Capítulo Dois: Mentiras Verdadeiras
De volta ao apartamento de Scully, eles fizeram um curso intensivo sobre escândalo Ryerson usando jornais que foram empilhados na cesta de lixo dela durante sua estadia no hospital. Mulder dividiu a pilha entre eles na mesa de café, com a pizza acomodada no meio, enquanto Scully buscava duas sodas na geladeira.
Uma olhada rápida na data de vencimento disse que ainda podiam ser consumidas. Scully parou por um momento para pensar que ela poderia ter 'vencido' antes de sua comida.
"Cerveja de gengibre?" Mulder perguntou quando ela lhe entregou uma lata.
Por semanas, era tudo o que o estômago dela conseguia segurar. Cerveja de gengibre e chá fraco. "Pegue ou saia," ela disse enquanto caía no sofá.
Mulder pegou. Ele sentou no final do sofá com um pedaço dobrado de pizza na mão e a primeira página do "The Washington Post" aberta nas pernas. Do lado dela, Scully ainda podia ler o título na página amarela: ASSISTENTE DO CONGRESSO MORTA.
"Rachel Campenella, 27, foi encontrada fatalmente esfaqueada no apartamento dela ontem de manhã," Mulder leu em voz alta. "A mãe de Campenella, Joy Campenella, 54, descobriu o corpo da filha quando chegou para levá-la à igreja."
"Que horrível," disse Scully, tremendo ao imaginar a cena. Ela puxou o cobertor fino do colo dela mais para perto. Essa era uma das aquisições prolongadas da doença; ela ainda se esfriava com facilidade.
"Campenella foi contratada ano passado como assistente do escritório do Senador Ryerson. O escritório soltou um breve comentário de Ryerson dizendo, 'Estou horrorizado ao receber essa notícia terrível. Rachel era uma mulher viva e inteligente, com uma ambição tremenda e uma compaixão sem fim. Ela era verdadeiramente iluminada, e o mundo é um mundo mais sombrio sem ela. Minhas profundas condolências e orações vão para sua família neste momento'."
"Comovente," disse baixo Scully, enquanto pegava uma edição mais recente. Essa continha um título: RYERSON NEGA CASO. "Diz aqui que ele estava discutindo com ela na sexta antes de ela ser morta."
"E diz sobre o que?"
Scully virou os olhos. "Não. Mas espere um segundo aí, Mulder. Pelas minhas contas, temos duas mulheres mortas à facadas dentro de um prédio de apartamentos num intervalo de dois meses. Coincidência?"
"Pode ser. Esfaquear é um crime tão pessoal, especialmente do modo como essas mulheres morreram. Quem quer que as tenha matado, só veio para cima delas com uma faca. Você poderia pensar que, se o assassino de Melinda e de Rachel são o mesmo homem, ele seria fácil de se encontrar. Alguém que conhecia Melinda e Rachel e odiava as duas."
"Isso descartaria o Ethan."
"Não há nada aqui sobre a arma do crime," disse Mulder, quando pegou outra folha. "Talvez tenham descoberto depois." Ele olhou outro jornal e balançou a cabeça. "Nenhuma faca achada na cena do crime e nenhuma faltando na cozinha. O assassino deve ter chegado preparado e levado a faca com ele quando foi embora."
"Então, quem quer que tenha sido, foi ao apartamento com a intenção de matar. Melinda foi teoricamente morta com uma arma conveniente – a faca da cozinha do Ethan."
"Sem sinal de entrada forçada," Mulder continuou lendo. Ele balançou a cabeça e jogou o papel de volta na mesa. "Esses dois homicídios são tão diferente quanto são parecidos. Não há como dizer com certeza se estão ligados."
Scully encostou e esfregou os olhos com uma mão. "Tudo o que eu sei é que Ethan não poderia ter feito isso. Ele nem ao menos me deixava matar uma aranha se ela entrasse em casa."
Mulder sorriu para ela. "Você tem o hábito de matar aranhas, Scully? Quer sua foto estampada nos correios das aranhas por todo o país?"
"Eles deveriam saber antes de invadirem minha banheira."
Quando ela não disse nada mais, Mulder se esticou e tocou o joelho dela. "Vai ficar tudo bem, Scully. Eles têm um caso sólido contra Ethan, mas não está sem furos. Um bom advogado vai soltá-lo logo, logo."
"Ele nem ao menos chamou um advogado. Acredita nisso? Em vez disso, ele chamou a mim."
"Eu acredito. Eu sempre te chamo primeiro sempre que levo uma pancada." Mulder tentou fazer graça de novo, e desta vez, Scully sorriu.
"É diferente," ela respondeu, cutucando a perna dele com os dedos do pé. "Você geralmente liga de alguma instalação governamental subterrânea que requer violação da Segurança Nacional para te tirar de lá."
"Hey, tenho sido um bom menino ultimamente!" Mulder protestou com um sorriso.
Scully suspirou e encontrou o olhar dele. "Sim," ela concordou, suavemente. "Com certeza tem."
Aquele momento durou até Mulder desviar o olhar, parecendo embaraçado. Ele começou a pegar os restos do jantar deles. "Eu deveria ir embora, para você descansar," ele disse.
