Olha eu aqui com o segundo capítulo.
Espero que gostem.
Boa leitura!
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Itachi suspirou enquanto baixava a revista que estava a ler, olhando para o irmão que estava deitado no sofá a resmungar algumas coisas que ele não percebia o que eram. Olhou para o relógio que estava junto à porta.
15h32 era a hora que marcava. Sasuke estava naquele estado desde manhã cedo e isso estava a conseguir com que Itachi se deprimisse.
- Sasuke pára de amuar pelo amor de Deus. – Resmungou revirando os olhos. – Estás a deprimir-me.
- Hn. Pela última vez, não estou amuado. – Revidou o mais novo entre dentes.
- Estás sim. Sou teu irmão mais velho, sou perito em identificar quando estás amuado. E não tentes contrariar-me.
Sasuke resmungou mais alguma coisa antes de atirar a almofada ao irmão. Ele não estava amuado. Tentem triste, magoado, a sentir-se traído e usado e atirado para o lixo. E Uchiha Sasuke nunca tinha sentido essas coisas, não de maneira tão intensa.
Tinha esperado tanto para puder estar com a rosada novamente. Ambos tinham sido tão próximos em crianças antes de ele se mudar, tão próximos como irmãos. Tinham brincado juntos, criado mundos imaginários onde os bons ganhavam sempre, feito coisas que tinham deixado os pais doidos. Na tenra infância Sakura tinha sido a sua rocha, a sua companheira, a sua melhor amiga. E agora ela tinha esquecido. Era como se espetassem uma faca no seu peito ao mesmo tempo que lhe socavam o estômago. Mas se Sakura tinha esquecido, ele iria esquecer também. Nem sequer se ia preocupar mais com o assunto. Afinal, obviamente Sakura não era mais a menina de cabelos curtos que usava aquele laço, que ele sempre tinha achado ridículo, e que passava o tempo todo a dizer Sasuke-kun, daquela maneira irritante, para chamar a sua atenção e fazê-lo ouvir o que ela tinha a dizer sobre o que estavam a fazer. Ele podia ignorá-la durante o Verão, não podia ser assim tão complicado. Sakura estava a sair-se bem na tarefa de o ignorar a ele e ao irmão.
- Eu sei que dizem que as mulheres nunca se esquecem de nada, mas é mentira. – Itachi falou de repente fechando a revista e atirando-a para cima da mesa da sala. – Olha a Amaya-chan por exemplo, falei com ela há bocado e perguntei-lhe o que tinha almoçado, ela disse-me que não se lembrava.
- Não querendo ofender a tua namorada, porque tu sabes que eu até a tolero…- Disse Sasuke colocando o braço direito por cima dos olhos.
- Isso é o teu código para dizer que gostas dela? – Perguntou o mais velho sorrindo de canto.
- Hn. – Resmungou em resposta. - Ela é um péssimo exemplo.
- Que queres dizer?
- Ela é uma desastrada que tropeça nos seus próprios pés e não se lembra das coisas que fez ao fim de dez minutos. – Respondeu Sasuke tirando o braço dos olhos e olhando para o irmão.
- Olha meu pequeno…- Começou Itachi fuzilando o irmão com o olhar e um pouco chateado pelo que Sasuke tinha dito da sua namorada mas o som da campainha interrompeu-o.
Rapidamente Kawasaki-san veio da cozinha, limpando as mãos no avental que usava, para abrir a porta.
- Quem é Kawasaki-san? – Perguntou Itachi ainda a tentar matar o irmão com o olhar.
- É a sua namorada. – Respondeu a mulher a sorrir.
O rosto de Itachi rapidamente se iluminou e o rapaz virou a cabeça para encarar a porta. Kawasaki-san deu espaço para a jovem entrar, o que fez Itachi sorrir para ela enquanto se levantava.
Amaya era uma jovem muito bonita. Tinha longos cabelos castanhos, adornados com madeixas cor-de-rosa escuro, e olhos também castanhos mas de uma tonalidade mais escura. Estava vestida com uns jeans pretos colados ao corpo e uma camisola de alças azul clara, às costas uma mochila preta com as suas roupas para as férias. Os headphones estavam em redor do pescoço e os óculos de sol estavam na cabeça, segurando a franja.
A rapariga sorriu-lhe também, avançando na direcção dele com os braços abertos.
