Seven
Sisters
Petit
Ange
"(...)
And all the fears you hold so dear
Will turn to wisper in your
ear
And you know what they say might hurt you".
– Duvet
(BoA).
Segunda Noite: Eu Era 'Eu' e Só.
'Que canto mais cretino. Odeio pássaros...'
Provavelmente, mais um domingo em sua vida. Acordar (obrigada) de manhãzinha (nove da manhã! É praticamente madrugar!), escovar os dentes, tomar banho, passar protetor solar e fazer qualquer coisa que não fosse ficar dentro de casa (ordens da avó que cuidava da casa no luto do pai). Geralmente, esses domingos resumiam-se em passar o dia debaixo do escorregador do prédio dela, com aquelas casinhas chatas que as crianças pisavam e derrubavam areia nos cabelos de quem estava no balanço, no caso, ela.
Mas sua sorte é que o albinismo presenteou-a com seus olhos vermelhos de demônio (de acordo com o que diziam). Graças à isso, além de afastar colegas, afastava criancinhas também. Um perfeito bicho-papão. E elas ficavam brincando bem longe do lugar onde estava lendo, e ela podia balançar-se brevemente e pôr a leitura em dia. Às vezes, chegava a ler um ou até dois livros por domingo, dependendo da quantidade de páginas e o afinco com que dedicava-se à tarefa.
Saudades do apartamento da avó. Ele cheirava a pão recém preparado quando ela chegava. E, mesmo tendo raiva de si mesma por agir de forma tão mimada e idiota, fingia que nem se importava com o fato, mas na primeira oportunidade, já estava sentada e comia-o com um pouco de manteiga e um café quente. Não havia melhor tarde do que a de domingo.
Canto cretino. Aquele sol também não cooperava em nada. Virou-se, resmungando qualquer coisa que nem a própria entendeu, cobrindo seu rosto ainda mais nas cobertas pesadas de Inverno.
Mas... Espere aí. Ela mudou-se, não é? Seven Sisters, o nome. Mudou-se ontem.
Estava vindo, eles bateram, ela e seu pai, numa coisa no meio da rua e ela voou. Henry Dawson foi ajudar a criatura e, então, sua vida deu uma guinada de 360º. Em questão de minutos, ela foi jogada do Céu ao Inferno. Chutada, seria a palavra certa. Fugiu de coisas bizarras e que vagamente lembravam pessoas, deixou seu pai para morrer e desmaiou. Desmaiou no meio da rua!
Sentou-se num susto, esquecendo-se do frio da manhã, do clarão do sol ou dos passarinhos que ainda persistiam em contrariar seus pensamentos silenciosos.
Viva. Estava viva.
Só então deu-se conta de onde estava.
Até então, tudo era automático e tinha o mesmo valor de amarrar sapatos. Estava sentada na sua cama, com sua camisola branca de Inverno e seus detalhes espalhafatosos, no quarto de sua provável casa nova da cidade que a recebeu tão mal. Seus livros, computadores, mochilas, até o armário de estimação... Tudo ali. Só podia ser sua casa, então. Mas Aileen lembrava-se claramente de ter desmaiado de roupa e no meio da rua. Qual seria, aliás? Nem lembrava direito dela, na verdade.
Mas ela tinha certeza de que estava esquecendo-se de algo. Precisava lembrar, mesmo sendo estranho ficar assim por um provável sonho. Ah! O PAI!
Naquele momento em especial, sua cabeça e sua lógica impecável não se importaram em considerar aquilo tudo um sonho ou uma realidade bizarra. Apenas pensou em Henry, naquele homem que ela viu sendo coberto de criaturas, gritando-lhe para sair dali. No fundo de seu coração, ela preparava-se para o caso de encontrar a cozinha ou o quarto vazio. Aí, seria um problema.
