O um rapaz peculiar rondava o edifício recém "demolido". Havia assistido à cena de longe, e agora, diferente das outras pessoas que apenas observavam, parecia tentar se aproximar discretamente do local. De longe parecia suspeito, mas ele não notou sua própria estranheza e continuou a caminhar tortamente até o edifício. Tão rápido quanto começou a andar chegou a uma fenda criada entre duas paredes.
"Dizem que não é bom andar perto de imóveis instáveis que acabaram de explodir e pegar fogo." — Pensou, e riu de si mesmo logo após.
Aproximou-se dos escombros e espiou por entre as pedras. Viu um vulto movendo-se lentamente no escuro. Recuou, por reflexo.
"W-wow! Tem alguém vivo aí!"
Como se apenas o fato de encontrar um sobrevivente não fosse o bastante, sua curiosidade levou-o a percorrer o local inteiro, procurando uma entrada por entre as fendas. Poucos segundos depois estava caminhando em direção ao ferido, aproximando-se sem conseguir enxergar muito bem.
Quase disse algo, mas não era de sua natureza ajudar estranhos. Pensou em dar meia volta e ir embora, quando o dito estranho tombou para o lado, assustando-o de novo.
"U-uh, morreu?"
Agachou-se ao lado e levantou o corpo frágil do desconhecido, tentando ver seu rosto.
Ah, o destino! Ah, coincidência! Ou melhor, oh, ironia! Apesar de coberto por queimaduras, Matt sabia bem quem estava em seus braços.
Mello acordou numa sala pouco mobiliada. Seus olhos piscavam com dificuldade. Estava num sofá de três lugares, vermelho, estofado velho, porém macio. Não fazia ideia de onde. Suas feridas e queimaduras haviam sido tratadas e nem sinal de fumaça ou brasas. Apenas cheiro de pizza no ar.
Pizza? Ele se ergueu um pouco e apoiou-se no braço do móvel. Mover-se era difícil e muito dolorido, mas determinação era algo que Mello tinha e sabia utilizar bem. Ainda estava bastante tonto, mas começava a assimilar melhor a situação.
— Onde...?
Antes de completar a frase, outra pessoa entrou na sala. Ela segurava meio pedaço de pizza e sorriu ao olhar. Mello colocou uma das mãos sobre a testa, cobrindo os olhos da luz que o ofuscava enquanto tentava ver quem estava ali. O rapaz, como Mello reconheceu rapidamente ser, aproximou-se e sentou à sua frente, em cima de uma mesinha de centro mal pintada.
— O apartamento que costumo ocupar... Ou morar, se preferir. — Respondeu o estranho, com visível desgosto à palavra "morar" se ligar àquele lugar nada "aconchegante".
Mello analisou o lugar mais uma vez. Sofá, mesa de centro, outro sofá, paredes descascando, móveis tortos e cheios de cupins... Correu o olhar para o rapaz. Agora que via de perto, notou que deveria ter sua idade. Ele, então, mordeu a pizza, ainda com um sorriso simpático no rosto. Assim que absorveu a situação, Mello sentiu o desespero brotar de seu âmago.
— O que aconteceu?! Quem é você?! Por que estou aqui?! Como estou tratado?! Você não me levou a um hosp-
Forçado a entrar em sua boca, o resto daquele pedaço de pizza impediu que terminasse de gritar. Mello tossiu um pouco e foi forçado a mastigar e engolir a comida, um pouco arrependido de gritar quando seu corpo todo estava doendo.
— Shh, mas que gritaria. — O rapaz parecia um pouco exasperado, mas logo curvou os lábios num leve sorriso de novo, procurando no próprio bolso um isqueiro para acender o cigarro que havia tirado de não-se-sabe-onde. — Fica frio, ninguém vai saber de nada, eu sei o que eu faço, beleza?
O loiro ainda sentia o coração pulsar nervoso, mas observou quieto ao outro acender o cigarro e tragá-lo com calma, dispensando a fumaça lentamente pelos lábios. Mello não fumava, mas aquele cheiro o acalmava, era nostálgico, e logo sentia que já podia respirar calmamente de novo. Era incerto, mas acreditou naquelas palavras, acalmando a insegurança que havia crescido em seu peito naqueles poucos segundos.
— Você estava em coma induzido, há pouco tempo. — Ele começou a explicar, revezando entre observar o cigarro em sua mão e o rosto do loiro à sua frente. — Mas agora que já está bem, pude te tirar de "lá".