"Você não tem que ir embora." Scully o seguiu até a cozinha, onde ele estava colocando os pratos na pia.
Ele enrolou a camisa para cima enquanto a água corria, e Scully se pegou olhando para os cabelos úmidos do antebraço dele.
"Dez horas atrás, você estava em um hospital," Mulder disse a ela, como se ela não estivesse inacreditavelmente a par deste fato. Ele apertou a quase vazia garrafa de detergente muito forte e bolhas flutuaram no ar entre eles.
Scully assistiu as mãos dele correrem para frente e para trás nos pratos ensaboados. "Eu posso fazer isso," ela disse sem muito entusiasmo. Era muito mais divertido assisti-lo.
"Não tenho dúvida. Mas você chegou tarde demais. Já está feito." Ele enxaguou um prato e o levantou para inspeção.
"Meu herói."
Mulder secou as mãos na parte de trás da calça e começou a andar em direção à porta, pegando a jaqueta do encosto da cadeira quando passou. "Eu te ligo amanhã."
"Mulder, espere," ela disse, e ele se virou, com a jaqueta meio vestida e olhou para ela, com expectativa. Ela encostou na porta, como uma acompanhante de baile tímida. "Eu só quero te agradecer. Sabe, por me pegar no hospital hoje, e por... bem, por tudo."
Ele se curvou para ela, tão perto que ela podia cheirar sua pele e sua jaqueta e a cerveja de gengibre em seu hálito. Ela fechou os olhos.
"Quando quiser, Scully," ela o sentiu sussurrar, e então ele foi embora.
Scully piscou e tocou a bochecha corada. Essa foi a primeira vez, em mais de uma semana, que ele não lhe dera um beijo de despedida.
Por muitas luas, Mulder tinha estado feliz sozinho no porão do prédio Hoover. Ele tinha agradecido pelo grosso chão de concreto que o protegia dos passos no andar de cima. Um escritório de esquina num sótão teria sido sinal de mais sucesso, mas Mulder estava satisfeito com seu porão à prova de fumaça e suas paredes com armários para os arquivos.
Ninguém o incomodava ali. Nenhum colega intrometido parava a cada cinco minutos para pedir sua opinião sobre os casos, como costumava ser todos os dias na SCV e na UCC. Ninguém cochichava pelas suas costas na máquina de café. Ninguém furtava seus lápis, usava seu material ou espiava por cima do seu ombro os seus e-mails.
Ele continuou lembrando a si mesmo do quanto ele havia apreciado aquele glorioso silêncio, até que ele se sentou no escritório sem-Scully pela terceira semana seguida. A mesa dela juntava poeira nos cantos; as plantas dela haviam murchado.
Um jornal jazia aberto pela metade, aberto em um artigo sobre DNA de insetos. Mulder sabia disso porque ele havia checado uma dúzia de vezes. Ele até havia terminado a leitura do artigo para ela, não que ele tivesse realmente entendido tudo. Mas ele tinha se preparado caso ela tivesse pedido em seu leito de hospital, "Eu queria saber como aquele artigo termina?" Agora, estava esperando ela voltar e pegá-lo, como se nunca tivesse ido embora.
Mulder tentou não contar os minutos.
Acabou sendo menos minutos do que ele havia imaginado, porque logo antes da hora do almoço, ele ouviu o som de passos familiares no corredor. Ele levantou os olhos bem a tempo de pegar Scully passando pela porta.
"Bom dia," ela disse, copo de café na mão e a pasta ao lado dela.
Mulder encostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito. "Agente Scully, você deveria estar de licença médica essa semana. Eu vi os papéis."
"É por isso que estou aqui extra-oficialmente," ela explicou, enquanto ia até sua escrivaninha.
Mulder olhou para o terninho, a identificação do FBI preso na lapela e a SIG presa perto do quadril. "Mesmo? Essa é uma arma muito oficial que você tem aí."
"Mulder, você ainda está checando minha arma depois de todos esses anos? E eu aqui pensando que o romance havia acabado." Ela retirou o laptop e o colocou na mesa. Ele continuou olhando para ela até que ela lhe deu um suspiro exagerado e encontrou o olhar dele. "O que você quer que eu faça, Mulder? Ficar sentada em casa, assistindo Oprah o dia todo?"
"São férias remuneradas, Scully. Sabe quantas pessoas matariam por isso?"
Ela lhe deu um olhar que sugeria que ele acabaria morto se insistisse nesse interrogatório. Mulder levantou ambas as mãos.
"Eu desisto. Pode trabalhar."
"Não é trabalho," ela disse. "É o Ethan. Eu queria fazer uma pequena checagem no Senador Ryerson. E, antes que você diga qualquer coisa, eu sei que isso não é responsabilidade minha, mas se alguém o está acusando..."
"Scully."
"... quem quer que tenha sido, está numa baita encrenca por ter armado pra ele, e não creio que já tenham terminado o serviço."
"Scully!"
Ela parecia aborrecida. "O que?"
