Mundo Dissonante

Em um bairro da cidade muito conhecido por ser um grande centro cultural havia várias casas de shows que tocavam os mais diversos estilos musicais. As apresentações possuíam ingressos com preços irrisórios, isso quando não eram gratuitas. Forró, Reggae, Rock, Pagode, Funk, Jazz... Praticamente todos os estilos populares tinham seu local representante. Um bairro que agradava a todas as tribos.

Com o asfalto irregular, patrimônio histórico da época do Brasil colônia, e com seus casarões antigos muito coloridos, aquele bairro se tornou famoso mundialmente. Virando um dos mais importantes pontos turísticos do seu estado.

Devido ao seu caráter acessível suas atrações eram apreciadas por praticamente todo tipo de gente. O que tinha lá seus prós e contras. Apesar da imensa salada cultural havia alguns desentendimentos entre membros de uma tribo e outra, mas nada que chegasse a ser tão sério a ponto de estragar a noite.

Em uma ladeira íngreme, com uma estrada formada de pedras ao estilo século XVII, vários grupos se dirigiam a destinos diferentes. Famílias unidas, casais, grupos de amigos, crianças, adolescentes, adultos e até mesmo alguns idosos. Você encontrava de tudo naquele bairro. Desde o garoto rico que morava na cobertura do apartamento mais caro da cidade até batedores de carteira que procuravam pela vítima mais desatenta para dar seu bote.

O grupo a qual Marcos Mignola participava se vestia predominantemente de preto, porém ele não dava importância a essa moda. Vestia uma roupa casual que podia ser usada em qualquer ambiente sem chamar atenção. Não era o único, entre os apreciadores do estilo haviam vários que não se importavam em manter uma aparência que ia de encontro com os padrões da sociedade.

Naquela praça onde o show se desenrolava você poderia encontrar um pai de família carregando um filho no colo que foi vestido como uma miniatura de rock star. Você encontraria alguns fãs das antigas, pessoas que já frequentavam esse tipo de show muito antes da maioria dos ali presentes sequer terem nascido. Você encontraria também aqueles que caiam de cabeça na estética visual do estilo, usando roupas carregadas de preto e cheias de adereços mais exóticos como correntes e braceletes cheios de espinhos.

A banda tocava em português, mas a bateria e a guitarras altas unidas ao vocal gutural fazia com que a letra da música fosse mais difícil de entender do que se fosse cantada em inglês.

O vocalista tinha vinte e poucos anos. Era gordo, careca e tinha uma barbicha esquisita. Apesar disso tudo o que mais chamava a atenção nele eram seus olhos. Amarelos e brilhantes, pareciam olhos de gato. Marcos não conseguia saber se ele usava lentes de contato para parecer mais Dark ou se aqueles olhos eram naturais. Tudo era possível.

Ricardo foi para perto do palco participar da roda. Marcos preferiu assistir ao show mais de longe, para não entrar naquela confusão organizada. Ricardo reclamou dizendo que ficando de longe Marcos perderia a maior graça do show. Marcos discordava, não achava graça levar soco de graça. Tudo bem que os golpes trocados na roda não eram para valer. Mas isso não queria dizer que não doíam.

Apesar da maioria dos seus conhecidos não entender o porquê, Marcos adorava aquele tipo de música. Até mesmo entre os que gostavam de Rock, aquele tipo especifico de subgênero não era amplamente aceito.

Com o calcanhar preso ao chão Marcos dava algumas batidinhas com o pé direito. Com as mãos ficava dando tapas discretos na perna, meio que imitando o ritmo frenético do som.

Perdido em sua apreciação sonora Marcos demorou a prestar atenção no homem que passou oferecendo bebida. O sujeito tinha o cabelo cheio de dredis e um visual bem desleixado. Seu bigode era engraçado, lembrando algum pirata de desenho animado. O figura estava distribuindo vinho em uma panela de cozinha. Marcos até gostava de beber, mas não teve coragem de se arriscar e provar daquela bebida.

Duas horas e meia depois de ter iniciado, o show chegou ao fim. Haveria outra banda a tocar em seguida, mas se Marcos fosse ficar até mais tarde teria que voltar de táxi e não queria gastar esse dinheiro.

Marcos se despediu de Ricardo e de seus outros colegas de escola que estavam ali presentes. Depois disso saiu da praça e caminhou até o ponto de ônibus mais próximo. A caminhada era boa, mas ele não tinha preguiça em andar.

Haviam várias opções de trajeto, algumas mais seguras que outras. Por estar sozinho seria mais sensato dar preferência as ruas que eram mais movimentadas. No entanto, no auge de seus dezesseis anos, Marcos não dava importância para muita coisa. Evitar ser assaltado era uma delas.