Sasuke revirou os olhos e suprimiu a vontade de fingir o vómito quando os viu começar aos beijos e a murmurarem coisas amorosas um ao outro. Sasuke estava feliz que o irmão tivesse uma namorada que gostava tanto dele como ele gostava dela, e que por acaso Sasuke até tolerava, mas dispensava assistir às demonstrações melosas que fariam qualquer pessoa vomitar se assistissem a isso de muito perto.
- Então cunhadinho, como estás? – Questionou Amaya ainda abraçando o namorado.
- Estaria bem melhor se o teu namorado não me chateasse a cabeça a cada dez segundos. – Respondeu sentando-se no sofá e olhando para a jovem. – Tu como estás?
- Eu estou sempre bem. – Respondeu alegremente e abrindo os braços de maneira brusca, atirando o candeeiro que estava em cima de uma mesa junto dela para o chão. – Ups…
- Entendes o que eu estava a dizer há bocado? – Perguntou Sasuke sorrindo de canto, o seu orgulho a ser afagado pelo olhar assassino que o irmão lhe lançou.
- Estiveram a falar de mim? – Perguntou Amaya olhando para o namorado com os olhos a brilhar de inquisição. – Wow…Sou famosa. O que estiveram a dizer?
- Nada com que devas preocupar a tua linda cabecinha. – Respondeu Itachi beijando-lhe a têmpora e contornando-a para apanhar o candeeiro do chão.
Amaya encolheu os ombros e tirou a mochila das costas, lançando-a para o chão e atirando-se para o sofá, ficando sentada ao lado de Sasuke. Depois tirou os óculos da cabeça e os headphones do pescoço colocando-os em cima da mesa de centro. Ao fim de alguns minutos em silêncio Amaya olhou para as escadas como se esperasse alguma coisa.
- Então suponho que a vossa hóspede não saiu do quarto hoje também. – Falou a jovem olhando de um rapaz para o outro.
- Não. – Falaram em coro abanando a cabeça.
- O que sabem sobre ela?
Os dois rapazes contaram-lhe como a tinham conhecido em crianças e tudo o que tinham feito. Contado como tinha sido a despedida e como Sakura tinha esquecido tudo e deixado Sasuke arrasado. E por fim tinham-lhe contado porque é que a rosada estava ali. Ao ouvir a razão da rosada se recusar a sair do quarto Amaya sentiu uma onda de compaixão envolver-lhe o corpo e inconscientemente agarrou o pulso esquerdo, apertando levemente. Ela sabia o que Sakura estava a sentir, ela própria já tinha estado no lugar dela, sabia o que era perder alguém querido de maneira brutal. E por muito que Sasuke, Itachi ou qualquer outra pessoa perto da rosada a quisessem ajudar, quisessem fazer a dor dela cessar, eles nunca iriam entender.
- Talvez eu possa falar com ela. – Sugeriu a jovem.
- Hn, boa sorte com isso. Ela não abre a porta para ninguém. – Resmungou Sasuke tentando esconder a irritação que tinha sentido quando, numa tentativa de começar de novo com a rosada, ele lhe tinha levado um tabuleiro com comida e ela tinha ignorado e mantido a porta fechada.
- Talvez ela fale comigo, com uma companheira que entende a sua dor. – Revidou Amaya.
- Deixa-a tentar Sasuke. – Disse Itachi apoiando a namorada.
- E tu que não estivesses do lado dela…Depois não venhas reclamar que ela te ignorou, - Resmungou Sasuke novamente levantando-se e caminhando para a porta que levava ao pátio traseiro.
- O meu cunhado precisa dum belo chuto num sítio que eu não vou revelar. – Fungou Amaya. – Em que quarto é que ela está?
- Última porta ao fundo do corredor no lado direito.
Amaya levantou-se do sofá caminhando até às escadas, passando pelo namorado e plantando-lhe um beijo na testa.
Ignorando o facto de que tinha tropeçado no primeiro degrau, subiu as escadas com uma graça e delicadeza que nunca pensou ter no seu corpo. Atravessou o corredor caminhando a passos largos antes de parar em frente à porta que pertencia ao quarto em que Sakura estava.
- Sakura-chan? – Chamou batendo à porta. Quando não obteve resposta continuou. – Gostava de falar contigo. Chamo-me Amaya e gostava de tentar ajudar-te. Posso entrar? – Continuava sem resposta. – Eu entendo o que estás a passar Sakura-chan. Sei o que é perder alguém de maneira horrível, sei o que é perder o chão e sentir o coração partir-se em pedaços.