— "Lá"?
— ... É, "lá", não precisa se preocupar com isso.
Ele levantou os olhos e encarou o estranho, desconfiado. Ele o encarou de volta sem cerimônia alguma, e ficaram assim, por longos segundos, em silêncio. Até que, baixando o cigarro até a mesa, o rapaz perguntou, parecendo desapontado:
— Puuxa Mello, não se lembra mesmo de mim? — Ele disse, de um jeito repentinamente manhoso. Mello arqueou uma sobrancelha, surpreso por ele saber seu nome.
— Heim?
O estranho sorriu de novo, apoiando os braços nos joelhos.
— Matt. Lembra?
Por um breve momento, todo aquele ambiente sumiu à percepção de Mello. Ruivo, olhos espertos, verdes, sorriso agradável, cigarros. Matt. Matt. Aquele Matt. O garoto de quem era amigo quando ainda morava naquele orfanato. Aquele que era tão inteligente quanto ele, e que era negligente e preguiçoso na mesma proporção. O garoto que chegou mais perto do que ele poderia chamar de "melhor amigo". Era aquele Matt.
A pior parte em se lembrar de alguém que foi tão próximo no passado não chegou a ser a enxurrada de lembranças ou a nostalgia incômoda, mas sim aqueles flashbacks. Todos eram especialmente embaraçosos. Sabe quando, anos depois, uma lembraça de uma ocasião constragendora volta à sua mente e envolve todos os seus sentidos em vergonha? Pois bem. Podia se ouvir gritando pelos corredores do orfanato, andando a passos pesados, com as mãos apertadas.
"Aaaqueele maldiito Neeeeaaar!"
Mello, em seus pouco mais de 10 anos de vida, berrava enquanto era sumariamente ignorado por Matt, o único que suportava continuar ao lado do outro quando estava irritado assim.
"Cooomo ele consegue ser melhor que eu em tuudo?! Isso é injusto! Injusto! Mas que drooga!"
Os dois entraram no quarto que dividiam há algum tempo. Mello atirou-se na cama de baixo do beliche, batendo com os pés no colchão enquanto afogava o rosto nos travesseiros, que, pela felicidade dos que tinham os quartos ao lado, abafavam bem os gritos do loiro.
"Sai da minha cama, Mello."
Matt falava sem muita emoção. Parecia bastante concentrado jogando em seu mais novo GBA. Andava bastante cauteloso desde que seu antigo fora espatifado contra a parede por alguém.
O loiro ignorou a ordem, sentando-se onde estava e puxando um travesseiro contra o peito.
"Tch..."
Mello olhou para os lados, em seguida fixando o olhar no amigo, que havia confortavelmente se apoiado contra a parede próxima à cama.
"Matt."
O ruivo não respondeu, muito menos tirou os olhos dos Pokémons que estava analisando, porém, ainda assim o outro sentiu o rosto meio quente. Apertou o nariz contra o travesseiro em mãos, consumindo o cheiro deles o melhor que podia. Pensamentos confusos e embaraçosos passavam pela sua cabeça agora mesmo.
"... Você vai me ajudar, não é?"
Matt inclinou um pouco a cabeça, visivelmente mais interessado no jogo que no habitual discurso do amigo.
"No quê, dessa vez?"
"A derrotar o Near, é claro!"
Ele disse, infantilmente.
"Oh... Claro, claro."
Mello não sentiu ser levado a sério, mas não foi o que o incomodou.
"E-eu vou me casar com você!"
O loiro declarou, num impulso rápido levantando o rosto do travesseiro e escondendo-o até a metade de novo logo em seguida. Matt engasgou com a própria saliva, baixando imediatamente o portátil e olhando desconsertado para Mello.
"Como é que é?!"
Seu olhar parecia convicto apesar do rosto enrubescido. Demorado alguns segundos, Mello levantou e atravessou o quarto, desta vez com o olhar baixo, tentando disfarçar sua falta de jeito.
"A-assim seremos invencíveis, e eu poderia mostrar àquele idiota que não vai ser ficando sozinho que ele vai me vencer de novo!"
Matt não conseguiu expressar qualquer reação de início, mas, após alguns instantes, levou uma mão à testa, entrelaçando os dedos na própria franja e levando-a para trás. Sorria.
"Hah... Ok. Como quiser, garoto escandaloso. Mas, 'cê sabe, não vai ser eu quem vai usar o vestido."
.
.
.