Ele virou o monitor para que ela pudesse ver no que ele estava trabalhando: uma checagem dos antecedentes do Senador Ryerson. Scully lhe deu um sorriso lento e chegou perto para checar os resultados.
"Algo de bom?"
"Nada que grite 'Eu matei minha amante', se é isso que está perguntando. Ele é filho de um juiz da Suprema Corte de Illinois e neto do Senador Augustine Ryerson, também de Illinois. Ele foi para a faculdade de Direito *e* Negócios de Harvard, onde ele conheceu sua esposa, Julianne. Eles estão casados há 32 anos e têm dois filhos crescidos. Não há sinal que ele tenha já tenha tido problemas com a Lei."
"Sabe, acho que lembro de alguma coisa sobre a mulher dele, agora que a mencionou. Ela não estava fazendo tratamento por abuso no consumo de drogas há alguns anos?"
"Sim, ela cessou a reabilitação em 1993. Nada, desde então."
O celular de Scully tocou na bolsa e ela foi pegá-lo. "Alô? Oh, oi, Dr. Kwan. Como vai? Sim, claro que tenho um minuto. Agora? Claro. Quando você quer encontrar?"
Ela desligou um momento depois com um olhar enigmático no rosto. "Henry Kwan quer nos encontrar no shopping em vinte minutos."
"Ele disse por quê?"
"Não, mas presumo que é sobre Melinda. Eu não tenho nenhum outro negócio com ele."
Scully pegou o casaco e rumou para a porta. Mulder pegou seu paletó e a seguiu. No elevador, ela lhe deu A sobrancelha. "Você não tem assuntos oficiais do FBI que precisa resolver, Mulder?"
Mulder ajustou a gravata. "É oficialmente meu horário de almoço. Vamos, Scully, eu compro para você e Kwan um cachorro quente."
Ao invés, Scully optou por um pretzel com mostarda, mas Kwan aceitou o cachorro quente com as palavras. "Obrigado por virem se encontrar comigo aqui," ele disse. "Depois do que aconteceu, não tinha certeza sobre falar ao telefone."
Eles sentaram todos num banco. "É sobre Melinda?" perguntou Scully.
Kwan assentiu. "Nunca havia me acontecido isso antes. Eu disse a vocês quão ansioso o detetive estava pelas minhas notas. Às vezes, eles estão tão ansiosos em casos com altos perfis como este, que eles ficam em cima do meu ombro enquanto faço meu trabalho. Mas, desta vez, foi o promotor quem veio em pessoa, e trouxe outro homem com ele. Eles não foram apresentados, mas vi que carregavam armas."
"Eles queriam seu relatório?" perguntou Mulder.
"Queriam tudo. Meu relatório, minhas notas. O caso inteiro. Eles me perguntaram, 'São todas as suas cópias?" Ele tremeu. "Então, eu fiz algumas. A fita se foi, mas o resto eu tenho. Só no caso de algo acontecer aos originais."
"O que você descobriu na autópsia?" perguntou Scully.
"Muito do que discutimos ontem. A causa da morte foi sangramento interno massivo causado por corte da aorta abdominal." Kwan olhou ao redor por cima dos ombros e deu outra mordida no cachorro quente. "Uma coisa que eu descobri," ele disse. "A vítima teve relação sexual logo antes de morrer. Eu coletei amostras de sêmen para o laboratório."
"Estupro?" Scully perguntou, e Kwan balançou a cabeça.
"Não há sinal de contusões ou lacerações vaginais."
"Pensei que tinha dito que Melinda estava em uma festa de despedida na maior parte da noite," Mulder disse a Scully.
"É o que o Ethan me contou."
"Talvez alguém quis dar uma rapidinha," pensou Mulder.
"Dr. Kwan, você não fez a autópsia de Rachel Campenella, fez?" Scully quis saber.
O médico balançou a cabeça. "Eu não. Ouvi que Roy Albridge pegou o caso. Queria saber se o promotor quis as notas dele também."
De volta ao escritório, Mulder continuou a trabalhar no computador, enquanto Scully olhava para a parede. "Suponho que seja possível que eles somente quisessem ter certeza de que não vazasse informações no caso," ela disse, depois de algum tempo.
A cadeira de Mulder rangeu quando ele virou para olhar para ela. "Você não acredita de verdade nisso."
"Não. Eu só não consigo pensar numa boa razão para o promotor vir e exigir todos os arquivos de Kwan."
"Você mesma disse, Scully. Se é uma acusação, alguém está fazendo um trabalho barulhento."
"Não acredito que o escritório do promotor incriminaria Ethan por homicídio. Que motivos eles teriam?"
"Você e eu certamente não somos os únicos a notar semelhanças entre o assassinato de Melinda e o que aconteceu com Rachel Campenella. Aposto que o promotor somou dois com dois e achou quatro do mesmo jeito que nós."
O telefone da mesa dele tocou e Mulder se esticou para atender. "Mulder."
"Mulder, é Skinner. Gostaria de descer e conversar com você. Agora é uma boa hora?"
"Sim, agora é ótimo." Ele lançou um olhar para Scully. "Na verdade, senhor, em cinco minutos. Eu, uh, tenho que resolver uma coisa."