E por fim quase como num sussurro, o que a fez pensar que devia estar a imaginar, ela ouviu:
- Podes entrar…
Amaya sorriu antes de levar a mão à maçaneta e a girar para puder entrar. A jovem encarou o quarto escuro tentando focar alguma coisa para evitar tropeçar e passar logo de caras a imagem de desastrada. Tacteou a parede em busca do interruptor da luz e quando o encontrou acendeu o candeeiro do tecto do quarto. Quando a luz encheu o lugar olhou em redor. As paredes estavam pintadas de branco e havia duas janelas à esquerda do quarto, as cortinas fechadas, e no espaço entre das duas janelas uma secretária. À direita estava um armário e uma cómoda com um espelho redondo e uma cadeira. E encostada à parede central do quarto estava uma cama, ao lado uma mesa-de-cabeceira. Sentada na cama com um portátil no colo estava Sakura, papéis de chocolates, pacotes de bolachas e latas de sumo circundavam o corpo da rapariga e ocupavam o espaço livre da cama. Sakura estava num estado considerado lastimável. Estava despenteada e tinha o rosto muito pálido. Usava uma t-shirt muitos números acima do seu e uns calções de fato de treino que lhe chegavam até aos joelhos.
- Antes de começar a falar contigo, vamos iluminar este lugar, sou uma pessoa que gosta de luz. – Disse Amaya sorrindo e andando até às cortinas. Agarrando nas cortinas deu-lhes um puxão, repetindo o acto com as da outra janela, deixando a luz natural entrar. De seguida virou-se para a porta e torceu a cabeça. – Não me apetece andar até ali outra vez…- Começou a olhar em redor, parando o olhar em cima do par de chinelos que estavam junto da cadeira da secretária. – Importaste? – Sakura abanou a cabeça num sinal negativo, olhando atentamente o que a outra jovem ia fazer. Amaya agarrou num dos chinelos e fez pontaria ao interruptor, atirando o objecto que acertou em cheio no interruptor e desligou a luz artificial. – Ha! Eu sou demais! – Exclamou levantando os braços para o tecto.
Sakura suprimiu a gargalhada que lutava para sair dos seus lábios, mas mesmo assim um pequeno som abandonou o seu corpo chamando a atenção de Amaya que lhe sorriu.
- Sakura-chan, obrigada por teres aberto a porta. – Disse a morena abrindo espaço entre o lixo em cima do colchão para se puder sentar, finalmente conseguiu sentar-se de frente para a rosada com as pernas cruzadas. – Porque não saís do quarto?
- Não quero ver ninguém…- Murmurou em resposta virando os olhos para o ecrã do portátil.
- Bem, agora vais-me ver e vais falar comigo. – Falou Amaya esticando os braços para fechar o portátil e tirá-lo do colo da rosada. – Sei porque estás assim. Sei o que te dói. Sei o que estás a sentir. Eu fiz o mesmo que tu estás a fazer, fechei-me. Não queria estar com ninguém, ignorei os meus amigos, ficava horas fechada no quarto. Fechei-me de tal modo que…- Engoliu em seco e apertou o pulso esquerdo. -…que tentei tirar a minha própria vida.
Sakura arregalou os olhos verdes olhando para a rapariga à sua frente surpresa. Amaya estava a sorrir mas tinha lágrimas nos olhos.
Estaria a mentir se dissesse que nunca tinha pensado em suicídio, porque tinha pensado. Mas tinha chegado à conclusão que era estúpido e uma medida demasiado drástica para a situação. Milhões de pessoas espalhadas pelo mundo perdiam diariamente um progenitor demasiado cedo e se todos acabassem com a sua vida por causa disso…
Amava o seu pai e não lhe iria dar essa desfeita, não era capaz de o fazer sofrer daquela maneira. Não quando sabia que ele não sobreviveria a perdê-la também.
- Porque tentaste matar-te…? – Perguntou Sakura.