Ao passar por aquele beco Marcos economizaria alguns minutos de caminhada, isso no aspecto geral era irrelevante, não valia a pena correr o risco. Ele só foi se dar conta disso quando já estava no meio do beco.

Primeiramente Marcos achou que era apenas um casal namorando, por isso tentou não prestar muita atenção já que não queria dar uma de voyeur. Ao chegar mais perto, já que os "amantes" estavam no meio do caminho, Marcos percebeu que tinha entendido a situação errado.

A boca do homem estava colado ao pescoço da moça, mas aquilo não era um beijo de namorados. Um filete de sangue escorria daquele beijo. A moça parecia entorpecida, drogada, hipnotizada. Quando Marcos chegou perto demais o vampiro levantou o olhar e mirou bem em sua direção. O garoto então se virou de pressa e apertou o passo quase correndo.

- Puta merda! Puta merda!

Quando finalmente saiu do beco e chegou até o bendito ponto de ônibus Marcos pôde relaxar. O ponto não estava cheio, mas tinha algumas pessoas esperando para lhe fazer companhia. Aparentemente ali era um local mais seguro.

- Tudo bem, filho? - Perguntou um senhor de idade que notou o estado apreensivo de Marcos.

- Tudo. - Resposta curta, Marcos não queria dividir com ninguém, principalmente com um desconhecido, o que tinha visto. O senhor pareceu compreender aquilo e não insistiu mais, se preocupando apenas em aguardar a chegada do seu transporte.

XXXXXXX

Quinze minutos, meia hora, uma hora, uma hora e meia... Com o passar do tempo o ponto foi ficando gradativamente mais vazio já que os ônibus dos passageiros iam chegando. Parecia, porém, que o único ônibus que não queria aparecer era aquele que servia para Marcos voltar para sua casa. O garoto pega o celular do seu bolso e com espanto percebe que já era quase uma da manhã. Seria difícil encontrar algum transporte ali. Irritado, ele se arrepende de ter saído da companhia dos amigos. Se tivesse ficado poderia voltar para casa sem ser sozinho, o que seria mais seguro. Na pior das hipóteses, ficaria matando tempo até esperar que o sol nascesse e começasse um novo expediente para os ônibus.

Marcos queria evitar aquilo, mas sem muita opção ele resolveu que seria melhor pegar um táxi. Ao abrir a carteira ele percebe que tinha apenas dez reais. Precisaria de no mínimo mais sessenta por cento daquele valor para pagar uma corrida até o seu bairro.

- Só tenho isso, moço. - Disse Marcos ao motorista, mostrando uma nota de dinheiro bem amassada. - Eu queria ir até Santa Efigênia, mas caso não dê você me deixa o mais perto que da para pagar com esse valor.

O motorista de táxi ficou meio com pena do menino. Aquilo não foi inesperado. Esperto, Marcos estava jogando com a consciência do taxista. Apostava que ele não seria capaz de abandonar um garoto em uma rua deserta tão tarde da noite.

- Faz assim, quando a gente chegar na sua casa você chama alguém da família para pagar o resto da corrida.

As vezes a manipulação emocional de Marcos dava certo, as vezes não.

Durante os cinco minutos iniciais Marcos chegou a pensar que o taxista não iria puxar conversa, estava grato a isso já que não tinha saco para socializar naquele momento. Sua sorte mudou rápido.

- O que estava fazendo na rua sozinho a essa hora? - Perguntou o taxista sem ligar que aquilo não era da sua conta.

- Estava assistindo um show.

- É. Lá é muito bom para isso. - Disse o motorista se referindo ao bairro mencionado logo no início desse capítulo. - Estava ouvindo o quê?

- Rock pesado.

O motorista fez cara de quem chupou limão azedo. Deixando claro que não gostava daquele estilo.

- Música boa é essa aqui ó. - O taxista era bem antiquado, ainda ouvia fita no rádio do seu carro. O aparelho começou a emitir uma música com uma qualidade sonora péssima, cheia de chiado. Se não fosse a baixa qualidade da gravação talvez o reggae que estava sendo tocado até pudesse ser apreciado.

- Eu tocava em uma banda, sabia? Bons tempos. - Durante longos dez minutos o taxista começou a contar sobre sua trajetória artística interrompida por falta de investimento. Marcos estava tão desinteressado que não captou quase nada do que era contado. Apenas balançava a cabeça positivamente e falava. - É. - Pois é.