Deixou o quarto e esqueceu-se até das pantufas, não se preocupando em sujar as meias. Não ouvia absolutamente nada. O mesmo silêncio perturbador. Por algum motivo, odiou aquele silêncio que a desesperou ridiculamente por causa de um sonho mais preocupante que os habituais. Afinal, aquilo não podia ter acontecido mesmo, não é?
"...Pai?" – sussurrou quando entrou na cozinha. Precisava falar alguma coisa ou ela própria não suportaria aquele silêncio.
Nada. Absolutamente nada. Então, de alguma forma, aquilo realmente aconteceu.
Sentiu que as pernas iriam traí-la e que ia desmaiar. Segurou-se na mesa antes que isso acontecesse. Aileen passou a mão trêmula pelos cabelos loiríssimos, tentando processar as coisas. Não, quem sabe ele estivesse dormindo. Afinal, é um domingo, não? Tem de estar dormindo. Aquilo tem de ser só um sonho ruim protagonizado pela própria. Todos os sonhos são assim, oras.
O corpo ganhou vida nova quando decidiu-se olhar lá. Só podia estar dormindo. Aproximou-se devagar, afinal, ele devia estar cansado de tantas horas de viagem. Chegaram bem tarde, afinal, ela mal lembrava. Devia ter dormido fundo no meio dela e o pobre senhor Dawson ficou com o trabalho pesado (ah, é claro, como se ele tivesse levado as malas e os móveis...).
Chegou em frente a porta que julgou ser do quarto dele. Abriu cuidadosamente, não fazendo nenhuma espécie de ruído no processo. Grande objeto!, ao menos, aquela casa era bem novinha pra uma de interior.
Piscou muitas vezes até acostumar-se com aquela visão e todos os sentimentos que vieram depois dela. Henry Dawson dormia a sono solto, naquele pijama ridículo que ele sempre providenciava quando não tinha a menor vontade de trocar-se. E então, veio o alívio. A sensação de sentir-se ridícula por colocar tanta fé num sonho patético (provavelmente, ler alguns livros de mistério fizeram mal à sua cabeça).
O pai estava vivo. Não havia sido morto por aquelas criaturas estranhas. Vivo! Ela própria estava viva e em casa!
Não importava o porquê disso. Neste momento, e como sentiu-se tosca por isso, ela só estava feliz por estarem ambos em casa e a salvo.
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Aileen não sabia se o pai, quando acordasse, iria direto para a cozinha ou o quê, mas achou que um bilhete discreto lhe alegrasse mais a vida. Afinal, ela escreveu que ia sair e conhecer um pouco da área. Na verdade, não suportaria, depois daquilo, ficar encarando o pai. Coraria de vergonha na hora.
Nestes momentos, ler 'The Dark Tower' de Stephen King, parecia a única coisa que ainda valia a pena fazer. Claro que ela já havia lido os sete, mas fazia tanto tempo que nunca mais tocara no primeiro que ler de novo não doeria nada, não.
Infelizmente, devia admitir para si que a idéia foi impensada e idiota, porque nem todos os protetores do mundo tirariam ela daquela paranóia com o sol. Quando era pequena, os pais levaram-na para a piscina. Em questão de minutos, ela estava tão queimada que até teve de ir para o hospital. Lembrava-se que a mãe só ficava temendo que ela tivesse fotofobia (o que, graças a Deus, provou-se falso depois. Albina e com fobia de luz era só o que lhe faltava...) e o pai estava tão nervoso que nem falava nada, mas a direção e o carro davam solavancos a todo instante.
Eram bons tempos aqueles, admitia. Mas acabaram, e agora, ela estava com aquele homem de suas memórias ali, naquela cidade de interior, buscando abandonar para sempre as memórias daquela mulher de cabelos loiros e sorriso gentil.
Como a cidade era pequena, não seria difícil (esperava) encontrar algum local onde sentar-se até o meio-dia e ler um pouco. Incrivelmente acordara cedo demais, e seus olhos doíam só de pensar em olhar para o sol agora. Ah, o sol iria queimá-la. Odiou pensar na possibilidade, mas teria de correr para não queimar. O livro protegeu-lhe o rosto e os pés vagaram pelas ruas.