"Cinco minutos, então," Skinner disse, num tom de sofrimento.
"É melhor você correr," Mulder disse a Scully enquanto desligava o telefone. "Skinner está descendo aqui, e não acho que ele vai estar no seu quadro de diversão extracurricular. Ele é um dos que saiu da linha para te dar tempo extra de descanso."
Scully parecia surpresa. "Deus, e depois de tudo o que eu disse a ele. Mulder..."
"Podemos conversar sobre isso mais tarde," Mulder disse, empurrando-a da sua cadeira e conduzindo-a na direção da porta. "Você tem o tempo que eu gasto para ir ao banheiro para sair daqui, senão vai encontrar com ele no elevador."
"O que ele queria?" Scully estava tentando virar para perguntar, mesmo com ele mostrando a saída para ela.
"Fugir comigo para Fiji."
"Mulder..."
"Scully!"
A boca dela torceu quando ele apertou o botão 'subir' para ela. "Você odeia a praia," ela disse, quando as portas se abriram.
"Vá. Tchau. Eu ligo para você mais tarde." Mulder encostou na parede aliviado, quando Scully finalmente foi embora. Ele teve apenas um segundo para descansar porque o elevador tocou de novo momentos depois, e as portas se abriram para revelar Skinner.
"Mulder?" ele disse, aparentemente surpreso por encontrar um de seus agentes vagando pelo corredor.
"Só a caminho do banheiro, senhor." Mulder conduziu o chefe ao escritório, onde o laptop de Scully estava aberto e brilhava com as luzes na mesa dela.
Mulder se encolheu, e esperou desesperadamente que Skinner não notasse. "O que, ah, o que posso fazer por você?" Mulder perguntou, balançando as mãos na direção da cadeira, para indicar que Skinner podia se sentar.
Skinner ignorou o convite silencioso e, ao invés, olhou além para estudar a parede de fotos misteriosas de Mulder. "Só queria que soubesse que inscrevi você e Scully para o Seminário de Trabalho em Equipe do FBI na Flórida semana que vem."
"Senhor, com todo o devido respeito, eu realmente acho que Scully e eu não precisamos de um seminário sobre trabalho em equipe."
"Temo que isso não esteja sob discussão." Skinner se virou e olhou de lado para ele.
"Não, realmente," Mulder disse. "Scully e eu, nós resolvemos casos, viajamos em grupo – podemos até cantar uma harmonia de três partes com somente duas pessoas, é assim que somos nessa coisa toda de trabalho em equipe."
"Eu sei exatamente como vocês dois são, e é precisamente por isso que vocês vão para a Flórida. Por uma semana, pelo menos, ela não vai estar caçando você Deus-sabe-onde e terminar de voltar num hospital de novo."
Mulder batucou um lápis contra o topo da mesa dela. Ele não tinha como revidar essa. Depois de tudo, ele havia sido o que insistiu alto e com frequência que Scully precisava ir devagar e descansar.
"Quanto tempo dura o seminário, exatamente?"
Skinner amarrou a cara. "Pelo amor de Deus, Mulder. São quatro dias. Certamente, você pode sobreviver quatro dias num bom motel com seus colegas agentes."
"Talvez você pudesse mandar somente Scully."
"É um seminário sobre 'parceria'."
Mulder tocou o lado da cabeça dele. "Qualquer coisa que ela aprenda, vai ser usado aqui, senhor. Estou dizendo, poderíamos conduzir esse seminário."
"Continue falando e talvez isso possa ser arranjado."
"Não," Mulder disse rapidamente. "Está tudo bem. Eu vou."
Dirigir para casa aquela noite na dança da fila sem fim que era o trânsito da hora do rush, Mulder ligou para Scully para lhe dar as más notícias. "Skinner acha que precisamos de lições de parceria," ele disse, quando ela atendeu.
"Como é que é?"
"Ele nos inscreveu para o seminário anual de construção de equipe na Flórida semana que vem. Não é a estação dos furacões, Scully?"
"Não deve ser tão ruim," ela respondeu. "Sempre tive um pouco de curiosidade sobre o que acontece nessas coisas."
Mulder grunhiu. "Você deve estar brincando. E quanto a nós só cantarmos Kum-BY-Yah no telefone e irmos à Disney World, ao invés disso? Poderíamos usar orelhas de rato com nossos nomes neles e tudo o mais."
"Mulder."
"Vamos, Scully. Você ficaria tão bonitinha com as orelhas de rato. E o Pateta, ele deve ser algum tipo de Arquivo X, certo? Quero dizer, ele é um cachorro, uma vaca, um macaco ou o que?"
"Mulder." O tom dela mudou de cansado para preocupado.
"O que foi?"
"Estou com o noticiário ligado. Detetive Franklin está fazendo uma conferência à imprensa sobre o assassinato de Melinda."
Ela aumentou o volume e de repente, ele podia ouvir. "... acredito que prendemos o homem certo," Franklin dizia. "Sr. Minette será indiciado amanhã por homicídio em primeiro grau."
"Você tem provas de premeditação?" Gritou outra voz, presumidamente um repórter.
