Na pontinha dos pés
Capítulo dois
O bailar de seus olhos
Sasuke endireitou o corpo na cadeira pela terceira vez, enquanto Hinata Hyuuga, a babá, estava sentada a sua frente. Ele estava satisfeito com o decorrer da entrevista. Ela não falava muito, mas tinha inglês fluente quase como língua oficial, e por mais que sua voz fosse miúda, seus gestos eram firmes e o olhar era confiante. Então, Sasuke soube de imediato que a moça teria jeito para colocar Mia nos eixos.
O último rabisco de assinatura oficializava o contrato para babá. Hinata sorriu gentilmente devolvendo a caneta, ao que causou certa vontade em Sasuke de se endireitar novamente na cadeira. Aquele desconforto todo vinha do mesmo lugar de onde trilhava a curiosidade. Sasuke estava ligeiramente curioso a respeito daqueles olhos que pareciam expressar tudo o que a moça não falava.
- Muito obrigada pela oportunidade, Sr. Uchiha. Quando posso começar? – Ela perguntou a voz baixa e levemente corada. Apesar da babá estar com uma aparência impecável, ele detectou o nervosismo da mesma durante toda e entrevista por aqueles olhos.
- Agora. – Sasuke continuou – Já combinamos os horários. E quero que deixe o celular ligado 24h.
Já estava a caminho da escola de Mia Uchiha. Estava acompanhada pela secretária do Sr. Uchiha, a ruiva Karin.
Hinata ainda se sentia nervosa pela entrevista de quinze minutos atrás. Aquele homem, que agora era seu patrão falava em um tom extremamente autoritário, quase como sua antiga professora de balé, além de tê-la encarado como se pudesse ver sua alma.
Ficou um pouco aflita em relação à disponibilidade de horários. Ele havia dito que a qualquer momento precisaria dela, ou seja, teria de estar 24h disponível para o trabalho.
Talvez ela devesse ter analisado antes de assinar o contrato. E pensando melhor, nunca havia aceitado um emprego sem a semana de adaptação, porque com crianças isso é necessário. Mesmo. Vai que a tal de Mia não goste dela? E se Mia for exatamente o tipo de criança que Hinata não aceita cuidar?
Tudo bem que era muito difícil uma criança não gostar dela, mas sempre existia a possibilidade.
E o que Ino diria? Hinata ainda tinha de agradecer Tenten, porque estava mais de dois meses procurando emprego e seria catastrófico ter de pedir dinheiro de Neji para pagar suas dívidas com Naruto.
Céus, tudo ainda estava muito complicado em sua vida.
- Chegamos! – disse a ruiva Karin, fazendo uma careta – Boa sorte com a pestinha.
Hinata a olhou de canto. Seria assim tão terrível a pobre garota? Ou era somente aquela mulher corpulenta que não gostava de crianças tanto quanto Ino?
O sinal da escola havia enchido os ouvidos de todos, e em seguida já podiam ver várias crianças correndo de um lado para o outro. Qual dessas seria Mia?
Uma garotinha que batia nas pernas de Hinata se aproximou. Com uma mochila rosa bebê e um coraçãozinho na bochecha esquerda. Os olhos eram de um verde esmeraldino, enquanto os cabelos eram negros, exatamente da cor do Sr. Uchiha, só que longos e ondulados nas pontas, mas o que chamava atenção era uma única mecha rosa, no meio de todo aquele cabelo, que emitia contraste no rosto branco.
A garota parou na frente de Karin e lhe deu um sorriso.
- Oi titia Karin-feiosa!
A ruiva virou os olhos e disse: - Olha, seu pai maravilhoso contratou alguém pra você estressar, então não ouse mais falar comigo sua pirralha idiota. Sai daqui cara de lesma!
Hinata sentiu um misto de apreensão e descontentamento. Não gostava quando as pessoas tratavam assim as crianças, mas também não sabia como era Mia. E se fosse julgar pelo que acabara de ouvir, diria que a garota também não era santa, considerando o apelido que dera a Karin.
Ainda mantendo-se no anonimato, Hinata começou a seguir as duas que já estavam se encaminhando para fora dos portões da escola bilíngue.