- Queres ouvir a minha história? – Perguntou Amaya para obter a confirmação. Quando Sakura confirmou ela sorriu. Amaya podia esquecer-se de muita coisa mas disto nunca se iria esquecer. – Bem, quando eu tinha dezoito anos os meus pais morreram. Um acidente de carro, um camião foi contra eles. Dizem que o meu pai morreu logo mas a minha mãe aguentou três dias ligada às máquinas mas acabou por morrer. Sempre tinha sido muito próxima dos meus pais, costumávamos dizer que éramos os três mosqueteiros. – Soltou uma risada triste. – Eles eram…Eles eram tudo para mim. Lamechas, eu sei, mas é a verdade. Depois disto fui viver com os meus avós e fiz exactamente o que tu estás a fazer. Isto chegou a um ponto que eu tentei suicidar-me porque a dor era simplesmente demasiada. Todos os dias eu acordava a chorar, tinha pesadelos e sentia o peito arder.
- Como o fizeste? – Questionou Sakura olhando-a nos olhos. – Não estou a tentar obter ideias para me tentar suicidar também, não te preocupes…- Disse depois de ver o olhar que Amaya lhe tinha lançado.
- Fui à casa de banho, parti o espelho e usando um dos cacos, cortei o pulso esquerdo. – Respondeu a morena mostrando o pulso a Sakura. – Antes de conseguir cortar o direito os meus avós encontraram-me e impediram-me.
- O que aconteceu depois?
- No hospital, os médicos decidiram que eu devia ter ajuda profissional então disseram que eu tinha que visitar um psiquiatra a cada duas semanas para uma avaliação. – Respondeu ela. – Odiava aquilo. – Resmungou a rir. – Mas vindo disto tudo veio uma coisa boa.
- É uma daquelas histórias cliché em que me vais dizer que conheceste o amor da tua vida? – Perguntou Sakura olhando-a com as sobrancelhas arqueadas convencida de que Amaya iria negar.
- Lês mentes por acaso? – Perguntou a morena olhando-a surpreendida. Sakura arregalou os olhos ao ouvir aquilo. – Conheci o Itachi. Sabes aquele rapaz que também está a viver aqui, o que tem cara de idiota e usa rabo-de-cavalo?
Sakura sorriu levemente. Amaya continuou sorrindo também.
- Eu estava no hospital à espera que o meu médico acabasse a consulta antes da minha quando olhei para o lado e o vi. Ele estava um caco. Estava a sangrar do lábio, tinha a roupa suja, o cabelo estava solto e tinha um pano encostado à testa a tentar estancar o sangue que escorria de uma ferida. Eu sempre gostei de desenhar, então imediatamente me apanhei a mim mesma a olhar para as linhas do rosto dele e a pensar no como ele era um rapaz lindo e no como daria um óptimo modelo.
- Ele apanhou-te a olhar? – Perguntou Sakura começando a ficar interessada na história.
- Sim. Sorriu-me e perguntou-me porque é que eu estava ali. Eu não respondi à primeira. Fiquei perdida a pensar no que dizer. Obviamente não lhe ia dizer que estava à espera de uma consulta da psiquiatria, já tinha gente suficiente a pensar que eu era maluca. Então quando ele perguntou outra vez eu respondi a primeira coisa que me veio à cabeça. Disse-lhe que estava à espera de uma consulta da ginecologia.
Sakura cobriu a boca com a mão tentando conter a risada iminente que queria abandonar os seus lábios.
- Podes rir. Toda a gente se ri quando conto a história.
E Sakura riu-se. A primeira risada verdadeira que soltava desde que a mãe tinha morrido. Tinha de admitir que tinha saudades de rir e ouvir o som da sua própria risada, que sempre tinha achado horrorosa, lhe sabia muito bem.
- Ele ficou um pouco desconfortável mas logo depois disse-me porque estava ali. – Continuou depois da rosada ter acabado de rir. - Disse que tinha andado ao soco com um amigo por causa de uma miúda e eu lembro-me de dizer que a rapariga devia sentir-se muito sortuda e de antes de ele puder dizer alguma coisa, uma enfermeira veio chamar-me a dizer que o médico estava à minha espera. Então eu disse-lhe adeus e virei costas e fui-me embora atrás da enfermeira.
- E depois?