Dava até uma sensação de liberdade correr naquelas ruazinhas tão vazias. Uma ou duas pessoas apareciam no fundo do cenário, mas ela teve a certeza de que não eram horrendas como aquelas de seu sonho bizarro de ontem. Teve certeza até pisar em falso na esquina.
'White Hill' era o nome da rua, mas não era exatamente isso que chamava sua atenção. Era o fato daquela ser a rua onde ela desmaiou. E disso não tinha dúvidas. Lembrava até o local exato, ali perto da própria esquina, no meio do asfalto. Não havia nenhum carro quebrado mais para lá, nenhum monstro bizarro perseguindo-a e ela estava apenas arfante da corrida contra o sol. Mas, se estava dormindo, como diabos ia lembrar-se ou até sonhar com um lugar que nunca viu antes? Isso significaria dizer que, de certa forma, devia considerar aquele devaneio horroroso, aquele sonho onde o pai morreu e ela certamente também, era real? Até que nível, se fosse assim?
Meneou a cabeça, não querendo mais pensar nisso. Só queria achar um banco e ler. Passou a mão pelos cabelos. Aquilo iria virar um tique, pelo visto. Achava-se visivelmente nervosa agora.
"Ah, ainda bem... Um banco..." – suspirou aliviada quando, ao girar a cabeça, avistou um. E, o que era melhor, bem debaixo de uma frondosa árvore do parque. Questão de atravessar a rua nada movimentada e pronto.
Foi o que fez, e ao chegar ali perto, abençoou o destino por ser gentil com ela ao menos uma vez na vida e lhe dar um bom domingo e o silêncio restaurador para ler em paz até a hora do almoço. Abriu na primeira página, já até sabendo de cor como ele começava, afinal, a série era inesquecível depois que se lê toda. Um pouco de Roland, e ela certamente esqueceria aquele sonho chato e tão real.
Leu em questão de segundos e estava preparando-se para virar a segunda página, quando ouviu um estrondo. Tirou o livro da cara e só conseguiu avistar um amontoado de cabelos lavanda cobrindo um rosto e costas de algum corpo jogado no chão.
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"Me desculpe...!"
"Eu já disse que está tudo bem."
A jovenzinha franzina de cabelos castanhos continuava com aquela pose excessivamente formal que nem parecia britânica. Ou era britânica demais. Enfim, Aileen tinha de confessar que chegava a ser meio perturbador uma pessoa ficar pedindo tantas desculpas assim. Não estava acostumada mesmo nem com mais de um 'oi'.
"E ainda estou obrigando-a a carregar essas coisas... Realmente, me desculpe."
"Tudo bem, eu me ofereci para isso, lembra?" – a loira suspirava, mantendo um sorriso polido, mas variando entre o medo daquelas atitudes e o tédio pelas mesmas.
"Mas é que..."
"A senhorita Elise nem parece combinar com as roupas que usa fazendo todo este estardalhaço por um tombo acidental, sabia?"
E então, a albina calou-se. Afinal, sentiu como se tivesse pisado num terreno muito acidentado e nada bom. Nunca teve lá muito tato com as pessoas, e isso refletia-se muito nas suas palavras e atitudes. Afinal, todos sempre tiveram medo dela e seus olhos vermelhos de demônio.
Encarou de soslaio a menina que caminhava ao seu lado com algumas das sacolas de compras. Ela era bastante bonita, e mesmo sendo mais baixa que Aileen, isso não influenciava muito. Tinha curvas muito bem feitas para a idade (aparentava, afinal, ter mais ou menos a dela), e os olhos eram de um castanho tão perfeito. Ela toda era invejável. Até as roupas que usava: acessórios punks, como spikes e correntes. Mas isso era uma porrada na face quando mostrava-se aquela menina excessivamente meiga e formal. Tão humana que nem parecia que haviam se conhecido há menos de cinco minutos, com a tal Elise sempre falando e falando.
