II
- Porquê? – quis saber Raito com lágrimas de incompreensão a serem fortemente sustidas – Porque é que estás a fazer isto? Pára imediatamente! Tu não estás bom da cabeça! Porque o fazes? – a sua voz ia aumentando de altura. Aquilo estava a magoá-lo mais do que deveria.
L demorou a responder, e quando o fez, a sua voz saiu ainda mais baixa a fraca do que antes – Não irias compreender…
Como é que o grande detective iria explicar que aquele jovem lhe despertara sentimentos que estavam esquecidos nos recônditos da sua mente? Sentimentos que jamais pensara voltar a sentir na vida? Sentimentos que o faziam ter raiva de si mesmo por se permitir amar tanto um assassino: Kira!
Doía-lhe saber que quem amava era o maior serial-killer de todos os tempos, que quem amava era quem ele teria de condenar à morte, que quem amava era quem o mataria a qualquer custo, desde que soubesse o seu verdadeiro nome… e tudo isso doía demais!
Como é que iria explicar que doía menos a dor física do que aquela tremenda e insuportável dor emocional? Explicar que preferia sentir as lâminas a rasgarem e mutilarem a sua carne do que aqueles dilemas a mutilarem-lhe o raciocínio lógico e coerente? Como explicar que aquela semi-inconsciência provocada pela perda de sangue era a sua fuga possível, embora temporária, para fugir ao que lhe estava a acontecer? Era demasiado para explicar, demasiados sentimentos confusos que não se deixavam ser exprimidos pela maneira mais correcta… aliás, por maneira nenhuma. Para quem nunca deixara de percepcionar as coisas racionalmente, sentimentos era coisa abominável por natureza, pelo simples facto de não terem lógica aparente, não conseguindo ser explicados; são algo completamente sem sentido nenhum!
Por isso passara imediatamente à parte "prática". Sentir o sangue quente a escorrer-lhe pela pele era reconfortante, em comparação à situação por que estava a passar. Estava aéreo… não conseguia sentir nada… nada além da dor insuportável que lhe permanecia teimosamente a pesar-lhe no peito, a relembrar-lhe vezes e vezes sem conta que ainda tinha um coração, ainda tinha a capacidade de amar incondicionalmente… ainda era um simples humano. Ainda era… nada.
Sentiu a cabeça a andar à roda vertiginosamente, mas algo ou alguém o agarrou antes que a cabeça batesse no chão. A última coisa que se lembrou de ver antes de entrar num temporário esquecimento, foi o olhar brilhante e de semblante preocupado de Raito Yagami.
Quando o mais jovem se apercebeu que L estava a desmaiar, rapidamente o agarrou antes que batesse com a cabeça no chão duro. L estava demasiado fraco… tinha de chamar Watari! Mas onde é que o velho estava? Nem ele sabia!
- REMU!!! REMU, APARECE! POR FAVOR, APARECE!!! – gritou Raito desesperado. Só esperava que a shinigami se dignasse a aparecer…
Como um fantasma, Remu surgiu pouco depois, atravessando a parede com uma caneta e um caderno negro nas mãos: com o Death Note.
- Chamaste? Eu estava a começar a fazer o que tínhamos combinado… - disse Remu de mau humor.
Raito gelou por dentro – O q-que queres dizer c-com isso?
Remu chegou-se perto dele – Não combinámos que se a Misa corresse perigo, eu deveria matar o detective e quem estivesse directamente relacionado com a situação? – Raito não moveu um músculo sequer e ela continuou – Pois bem, acabei de matar o tal Watari, já que ele se estava a preparar para a deter definitivamente, para além de ser o braço direito desse aí… - disse, apontando na direcção de L. Vendo a expressão do jovem, retorquiu – Não era o que querias? Estava agora mesmo a acabar de escrever o nome dele… - e mostrou-lhe o caderno.
Raito suspendeu a respiração ao ver o nome do detective escrito parcialmente: "Lawli…"
'Não, Remu, tens de parar com isso! Não o faças! Eu não vou conseguir aguentar se algo lhe acontecer!'
Ganhou forças para falar – Remu, não deves escrever o nome dele… ainda não!
- Ele estava metido nesse plano de deter a Misa definitivamente! A ideia foi dele! Ele tinha dado instruções a Watari para esse efeito! Só não escrevi o nome dele primeiro porque o velho já estava a tratar disso! Tu prometeste! Se eu fizesse isto, a Misa não iria sofrer, nem morrer! Ele não pode viver! – rosnou Remu, furiosamente.
- Mas… podes fazê-lo mais tarde, não? – insistiu Raito, esperançado. A expressão de Remu não lhe deixava dúvidas acerca da resposta que não tardou a chegar:
- Raito Yagami, para além da minha ameaça à tua pessoa no caso de Misa sofrer, sabes tão bem como eu que a partir do momento em que o nome de alguém é escrito, temos tempo limite para escrever os detalhes da morte. Já comecei a escrever o nome dele e vou acabar!