- Papai fez o que titia Karin-feiosa? – Ela perguntou brincando com o ursinho até então pendurado na mochila rosa.
Karin bufou e olhou para Hinata. Esta por fim se apressou, corando. Ela adorava essa parte do seu trabalho: a hora do reconhecimento entre babá e a criança. Sempre era uma dádiva para a mulher de olhos perolados ver que aos poucos ganhava a confiança de seus pequenos. Na maioria das vezes sofria muito quando o trabalho era finalizado, pois seu coração se derretia ao manter uma criança sob sua proteção, apegando-se e por consequência sofrendo com a partida.
- S-seu pai me contratou para cuidar de você – sorriu angelicalmente, tomando mais confiança à medida que falava – Sou Hinata Hyuuga.
- Oh! – Mia fixou os olhos esmeraldinos na figura de Hinata. Os olhos a analisavam, não da mesma forma intimidadora como do Sr. Uchiha, porém com mesma intensidade, indicando que Mia estava curiosa a respeito de Hinata.
- Já odeio eternamente esse seu sorrisinho doce cheio de falseta – disse Karin para Hinata e continuou andando pela calçada da escola, fazendo o percurso de volta para a empresa, não muito longe, apenas três quarteirões. Enquanto, Mia estancou em frente à escola, ainda processando as palavras. Karin não quis nem esperar, pois sabia que quando aquela pestinha abrisse a boca, a nova babá desejaria nunca ter nascido. Mia era um saco, pelo ponto de vista da ruiva.
- Oi, eu sou Mia Uchiha.
A garota falou, não piscando nenhuma vez, ainda concentrada no rosto de Hinata, que mantinha o sorriso doce que Karin disse odiar, achando a curiosidade de Mia deveras engraçada, já que outras crianças na mesma idade dela provavelmente já teriam batido o pé e negado qualquer tipo de pessoa estranha na sua cola.
- Sabe, mamãe disse que eu não deveria confiar em sorrisos doces. Por isso estou treinando sorrisos salgados – começou Mia, e de onde Karin estava podia ouvir apenas um sussurro, mas sabia que Mia não pararia de falar, pestinha – Mas, eu não sei como é. Então, eu perguntei para o papai e ele disse para tentar os sorrisos amargos. Mas, eu também não sei qual é esse. Minha professora disse que eu só não posso sorrir azedo. Mas, é difícil saber isso também. Ai, a professora passou essa tarefa. Papai contratou você para me ensinar? Ou foi mamãe?
Mia continuou a fazer perguntas e falar coisas avulsas por todo o trajeto até o trabalho do Sr. Uchiha. Hinata, que sempre fora de poucas palavras, continuava a sorrir, concordar e às vezes se arriscava a responder uma pergunta de Mia. Entretanto, logo percebeu que não conseguia responder, Mia já fazia outra pergunta em cima. Era incrível a capacidade da garota de mecha rosa em conversar abertamente e ao mesmo tempo em que aparentava ser madura demais para sua idade, sabia tão pouco. Por Deus, ela só tinha cinco anos.
- Quase seis – Mia corrigiu, quando Hinata tentou responder a pergunta da garota sobre 'quando vou poder andar sozinha?'... Ao que Hinata alegou sua idade um tanto quanto imprópria para um passeio excluso de adultos.
Uma figura apática encontrava-se sentado em frente ao Uchiha com uns documentos em mãos. Os cabelos bagunçados e vermelhos faziam contraste com terno impecável do chefe de Sasuke.
Gaara no Sabaku era um homem sem reservas. E mostrava isso não só pela conduta superior do mesmo, mas também pela aptidão para os negócios.
- Onde está sua secretária? – Gaara perguntou sem nenhuma vontade.
- Mandei-a levar a babá para buscar Mia na escola.
- Então refaça você mesmo estes relatórios. Estão com falhas.
- Daqui a quinze minutos tenho uma reunião com os novos acionistas. – Lembrou Sasuke.
- Nós teremos uma reunião – corrigiu o ruivo, levantando-se – E nesse exato momento você só tem quatorze minutos. Apresse-se.