"Não me chame de 'senhorita', é tão... Sei lá, mas parece que nem somos amigas, não é?! Pode me chamar de Elise mesmo, ora essa!" – sorriu a jovem.
'Será que toda menina de 16 anos é surtada assim mesmo?', pensou a loira com seus botões. Mas não soube achar a resposta da dita pergunta. Se bem que havia feito-a de forma retórica, mas enfim...
"Está certo, sinto muito."
"Ah! Muito obrigada mais uma vez por me ajudar com essas compras!" – ela falou, andando mais a frente dela, mas virada totalmente para a outra. – "Eu estava tão animada que fui correndo e nem vi aquela elevação da calçada. Foi muita idiotice a minha, muito obrigada por ter me ajudado!"
'Pessoas como você devem estar sempre tão animadas por nada, não?', voltou a pensar. Dawson começou a achar que, para tratar-se com a tal senhorita Elise, seria apenas alguns monossílabos e muitas conclusões mentais bem ácidas.
"Não tem problema, é sempre um prazer ajudar."
E, agora, a própria Aileen pegou-se impressionada por ver aquela menina quieta. A mesma olhava-a muito curiosamente, mas tentava ao máximo ser discreta (que tristeza... Tão retardada que nem sabia fazer isso). A albina deu de ombros, afinal, não seria a primeira nem a última a ficar curiosa com sua pele branquíssima ou a cor dos olhos (que, por serem vermelhos, geneticamente é como se não tivessem cor, mas enfim...).
"Aileen, você não quer ir para a sombra?"
"Como é...?" – desta vez, até a própria senhorita-cética ficou surpresa.
"Ah, é que até onde estudamos, pessoas com a pele muito branca, ainda mais albinos, como você..."
Lábios ainda mais boquiabertos.
"A senhorita achou que eu não notei...?!" – e, por alguma razão, Elise pareceu ainda mais desconcertada por isso.
Corou realmente, e se pudesse dizer isso, até mais do que uma pessoa pálida poderia fazê-lo. Afinal, assim até parecia que ela era uma menina muito má que só fingiu não notar para poder ficar admirando mais o 'pequeno monstro' ou senão mais uma preconceituosa que achava que gente muito mais pálida que o normal precisava de um tratamento à base de dó e palavras graciosas.
"...Realmente, agora fiquei surpresa."
"ME DESCULPE!"
"Não! Não precisa atirar-se no chão...!"
Será que conviver com humanos era tão cansativo assim? Menos de dez minutos e Aileen Dawson já estava cansada, aliás, do fundo da alma. Lembrou-se repentinamente de um livro que lera, onde a protagonista também estava... 'Atrofiada' em relação aos outros. Sempre gostou daquele livro. Era assim, afinal, que se sentia.
A única coisa boa daquele berro e aquela sensação de vergonha e cansaço mental foi que a menina parou imediatamente de tentar atirar-se ao chão e implorar perdão à moda antiga. Ajeitou a saia e sorriu radiante, aquele tipo de sorriso que ofuscava totalmente a garota.
"Está certo! Me desculpe, então! Podemos continuar!"
Ambas continuaram a andar, e desta vez, Aileen respondia com um pouco mais de palavras os comentários habituais que a garota fazia. Perguntas que variavam entre "e vocês não sofrem no Verão?" até "ah, então os seus pêlinhos são bem branquinhos assim também, é?!" (ok, ela admitiu que nesta pergunta ficou tão corada e impossibilitada de responder que a própria Elise tirou suas conclusões e ainda começou a rir do fato de branquelos terem uma vergonha ainda mais pronunciada, no que diz respeito ao corar das faces. Maldita doença).
