Retratação: Saint Seiya e seus personagens não me pertencem. Eles são propriedades de Kurumada, Toei e Bandai.
Essa é uma fic yaoi, ou seja, que mostra relacionamento homossexual. Se não gosta, não leia.
A Razão do meu Amor
Capítulo 1 – Flashback
Numa manhã qualquer Kamus foi acordar Milo para treinarem juntos. Ao entrar no quarto viu o escorpião ainda dormindo. Olhando-o desse jeito nem parecia ter a energia que tinha. Parecia uma criança dormindo. Aproximou-se da cama e percebeu esse estava sonhando. No começo pensou em acordá-lo logo para que não se atrasassem, mas então teve a curiosidade de saber com o que o amigo sonhava. Ou com quem. Kamus sabia da fama do cavaleiro. Sabia que ele era um sedutor nato. Sabia que quase o Santuário inteiro já tinha provado do seu veneno. Mas nunca deu importância. Pelo menos achava que não dava importância. Foi então que ouviu seu nome sair da boca do amigo. Então se aproximou mais da cama para escutar melhor o que o outro dizia e não acreditou no que ouviu.
- Kamus... eu te amo... sempre te amei... fique comigo para sempre... me beije...
Kamus ficou espantado, achou aquilo um absurdo. Como ele ousava a dizer algo assim? O que era aquilo? E com uma voz firme e forte, chamou pelo outro.
- Milo! MILO ACORDE!!
- Ka-Kamus!! – Disse Milo ao acordar com a voz ainda rouca pelo sono e trêmula pelo susto. Olhou para Kamus sem entender bem o que estava acontecendo. Por que ele estava tão chateado? Não se lembrava de ter aprontado nenhuma.... Foi então que num estalo se lembrou que estava sonhando quando fora acordado. E no sonho ele havia se declarado para Kamus e este o havia aceitado... Não, não era possível que tivesse falado alto... Era?
- Milo o que significa isso? Você... você estava sonhando... e era comigo!! E ainda por cima você dizia que me amava! Eu exijo que se explique imediatamente! – Disse o aquariano visivelmente irritado, sua respiração pesada, o olhar sério, frio e ao mesmo tempo espantado.
Milo não sabia o que fazer. Estava atônito. Tanto esforço, tanto sofrimento passado para que agora, por um descuido dele mesmo, Kamus descobrisse tudo. Não podia acreditar no que tava acontecendo. Não era possível que estivesse acontecendo. Não podia estar acontecendo. Enquanto isso, Kamus esperava uma explicação. Estava furioso. Sentia-se enganado, traído. Seu melhor amigo (e único) tinha o enganado esse tempo todo. Será que era só por isso então? Ele fora seu amigo o tempo todo apenas por isso? E como ele podia nutrir esse tipo de sentimento... por outro homem! Kamus não conseguia aceitar algo assim.
- Kamus, espera.... não é nada do que você está pensando. Pelo menos não dessa forma.
- Não é nada do que eu estou pensando? Como assim não é nada disso?! Eu sei muito bem o que eu ouvi!! Quanto a isso eu não tenho dúvidas. Eu quero que VOCÊ me explique como pode mentir para mim, me enganar, dizer que era meu amigo apenas para se aproximar de mim... só... só para tentar ser correspondido! – Kamus falava extremamente nervoso e zangado, apontando o dedo indicador para a direção de Milo, como se o acusasse (e estava acusando-o), cada vez mais aumentando o tom de voz.
- Kamus, eu não te enganei. Olha... eu não lhe contei nada justamente porque não queria perder sua amizade. Eu nunca lhe menti quando disse que era seu amigo... – Milo falava, já em pé ao lado da cama, com a voz um pouco chorosa. Tentava a todo custo manter o controle, mas esse não era o forte dele. Não. Ele era expressivo demais.
- Milo!! Nós somos homens!! Isso é errado!!
- Kamus... você sempre soube que eu saia com outros homens e nunca me recriminou... – Começou a falar.
- Mas antes eu não tinha nada a ver com isso!! – Disse Kamus quase gritando, interrompendo o outro.
- Mas eu não tenho culpa de te amar!! – Disse Milo num tom mais alto e desesperado, de olhos fechados, sentido as lágrimas arderem os olhos e escorrerem pela face.
- MASEU NÃO TE AMO!!! NUNCA VOU TE AMAR, MILO!!! – Gritou Kamus com raiva, avançando um passo como se fosse partir para cima do outro.
Milo abriu os olhos e olhou para Kamus. Estava perplexo. Assustado. Ele não acreditava no que ouvia. Aquilo doía em seu coração mais que qualquer golpe que já tenha sofrido na vida. As palavras dele dilaceraram seu coração, faziam-no querer morrer.