- NÃO!!!!!!!! – gritou Raito em desespero completo, ao ver Remu acabar de escrever o nome do detective: "Lawliet".
Raito teve o cuidado de pousar o detective com suavidade no chão, antes de se atirar para cima da shinigami que, não estando à espera de semelhante atitude, deixou que o caderno fosse arrancado das suas mãos pelo jovem.
Raito imediatamente procurou algo com que escrever… olhava para todo o lado, tentando arranjar alguma coisa… nada. 25 segundos! Subitamente, teve o vislumbre brilhante do sangue que ainda jorrava dos cortes de L… é isso! Rapidamente se agachou junto ao detective, molhando o dedo trémulo no sangue do mais velho.
Ao abrir de novo o Death Note, viu onde se encontrava o nome "Lawliet"… 15 segundos! E rapidamente se pôs a escrever com o dedo a data da morte do detective… tal como a causa de morte correspondente. Raito só desejava que L vivesse pelo menos até àquela altura… senão, morreria à mesma de ataque cardíaco… 10 segundos!
Por momentos, não conseguiu ver o ligeiro movimento que demonstrava que o detective ainda respirava. Vislumbrou um ligeiro brilho que saía debaixo das pálpebras do detective, um brilho que depressa se apercebera ser de lágrimas contidas que vazavam lentamente, formando uma linha brilhante na face do moreno.
O tempo parecia que decidira andar muito mais lentamente, como se cada segundo fossem vinte… Raito não respirava, focando a concentração no corpo frágil debaixo de si, corpo que voltara carinhosamente a suster nos braços.
L ouvira a conversa toda… embora estivesse sempre semi-inconsciente. Agora as suas suspeitas já não eram de 89,7%... mas sim de 100%. Raito Yagami era definitivamente Kira! Como havia tocado no Death Note, via Remu, conseguindo ouvir toda a conversa… e estava completamente destroçado. Veio-lhe à cabeça uma conversa que havia tido com o mais jovem, há uns tempos, numa vez que tinham estado acorrentados nos aposentos de Misa… quando Raito lhe perguntou se queria que ele fosse Kira, pergunta a que ele respondeu afirmativamente, sendo o motivo do começo de uma briga… e murros e pontapés surgiam do nada; Misa observava tudo, completamente chocada pelo comportamento dos dois génios… um esboço de sorriso triste desenhou-se nos seus lábios frios. Ele dissera que sim, é verdade… mas o que verdadeiramente sentia, era exactamente o contrário… não queria que o jovem fosse Kira!
Ouvira tudo… e aquilo dilacerava-o ainda mais. No entanto… Raito parecia à beira de um ataque… o jovem amava-o também! Via o desespero nos seus olhos, por detrás das lágrimas que se formavam ao constatar isso. Lágrimas de tristeza por finalmente ter a certeza de que quem amava era verdadeiramente Kira, lágrimas de um mínimo consolo por saber que o seu amor era correspondido. Por saber que Raito estava a fazer o que podia, sob pressão, para o salvar. Isso só por si, era a prova. Sentiu-se subitamente mal por ter provocado tudo aquilo. No entanto, talvez este final fosse o mais adequado… para os dois.
- Raito-kun… - chamou com voz fraca e enrouquecida.
O jovem aproximou-se do detective demasiadamente pálido; quase que parecia um daqueles vampiros que aparecem nos filmes… olhos encovados, leve névoa negra à sua volta; pele demasiadamente pálida; sangue nalgum local do corpo… mas este vampiro tinha o olhar mais meigo do que qualquer outro, um olhar que Raito jamais quereria ver no do outro: o olhar de desapontamento, desilusão, tristeza profunda.
L nunca tinha deixado transparecer tanto os seus sentimentos… nisso, era tremendamente experiente. Seria pela fraqueza provocada pela falta de sangue? Não interessava, ele estava… lindo. Não havia outra palavra para o descrever. No entanto, aquela expressão magoava Raito, mesmo muito.
- Ryuuzaki… - com lágrimas nos olhos a serem fortemente contidas, segredou baixinho ao ouvido do outro – Não me deixes sozinho…
L arrepiou-se; percebera. Se ele morresse, Raito seria o único, digamos, da 'sua espécie'. Ele jamais se sentiria inserido no mundo, ficaria sempre à parte, sempre à margem. Eles eram iguais nesse sentido. Se um deles morresse, o outro ficaria isolado.
Raito não conseguira segurar os seus sentimentos: as lágrimas rebeldes caíam-lhe dos belos olhos castanhos, fazendo-o parecer um anjo caído. Parecer!