Sasuke odiava ser mandado, principalmente ao constatar que o ruivo era consideravelmente mais novo que ele. Sentiu uma onda de raiva o invadir. Raiva de Karin que fez o relatório errado, raiva daquela cidade, raiva daquele chefe. Por que não poderia apenas estar descansando com a calmaria do mar em São Francisco? Sendo seu próprio chefe, e sem ninguém para lhe perturbar?
Ao pensar nisso, a imagem de Mia veio a sua mente. E finalizou com o pensamento de que com a garota ao seu lado, não teria tanto sossego assim.
- Papai!
É. Ele realmente não teria sossego. A porta de seu escritório novamente se abriu, e de onde estava pode visualizar Mia correndo em sua direção, e uma discreta babá carregando a mochila da pequena sendo empurrada por Karin ao atravessar a porta.
- Eu disse que ela não podia entrar, mas a babá parece que não me ouviu – Falou Karin puxando Mia pelo braço e não a deixando alcançar Sasuke.
- Karin, seus relatórios estão errados. Trate de refazê-los agora. – Sasuke passou a mão pelas têmporas, aliviado por não ter que fazer tal trabalho. – E Mia, venha cá.
A garotinha se soltou rapidamente das mãos grandes de Karin, correndo para o colo de seu pai. Hinata continuava com um pé dentro da sala e outro fora, como quem tentando pedir permissão para entrar, silenciosa e atenta.
Karin saiu bufando, esbarrando na perolado quem sabe de propósito. Enquanto Mia se encontrava ao lado da cadeira do pai, contando o dia.
- Entre. – Disse Sasuke empurrando Mia de seu colo e pegando umas pastas.
Hinata o fez carregando a leve mochila que a garotinha correu em direção procurando por algo.
- Tenho uma reunião agora, coloque-a para dormir ou qualquer coisa que não me atrapalhe. Esse é o seu dever agora.
A perolada olhou com aversão para o seu novo chefe. Que espécie de ordem era aquela dada em frente à menina?
Enquanto Sasuke colocava mais pastas dentro da maleta, Mia achou o que procurava.
- Olha papai! Olha, olha! Foi eu que fiz.. essa aqui sou eu, esse aqui grandão é o senhor, essa aqui é minha madrinha, esse aqui o meu padrinho e essa aqui é a minha mam-
- Babá, está esperando o que para levá-la? – Falou um pouco mais alto, atravessando e saindo com velocidade do escritório mediano, totalmente em cima da hora para a reunião.
Mia que segurava o papel com o desenho de quem havia mencionado, foi brutalmente cortada por Sasuke, que ao menos olhou para o que ela mostrava. Abaixou a cabeça e olhou para o desenho.
- Você acha que ele não gostou? – Perguntou meio desolada, dando duas fungadinhas.
Hinata observando boquiaberta a cena sentiu um raio de pena da pobre garota. Claro, que como babá já havia visto coisas totalmente piores com esses pais relapsos, mas sempre uma raiva apossava sobre si quando presenciava tais absurdos.
- Claro que ele gostou, querida. Só estava com pressa. Vamos para casa, ok? – Hinata falou na sua melhor voz.
Mas Mia ainda não confiava nela, então só continuou olhando para o papel rosa.
- Mia, vamos para casa. Você precisa tomar um banho, deve estar cansada do dia na escola. – Tentou novamente.
- Você vai para minha casa? O que vai fazer lá? Mamãe não vai gostar. – Arregalou um pouco os olhinhos esmeraldinos.
- Eu sou sua babá agora, lembra?
- O que as babás fazem?
E então pronto, Mia pareceu esquecer o ocorrido e começou a fazer mil perguntas à Hinata no caminho para casa. E por céus, como a garotinha falava, pensou Hinata, era uma verdadeira Ino em miniatura.
Sasuke olhava de esgueira para o seu chefe. A reunião havia começado quarenta e cinco minutos atrás, e graças a Deus para Sasuke, todos ali falavam em inglês, mesmo que complicado. Os homens voluptuosos, que faziam parte da rede de ações, continham um deslumbre significativo para com o trabalho desenvolvido nessas semanas pela sétima unidade das empresas Yukari.