- Kamus... seu miserável.... – falou entre dentes e com os olhos abaixados, quase fechados – EU NUNCA LHE PEDI NADA!! NADA!! NUNCA LHE PEDI QUE ME AMASSE!!! EU ME CONTETAVA EM SER SEU AMIGO! E EU ERA SEU AMIGO, DE VERDADE!!! VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE VIR NA MINHA CASA E ME OFENDER DESSE JEITO!! – Gritou Milo, já olhando diretamente nos olhos de Kamus, sem se importar se estava chorando ou se o Santuário inteiro estivesse ouvindo. Não se importava com nada. A única coisa que sentia era aquela dor que rasgava seu peito e as lágrimas que queimavam seu rosto.
- Você disse certo. Eu ERA seu amigo. Porque nem isso você vai ser mais. Passe bem, Cavaleiro Milo de Escorpião. – Kamus sustentava o olhar de Milo com a mesma frieza e indiferença com que havia falado. E então deu as costas ao outro e com passos firmes foi embora do templo, sem nem olhar para trás, deixando Milo com um olhar que era uma mistura de mágoa e ódio; e com as mãos fechadas e brancas, tamanha era a força com que as apertava.
Milo estava arrasado. Assim que percebeu que o mestre do gelo não estava mais em seu templo, deixou-se cair no chão e começou a chorar. Soluçava, tremia. Seu coração parecia que estava sendo feito em pedaços. Parecia não. Estava mesmo sendo feito em pedaços. Por lâminas de gelo tão afiadas quanto a Excalibur de Shura. Ou até mais. Não tinha forças para nada. Só queria fica ali. Desejava morrer, pois a dor que sentia era insuportável. Ficou ali, no chão, chorando, como se suas lágrimas não fossem secar nunca.
No templo de peixes, Afrodite estava cuidando de suas rosas quando ouviu os gritos de Milo. Ele sabia da paixão platônica do amigo e do seu receio em se declarar. E no fundo, Afrodite dava razão aos temores do amigo, pois sabia que o aquariano era uma pessoa bastante difícil.
Então, logo que ouviu os gritos, guardou suas ferramentas de jardinagem e se dirigiu para o templo de Escorpião. Encontrou com Kamus nas escadarias entre os templos de Capricórnio e Aquário. O cavaleiro de gelo estava mais serio e mal humorado do que nunca. Mesmo assim, Dite arriscou-se a perguntar:
- Kamus, o que aconteceu? Eu ouvi gritos vindo da casa do Milo...
- Suma da minha frente Afrodite!! E não me fale dele!! – falou ele, sem nem olhar para o cavaleiro de peixes, as palavras sendo falados pesadamente e nem ao menos fez menção de desviar sua rota, já que Afrodite estava bem na sua frente, obrigando a este a sair do caminho ou com certeza ganharia um caixão de gelo em segundos.
Afrodite até pensou em segui-lo para tentar conversar, mas achou melhor ir ver como estava Milo, que com certeza deveria estar arrasado e precisando de ajuda mais do que Kamus, além de ser menos perigoso.
Chegando ao templo de escorpião, Dite entrou e abaixou seu cosmo para que o outro não se assustasse e nem o expulsasse. Como não achou ninguém na sala, foi em direção ao quarto, encontrando Milo lá, no chão perto da cama, soluçando de tanto chorar e todo encolhido. Imediatamente o cavaleiro de Peixes se sentou no chão e trouxe o amigo para perto, abraçando-o numa tentativa de tentar amenizar a dor do amigo, ficando assim por um tempo. Dite sabia que não adiantaria perguntar nada naquele momento, pois o outro não conseguiria responder. Deixou que ele chorasse e aos poucos fosse se acalmando. Ou pelo menos soluçasse menos. Quando achou que parecia mais calmo, resolveu então perguntar o que aconteceu.
- Milucho, conta pra mim, o que aconteceu? Eu ouvi você gritando e encontrei com Kamus que parecia que ia matar um! O que houve? – Dite falava tentando ser o mais compreensível possível.
- Eu tava dormindo... – falou Milo ainda com voz de choro, limpando as lagrimas que teimavam em continuar caindo – e sonhando... com ele... no sonho eu me declarava para ele... e ele aceitava... mas não foi isso que aconteceu... – fez uma pausa tentando se controlar e quando achou que conseguiria, continuou a contar – eu acabei falando alto durante o sono e ele ouviu e me disse um monte de coisa... disse que eu tinha enganado ele, que eu só era amigo dele para tentar conquistá-lo e que nunca iria me amar e que nem amigo meu mais era... – encostou a cabeça no ombro do amigo o abraçando mais – não é justo... droga, não é justo!! – e voltou a chorar copiosamente.