— Ah. Matt. — Dizia agora o Mello de muitos anos depois, tentando disfarçar sua inquietação do mesmo modo mal sucedido que fez em seu próprio flashback.
— Há! Lembrou! — Comemorou o ruivo — Que susto, achei que tinha se esquecido de mim de verdade. Isso não se faz, sabe? Ainda mais tendo uma responsabilidade tão grande em mãos! Especialmente grosseiro, senhor Mihael.
— Ahn?! — Perguntou, atônito ao discurso peculiarmente entonado do outro.
Matt sorriu maliciosamente por um momento, voltando à expressão anterior rapidamente.
— Oh? Não me diga que também não se lembra de termos um compromisso firmado! Que cruel! Não se brinca assim com o coração dos outros, seu monstro!
Neste ponto Mello já podia ter certeza: aquele ruivo estava tirando uma com a sua cara. Sentiu seu estômago esfriar e sua garganta queimar. Como se não bastasse a vergonha por lembrar de tudo, Matt parecia ter lido seus pensamentos. Sabia muito bem que aquilo não passara de uma paixão boba de criança, mas ser lembrado desse jeito foi pior que uma 38 no meio do peito.
— C-caralho, Matt! Eu era um pirralho! Não tinha ideia do que falava, ok?!
Matt riu. E riu com gosto. Lá estavam eles, brigando e rindo como faziam antigamente. Por mais que negasse desde muito tempo, a presença de Matt fazia especialmente bem a Mello. E mesmo que se mostrasse irritado ou emburrado com tudo, era uma das poucas coisas que lhe dava paz.
Matt levantou-se ainda rindo, bagunçou o cabelo do loiro e foi em direção à porta de onde havia vindo, não demorando muito até estar de volta, sentado no mesmo local. Inclinou-se em direção à Mello e, com cuidado, afastou sua franja, olhando-o bem de perto.
— A-ahn? — Mello recuou, ainda um pouco desconsertado.
— Hmm... — Matt tocou as bandagens sobre a queimadura em seu rosto, fazendo com que o loiro soltasse um pequeno "ai!" e esquivasse. — Parece que essa cicatriz vai ficar, heim.
Ele disse o óbvio, mas não deixou de fazer com que Mello pensasse, enfim, sobre o assunto. Ele tocou o próprio rosto e sentiu as ataduras com certa melancolia, com as queimaduras abaixo a arder ainda, um pouco latejantes.
— Ah... Eu... Já imaginava.
Fez-se silêncio por alguns segundos, até que o ruivo exclamou, parecendo querer afastar qualquer clima pesado da sala:
— Sim! É mesmo, eu tinha ido buscar isso aqui.
Do bolso, tirou um pequeno frasco de vidro, juntamente com um pano branco. — É um.. Er, "remédio". — Ele disse, mostrando o vidrinho. Mello ergueu uma sobrancelha. — O cara lá mandou passar em toda a queimadura, pra tratar, sabe, assim parece que vai parar de doer e vai ficar menos vermelha.
Mello ponderou por um momento — "como assim o cara lá?!" — mas não durou muito. Percebeu que o outro estava tentando animá-lo.
— Hm... — Sorriu, de leve. Era assim desde sempre, Matt sempre tentava animá-lo. E isso sempre acabava dando certo, de algum modo.
Havia algum tempo que não mostrava um sorriso sincero, mesmo que pequeno, o que fez com que se sentisse estranho, fechando a cara logo em seguida. Matt fitava o amigo com um olhar caloroso, enquanto destampava o pequeno vidro, despejando um pouco do líquido no pano e voltando as mãos novamente para o bolso, tirando de lá uma presilha de cabelo. Matt inclinou-se novamente em direção a Mello. Segurou com cuidado as mexas loiras de sua franja e as prendeu um pouco acima, sendo possível ver toda a área enfaixada do lado esquerdo do rosto.
— Pronto, agora tire a camisa.
Até este ponto, Mello não havia notado as roupas que estava usando ou mesmo o estado do seu próprio corpo. Eram roupas limpas e consideravelmentemais largasque as que costumava usar, e, por baixo delas, todo seu abdômen e parte de seus braços também estavam enfaixados.
Não demorou muito e Mello tirou a camisa que vestia, esperando pela próxima instrução.
— Nossa, tá feio, heim? – Matt começou a desenrolar as bandagens, jogando-as no chão da sala em seguida. Ao terminar, molhou novamente o pano e aproximou-o do rosto do outro.