O antigo administrador fizera dessa unidade em Montreal uma lástima, e por isso o diretor geral, Gaara, resolveu apostar suas fichas em Sasuke Uchiha, administrador da unidade três em São Francisco, famoso por fazer uma impecável organização lá.
Ofertou mais do que o dobro do salário do moreno e ainda garantiu casa e desfrutes. Tudo para ser recompensado da forma que estava sendo agora, recebendo elogios de todos os acionistas pelo brilhante desenvolvimento e superação rápida da 7ª Yukari Company.
Lógico, Sasuke por não ser o chefe, parecia mais um serviçal sendo ofuscado pelo ar imperioso de Gaara, embora também estivesse sendo elogiado, principalmente por um rapazote de óculos, que trajava um terno meio amassado e parecia um intruso no meio da reunião.
Logo depois do almoço, quando todos estavam se despedindo, Sasuke notou que o homem de óculos era o motorista de um dos acionistas ali presentes, Orochimaru. Sem dar muita importância ao esquisito, rumou para a empresa junto de Gaara.
- Ele é moreno, alto, dos cabelos bagunçados e olhos penetrantes... – dizia Kabuto, num francês enrolado, suspirando lentamente.
- Poupe-me dos seus detalhes de viadinho. – Gritou de maneira grosseira e sucinta um homem de cabelos lisos e compridos, com um terno chumbo muito bem alinhado e olhos claros.
- Ah, desculpe senhor. Mas, fiquei muito encantado com o jeito dele. – retrucou novamente, com uma voz bastante afeminada para um rapaz.
- Neji, o que o Kabuto quis dizer é que esse tal de Sasuke Uchiha é muito bom com os negócios. – Reiterou Orochimaru, aparentando ser um pouco mais velho que os outros e também com cabelos compridos.
- Então temos que tirá-lo de lá, vivo ou morto. – Declarou Neji.
Kabuto arfou de maneira melancólica quando ouviu a palavra 'morto'... Seria um desperdício e tanto matar um homem daqueles. Para ele, Sasuke vinha com uma plaquinha de neon escrito em letras rosa choque "Pacote completo".
Orochimaru só deu meia paca de um sorriso ladino, a única coisa que queria era conseguir todas as ações e ser o diretor geral daquela unidade da Yukari.
Enquanto Neji, o chefe das empresas Hyuuga, só almejava eliminar de uma vez por todas a concorrência que a Yukari's Company trazia para sua ali na cidade de Montreal.
Neji sabia que se aliar ao Orochimaru seria uma jogada arriscada, já que ambos querem vitórias diferentes. Mas, seria quase impossível se infiltrar nos planejamentos da corporação adversária sem ele, que é um dos acionistas e está por dentro de tudo.
E dessa vez, tinha mais um empecilho para Neji, chamado Sasuke, o cara que mal chegou e já estava fazendo milagres por lá. Definitivamente, Neji iria tirar aquele homem do jogo.
Hinata – que já tinha ajudado Mia a tomar banho, almoçar e fazer os deveres de casa que nada mais eram do que desenhar – estava exausta. Mia, realmente falava muito, nunca tinha visto criança assim. E no exato momento estava tendo muita dificuldade em fazer a pequena dormir.
E o grande problema é que ela tinha de dormir. Já que estava na hora de Sasuke chegar do trabalho e ele havia ordenado que a garota estivesse devidamente desacordada.
Ao lembrar-se disso, uma onda de raiva a encheu... Afinal, qual era o problema daquele cara? Não dá pra simplesmente desacordar uma criança em plenas cinco horas da tarde, principalmente se a criança for Mia Uchiha, uma mini tagarela. E qual pai não quer chegar em casa e dar um beijo no seu filho, passar um pouco de tempo com ele? Ah, sim... os pais relapsos para o quais ela trabalhava.
- Hinata! Hinata! Hinata! – cantarolava Mia.
- O que foi querida?
- Por que eu tenho de dormir agora? Eu quero a mamãe. – disse tirando o edredom pela quarta vez.
- Porque está na hora de dormir. Sua mãe vem te visitar nos sonhos, sabia? – Tentou colocar o cobertor de novo.
Mia riu abertamente, dando fungadas típicas. – Mas o papai já vai chegar! Eu quero os dois. – Levantou e começou a pular na sua cama totalmente rosa, que chegava a doer nos olhos de Hinata.