Nesse momento, Dite percebeu que alguém havia entrado no templo, mas logo relaxou quando reconheceu de quem era o cosmo – era Shaka, que devia ter ouvido os gritos de Milo (mesmo porque sua casa era mais perto da de escorpião do que a de peixes) e veio ver como ele estava. Shaka encontrou-os no chão do quarto de Milo, este abraçado a Afrodite, chorando, com a cabeça entre o ombro e o pescoço do amigo. Não falou nada, sabia o que havia acontecido, tinha ouvido claramente a discussão por conta da proximidade das casas e do volume das vozes. Apenas sentou-se perto e ficou alisando as costas do amigo, esperando ele se acalmar.
Algumas semanas depois do incidente Milo já havia melhorado um pouco. Ainda estava triste, mas já havia se conformado. Durante esse tempo não falou com Kamus, nem sequer encontrou com ele. Também não o procurou. Não iria se humilhar. Não adiantaria nada mesmo e só aumentaria seu sofrimento. Numa certa tarde, Milo estava em seu templo, sentado no sofá com o olhar distante, pensando em tudo o que acontecera, quando ouvira uma voz chamando-o...
- Milo...? – escorpião virou o rosto e levantou-se rápido ao ver quem era.
- Kamus! O que faz aqui? – Milo estava surpreso e confuso ao mesmo tempo. O que ele queria ali? Pisar-lhe mais?
- Quero conversar com você... Podemos...?
Milo demorou um pouco para responder, piscando várias vezes, como se estivesse processando a informação. Kamus queria conversar com ele? Não estava mais entendendo nada.
- Po-pode... – gaguejou ainda confuso. Foram até um dos cômodos do templo. Kamus nunca havia entrado lá. Na verdade ele só conhecia a sala, a cozinha que era tipo americana (após ressuscitar os cavaleiros, Saori resolveu reformar o santuário e deixou que os cavaleiros fizessem algumas modificações no interior de seus templos) e o quarto, pois sempre tinha que ir acordá-lo. O cômodo parecia um escritório, porém era mais confortável, menos sério. Kamus percebeu que havia uma instante com alguns livros. Achou aquilo estranho, nunca havia visto Milo lendo livros, achava até que este não gostava de leitura. Dentre os livros, havia títulos como Drácula de Bram Stoker, O Retrato de Dorian Gray e Sonhos de uma Noite de Verão, os quais ele já havia lido. Havia também livros que ele nunca ouvira falar, como O Código Da Vinci e Crepúsculo. Realmente não conhecia esse gosto de Escorpião. Além da instante, havia também uma mesa com cadeira em frente à porta, uma poltrona grande que ficava de frente para a janela de onde podia se ver todo o santuário, um sofá de dois lugares e uma poltrona pequena, estando estes dois dispostos um de frente para o outro. Kamus sentou-se no sofá, enquanto Milo se acomodou na poltrona em frente ao Aquariano e esperou que esse começasse a falar.
- Milo... – respirou fundo, como se procurasse as palavras certas e recomeçou a falar sem olhar o outro diretamente – eu estive pensando no que aconteceu nesses dias... – fez uma pausa - ... e... e eu quero dizer que talvez eu tenha sido injusto... radical demais... – olhou para Milo querendo ver sua reação. Esse se limitava a ouvi-lo, tentando não esboçar nenhuma reação, até mesmo porque não sabia o que esperar, não queria ter esperanças falsas.
- Eu não tenho culpa de não te amar e nem você tem culpa de me amar... – continuou Kamus, respirando fundo mais uma vez – você havia me dito que era meu amigo... e eu quero acreditar nisso...
- Kamus... se você veio aqui... – Milo começou a falar, mas foi interrompido por Kamus.
- Eu acredito nisso. E é por isso que eu estou aqui... eu também era seu amigo... e... – respirou fundo mais uma vez – e eu ainda quero ser seu amigo – falou isso olhando diretamente nos olhos de escorpião, que não acreditava no que estava ouvindo.
- Não posso lhe dar o que você quer... mas nós sempre fomos amigos e não queria perder isso. Você concorda?
Milo ouvia tudo sem acreditar. Kamus... Kamus de Aquário estava dizendo que queria ser seu amigo... Não conseguia dizer nada em resposta.
- Sei que você deve estar zangado comigo pelas coisas desagradáveis que lhe disse. Você tem toda razão de estar assim... por isso peço-lhe desculpas... – continuou a falar vendo que o escorpião não respondia – Milo...? Você está me ouvindo? – Milo piscou algumas vezes antes de responder.
- Kamus... você está me dizendo que quer voltar a ser meu amigo? Eu...
- Quero Milo! Sinto falta de ser seu amigo – Kamus falou de olhos fechados como se quilo fosse algo difícil de ser revelado. E talvez fosse.
