um suspiro aliviado da parte de Arthur. "Eu nunca entendia como você sempre encontrava os fantasmas antes de mim."
Arthur deu um pequeno sorriso.
"Como é o fantasma?" Perguntou o francês, ajeitando-se no sofá.
"Bonito, realmente bonito. Jovem, eu daria uns vinte anos, no máximo. Sorri muito e parece eternamente zombar de você. Mas ele emana perigo, quase como se houvesse uma placa de advertência pendurada no pescoço dele. Ele diz: jogue comigo, jogue comigo e vamos ver no que vai dar."
"Você parece fascinado por ele, hm."
"Ele é irritante. Não precisei nem de cinco minutos pra perceber a quantidade de arrogância que ele tem. E ele presume que sabe muito a meu respeito, isso é irritante. Mas... É só que... A lógica dele faz algum sentido pra mim."
"A lógica dele?" Perguntou o colega, com um pequeno de seus sorrisos no rosto.
"O jeito que ele fala das coisas e das pessoas, dele próprio, parece fazer todo o sentido do mundo. Ele fala com realismo." Era quase como se ele soubesse o que Arthur pensava, mas formulasse tudo de maneira mais coerente. De modo hesitante, o inglês acrescentou. "Olha, eu sei que vai soar estranho, mas é como se ele me conhecesse de algum lugar. Ele sabe tanto, até demais."
"Como assim?"
"Ele só sabe." Arthur mais uma vez aproveitou-se de seu egoísmo para manter o ponto crucial da conversa com o tal fantasma omisso. Consultou rapidamente o relógio de pulso. "Olha, Francis, eu agradeço pelo chá, mas está tarde e preciso voltar para casa. Amanhã já devo estar pelo escritório, provavelmente. Se precisar de alguma coisa, me procure lá. Até outra hora."
Francis não pressionou o colega, dando um suspiro resignado e se dirigindo à porta.
"Só... Tome cuidado, Artie."
"É, obrigado, eu já tinha pensado nisso." Sem mais, acenou em despedida, caminhando sem pressa pelo corredor.
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A existência vazia de alguém solitário é compensada pela complexidade de seus sonhos. Arthur sabia daquilo, Arthur vivia aquilo. Conhecia muito bem aquele mundo paralelo, particular para a maioria das pessoas, reflexo de seus medos, sonhos, angústias, sucessos.
Naquela noite, sonhou que estavam sentados em um banco, de mãos dadas. O outro falava coisas, trivialidades que Arthur realmente não ouvia, mas não era como se ele se importasse. Bastava a sua presença e estaria tudo bem. Ele, percebendo a desatenção do amante, suspirou e lhe deu um beijo na bochecha. Arthur sorriria, encostando a cabeça em seus ombros, livres do peso da responsabilidade que lhe era atribuída. E ele comentaria, como se nada, que seria legal se pudessem viver como humanos para sempre.
Então o cenário mudaria.
Estava frio e nublado, o clima anunciando a chegada de uma possível tempestade. Em sua túnica negra, Arthur encarava impassível o homem à sua frente.
"Faça o que deve fazer."
"Não posso."
"Você deve."
Ele sacudiu a cabeça, aflito. "Você sabe que vou morrer se fizer isso."
Arthur sacudiu a cabeça em resposta e deu um pequeno sorriso. "Não vai. Eu sei que você consegue, afinal..."
Mas ele nunca terminaria aquela frase por causa de um abraço desesperado.
O cenário mudaria outra vez e Arthur sentiria muita dor. Chovia muito. Relampejava e o som dos trovões era quase ensurdecedor. Os ventos eram dignos da pior das tempestades. Os raios irados iluminavam os céus a cada segundo. Era como se o céu estivesse furioso. Seu ombro estava machucado e lhe faltava um braço. Mas resistia àquela adversidade com uma indiferença assombrosa.
Lembrou de olhar para as orbes azuis, para aquele olhar vazio, gélido e não pode evitar sorrir. Murmurou alguma coisa em seu ouvido, sentiu uma dor aguda espalhar-se por seu corpo e tudo se apagou.
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Mais tarde, Arthur acordou com falta de ar.
Rolou da cama para o chão, respirando com dificuldade, enquanto levava uma mão ao peito. Doía, doía demais. Ainda era noite e um raio iluminou o quarto expondo a silhueta de Arthur, que caminhou desorientado para o banheiro e lavou o rosto. Suspirou, ainda tonto e se olhou no espelho. Estava lívido, a tonalidade pálida de sua pele ressaltando as olheiras de noites insones, enquanto uma fina camada de suor cobria-lhe o rosto e pescoço e o verde esmeralda de seus olhos adquirira um aspecto ligeiramente opaco.
Perceberia o temporal caindo lá fora, a noite mostrando-se tão díspare da ensolarada, porém fria, tarde anterior.
"Clima maluco." Murmurou de modo quase que inconsciente.
Caminhou cambaleante até a cozinha, em busca de um copo de água, tão desorientado que deixou passar o vulto no canto da sala.
Vulto?
Como é que é?
"Seu idiota, eu nunca disse que você podia entrar na minha casa a qualquer moment..."
A princípio, pretendia dar uma bela bronca naquele fantasma por aparecer em hora tão inconveniente. Mas quando Arthur se virou na direção do dito vulto e sentiu um calafrio, ele soube na hora que não era quem ele secretamente desejava que fosse.
Oh, como ele começou a desejar que seus visitantes fossem humanos normais.
O garoto parecia ter uns vinte e tantos anos, mas Arthur sabia que provavelmente sua idade estava muito além do que aparentava. Tinha cabelos negros e olhos castanhos, que cintilavam com interesse e diversão. Ele olhava para Arthur como se o estudasse.
"Você está um pouco diferente do que eu me lembrava. Mas as sobrancelhas não deixam dúvidas."
Quem quer que fosse aquela entidade, ele não tinha o direito de mexer com as sobrancelhas de Arthur.
"Deixe as sobrancelhas em paz. E eu não dei permissão pra você entrar aqui, de qualquer modo."
"Eu não preciso da sua permissão para estar aqui."
A frieza na voz do sujeito fez com que Arthur retrocedesse alguns passos.
"Você não é como ele." Constatou meio abismado.
"Ele quem?" Perguntou o intruso em tom ríspido.
"Quem é você?"
"Não seja insolente, eu fiz uma pergunta!"
"O-ora! Foi v-você que invadiu a minha casa. Não lhe devo nada."
O estranho fez uma careta de desgosto e descruzou os braços.
"Você tem um ponto e apesar de eu não gostar de estar aqui no momento, muito menos de olhar para essas suas sobrancelhas ridículas, sinto-me no dever de me apresentar."
Arthur abriu e fechou a boca, pensando em uma resposta a altura daquela ofensa, mas o sujeito levantou a mão, ordenando que nem começasse a falar.
"Sou a personificação da sabedoria, originalmente nascido da cabeça do próprio Zeus. No mundo dos mortais sou conhecido como Kiku Honda, mas no Olimpo me conhecem como Palas Atena."
Arthur olhou para o garoto e chegou à conclusão de que provavelmente estava esquizofrênico.
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