- Mia, por favor, deite, não pule, acalme-se, Mia...
- Vem aqui brincar comigo!
Mia se jogou no colo de Hinata e as duas caíram no tapete branco com bolinhas rosa. Hinata resolveu divertir a garota um pouco, afinal a coitada parecia que não tinha nem mãe, nem pai. E então, começou a fazer cócegas na esmeraldina que gargalhava cada vez mais alto, rolando pelo tapete.
Foram tais gargalhadas que Sasuke ouviu ao adentrar a casa. Extremamente cansado deixou a maleta no sofá, notando, pelo barulho que a babá falhou logo na primeira missão.
- O que está acontecendo aqui? – Perguntou com sua voz grave, entrando no quarto de Mia.
Hinata levantou-se depressa, enquanto Mia correu para o pai.
- Papai o senhor chegou! Vamos brincar, vamos!
- Babá, eu perguntei o que está acontecendo aqui! – Ignorou Mia, pela segunda vez no dia.
- Sr. Uchiha, e-eu e-estava colocando a Mia p-para dormir. – Se repreendeu por balbuciar tão ridiculamente.
Ao que ele somente deixou ser abraçado por Mia e sem mais nenhuma demonstração de afeto saiu do quarto, alegando não querer ser perturbado.
Eram oito horas da noite quando finalmente conseguiu fazer Mia dormir. Sasuke não saiu do próprio quarto desde que chegara às cinco. O que naquele momento, para Hinata, era um alívio. Não queria mesmo ter de ver a cara daquele homem patético que se mostrava suficientemente frio para com a garotinha, que por um acaso era filha dele.
Aquela situação a indignava. Mas retraída por si só e totalmente necessitada do salário, sempre aceitava os pais desnaturados.
- Babá, cadê o jantar? – Ouviu uma voz grossa e meio rouca, vinda do pequeno corredor da casa.
A princípio quis gargalhar, mas não era de seu feitio... Como é que é? Ele queria saber onde estava o jantar? Riu mentalmente e virou-se para ele, fingindo desentendimento.
- Jantar? – Falou baixinho.
- Sim, você não fez o jantar? – Repetiu passando a mão nos cabelos totalmente bagunçados.
Antes de responder, Hinata foi levemente corando ao perceber os trajes do homem: calça comprida folgada e sem camisa. COMO ele poderia estar sem camisa num frio daqueles? E por Deus, por que sem camisa na frente dela? Se fosse noutra época, já estaria desmaiada por uma síncope fatal.
- E-eu s-sou babá da Mia e n-não sua cozinheira. – Respondeu o que sempre falava quando aqueles patrões abusados queriam a explorar. Gaguejando debilmente mais pelo fato da cena sem camisa do que pelo medo de pegar as contas.
- Não sabia que vocês diferenciavam, são todos do mesmo nível. – Retrucou Sasuke em tom de desprezo para com o humilde trabalho.
Hinata esqueceu-se do corpo malhado a sua frente e se concentrou no que aquele ser falava. Pela santa sapatilha, ele era um imbecil – pensou. Reuniu todas suas forças para não balbuciar e falou de maneira natural, mas breve:
- De qualquer forma, fiz uma macarronada para Mia e ainda sobrou na geladeira. Se me der licença, está na minha hora. Boa noite Sr. Uchiha.
- Você o que? Oh não, não, não. Não posso acreditar. COMO assim Hinata? A gente tem uma grande apresentação pela frente, algo que vai subir o nosso nível, podemos até ser contratadas mundialmente. E como é que você vem dizer que arranjou um emprego de babá de novo e ainda por cima praticamente INTEGRAL? Ficou maluca de vez? Vou quebrar sua cara!
- Ino, por favor...
- Não tem desculpa, isso é traição sabia? E eu achando que você tinha desistido desse negócio de trabalhar e dificultar nossos ensaios. Isso definitivamente é traição. Dedicamos nossas vidas nisso para você jogar tudo pro alto nas vésperas? Vou partir tua cara.