- Kamus...
- Milo – ainda de olhos fechados – eu sei que fui rude e extremamente cruel... – respirou fundo mais uma vez – eu sei que errei e por isso quero lhe pedir desculpas – abriu os olhos, olhando agora diretamente nos olhos de Milo – se não quiser, tudo bem, eu vou entender, mas eu não gostaria de perder sua amizade... Eu não quero perder sua amizade – e olhando ainda para Milo esperou que este falasse alguma coisa que não fosse apenas seu nome.
Escorpião ficou olhando-o sem dizer nada. Ainda estava surpreso por tudo que acabar de ouvir. Nunca em sua vida imaginou que o cavaleiro de gelo estimasse tanto sua amizade a ponto de vir lhe pedir desculpas. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Então fechou os olhos e procurou a primeira coisa que viesse em sua mente, a primeira opção. Ele não era de pensar. Nunca fora e nem ia ser agora que iria ser. Sempre fora impulsivo.
- Tudo bem Kamus - falou soltando o ar pesadamente – eu lhe desculpo – e abriu os olhos.
- Obrigado Milo... Só mais uma coisa...
- O que?
- Você não se importa...?
- ...............?
- Você não se importa de sermos apenas amigos?
Milo olhou para Kamus e depois fechou os olhos abaixando um pouco a cabeça, ficando assim por alguns segundos.
- Você sempre foi apenas meu amigo, Kamus. A diferença é que agora você sabe de meus sentimentos. Apenas isso. – abriu os olhos olhando para o aquariano com um semblante leve, porém um pouco triste.
Kamus respirou aliviado, levantando-se e estendendo a mão ao amigo para que este a apertasse. Esse sorriu de lado e levantou-se também, apertando a mão de Kamus.
- Posso te abraçar? Juro que é apenas um abraço de amigo – falou Milo num tom divertido.
- Pode – respondeu Kamus, com uma expressão que beirava um sorriso, deixando-se ser abraçado pelo amigo.
Apesar de ter ficado contente em ter Kamus de novo como amigo, Milo não era mais o mesmo de antes. Por mais que tentasse, sentia sempre um aperto no peito, que aumentava quando estava na companhia do amigo. Não conseguia mais sorrir como antes. As coisas que Kamus dissera ainda povoavam sua mente. Mesmo sem querer, lembrava das palavras duras do amigo, da raiva dele, da briga, de tudo. E saber que poderia ter Kamus como tudo, menos como namorado só piorava seu sofrimento. Mesmo assim tentou seguir em frente, afinal um dia isso teria que passar... pelo menos era o que ele achava. Para tentar acelerar esse processo, aumentou o número de farras e festas que ia. Ficava com qualquer um que se oferecesse. E com qualquer um que não se oferecesse também. Tentava dizer para si que aquilo era melhor do que estar com um só, mas por dentro sabia que não era assim. Não creditava nisso e quando voltava para casa, quase sempre bêbado, a tristeza voltava com tudo e acabava por dormir chorando abraçado ao travesseiro.
Já passado um mês que Milo e Kamus haviam feito as pazes, mas Escorpião ainda continuava triste, talvez até mais do que antes. Preocupado com isso, Shaka chamou Dite para ir até sua casa e tentarem achar alguma solução para a depressão de Milo.
- Ai Shaka... eu também tô super preocupado com o Milucho. Ele anda tão tristinho... Eu nem sei quando foi a última vez que o vi sorrindo de verdade! – falou Dite fazendo biquinho.
- Por isso lhe chamei aqui Dite. Precisamos fazer alguma coisa. O Milo não pode continuar desse jeito – Virgem apesar do tom calmo, tinha um semblante bastante preocupado.
- Mas o que vamos fazer? Não podemos fazer Milo deixar de gostar de Kamus de uma hora para outra!!
- Bom... - disse o Virginiano com cara de quem sabia mais do que falava...
- Bom o que Shaka? – Dite arqueou uma sobrancelha e olhou bem para o amigo - Eu conheço esse olhar... No que você está pensando senhor Cavaleiro de Virgem? – perguntou Peixes já imaginando que o outro deveria estar tramando alguma coisa.
- Sabe Dite... eu acho que o Kamus sente alguma coisa pelo Milo... só que ele ainda não descobriu isso...
- E eu posso saber como a reencarnação do Buda chegou a essa conclusão, no mínimo estranha? Não vai me dizer que andou meditando a respeito disso? – disse Dite em tom de deboche.
- Em primeiro lugar, para seu governo eu meditei sobre isso sim. Em segundo... não. Não foi nas minhas meditações que cheguei a essa conclusão. E em terceiro... se o senhor jardineiro me deixar terminar de falar vai entender porque eu disse isso – respondeu Shaka num tom sério e irônico. Peixes pensou até em responder, mas conhecia o temperamento do amigo e sabia que nem sempre ele se parecia com Buda... então, achou melhor deixar o outro falar – Pois não... Fale.