- Ah estás a ficar entusiasmada. Isso é bom. – Disse a morena a sorrir e esticando o braço, agarrando na mão de Sakura. – Duas semanas depois lá estava eu no hospital outra vez, na sala de espera a beber um sumo. E ele estava lá também, tinha ido tirar os pontos da ferida da testa. Nunca pensei que ele se lembrasse de mim então quando ele se virou para mim de repente e perguntou quantas vezes por mês uma mulher tinha de ir ao ginecologista, o sumo que eu tinha na boca voou cá para fora enquanto eu começava a rir que nem uma demente. Ele tinha-me feito rir, a primeira vez que eu ria desde que me tinha tentado matar e soube-me tão bem. Quase compensou o facto que me sujei toda. – Comentou a rir como se estivesse a reviver a cena.
- Contaste-lhe porque estavas lá?
- Não tive tempo. Mal eu acabei de rir fui chamada pelo meu médico. Mas enquanto me afastava, ele disse "Quando acabares de abrir as pernas, queres ir beber um café?"
- Ele disse mesmo isso?
- Disse. Atirado idiota…- Murmurou. – Nenhuma miúda iria beber café depois disso pois não?
- Mas tu foste. – Era mais uma afirmação do que uma pergunta.
- Sim, eu fui. Saímos durante umas semanas e eu acabei apaixonada por ele. Sentia-me tão bem ao pé dele, o Itachi fazia-me sentir viva outra vez. Mas mesmo assim eu não lhe tinha contado o que tinha acontecido, ele continuava a pensar que a história da ginecologia era verdade. E ao fim de anos de namoro ainda não descobri se ele se fez de burro ou não percebeu mesmo.
- Como é que ele descobriu o que se tinha passado contigo?
- Eu usava sempre mangas compridas, mesmo quando estava calor. Era horrível mas necessário porque eu tinha vergonha que vissem as cicatrizes. Um dia estávamos em minha casa, estávamos a ver um filme e a conversar e eu levantei a manga da camisola para me puder coçar e ele notou as marcas no meu pulso e perguntou o que era. E eu percebi que se queria que ele ficasse pelo menos como meu amigo tinha de lhe contar. Então eu contei-lhe, estava preparada para ele me chamar maluca e sair a correr de minha casa e nunca mais me querer ver.
- Mas ele não o fez. O que é que ele fez? – Perguntou Sakura apertando a mão da jovem.
- Não sei se conto. – Respondeu travessa.
- Oh vá lá! Fizeste-me abrir-te a porta, conseguiste que eu falasse contigo e agora deixaste-me entusiasmada com a história. O mínimo que podes fazer é terminá-la.
- Pronto, pronto. Não te exaltes. – Pediu Amaya a rir. – Ele sorriu-me, abraçou-me e disse que toda a gente tinha uma história, um passado, e que no meu caso era apenas um pouco mais negro do que para os outros. E agora todas as noites antes de irmos dormir ele abraça-me, beija-me as cicatrizes e diz que me ama e que nunca me vai dar razões para eu tentar acabar com a minha vida outra vez. O que eu tentei dizer com esta história foi que eu tive sorte. Tu podes não ter o mesmo destino. Podes continuar a fechar-te e isolar-te de toda a gente e acabar como eu acabei, mas sem teres alguém que te salve. Ou podes lutar contra a dor e mostrar a toda a gente o quanto és forte. Não estou a dizer para saíres do quarto agora ou amanhã ou depois. Mas tens de sair. O teu pai deve estar desesperado porque pensa que te perdeu, não lhe dês o desgosto de ficar com uma certeza enganadora. Está bem?
- Está bem. Obrigada, por partilhares isto comigo e tentares que eu me anime.
- Disparate! – Exclamou abanando a mão. – Somos as únicas mulheres nesta casa, precisamos de nos manter unidas e não gosto de ter pessoas tristes nas redondezas.
Sakura sorriu novamente recebendo de Amaya um sorriso doce.
Ao longo da tarde as duas continuaram a conversar. Sakura partilhava com Amaya memórias da mãe, chorando e rindo, e falava sobre como tinha o telemóvel e a caixa do e-mail entupida com mensagens dos amigos que estavam preocupados e queriam ouvir alguma coisa dela. A morena tinha-a obrigado a responder a tudo, resmungando algo como os amigos eram importantes e que não se preocupariam tanto com ela se não a amassem mesmo. Tinham falado sobre ambições futuras, Sakura dizendo que queria ser médica ou enfermeira e Amaya dizendo que era uma estudante de arquitectura e que para pagar as aulas e a renda da casa desenhava retratos e paisagens no parque da cidade onde vivia. Depois tinham falado sobre coisas triviais, filmes, livros, actores de cinema que achavam bonitos e sobre bandas que gostavam. E antes de Amaya sair do quarto tinha arrastado Sakura para fora da cama para arrumar o cómodo e depois tinha-a atirado, literalmente, para o chuveiro.