Hinata não sabia mais o que fazer. Desde que chegara em casa, depois do cansativo primeiro dia de trabalho com aquele homem que ela se recusava a falar o nome, estava tentando explicar para Ino sobre o novo emprego. Mas, a loira se recusava a aceitar.
Ino era bailarina profissional a nove anos, um ano a mais do que a própria Hinata. Ambas, utilizavam-se disso como profissão fixa e dividiam o mesmo apartamento. Porém, para Hinata, só o balé não estava rendendo o suficiente para pagar suas dívidas. Optando assim, por empregos alternativos.
-...Só que esse seu emprego maldito de babá, atrapalha TOTALMENTE nossos ensaios de balé e... – Ino continuou reclamando no ultimo volume, enquanto Hinata se perdia nos pensamentos.
Exatamente o que a loira dizia. O trabalho a consumiria... Não deixando tempo e forças o suficiente para os treinamentos pesados de balé. Logo agora, que elas teriam uma apresentação fantástica, patrocinada e organizada por um dos melhores bailarinos da Rússia. Não era justo mesmo, mas não podia ficar sem trabalho. Tinha muitas dívidas com Naruto, dívidas que só aumentavam sua vergonha.
- E esquece! Esquece tudo, se o problema é pagar aquele merda do Naruto, se é por isso que você quer trabalhar feito louca... ESQUECE! Eu pago para você, Hina. Você sabe que é só eu pedir dinheiro do meu bofe estrela que ele me dá... não tem problema! – choramingava Ino, tentando persuadir pela centésima vez.
- De jeito nenhum Ino! Deixe seu namorado fora disso. Eu arco com minhas responsabilidades. Além do mais, esse meu novo salário é bom... dentre três meses recebendo o valor que combinamos, eu consigo pagar o Naruto e os meses de aluguel que estou te devendo. Agora me deixa dormir, amanhã tenho que levar Mia na escola.
- O QUE? Amanhã temos ensaio de manhã! É a primeira medição para as roupas. Pelo amor de deus, Hina.
- Acalme-se Ino. Eu vou deixar Mia na escola e de lá irei para o teste de roupas, ok? Boa noite querida. Durma bem. – Falou calmamente Hinata, que além de destruída fisicamente, começou a sentir aquelas pontadas no coração quando falava mais de uma vez sobre o Naruto.
Depois que aquela babá inútil saiu, Sasuke foi até o quarto de Mia. Ressonando de maneira leve encontrava-se abraçada numa folha de papel. O Uchiha tirou cuidadosamente a folha e observou o que nela havia.
Itachi, ele, Mia, Sakura e Tsunade. Os cinco desenhados de maneira estranha na folha. Sorrindo e de mãos dadas. Então era isso que Mia queria mostrar mais cedo... Sasuke não pode deixar de sentir pena. Mia sentia falta daquela família, aquilo que ela achava que era completa. Mas, para Sasuke nunca foi e agora a pequena sofria por isso.
O lapso de pena passou quando olhou ao redor e viu outro, em cima da mesinha de Mia. Não muito bem desenhado, mas reconhecível. Aquele rabisco feito a giz era maior e mais específico era o rosto da babá. Os olhos sem pintura de giz prenderam a atenção de Sasuke.
Aqueles mesmos olhos sem cor o olharam de forma perturbadora quando ele foi irônico. Olhos que repreendiam. Olhos cheios de paradoxos. Olhos que ele criou apatia simplesmente por serem olhos.
Sasuke soltou os desenhos e foi para o seu quarto. De nada adiantava a aversão por aqueles olhos, se no fundo queria desvendá-los.
(N/A): Queridos, peço mil desculpas pela grande demora e pelo curto capítulo. Mas, devido a uma PM muito maldosa de um leitor, fiquei receosa em postar qualquer outra coisa...
O fato é que gosto tanto da ideia dessa fic que não conseguir abandoná-la assim, por isso continuarei firme e forte! Obrigada aos que mandaram review *.*
Pelo que puderam ver, os personagens ainda estão entrando. E viram como Sasuke é insensível com a coitadinha da Mia? E que Hinata não suporta isso? É, é... águas rolaram, barracos, muito amor e superação de vida.
Obrigada novamente a quem se dá ao trabalho de mandar uma review, significa muito!
Bjos e até semana que vem!