- Primeiro... você não achou estranho o Kamus ter ido pedir desculpas? Pelo o que Milo me contou, o Kamus disse ter sentido falta de ser amigo dele... Só por isso você não acha que é algo anormal vindo dele?
- É... de fato é...
- Segundo... não sei se você já percebeu... as pouquíssimas, ou melhor, raras vezes que vi Kamus sorrir, todas foram na frente de Milo e para Milo.
- ........ – Dite piscou algumas vezes como se não tivesse entendido onde o amigo queria chegar.
- Dite... Kamus só sorriu porque era Milo que estava com ele... Kamus só sorri para Milo... Só para ele e mais ninguém! Entendeu o que quero dizer? – Peixes não respondeu, ficou pensando no que o amigo dissera – O que quero dizer é que a forma como Kamus se mostra para Milo não é igual ao que ele mostra para o resto do mundo. Não vai me dizer que nunca reparou nisso? – Peixes continuou pensando por alguns segundos antes de responder.
- Já. Já reparei... mas e se isso for apenas amizade?
- Não acho que seja... além disso... eu tenho a impressão que sempre que Kamus flagra Milo se agarrando com alguém ou chegando bêbado com um perfume que sabemos não ser dele... sei lá... Aquário parece não gostar muito... Você nunca percebeu isso?
- Também já reparei... mas volto a perguntar... e se for só amizade e excesso de puritanismo?
- Não... Não acho que seja isso... – respirou fundo fazendo uma pausa, olhando para baixo como se estivesse procurando a melhor forma de falar o que pensava – mas em todo caso... – fez uma pequena pausa – o que você acha... – fez outra pausa, enquanto Dite o olhava curioso e desconfiado – de tentarmos descobrir se é isso ou não? – olhou para o outro esperando alguma reação.
Afrodite piscou algumas vezes, inclinado a cabeça e olhando para o amigo, sem acreditar no que ouvia.
- Shaka... o que você está sugerindo exatamente?
- Que armemos alguma coisa para descobrir se Kamus gosta mesmo de Milo ou não.
Afrodite estava surpreso com o que ouvira. Geralmente era ele que tinha as idéias loucas e armava planos surtados no Santuário. Continuou olhando para o amigo e pensando no que ele dissera.
- Dite, pense bem... a gente precisa ajudar o Milo... e se o Kamus gostar mesmo dele? Os dois vão tá sofrendo a toa! E se o Kamus não gostar, pelo menos poderemos ajudar ele da forma correta, sem medo de estar impedindo um amor verdadeiro. – disse o Virginiano tentando convencer o amigo – eu não estaria aqui lhe falando isso se não achasse que há chances e se não quisesse ajudar o Milo realmente. Estou lhe sugerindo isso porque sei que você é muito amigo do Milo... – parou de falar, pois já não tinha mais argumentos para tentar convencer o outro.
Dite continuava olhando para o amigo, sem responder nada. Permaneceu assim ainda por mais alguns segundos antes de se pronunciar.
- Shaka... essa sua idéia é maluca... tão insana... – Dite falava com um tom sério – que acho até que pode dar certo – disse exibindo um sorriso no rosto – eu aceito te ajudar!
Shaka estava contente por ele ter aceitado ajudar. Sabia que Kamus não tinha mostrado nenhuma pista concreta de que gostava de Milo, mas sua intuição lhe dizia que ele gostava. E sua intuição nunca falhara. Então começaram a discutir como fariam isso...
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Milo estava em sua casa, curtindo uma ressaca braba, quando Shura entrou querendo falar com ele.
- Milo, mi amigo! Bom dia!
- Bom dia Shura... O que conta?
- Vim te convidar para uma festa em minha casa.
- Festa?
- É... uma pequena festa... – falou rindo de modo a parecer que não seria tão pequena assim... – Vai ter muita bebida, comida e principalmente música!
- E a que se deve essa festa, posso saber?
- Oh... nada demais... só um bom motivo para gente se divertir sem precisar sair do Santuário e com a autorização de Atena. – falou dando uma alta risada em seguida, sendo acompanhado pelo outro que se limitou a uma leve risada.
- Tudo bem Shura... Eu vou...
- Ótimo!! Será amanhã à noite, por volta de umas sete horas... E vê se melhora essa cara, viu? Você sempre foi a alegria das festas. Não quero ver mi amigo baixo astral não, viu? – falou num tom brincalhão abraçando o amigo e olhando para ele falou num tom mais sério – Esqueça "aquele" problema... não vai adiantar nada ficar se lamentando por ele... a vida continua Milo...