Amaya desceu as escadas lentamente e caminhou para o pátio traseiro para encontrar os dois rapazes.
O pátio era um espaço amplo e coberto de relva, no centro uma piscina. Do outro lado da piscina estavam várias espreguiçadeiras e um pouco mais afastado havia um lugar para fazer fogueiras e em redor algumas cadeiras mais baixinhas.
Os dois irmãos estavam deitados nas espreguiçadeiras, aproveitando o sol da tarde. Amaya contornou a piscina para se juntar aos rapazes, sentando-se na espreguiçadeira de Itachi depois de lhe afastar as pernas para o lado.
- Então, falei com a Sakura-chan. – Disse ela olhando para os pés e sorrindo à sensação agradável da relva arranhando-lhe os pés.
- O que é que ela te disse? – Perguntou Sasuke mordendo a língua por ter deixado escapar a questão.
- Uma senhora não anda por aí a revelar os seus segredos cunhadinho. Mas não te preocupes, acho que consegui que ela repensasse um pouco e considerasse sair do quarto sem ser à noite.
- Sem ser à noite? – Perguntou Itachi trocando com o irmão um olhar confuso.
- Sim. Vocês não sabiam? Ela espera que vocês adormeçam para sair do quarto e vir à dispensa buscar comida.
Os dois irmãos trocaram outro olhar pensando que a rosada era uma miúda trapaceira e estava a conseguir passar-lhes a perna de uma maneira que eles não estavam à espera.
…
Sakura abriu a porta lentamente olhando para o corredor escuro, examinando o lugar de maneira minuciosa em busca de alguém que a pudesse ver. Quando não viu ninguém, saiu do quarto fechando a porta e caminhou até às escadas nas pontas dos pés, amaldiçoando os construtores da casa quando o primeiro degrau fez um barulho agudo. Kawasaki-san tinha-lhe vindo trazer o jantar há coisa de quatros horas atrás e ela já estava com fome outra vez, então estava a ir para a cozinha para buscar alguma coisa.
Depois de Amaya a ter atirado para debaixo do chuveiro, usava agora umas calças de pijama e uma camisola de alças, os cabelos longos num coque frouxo e não tinha nada nos pés mas o chão frio não a incomodava de maneira nenhuma.
Quando estava no último degrau olhou em redor novamente em busca de alguém que a pudesse ver, quando apenas encarou o escuro e as mobílias andou rapidamente até à cozinha, estava mesmo com muita fome e aquelas maravilhosas bolachas que Kawasaki-san tinha referido quando lhe tinha ido levar o jantar pareciam estar a chamar por ela.
- Olá Sakura. – Falou alguém assim que ela meteu os pés na cozinha.
A rosada soltou um grito com o susto cobrindo logo de seguida a boca. Acendeu a luz do lugar procurando pelo dono da voz. Os olhos verdes pararam em cima da figura de um rapaz, sentado no chão, com as pernas esticadas e com as costas encostadas aos armários.
- Desculpa, não quis assustar-te. – Disse o rapaz soltando uma leve risada.
- Bem, assustaste! – Exclamou Sakura tirando a mão da boca e levando-a ao coração.
- Desculpa.
Sakura olhou melhor para o rapaz que estava sentado no chão para conseguir ver qual dos dois irmãos se tratava.
- O que é que estás aqui a fazer hum…Itachi não é?
- Sim, é Itachi. Estava à tua espera. Precisava de falar contigo e como tu te recusas a sair do quarto, tive de me acampar na cozinha. – Respondeu sorrindo. – Senta-te aqui. – Disse batendo no chão ao seu lado. – Queres uma bolacha? – E levantou o prato que tinha em cima das pernas para que ela visse.
Sakura torceu um pouco a cabeça, num movimento que as amigas sempre tinham achado adorável, mas rapidamente se sentou junto do rapaz tirando uma bolacha do prato e mordendo, saboreando o gosto das pepitas de chocolate.
- Disseste que querias falar comigo?
- Não te lembras mesmo pois não?
- Do quê?