Pela primeira vez, a garota estava tendo um contato humano de verdade, não aquele polido, respeitável, porém distante, que mantinha com os outros. E admitia só para si que, de alguma forma, até que aquela cidadezinha e aquela sua habitante eram bem divertidas.
Só que o encanto acabou de repente quando ela ouviu a voz da menina dos cabelos lavanda, aquela voz sempre emoldurada com o sorriso radiante.
"Acho que aqui está bom, Aileen."
"Hã? Mas aqui é só..." – 'uma esquina e um bando de prédios velhos', completou em pensamento. Totalmente diferente do que imaginava para ela.
"Tudo bem, eu agradeço bastante tudo que fez por mim, mas agora eu posso me virAAAAII!..." – berrou Elise, quando virou em falso e acabou indo ao chão mais uma vez. E, naquele instante, a albina soube que essa seria uma cena muito comum em sua vida, de alguma forma.
"Tem certeza de que pode ir sozinha...?" – o livro de Stephen King voltou a cobrir o rosto pálido dos raios malignos.
"Absoluta! Muito obrigada mais uma vez e até mais, moça Aileen! Foi um prazer conhecê-la!" – ela sorriu com a mão livre de sacolas, abanando-lhe, e correndo para o lado oposto. É claro que a outra não esperou-a sumir para seguir caminho.
Sua mente perfeita também era exímia na arte da memorização, logo, ela havia gravado o caminho daquele local até sua casa. Mas quando chegou na maldita rua de seu sonho, engoliu em seco. Por algum motivo, não gostou, mesmo sendo um domingo ensolarado, de estar ali. Sentiu como se alguém estivesse pressionando suas costas e garganta. Algo bem desagradável.
Os passarinhos que pousaram perto dela despertaram-na daquela avalanche de memórias tão aterradoras. E só então ela notou que, muito provavelmente, estivera ali parada com cara de boba o tempo todo.
"Que coisa! SAIAM DAQUI!" – chutou o ar, espantando os pequeninos. – "Droga... Eu realmente odeio pássaros." – resmungou.
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Não foi um dia ruim. Chegar atrasada para o almoço e encontrar o pai comendo um miojo qualquer na sala, muitos problemas para ele fazer mais um (qual a dificuldade em preparar um pacote que só precisa largar 3min em água fervente? Ou os homens são muito retardados ou seu pai era o macho-alfa em questão), e depois, uma bela tarde assistindo alguns filmes e jogando Banco Imobiliário. No fim da tarde, Henry foi ajeitar suas coisas para o trabalho de amanhã e Aileen as suas para a escola.
Olhar para o pôr-do-sol daquela cidade era como ver alguma pintura que ela tinha de analisar nas aulas de Literatura Clássica. Nunca iria dizer isso em alto e bom som para alguém, mas era uma paisagem extremamente bonita. Se bem que eles ficaram jogando tanto Banco Imobiliário (e depois ainda deu A.I.! É um clássico!) que nem havia mais sol direito. Já estava bem escuro, até. E era tão cedo.
Por isso, adorava o Inverno. Tudo anoitecia rápido e ela podia aproveitar o sossego do lar e a ausência completa do sol maldito.
A garota estava passando em revista o seu dia enquanto arrumava a mochila. Conhecera a menina Elise, e algo em seu ser lhe dizia que ainda ia continuar vendo-a muito. Talvez fosse a sensação de que seriam colegas... Enfim, e depois, ainda conseguiu ler, assistir e divertir-se um pouco. Era até divertido, tinha de admitir, poder interagir com o pai de novo.
Aquele sonho maluco que tivera na noite anterior nem parecia mais tão horrível assim. Afinal, de certa forma, ele a fez ver que realmente precisava aproximar-se mais do velho. Não que parara de ser ranzinza de uma hora para a outra, mas...
Estava fechando sua mochila, e junto com o som do fecho, veio um grunhido.
Aileen parou e instintivamente retesou-se em seu lugar. Ergueu-se, meneando a cabeça e sentindo-se uma criancinha impressionada com o filme do Boneco Assassino. Abriu a porta sem nenhum som e virou sua cabeça.