"Não posso comentar os detalhes da investigação agora," Franklin respondeu.
"É verdade que Ethan Minette conhecia Rachel Campenella?" perguntou outra voz, e Mulder quase bateu no carro da frente.
"Sim, temos provas de que os dois se conheciam, mas é tudo o que posso dizer agora. Estamos procurando muitos ângulos agora e muitos comentários públicos podem comprometer a investigação."
"Minette é um suspeito do assassinato de Rachel?"
Franklin se esquivou da pergunta de novo. A respiração de Scully mudou, e o som da conferência à imprensa desapareceu quando ela se afastou da TV. "Mulder, Ethan nunca me disse nada sobre conhecer Rachel Campenella."
"Espero que ele tenha aceitado seu conselho sobre o advogado," Mulder respondeu. "Porque ele poderia acordar e se ver com uma segunda acusação por homicídio."
Três dias se passaram antes que Scully tivesse permissão de ver Ethan novamente. No ínterim, ele foi acusado pelo assassinato de Melinda e negaram-lhe fiança. Scully o encontrou numa sala pequena e sem janelas, quer cheirava bolor e suor. A mesa de madeira tinha cortes nela, feito por criminosos raivosos e tiras frustrados.
Scully sentou-se na cadeira fria de metal e esperou o guarda trazer Ethan para vê-la. Ele sorriu fracamente quando a viu, parecendo pálido, mas mais alerta do que da última vez que haviam se encontrado. Os braços e pernas algemados impediam um contato mais próximo, mas Scully não estava com humor para abraços, de qualquer maneira.
"Dana, oi," ele disse suavemente.
"Você mentiu para mim."
Ele piscou rapidamente, mantendo-se perto da porta.
"Nunca me disse que conhecia Rachel Campenella."
"Isso foi há mais de um ano," Ethan respondeu, parecendo cansado. Ele avançou para se sentar do lado oposto a ela. "Amigos em comum nos apresentaram logo que ela se mudou para Washington. Saímos para beber, jantar. Foi isso. Tinha esquecido disso tudo até que ela apareceu morta este verão. Eu mal conhecia a mulher."
"Ela foi esfaqueada, Ethan. Igualzinho Melinda."
"Eu sei. Deus, acredite, eu sei. Já tive uns sessenta tiras diferentes me culpando por isso. Não sei o que dizer." Quando Scully não respondeu, ele se aproximou dela, por cima da mesa. "Eu não matei Rachel."
"Não disse que você matou."
"Você tem que acreditar em mim."
"Eles têm muitas provas contra você."
"Bem, então, as provas estão mentindo. Não matei Melinda, e tenho certeza absoluta que não matei Rachel Campenella." A cabeça dele tombou para trás, expondo um arranhão no pescoço dele. Ele encarou o teto e deu um riso amargo. "Não acredito que isto está acontecendo."
"Não posso te ajudar se não me disser a verdade."
"Eu estou dizendo a verdade. É a única verdade que eu sei. Eu não matei ninguém."
Scully olhou para ele como olharia para qualquer outro suspeito. Ele parecia pálido e apavorado, barba curta pontilhando sua pele. Ela tentou se lembrar como ele parecia no dia em que se conheceram, quando ele caiu com ela quando ela estava correndo, mas ela não conseguia se lembrar da imagem.
"Melinda fez sexo antes de morrer," Scully disse, sem rodeios.
Os ombros de Ethan caíram. "È, eu sei."
"Você sabe? Como saberia?"
"Eu era o cara," ele disse, encolhendo os ombros, incapaz de olhá-la diretamente, como se essa confissão fosse terrível, comparada às outras acusações contra ele.
Scully sentiu a boca se abrindo e a fechou. "E você nunca mencionou esse detalhe, também. Jesus, Ethan. Você me pede ajuda e não me conta nada."
"Eu esqueci. Sinto muito." Ele apertou os dedos e olhou para ela, argumentando. "Não estava em condições da última vez que conversamos. Sinto muito. Você está certa, devia ter mencionado isso. Eu sinceramente esqueci sobre isso daquela vez. Não é todo dia que você acorda e acha uma boa amiga morta na sua sala de estar."
"Então, vocês transaram."
"Você faz parecer tão frio."
"Não estou fazendo parecer nada, Ethan. Eu só quero os fatos."
"Sim, nós transamos, hum, na festa."
"No bar?"
Ethan corou e assentiu, em silêncio. "No depósito. Não, hum, não durou muito."
"Então, estavam dormindo juntos com freqüência?"
"Não, eu não diria isso." Ele se mexeu na cadeira e alcançou as mãos dela de novo. "Melinda e eu fazíamos de vez em quando, só por diversão. Só quando não estávamos com alguém."
"Com que freqüência acontecia?"
"Eu não sei. Uma dúzia de vezes, talvez um pouco mais. Nunca fizemos quando eu estava com você, Dana. Você tem que acreditar nisso."
Scully esfregou a dor que estava se formando entre seus olhos. "Eu não me importo com isso agora, Ethan."
"Mas eu, sim. Eu... Eu nunca teria traído você."