- De mim e do meu irmão. – Disse ele tirando uma bolacha do prato.
Sakura olhou-o confusa parando de mastigar. – Devia lembrar-me?
- Tu conheceste-nos em criança. – Respondeu Itachi. - Os nossos pais eram amigos de escola e tiveram negócios juntos durante um tempo. Eu, tu e o Sasuke brincávamos juntos às vezes. Mas vocês os dois arranjavam sempre maneira de me deixarem para trás para irem brincar os dois para algum lado.
Sakura olhava o rapaz em choque. Mentira não podia ser, afinal Itachi não tinha razões para lhe mentir. Mas Sakura não esquecia as coisas, ela nunca esquecia…
- Eu não me lembro…
- Fecha os olhos. – Ordenou o moreno acabando de comer a bolacha. – Eu não te vou magoar. – Assegurou a sorrir quando Sakura lhe lançou um olhar apreensivo.
A rosada terminou de comer a bolacha e fechou os olhos, esperando pelo que Itachi lhe ia fazer ou dizer.
- Estás em Tóquio, é de noite e estás num telhado. – Começou Itachi correndo os olhos pelo prato de bolachas, procurando aquela que tinha mais pepitas de chocolate. - Estás deitada a olhar para o céu e estão duas pessoas contigo. À tua direita está o Sasuke, ele está a olhar para o céu e a sorrir. À tua esquerda estou eu, estou com os olhos meio fechados porque estou cheio de sono mas tive de ir para o telhado também para tomar conta de vocês. De repente apontas para o céu, abres a boca para falar e dizes…
- Itachi-nii-chan, Sasuke-kun, olhem uma estrela cadente. Peçam um desejo…- Ela disse rapidamente interrompendo o rapaz. Ao perceber o que tinha dito os olhos abriram-se em choque e o queixo caiu ao mesmo tempo que encarava o sorridente rapaz sentado ao seu lado.
- As pessoas não esquecem Sakura. Apenas guardam as coisas nas profundezas da sua mente.
- Eu lamento tanto não me ter lembrado de vocês…- Murmurou ela ainda em choque.
- Não me peças desculpa a mim, tens de pedir desculpa ao Sasuke. Ele está magoado e triste e sinceramente está a deprimir-me. – Resmungou. – Vocês eram melhores amigos antes de nos mudarmos e ele sente-se esquecido e traído, apesar de ser um idiota e não o admitir.
- Eu também estaria. Ah! Porque é que eu me esqueci? É estúpido e injusto para com vocês!
- Tem calma. Com o tempo as coisas apareceram na tua mente novamente. Mas tens de falar com o Sasuke.
- Hai. Obrigada por me teres feito lembrar e por me teres assustado. – Disse ela rindo um pouco e tirando outra bolacha do prato.
- O prazer foi meu. – Disse ele sorrindo.
…
Sasuke agarrou na toalha que estava em cima da espreguiçadeira para puder secar os cabelos.
Itachi tinha dito para ele prestar atenção hoje, que algo importante iria acontecer. Sasuke duvidava seriamente mas sempre se mantinha ocupado enquanto pensava no que o irmão estava a falar.
Deitado na espreguiçadeira do lado estava o irmão, a ler um livro, e sentada no espaço entre as duas espreguiçadeiras estava Amaya, o seu bloco de desenhos na mão e um lápis na outra, os olhos analisando minuciosamente o lugar em redor de si enquanto o passava para o papel.
De repente os olhos escuros arregalando-se levemente mas voltando ao normal logo de seguida ao mesmo tempo que um sorriso aparecia nos seus lábios.
- Sakura-chan! – Chamou Amaya acenando freneticamente para a porta depois de largar o bloco.
Itachi apenas levantou os olhos do livro por uns segundos, sorrindo na direcção da porta para depois voltar a olhar para o livro, enquanto Sasuke estava em choque a olhar para a jovem rosada que caminhava lentamente pela relva na direcção deles.
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Ok, este capítulo ficou mesmo muito grande…Acho que me inspirei demasiado…
Mas descobri algo engraçado! Sabiam que piscina tem um sinónimo? É que eu não. O sinónimo é natatória, pois é. Fiquei em choque quando descobri mas depois comecei a rir muito alto e a tentar imaginar as pessoas a usarem esta palavra em vez de piscina.
Devaneios à parte…Espero que gostem e deixem review.
Beijinhos!