- Tudo bem Shura... você ta certo... – falou com a expressão triste, porém resignado – Ele vai? – perguntou tentando parecer indiferente, mas só mostrando receio na pergunta.
- Eu irei convidá-lo... se ele vai não sei... Bom... então te espero lá amanhã, viu? Adiós – deu uma piscadela e saiu do templo deixando Escorpião pensando nas palavras dele.
No dia seguinte, já eram sete e meia quando Milo começou a se arrumar para a festa. Não estava tão disposto assim para ir, mas o que Shura havia falado fez ele se decidir por ir. Tomou um banho relativamente demorado. Queria relaxar, tentar não ficar tenso, afinal, sabia que Kamus não iria para a festa mesmo. Conhecia bem demais o outro, sabia que Aquário não era afeito a festas, barulho, muita gente junta. Não. De certo ele iria inventar alguma desculpa e não passaria nem perto do templo de Capricórnio para não correr nenhum risco.
Terminou o banho e foi se vestir. Escolheu uma calça preta, um pouco justa, que moldava perfeitamente as pernas bem trabalhadas dele e uma blusa, na mesma cor, porém brilhante, de mangas compridas, as quais foram puxadas até próximo ao cotovelo. Deixou os dois primeiros botões da camisa abertos mostrando parte do tórax. Prendeu os cabelos num rabo e cavalo frouxo, deixando algumas mechas soltas na frente, emoldurando o rosto. Colocou um perfume com uma fragrância amadeirada e se olhou no espelho conferindo o resultado. Estava extremamente sedutor. Em outras épocas estaria até orgulhoso com isso, mas hoje não estava nem aí. Saiu do quarto e foi em direção ao templo de Capricórnio. Chegando lá, já havia muita gente e para seu espanto Kamus estava lá. Sentiu uma sensação estranha, o coração batia acelerado. Tentou se controlar e foi até ele.
- Oi Kamus...
- Oi Milo...
- Então... que milagre é esse que você veio a uma festa?
- Humpf... Saori me obrigou. – disse o mestre de gelo com uma nítida expressão de quem estava ali a contra-gosto. Milo riu falando em seguida – Só ela mesmo para fazer você vir... tente se divertir ao menos, afinal você já está aqui. – disse saindo e indo pegar algo para beber. Não queria ficar muito perto de Kamus, isso só pioraria a situação dele. Foi até onde estavam as bebidas e pegou uma cerveja e se sentou num sofá bem longe de Kamus, apesar de ainda poder vê-lo. Se antes de chegar já não estava animado, agora que vira Aquário perdera toda e qualquer disposição. Volta e meia se pegava olhando o amigo. E para seu desespero, em quase todas as vezes, Kamus o estava olhando de volta e de um jeito estranho. Não parecia estar encarando ou procurando saber por que ele o olhava. Parecia vago, como se também estivesse perdido em pensamentos... só que olhando diretamente para ele! Isso só fazia Milo ficar pior. Por que Kamus o estava olhando daquele jeito? Já tinha bebido muito, mas não o suficiente para ficar bêbado ou pelo menos parecer bêbado... Definitivamente não deveria ter ido à festa. Já estava pensando em ir embora quando viu Shaka se aproximar e sentar junto de si. Ele estava com um copo na mão que parecia ter whisky dentro. Escorpião estranhou aquilo... desde quando Shaka bebia? Mas deixou para lá, não estava muito afim de ficar pensando, não estava bem.
- Nossa Milo... que cara é essa?
- Não to bem Shaka... E você sabe por quê...
- É... eu sei...
Milo continuou calado olhando vagamente para frente. Shaka se aproximou um pouco de Escorpião, colocando o braço no encosto, atrás da cabeça de Milo.
- Sabe Milo... você deveria tentar esquecê-lo...
- Como Shaka? Como é que posso...
- Sabe, um dia ouvi dizer que para apagar um amor, nada melhor do que outro amor... – falou isso ficando mais junto de escorpião e alisando seus cabelos. Milo não sabia bem o que fazer. Se por um lado estava achando muito estranho a atitude de Virgem, por outro estava gostando daquela atenção, daqueles carinhos. Além disso, ainda tinha a bebida que já o havia deixado tonto. Quando se deu conta, Virgem estava com o rosto bem próximo a sua orelha, sussurrando de uma forma que o fez se arrepiar todo.
- Sabe Milo... Talvez você não ache logo na primeira vez outro amor... mas você também não pode deixar de tentar... além do mais... às vezes um pouco de carinho faz bem... mesmo que não seja da pessoa que queremos... – disse isso enquanto alisava os cabelos próximos a nuca e com a outra mão, que já se encontrava vazia, alisou discretamente sua cintura.