Por alguma razão, isso fez o coração de Scully subir para a garganta dela. Ela ignorou isso e continuou. "Vamos nos ater aos fatos aqui, ok? Então, você e Melinda transaram na noite da festa. O que mais?"
Ele hesitou, traçando a linha das iniciais de alguém que haviam sido cravadas na mesa.
"Ethan?"
"Eu meio que fui um idiota com ela depois. Eu sei que fiz alguns comentários depreciadores sobre ela ir embora."
"Que tipo de comentários depreciadores?"
Ethan corou de novo, e empurrou a cadeira pra longe da mesa. "Isso realmente importa?"
"Sim, realmente importa. O que você disse a ela?"
"Não me lembro de tudo," ele murmurou. "Mas sei que disse algo como... 'você tem que se mudar porque já dormiu com todos os caras daqui'. Eu sei. É horrível, certo? Eu nem ao menos quis dizer isso. Eu estava zangado que ela estava me deixando, depois de todos esses anos."
Scully se sentiu doente, não por causa das coisas feias que Ethan havia dito. Ela sabia que ele havia dado os motivos para a acusação.
Ethan avançou sobre a mesa e pegou as mãos dela, sem jeito. As palmas dele estavam suadas; o metal pesado das algemas arranhando a pele dela. Scully lutou para não puxá-las de volta quando ele as pegou.
"Você ainda vai me ajudar, certo? Por favor, diga que vai me ajudar."
Scully estava delirando, aturdida. "Ethan, sinto muito. Eu tenho que ir."
Somente quando ela se foi, tremendo e saindo da prisão o mais rápido que podia, foi que ela percebeu que não respondera a ele.
Mulder na aula de instrução se tornou uma ave de papel, todo dobrado em ângulos afiados, inquieto no assento estreito. Scully lhe deu um olhar de advertência quando o cotovelo dele encostou nas costelas dela pela segunda vez.
"Desculpe," ele murmurou. Ele se mexeu novamente e quase derrubou o café dela de suas mãos.
"Mulder, eu entendo que você está feliz com a idéia dessa conferência, mas eu a apreciaria se mantivesse isso para si mesmo, pelo menos pela próxima uma hora e meia."
"Desculpe," ele disse de novo, mais compassivo, enquanto se sentava desengonçado. "Não acredito que você mal pode esperar por isto."
"Isto é um exagero. Eu meramente sugeri que aprenderíamos mais um sobre o outro nessa viagem."
O resmungo de Mulder subentendia que ele já sabia tudo o que ele queria aprender sobre ela. "Hey, você viu a primeira página do jornal hoje?" ele perguntou, sentando reto de novo. Ele jogou o "Washington Post" no colo dela.
O título dizia: POLÍCIA PROCURA POSSÍVEL TESTEMUNHA DA MORTE DA CÂMERA.
"Eles não foram capazes de descobrir quem chamou a polícia aquela manhã," Mulder disse a ela.
Scully devolveu o papel a ele. "Não quero falar sobre isso agora."
"As coisas não foram bem com Ethan, huh?"
Ela lhe lançou o olhar de novo.
Mulder levantou as mãos. "Entendi. Parceria. Comunicação. Você não tem que soletrar pra mim, Scully."
A caminho da Flórida, eles encontraram dois outros agentes que dariam uma carona a eles para a conferência. "Sou Stonecypher, e esse é Kinsley," disse a mulher.
Kinsley entregou um par de pacotes de folha para Scully. "Eu convenci a aeromoça a me dar alguns lanchinhos extra, então vocês dois apenas gritem se ficarem com fome, ok?"
Mulder olhava para as janelas largas com uma expressão desamparada no rosto. "Aquilo parece um furacão para você?" ele perguntou, esperançoso.
Scully puxou o braço dele. "Diga boa noite, Gracie."
No carro, Stonecypher e Kinsley, aparentemente veteranos em conferência sobre construção de equipe, compartilhavam histórias velhas de guerra.
"Você jogou aquele jogo, hum, o que não pode usar nenhuma palavra negativa?" Stonecypher perguntou a Scully.
"Eu não podia acreditar no quão difícil era não usar a palavra 'mas'," exclamou Kinsley.
"Estou tendo o mesmo problema agora," Mulder respondeu, em falso entusiasmo.
Scully escondeu um sorriso. Mulder podia ser um imbecil, mas era um imbecil engraçado.
"Já esteve nesses seminários de equipe, Agente Mulder?" perguntou Stonecypher.
"Não, sabe, infelizmente, nessa época do ano, eu sempre sofro muito de hemorróidas."
Felizmente, ele não teve a oportunidade de elaborar, porque, momentos depois, um oficial da polícia estadual os parou numa barreira da estrada.
Mulder saiu para esticar as pernas e, a próxima coisa que Scully soube era que ele estava seguindo uma fita de cena do crime para dentro da floresta.
"Aonde ele vai agora?" perguntou Stonecypher.
Quando Scully o alcançou, ele estava ajoelhado com uma oficial do sexo feminino sobre alguns rastros na floresta. A mulher fazia gestos para dentro da floresta e Mulder fazia perguntas. Do que Scully pôde ouvir, pelo menos duas pessoas estavam desaparecidas com suspeita de ataque de animal.