— E-ei, o que você vai fazer?! — Mello o encarou com uma das sobrancelhas arqueada, esquivando-se das mãos do ruivo.
— Passar o troço, ora. — Respondeu ele, segurando com uma das mãos o rosto do loiro, e com a outra tocando o pano levemente em suas queimaduras.
Mello não resistiu, porém não deixou de protestar a cada toque gelado em sua pele.
— Shh, fique quieto! Apenas feche os olhos e fique quieto!
— Tch, e-eu não preciso que você faça isso. — Disse, apertando os olhos quando o pano se aproximava.
— Hm. Claro. Mas você não vai conseguir fazer isso sem um espelho, e o que eu tinha quebrou semana passada. — Respondeu, naturalmente. — Feche. Os. Olhos.
Mello cedeu ao comando, recostando no sofá enquanto sentia o toque percorrer vários pontos de seu rosto. Não muito tempo depois, o ruivo já começava a descer em seu trajeto, seguindo as marcas em direção ao pescoço do loiro.
Era bom, afinal.
Mesmo que não se fosse mais preciso, Mello manteve seus olhos fechados. Sentia seu corpo se refrescar ao mesmo tempo em que a dor diminuía, e ele relaxava. Apenas após bons instantes sem senti-lo retornou à realidade, dando de cara com dois olhos curiosos bem próximos aos seus.
— Você viajou mesmo aí, não foi? — Sorriu ele, de um canto a outro do rosto.
— C-cof... Eu só estava precisando disso. — Tossiu, ajeitando a franja recém-solta após bater contra o encosto do sofá com o susto.
— Hah, certo, certo.
Matt parecia bem calmo, porém, de repente, Mello lembrou-se de algo. De fato, por mais que tivessem sido amigos no passado, era estranho tamanha boa vontade por parte do ruivo. Claro, ele era um bom amigo e tudo o mais, porém, ainda era suspeito receber tamanha ajuda depois de tanto tempo.
Mello não era burro ou coisa parecida, havia avaliado o apartamento onde estavam. Poucos móveis, papel de parede rasgado, sujo e com infiltração, chão coberto de pó e sofás surrados. Pelo visto Matt mal tinha dinheiro para comprar um espelho novo, já que estava sem um há uma semana, ou pelo menos era a impressão que ele queria passar.
Como teria cuidado das despesas médicas e todo o resto? E o pior em tudo isso era que Matt era inteligente, e, além disso, esperto. Podia ter muito dinheiro com um pouco de esforço. Mello sentiu-se ainda mais duvidoso.
Fez-se silêncio entre os dois por alguns minutos. Matt continuava e fita-lo com um ar divertido, e Mello, a olhar para qualquer canto, ponderava.
Após algum tempo, Mello fitou-o de volta, sério.
— ... Por que está me ajudando?
As sobrancelhas do outro moveram-se para cima e então para baixo, formando um olhar interessado, enquanto mantinha o mesmo sorriso simpático.
— Ora, Mello, claro que faço tudo isso por um velho amigo, não? – Respondeu num ritmo lento, levantando da mesinha e sentando-se também no sofá.
Mello franziu um pouco o cenho, seguindo-o com os olhos até seu lado.
— Tsc... Tá, fala sério, o que você quer...?
Matt deu uma pequena risada, apoiando ambos os braços acima do encosto do sofá. Seu olhar se tornou ainda mais satisfeito, fitando a todo instante o de Mello.
— Eu quero muita coisa com isso, meu caro. — Houve uma pausa dramática, como se Matt estivesse tentando parecer sério, mas estivesse bem perto de rir. — Uma delas é um emprego, o que acha?
Mello o olhou estranho.
— Ahn? E como você acha que vou te arranjar um emprego? Eu nem devo conseguir andar!
O ruivo lhe devolveu um olhar orgulhoso.
— Ah, não me subestime. Sei o que está fazendo. Sei que se te ajudar conseguirei dinheiro e diversão. — Mello o olhou um pouco surpreso, e ainda desconfiado. Era como se algo não estivesse sendo dito, afinal. — Vou te ajudar a pegar Kira. Não é isso que esta fazendo? Near deve estar fazendo a mesma coisa.
Near. O mencionar de seu nome lembrava a Mello muitos problemas. Ele franziu as sobrancelhas.
— Hm... Certo. Mas vamos começar pelo princípio.
— Claro, e qual é o princípio?
— Minhas roupas.