Kamus estava vendo toda aquela cena e não estava gostando. Não sabia o porquê, mas não estava se sentindo bem vendo Milo e Shaka juntos. Tentou olhar para outros lugares, mas sempre acabava por olhar de volta para eles. E acabava sempre perdido em seus pensamentos. – "O que Shaka está falando para Milo? Por que Milo está com essa cara? Milo não disse que era apaixonado por mim? O que estou pensando? Não tenho nada a ver com isso!" – Nesse momento, Dite chegou perto dele e puxou conversa – Nossa... aqueles dois parecem estar se dando bem, né Kamus? – Kamus apenas se limitou a olhá-lo e olhar e novo para o casal – Sabe... certa vez Shaka me disse que queria saber como era beijar Milo... Ele sempre ouvira as histórias de escorpião... – fez uma pausa olhando Kamus e constatando que apesar deste não olhá-lo, prestava a atenção no que dizia – Você nunca percebeu como Shaka o trata? Eu acho até que ele está apaixonado pelo Milo. Para você isso deve ser ótimo não? Afinal se eles namorarem, quem sabe Milo te esqueça e largue do seu pé? Não concorda? Olha.... meu copo está vazio... Vou pegar mais bebida – falou sumindo da vista de Kamus, deixando este bastante confuso - "Shaka... Shaka está apaixonado pelo Milo? Mas eu nunca percebi isso? Será que Milo ficaria com ele? Não. Milo gosta de mim. Mas e daí? Eu não gosto dele... E Por que estou me importando com isso? Eu quero que o Milo seja feliz. Mas ele me ama... Droga Kamus, o que está acontecendo com você? Para de pensar nisso. O que é aquilo? Shaka está alisando a cintura de Milo? Pare de olhar Kamus! Por que Milo não o afasta? Será que Milo quer mesmo me esquecer? O que Shaka vai fazer? O QUE SHAKA PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?!" – pensava Kamus, totalmente confuso, enquanto assistia a cena.
Shaka nesse momento já estava alisando o abdômen de Milo por baixo da blusa enquanto continuava sussurrando no ouvido dele e alisando sua nuca. Milo já começava a se perder nas sensações que as caricias do loiro lhe provocavam, mas ainda continuava confuso.
- Milo, sei que está triste, mas deixe eu lhe ajudar...
- Co-como você pode me ajudar Shaka...? – perguntou um pouco relutante, mas visivelmente entregue àquelas carícias. Nesse momento, Milo sente a mão de virgem abandonar seu abdômen e segurar seu queixo, o puxando para perto de seu rosto. Foi então que sentiu seus lábios roçarem nos de Virgem e então este o beijou. No inicio não reagiu, mas também não correspondeu. Estava confuso, por que Shaka estava fazendo aquilo? Shaka, sem apartar o beijo, sussurrou para Milo – Deixa eu lhe ajudar Milo... O que você tem a perder? – é verdade... o que Milo tinha a perder? Milo então passou a corresponder o beijo. Abriu os lábios e deixou que Shaka explorasse sua boca e então fez o mesmo com ele. Os presentes na festa estavam boquiabertos. Quem poderia imaginar Shaka de Virgem beijando Milo de Escorpião? E este ainda por cima correspondendo? Ninguém acreditava no que via. Principalmente um certo cavaleiro de gelo...
Milo estava gostando de beijar Shaka, os lábios dele era macios e Milo estava precisando disso. Estava muito carente. Shaka explorava toda sua boca num beijo calmo, porém intenso. Não sabia que o amigo sabia beijar tão bem. Aliás, não sabia nem que o amigo sabia beijar! De repente seus pensamentos foram interrompidos por uma voz chamando seu nome. Apartou um pouco o beijo sem se afastar de Shaka para ver quem era e levou um susto: era Kamus! Ele estava ali parado, junto a eles, sério. Não estava entendendo mais nada!
- Milo, posso falar com você um instante...? AGORA! – enfatizou a última palavra. Milo piscava como se quisesse processar as informações. O que era aquilo?
- Tu-tudo be-bem Kamus... – mal falou isso e viu Kamus já se dirigindo para fora do templo. Olhou para Shaka que estava com o rosto virado para frente como se estivesse "olhando" a cadeira e foi atrás de Kamus. Todos assistiram mais surpresos ainda Milo sair do templo e Shaka dar um sorriso altamente suspeito. Ele havia aprontado uma? O Shaka? Todos estavam totalmente confusos. Todos, menos alguém... Dite que estava encostado numa parede atrás dos outros também ria de forma suspeita...
Milo seguiu Kamus até a sala do templo de aquário. Kamus permaneceu de costas para Milo. Não sabia o que dizer. Não sabia o porquê tinha interrompido o beijo, só sabia que não queria ele ocorresse.