A oficial se afastou e Mulder se aproximou de Scully com uma de suas caras de 'Estou pensando em novas maneiras de me meter em confusão'. "Mulder?" ela disse. "Temos a conferência. Eles estão esperando."
"É. Como eu digo isso sem usar nenhuma palavra negativa?"
"Você quer que eu diga a eles que não irá ao seminário de trabalho em equipe este ano?"
"Sim, você viu? Não precisamos dessa conferência. Temos esta comunicação. Você sabe o que eu estou pensando!"
Scully queria que ele pudesse dizer o que ela estava pensando, vendo-o ir embora.
Scully assistiu a preleção de boas vindas e recebeu um folder de atividades para ela e seu parceiro desobediente. Ela mal teve tempo para folheá-lo antes da recepção de queijo e vinho, que estava acontecendo na sala principal de conferências do motel.
Não exatamente um cenário animador, Scully pensou, quando saiu da sala. O painel de madeira falsa era interrompido por uma única janela de um lado e uma lousa do outro. Uma toalha branca, de papel crepom, disfarçava a mesa de conferências de um lado, onde um homem vestido a caráter, inspecionava os pedaços de queijo e as garrafas em miniatura de vinho barato.
Scully atravessou a sala até a comida. Ninguém parou para cumprimentá-la, e ela não reconheceu ninguém além de Kinsley e Stonecypher. Anos de convivência no porão com Mulder havia isolado da maioria dos agentes. Jogada entre eles agora, ela não tinha nem a mais fraca idéia de como iniciar uma conversa. Conversa sobre o trabalho era o normal, mas o último caso de Scully fora o dela mesma. Ela não estava a fim de discutir num coquetel uma conspiração do governo para lhe dar câncer e que resultou num chip no pescoço dela.
Scully considerou a seleção de vinhos com algum interesse. Já livre da medicação, ela finalmente podia consumir álcool de novo. Era uma pena que o primeiro gosto viria de um vinho com a tampa aparafusada.
"À minha saúde," ela pensou, incapaz de esconder um sorriso enquanto pegava uma garrafa de vinho branco. Ela parou quando percebeu que não havia ninguém presente com quem ela quisesse brindar; o único alguém que poderia realmente compreender estava no quarto dele, se escondendo.
Scully esperou até o provedor estivesse olhando para outro lado e pegou um pouco de queijo para acompanhar o vinho. Conferência idiota de lado, ela e Mulder mereciam uma comemoração. Talvez eles poderiam aprender algo novo um sobre o outro, afinal de contas.
"Quem corta o queijo?" Mulder perguntou, quando ela entrou no quarto dele com os artigos.
"Visto que você não irá à conferência," disse Scully, indo até a cama dele.
"Par-tay!"
"Você sabe, claro, que isso vai contra a política do Bureau sobre agentes de sexos diferentes juntos no mesmo quarto de motel durante uma tarefa."
Ela tentou fazer com uma expressão neutra quando disse isto, apesar do fato de que ela e Mulder já haviam dividido o quarto muitas vezes. Discutindo casos, comendo, jogando cartas, e, em raras ocasiões, até dormindo na mesma cama parte da noite, devido principalmente ao fato de ela tender a dormir no meio dos filmes. Quanto às infrações, essa em particular ficava bem abaixo na lista deles de falhas habituais.
"Você vem com essa conversa de regulamentos pra mim, Scully, e vou chutar seu traseiro," Mulder brincou, enquanto ela abria o vinho.
Scully só meio-ouviu o que ele disse depois disso, pois estava imaginando o que ele faria se ela realmente o beijasse atrás e fizesse uma observação sugestiva.
Infelizmente, ela nunca chegou a saber porque a próxima coisa que soube, Mulder estava vestindo o casaco e indo na direção da porta.
"Sabe, Mulder, às vezes, acho que trabalhar um pouco nossas habilidades de comunicação não seria uma má idéia."
"Eu voltarei logo, e podemos construir uma torre de móveis. Ok?"
Scully suspirou e tomou um grande gole de vinho. Tanto, ela pensou, para celebração.
Mulder estava com medo de saber se a pequena aventura deles na floresta poderia ficar ainda pior. Dois do grupo de busca deles haviam desaparecido. Eles não tinham água nem comida. A temperatura na noite úmida agora quase chegava a congelar. Não era esta para ser a droga da Flórida, ele pensou, a terra do calor perpétuo e brilho do sol?
Oh, sim, e algo tentou arranhá-lo até a morte, deixando um grande corte no ombro esquerdo dele. O mesmo algo ainda espreitava na escuridão em algum lugar, planejando seu próximo movimento.
Mulder agachado perto do tronco úmido no chão da floresta e assistiu Scully tentar acender um fogo. Frio, umidade e falta de comida não seria bom para ela, também. Considerando que esta era a atividade inútil dele, ela estava levando o azar deles surpreendentemente bem.
"Você precisa se aquecer," ela disse a ele, parecendo preocupada quando não conseguia acender o fogo. "Seu corpo ainda está em choque."