Lentamente, o mais jovem puxou o mais velho contra si, com suavidade, fazendo com que os seus rostos se aproximassem. Após dar um beijo casto nos lábios do moreno, Raito sussurrou ao ouvido do mais velho:
- L… não me deixes sozinho. Por favor… não me deixes sozinho… eu não queria…
L ouvia tudo, sem responder. Tinha-se esquecido de como utilizar a voz, de como coordenar a lufada de ar com as cordas vocais… nunca atentara nesse pormenor; agora, quando tentava perceber esse simples mecanismo… pura e simplesmente não resultava. Estava ainda pior do que antes. É, Raito não devia ter entrado na divisão, definitivamente. Agora tinha a certeza: queria morrer. No entanto…
- Raito… - conseguiu mover os lábios. Nenhum som saiu deles, mas o mais jovem estava atento, acenando. Ambos estavam com os olhos rasos de água.
- Desculpa… desculpa…- murmurava o outro enquanto copiosas lágrimas salgadas lhe lavavam a cara. Estava incapaz de olhar o detective nos olhos; apenas olhava para os seus lábios para perceber o que o outro queria dizer.
No entanto, L estava tão fraco que não tardou em desmaiar.
Remu voltou a falar mal o jovem o deitara novamente no chão com delicadeza.
- Raito… vais pagar por isto.
- Eu sei. – respondeu ele baixinho.
- Estou a falar a sério… e vai ser dentro em breve.
- Eu sei…
- Tu não mereces a Misa.
- Eu sei…
- Mas se eu te matar… ela vai ficar destroçada.
- Acho que consegues arranjar uma desculpa qualquer… diz-lhe que fui atropelado… que me mataram… que sofri uma intoxicação alimentar aguda… qualquer coisa…
Remu estava profundamente surpreendida – Estás a dar-me ideias para o fazer? Que eu saiba, os seres humanos prezam a sua vida acima de tudo! E então TU! O que vai ser feito daquele teu sonho de Mundo Ideal?
- É um ideal vazio… nunca conseguirei impedir que o mal se espalhe… que o crime continue… há-de haver sempre alguém… fui egoísta. Fui atrás de uma ilusão que me apanhou na minha própria rede… ia matando um inocente! L é inocente! Puro! A justiça personificada! Ele tinha toda a razão em me querer no corredor da morte… ao ir atrás desse ideal transformei-me num monstro de grande poder e controlo sem o perceber. As minhas capacidades, tão bem vistas por todos, tornaram-se nas armas da minha dupla face… dupla face essa que toma conta de mim… não posso deixar que isso aconteça de novo… por isso é que não me importo com a tua vingança. E também… - mas as suas palavras morreram ali. Ele não era capaz de dizer aquilo. Jamais seria.
Remu parecia não ter notado a falha - Então foi tudo para nada? Enganaste a Misa durante todo este tempo?
- Não foi minha intenção… aliás, eu enganei-me a mim mesmo… se ela quiser continuar a fazer justiça, que continue… mas que não caia no mesmo erro que eu. Que não se deixe controlar pela dupla face que vai crescendo dentro de nós, desenvolvendo-se. – virando-se para Remu acrescentou – Tens de tomar conta dela… promete-me que o fazes.
Remu olhou-o com ar zangado – Eu iria fazer isso, mesmo que nada dissesses. Ou mesmo se dissesses o contrário. Nunca gostei da tua maneira de agir e pensar.
- Eu sei, mas… - Raito hesitou quando notou a expressão com que Remu olhava para o desacordado – Está tudo bem? O que se passa?
Remu olhava o detective com certo desconcerto, desentendimento, espanto e incredulidade ao mesmo tempo – Nunca pensei que…
- Que o quê? O que é que estás a pensar fazer-lhe? – questionou o jovem ao se voltar a aproximar do mais velho, como que o protegendo da Shinigami. Só aí Remu olhou para ele, mas apenas durante um momento.
- Nada… acho que vais perceber quando chegar a altura… mas nunca pensei que isso fosse possível… que mudasse tão depressa assim… costuma demorar bem mais tempo, mas também… nunca nada assim aconteceu, pelo menos comigo…
- Mas do que é que estás a falar? – perguntou Raito já exasperado. A conversa estava a ficar demasiado estranha para ele.
- Hás-de saber dentro de pouco tempo… - e desapareceu pela parede com o Death Note nas mãos, indo ter certamente com Misa, deixando o desacordado com um jovem confuso e desconfiado.
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N.A.: Outro cap!!! ^^ O que será que aconteceu para a Remu ficar tão espantada??? Hum... Ô.o Reviews, plz!!!!!! agradeço já às pessoas que lêem esta fic! espero que continuem a seguir a fic e a gostar! Bjinho pa todos(as)!!!!! Boa Páscoa!!!!