- Kamus.... estou aqui... o que foi?
- ...
- Kamus...?
- Eu... eu... eu não... – respirou fundo – eu não sei Milo...
- Não sabe? Não sabe o que?
- Não sei por que lhe chamei aqui....
Silêncio.
- Kamus... vira de frente para mim... – apesar de estar com receio, virou – eu não to entendendo Kamus... eu...
- Eu não sei por que lhe chamei... só sei que não queria te ver beijando o Shaka.... – olhou para lado – mas também não sei por que isso...
- Kamus... não faz isso... – falou fechando os olhos e sentindo as lágrimas escorrerem. Kamus se odiou por isso. Estava fazendo ele chorar. De novo.
- Milo... espera... não chora... desculpe... mas... mas eu to tentando ser sincero... não gostei de ver você e o Shaka juntos... não quero que você me esqueça... – parou alguns segundos como se tivesse falado algo que não devia – Milo... eu to confuso... – sem perceber foi se aproximando do outro e quando se deu conta estava com o rosto bem próximo ao de escorpião, sentia sua respiração e ouvia seu coração bater acelerado. Viu que ainda chorava e sem perceber, de novo, limpou as lágrimas com o polegar, sentindo a maciez da face de Milo. Este, ao sentir o toque se estremeceu. Sua mente borbulhava, os pensamentos eram totalmente incoerentes, assim como os acontecimentos recentes.
Os dois continuaram se olhando, num silêncio angustiante, porém viciante. Nenhum dos dois queria quebrá-lo. Então, outra vez sem pensar, Kamus acabou com a distância entre os dois e o beijou. Um beijo tímido, no início. Apenas sentindo a maciez dos lábios do outro.
Milo não acreditava naquilo, mas a essa altura ela não queria mais pensar em nada. Nunca fora de pensar muito. E não seria agora que faria isso. Deixou-se envolver pelo momento. Queria ver no que ia dar. Já estava ali mesmo. Agora já era.
Kamus aos poucos aprofundou o beijo. Apesar de tudo, estava se sentindo bem. Estava se sentindo muito bem, beijando aquela boca, sentindo seu gosto, aquele corpo junto ao seu... não entendia o que era aquilo, mas sabia que estava gostando. Em instantes o beijo tornara-se intenso. Os dois se abraçavam, parecia que o mundo tinha sumido e só havia eles ali. Pararam de se beijar apenas quando acabou o fôlego. Milo continuou de olhos fechados enquanto Kamus abriu os seus. Estava tão confuso. Uma parte de sua mente dizia para sair dali agora, mas a outra parte não queria. Nem seu corpo. Viu a boca de Milo entreaberta, vermelha pelo beijo anterior, e teve vontade de beijá-lo de novo. Mas não podia; não sem dizer nada. Precisava falar algo, mas não sabia o quê.
- Milo...
- Kamus... se você tiver brincando comigo me fala logo... – falou voltando a chorar.
- Não Milo. Não é brincadeira. Eu... eu não sei por que te beijei mas sei que não foi por brincadeira. – olhou Milo nos olhos. Por algum tempo houve silêncio novamente.
- Milo... e se eu tentar....
- Tentar o que?
- Tentar... ficar com você...
- Ficar comigo...?
- É.... ser seu namorado... – Milo arregalou os olhos. O que era aquilo?
- Kamus não brinc...
- Não estou brincando Milo!! Eu já disse que não é brincadeira. Eu posso não saber o porquê disso, mas sei que não é por brincadeira!! Eu... eu ... eu gostei de lhe beijar... e de estar junto de você... eu não sei o que é isso mas é o que estou sentindo...
Milo olhava Kamus nos olhos. Conhecia o amigo, ele não estava mentindo. Dava para ver a confusão em seus olhos, mas também via que não era fingimento. Ele o havia beijado de verdade. E parecia querer fazer de novo. Mas ainda assim era tudo muito surtado.
- Você quer tentar ser meu namorado... por quê? – Kamus abaixou a cabeça e pensou, mas não conseguia encontrar nenhuma resposta.
- Eu não sei... mas.... – parou sem saber o que dizer.
Milo o continuava olhando-o enquanto pensava no que deveria fazer, até que uma hora se lembrou que quase nunca pensava, então... por que faria agora, né? Que seja lá o que Zeus quiser... Ele não perderia a chance de ficar com Kamus, mesmo que venha a ser por pouco tempo... que se danasse tudo e todos.
- Kamus... eu aceito...
- Hein?
- Eu aceito tentarmos ficar juntos. – terminou de falar e o beijou. Beijou tentando mostrar toda paixão que sentia. E continuaram se beijando, selando o começo de um relacionamento que parecia que seria tão conturbado quanto seu início.
Continua...