"O que foi, pai? Bateu o pé na parede de novo?"
Suas orbes vermelhas, entretanto, não estavam preparadas para absorver a imagem grotesca: seu pai não estava mais ali. Em vez disso, o que ela via era algo disforme e retorcido, algo que vagamente lembrava ser uma pessoa. Mas, apesar de tudo, ele estava vestindo algo que assemelhava-se às roupas que o homem estava usando naquela noite, quando morreu. A mesma roupa ensangüentada e rasgada.
Um grito estridente saiu de sua garganta sem que tivesse controle sobre a voz. Imediatamente, fechou a porta, trancando-a a chave e correndo para o canto do quarto. Encolheu-se, trêmula, fechando os ouvidos. Não quis acreditar no que viu. Não queria acreditar que sentia as pernas bambas e a bexiga relaxada.
Foi tão automático que, talvez, ela possa ter visto coisas. Sim... Talvez ela só tivesse visto demais. O pai devia estar preocupado, então, com o seu berro.
A quem ela queria enganar? A resposta veio quando ouviu sons do outro lado. Como se alguém tentasse arrombar a porta, ou simplesmente, arranhá-la até que ela cedesse. Então... Não era mentira? A coisa grotesca realmente era o senhor Henry Dawson que ela derrotou três vezes no jogo hoje?
Lágrimas assomaram-se em seus olhos. Lágrimas geladas e sem controle, como as que derramou na noite anterior, naquela rua.
'Socorro', era tudo que repetia muito baixinho. 'Por favor, socor...'.
Até o fluxo de pensamentos parou quando o som dos arranhões e grunhidos simplesmente sumiram. Como se o pai tivesse evaporado-se no ar. Ainda tremendo, encolhida no canto do quarto, ela tentou pôr as conjecturas em ordem. Talvez, fosse ainda uma ilusão de sua mente. Ou talvez, ele tivesse cansado-se. Logo, estava segura ali, não é? Ao menos ali.
Ledo engano. E Aileen aprendeu da pior forma que nem na sua casa teria mais segurança quando o som da porta despencando sobre o chão passou pelos ouvidos. Mas ela já sabia, porque a imagem daquela coisa grotesca de pele branquíssima manchada de sangue coagulado derrubando sua porta apareceu antes do som da mesma caindo. Foi tão rápido e tão assustador que ela simplesmente não conseguiu se mexer. Não quis acreditar, definitivamente, que aquilo estava acontecendo com ela.
É só mais um sonho, e ela iria acordar num domingo glorioso, na sua cama, no friozinho gostoso da manhã e preocupada com seu pai de novo.
Tinha de acordar... Tinha de acordar...
Mais um ledo engano. E, desta vez, ele custou à ela a visão de uma boca anormalmente grande, se comparada àquela cabeça disforme, e cheia de dentes retorcidos e pingando saliva abrindo-se.
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Incrível como tudo de muito bom ou muito ruim na vida acontece de forma muito rápida. Quando ela notou, simplesmente havia corrido casa afora, sem um destino definido. Teve até um dejà vu em certo momento da jornada, mas logo, quando pôs os olhos em algo que não fosse o caminho a sua frente, soube porquê: aquela era a 'White Hill'. A rua onde desmaiou em seu primeiro dia ali e por onde estava correndo agora.
Não. Agora que podia correr e fugir daquele ser, sentia-se calma o suficiente para lembrar com clareza que levou uma mordida. Aquela boca lhe mordeu. Seu próprio pai tentou devorar-lhe. Aquilo não era seu pai. Não era Henry Dawson. Ele nunca faria isso. Aquele ser anormal que parecia-se com seu pai apenas na roupa esfarrapada tentou comê-la. Não poderia descrever o pânico com o qual debateu-se e acertou-lhe com o livro de Stephen King. Capa dura, versão atualizada... Muito bom aquele golpe. A criatura grunhiu e lhe deu tempo suficiente para sair correndo aos berros. Mas agora, ela não gritava mais. Afinal, sabia que, tal qual a noite anterior, ninguém viria ao seu socorro. Estava totalmente sozinha.