Os dentes de Mulder bateram. "Uma vez me disseram que a melhor maneira de regenerar o calor do corpo era entrar nu num saco de dormir com alguém que já estivesse nu."
"Bem, se chover sacos de dormir, você pode ter sorte."
Mulder quase ficou chocado; em cinco anos, este foi o mais próximo de se oferecer para ele que ela chegou. De fato, quando ela pulou em cima dele em Arecibo, ela nem ao menos o avisou. Se tivesse avisado, ele talvez tivesse corrido na direção oposta.
O fogo brilhou e queimou rapidamente. Scully deu de ombros e se juntou a ele no tronco. Gentilmente, ela colocou os braços em volta dele e tentou puxá-lo para seu colo. Os músculos dele, feridose congelados, protestaram.
"Eu não quero lutar," ele disse.
"Venha aqui. Vou tentar mantê-lo aquecido."
Finalmente, ela se arrumou para alojar a parte de cima do corpo dele sobre as pernas dela, e Mulder se aconchegou mais perto. Ela de fato estava mais quente do que ele. Ele sorriu ao pensar nisso; por tanto meses as mãos dela ficaram geladas ao toque enquanto o câncer lentamente drenava a vida dela.
"Um de nós tem que ficar acordado," ele a lembrou.
"Você dorme, Mulder."
"Me acorde se ficar cansada." Ele fechou os olhos e ouviu os sons noturnos da floresta. "Por que você não canta alguma coisa?" ele a cutucou.
"Mulder, não."
"Se cantar alguma coisa, saberei que está acordada."
"Mulder, você não quer que eu cante. Não sou afinada."
"Não importa. Só cante qualquer coisa."
Mulder esperou, segurando a respiração e piscando na escuridão. Silêncio permaneceu por tanto tempo que ele pensou que ela tinha mesmo recusado. Mas enfim, ela começou: "Jeremiah era um sapo-boi... era um bom amigo meu."
Oh, ela é terrível, Mulder pensou, secretamente deliciado.
"Refrão," ele estimulou, quando ela parou.
"Alegria para o mundo," Scully cantou, e Mulder fechou os olhos de novo. Ela estava certa: eles estavam aprendendo algo sobre o outro nesta viagem.
Scully chegou ao fim da canção, mas Mulder ainda não dormira. O ombro dele doía. Os dedos do pé, congelados. E preocupação prolongada sobre os assassinos invisíveis nos arbustos manteve a adrenalina dele num baixo estado de terror.
Ele se mexeu e Scully esfregou as costas dele. "Você devia estar dormindo."
"Não consigo."
"Vamos ficar bem, Mulder. Eu não venci o câncer só para morrer nos pântanos da Flórida."
"Terras úmidas."
"Que seja."
Mulder abraçou os joelhos dela. "O que você dizia antes, sobre achar um sentido na morte... você achou?"
"Não sei. Eu digo isso: isto te dá claridade. Você descobre rapidamente o que tem sentido de verdade na vida." Talvez ele imaginou, mas sentiu que ela apertá-lo. "Eles dizem que no dia que você morre, tem liberdade total de falar. Você pode dizer qualquer coisa e tudo o que sempre quis, e não vai importar."
Mulder tentou se virar para olhar para ela, mas não podia conseguia fazer isso. "Você disse? Disse tudo, quero dizer."
Scully ficou calada um minuto. "Acho que não," ela se permitiu. "Apesar de tudo, ainda estou aqui."
Desta vez, ele a apertou.
"De fato, eu me pego pensando mais sobre isso agora," Scully continuou. "Eu voltei para o meu apartamento e lá estavam todas as minhas coisas, e eu pensei, isso é tudo o que eu deixei. Tudo o que eu fiz, é tudo o que eu teria feito. Você consegue ver sua vida do início ao fim e todas as escolhas que fez ou talvez não fez."
"Não sei se entendo."
"Pegue o Ethan, por exemplo. Eu poderia ter casado com ele, e então, quem sabe o que teria acontecido?"
"Acha que talvez devesse ter casado com ele?"
"Não," ela disse, rapidamente. "Não é nada disso. Estou feliz de não ter casado com ele. Posso olhar para trás e ter certeza que fiz a escolha certa. Sem ressentimentos."
"Não ter ressentimentos é bom," Mulder concordou.
Scully tentou transmitir mais calor para ele. "Mulder," ela disse, parecendo curiosa, "você já quis se casar?"
Mulder congelou. A resposta era sim, é claro. E quase seis meses depois e quis se divorciar. "Claro," ele disse, no que pensou ser um tom casual. "Quem não quer?"
"Quem era ela?"
"Hmm? Oh, você sabe, eu estava falando mais genericamente sobre a idéia de achar alguém para passar o resto da vida."
"Oh."
Mulder hesitou um minuto e tocou no joelho dela. "Eu te digo uma coisa: se eu passasse o resto da minha vida aqui no chão desta floresta, teria sido um prazer passar com você."
Ele praticamente podia ver os olhos dela virando. "Vá dormir, Mulder," ela disse, mas estava sorrindo. E então, finalmente, ele dormiu.
Fim do capítulo 2.