O táxi parou a apenas dois metros da casa. Marcos desceu do carro e foi até o portão. Ele tinha uma cópia da chave, mas por algum motivo desconhecido ao procurá-la nos bolsos de sua calça não conseguia achá-la.

O garoto dá um tapa na própria testa. Aquela noite ele havia saído sem ter pego a chave. Tanta ocasião mais propicia para esquecer a bendita chave e isso foi acontecer justo aquela noite.

Em seguida Marcos pega seu celular e liga para sua casa. Permanece ouvindo o som de chamada até a ligação cair. Ele tenta uma segunda vez. Uma terceira. Uma quarta. - Nossa! Mas mãe deve estar realmente cansada.

- Olha, garoto. Deixa para lá. - Disse o taxista pondo a cabeça para fora da janela do seu carro. - Essa fica sendo minha boa ação do dia. Boa sorte e até. - Ele dá partida no táxi e antes que Marcos notasse já tinha dado o fora da rua.

Temendo que tivesse que passar a noite na rua, Marcos começa a gritar pela mãe como louco. Berrava alto, não era possível que ela não acordasse com o barulho. Mas foi isso que aconteceu. No entanto, sua algazarra acabou chamando a atenção de um dos vizinhos. Um homem de cinquenta e poucos anos que morava no primeiro andar de sua casa. Ele estava dormindo, isso era visível pela sua cara de zumbi.

- Porra, moleque! Que zoada é essa?! Você sabe que horas são?

- Desculpe, Senhor Gregório. É que sai sem as chaves e minha mãe não quer acordar de jeito nenhum.

- Tá, tá. Deixa que eu dou um jeito.

Sem se incomodar em sair vestindo seu pijama listrado Gregório foi até o portão da casa e abriu para Marcos entrar. Ele pensou que seu problema estaria resolvido. Mas não foi isso que aconteceu. O coroa já estava de volta a cama tentando retornar o sono de onde havia parado quando voltou a ouvir os gritos daquele adolescente chato.

Gregório sobe as escadas até o terceiro andar, lá ele vê Marcos chamando pela mãe. - Porra é essa, garoto?! Mas você não fica quieto?!

- Desculpe, é que minha mãe não quer abrir a porta da casa de jeito nenhum. Isso é estranho, ela não costuma ter um sono tão pesado.

Por um momento Gregório deixou seu mal humor de lado e até passou a sentir um pouco de pena do garoto. Até chegou a dar um sorriso afetuoso. - Olha, menino. Venha dormir lá em casa. Você pode ficar no sofá.

- Puxa, obrigado! Deus te abençoe!

Gregório achou divertido ouvir o adolescente falar aquela frase. Marcos nunca foi muito religioso. Fazendo com que aquele desejo soasse mais sincero e não apenas fruto do abito de repetição.

Marcos assim que entrou na casa do vizinho se jogou no sofá sem rodeios e caiu logo no sono. Gregório iria pedir para que ele botasse ao menos um forro em baixo, mas achou melhor deixar para lá.

Problema resolvido, Gregório voltou para cama e finalmente pode aproveitar o resto da noite da maneira que mais gostava: dormindo.

XXXXXXX

Apesar de cansado devido a noite de rock n´roll Marcos acordou cedo. Queria voltar logo para casa. Ademais o resto do sono ele poderia finalizar na própria cama que era bem melhor do que o sofá duro do seu vizinho. O garoto dá pontapés na porta enquanto gritava pela mãe, ela não respondia.

Era seis da manhã, mesmo se estivesse muito cansada a essa hora ela já não teria um sono tão pesado a ponto de não acordar com aquele chamado. Marcos começou a ficar preocupado e a pensar no pior.

Seu coração ficou apertado e antes que pudesse se controlar sua voz começou a soar engasgada e seus olhos a ficarem molhados.

- Ela não esta ouvindo. Por que ela não esta ouvindo?

- Calma, menino. Eu dou um jeito nisso. - De modo desengonçado Gregório tenta forçar a porta a abrir. O desespero da dupla acaba chamando a atenção dos outros vizinhos que dividiam a casa. Dois moradores do segundo andar ofereceram ajuda.

Após muito esforço conseguem quebrar a maçaneta fazendo com que a porta abrisse. Marcos sai correndo em direção do quarto da mãe. Gregório tenta impedir o garoto, já que se houvesse acontecido alguma tragédia seria melhor preparar o adolescente primeiro ao invés de apresentá-lo logo ao choque.

Gregório não seguiu o garoto. Não estava perto dele quando Marcos viu o corpo da mãe. Gregório só notou que o pior tinha acontecido quando ouve um grito desesperado do jovem.