Seu ombro ardia. O ombro doía tanto, tanto. Afinal, foi bem ali onde um pedaço arrancado de roupa e uma poça de sangue descansavam agora. O sangue pingava aos montes, e ela sabia que, certamente, chamaria a atenção de outras criaturas como aquela. Porque ela sabia que haviam mais. Elas estavam aos montes, tão disformes quanto aquela que encontrou dentro de sua própria casa.
A garganta torcia-se, como se estivessem a sufocando. Era muito aterrador. E ela conseguia ver aquelas coisas aproximando-se. Vinham de todos os cantos. Ela podia vê-las lá longe, e as mesmas também conseguiam ver seus olhos vermelhos. Presa numa cidade maldita e sem saída. Grande fim o de uma albina que só queria passar num bom Vestibular e morrer dormindo.
As pernas continuavam correndo, mas a dor na lateral da barriga, clássico sinal de que ela praticava muito pouco exercício, começava a aparecer. Logo, a dor seria tanta que ela estaria se curvando e não conseguiria mais andar. E, somado à dor de seu ombro lascado, seria tudo que precisava para morrer. Morrer com a dor de ser estraçalhada como um cervo por uma leoa.
"POR FAVOR, ALGUÉM ME AJUDE!..."
Seria esse o grito dos oprimidos? Quem sabe... Aileen notou que havia gritado em meio ao próprio desespero silencioso quando exclamou a última parte da frase. Mas quem diabos iria salvá-la? Até parece que naquela cidade maluca existiria alguém que viesse.
Tal percepção a desproveu de toda vontade de lutar. Sozinha. Morreria sozinha. As pernas que corriam sozinhas não tinham olhos, e os vermelhos dela estavam ocupados em chorar e encarar o nada, e então, tropeçaram, levando seu corpo pálido ao chão. Irônico. Muito irônico. Foi o mesmo local onde, naquela manhã, ela viu a senhorita Elise tropeçando. Seria realmente defeito daquele pedaço de chão? E por que diabos ficava lembrando-se disso na hora em que iria morrer?
Pensou que iria começar a ter milhões de flashbacks de sua infância tosca, das piadas e apelidos que seus coleguinhas dignavam à ela e seu problema, e... Enfim, levaria algumas mordidas e morreria por falta de sangue ou um colapso.
'E assim, termina a vida de Aileen Dawson. Foram dezesseis anos infernais e ela teve uma morte ainda mais infernal', pensou, entremeando neste pensamento um sorrisinho irônico. Ei, isso podia até virar uma frase bonita na sua lápide. Isso se alguém tivesse coragem de remover seu cadáver devorado dali.
Fechou os olhos, e que o fim viesse logo. Já ouvia até os grunhidos daqueles seres disformes que assombrariam todos os seus pesadelos pós-morte.
"Não acreditei quando ouvi seu grito de socorro." – disse alguma coisa (ou seria alguém? Seria mesmo alguém?). – "E faz o favor de abrir esses olhos, garota! Você quer morrer, é?!"
Estava ouvindo errado ou uma voz de menino lhe dirigiu a palavra agora? Abriu os olhos escarlates, espantadíssima, para ver na sua frente, tal qual seus ouvidos comunicaram ao cérebro, um garoto de olhos claros.
Continua...
Agradecimentos: Mais uma vez agradecendo imensamente à toda propaganda feita pela Josiane Veiga à fanfic e também aos seus pitacos. Sempre são muito inspiradores para mim, sério. Fico imensamente agradecida também pelos comentários recebidos. Muitíssimo obrigada a todos. ^^~
Próxima Noite: Seven Sisters.
