Minha mãe ficou feliz com a notícia de que havia sido convidado para estudar em Hogwarts, e como já era esperado, me encorajou. Tratou de providenciar meu material escolar, e na semana seguinte chegaram pelo menos duas corujas por dia. Traziam livros, fardas, canetas-tinteiro, e algumas dissertações que ela havia aproveitado para comprar pra ela.
Ficou acertado que receberia quinzenalmente uma gorda mesada, e também que eu deveria escrever-lhe sempre e quando possível mandar recortes do Profeta Diário com notícias interessantes. Eu, claro, iria levar a Polaroid que havia sido de minha mãe. Já no fim de agosto chegou mais uma coruja, mas desta vez era uma coruja branca, para minha alegria, que não simpatizava muito com as negras. A coruja entrou pela janela, seus olhos brilharem.
-Ainda bem que você é branca! - exclamei. Ela fez uma cara de rejeição, somo se pudesse me entender, ou será que podia? - Não, não se trata de prenconceito ou coisa parecida com as negras/pretas/mais escurinhas, é que apesar deles sempre trazerem boas notícias eu não me sinto muito bem quando estou próximo delas.
Tratava-se de mais uma carta com o selo de Hogwarts, desta vez uma autorização para que eu visitasse o povado de Hogsmead. Acho que minha mãe assinou sem nem ler, de tão eufórica que se sentia pelo fato de eu estar indo estudar em Hogwarts. A tarde do dia 30 de agosto não demorou a chegar. Fiz minhas malas e estava levando comigo um belíssimo gato persa, ao qual dei o nome de Gérard. Fui de comboio para Paris, e de lá mais um trem ou outro, até poder finalmente pegar o trem que me levasse a Inglaterra pelo Eurotúnel, atravessando a Mancha.
Não conseguir dormir, mas devo admitir, havia escolhido uma ótima literatura para viagem. Li uma página ou outra de "Hogwarts - Uma História". Eu sabia que era novo para isso, mas tentava começar a entender o que se passava na cabeça de minha mãe para gostar tanto de política trouxa. Comecei a ler um livro trouxa aparentemente infantil que tinha virado um filme também infantil, mas na verdade cheio de metáforas sobre igualdade social e revolução. Tratava-se de "Alice no País das Maravilhas" do magnífico inglês Lewis Carrol.
Cheguei na Inglaterra pela manhã. Estava sozinho, entre os trouxas. Até então achava que sabia falar bem inglês, mas ao analisar como as pessoas falavam não consegui entender muita coisa. Achei o sotaque, o ritmo, a cadência, tudo muito diferente. Achei que teria problemas com a retórica daquele país.
Dali mais um ônibus, e enfim, Londres! Segundo as coordenadas da minha mãe, deveria almoçar em um pub chamado "O Caldeirão Furado" e de lá também entrar para o Mundo Bruxo inglês chegando ao Beco Diagonal. Admito, estava confuso. Acabei por comprar uns LPs usados de umas bandas que achei que mereciam ser ouvidas, apesar de saber que seria difícil fazê-lo em Hogwarts. E então lá estava eu, pouco tempo depois, procurando onde seria a Plataforma 9 e 1/2. Sim, leitores, permitam-me este clichê; notei que alguns alunos entravam rapidamente na coluna que dividia as plataformas 9 e 10, e fiz o mesmo.
Fui um dos primeiros a chegar, o Expresso de Hogwarts estava vazio. Já não aguentava mais pegar trens, mas fazer o quê? Deixei minha mala em uma cabine e fui me trocar no banheiro. Não sabia como as coisas eram, e tive medo que todos estivessem fardados exceto eu. Olhei-me no espelho, as olheiras pareciam ter comido meus olhos.
Aos poucos o trem foi enchendo, e um grupo de alunos mais ou menos da mesma idade que a minha ocupou a minha cabine junto comigo. Pelas suas vestes com detalhes amarelos, logo reconheci, sem sombra de dúvidas eram sonserinos.
-Enton vocês son sonserrinos? - estava nervoso, um sotaque francês patético surgiu de onde não sei.
-Está de gozação? Tipo assim, tá na cara que a gente é Lufa-Lufa, não? - disse uma garota que me pareceu atraente. Tinha um jeito único de falar e se gesticular, tipo de pessoa que me pareceu ser interessante para se conversar? Se era bonita? À sua maneira...
-Oh, c'est vrai (verdade)... Lufa-Lufa, clarro.
-Então é você, o novato franco-argentino de que todos têm falado? Há anos um aluno não entra no sexto ano em Hogwarts sem ter cursado os anos anteriores lá. Isso só acontece em casos extremos, sabia? - um garoto desengonçado e com a voz meio grogue.
-Ah, qu'é isso, Ashton? Não vamos constrager o... o...
-Gaël, Gaël Quincaploix. - falei sorridente.
-Isso, o Gowel! Durrie, Durrie Baylor, a seu dispor.
Fiquei tão nervoso que nem tive coragem de corrigir meu nome. Pudera, não iria cobrar de uma garota que havia grande probabilidade de eu estar me apaixonando que fale meu nome com perfeita pronúncia. Fiquei calado o resto da viagem, enquanto que Ashton, Durrie e o resto do grupo continuavam a conversa. Ao descer do trem, percebi que todos cochichavam algo como; "É ele, é esse o novato franco-argentino". As pessoas me olhavam diferente, fiquei com medo de que que virasse uma vítima de bullying. Tá, eu sei que sou exagerado, mas de fato, fiquei com medo. Um homem alto e meio gordo exclamava "Novatos, por aqui!". Fiquei meio perdido, não sabia se deveria ir com aqueles pirralhos, eu me sentia gigante do lado daquelas crianças. Elas eram tão ingênuas que eu tinha a impressão que poderiam ser atropeladas pelo trem quando partisse por estarem brincando de Pega-Pega em cima da linha do trem. O homem alto, que logo descobri que se chamava Hagrid fez um sinal como se dissesse: "Você também, venha comigo!".
Eu quando criança era meu gordinho e talvez por isso tivesse os ombros largos agora, sou robusto. Me senti patético em estar na mesma fila que aquelas crianças acéfalas. Mais a frente algumas brincavam de "Piuí-Ta-Ta-Tá". Ao meu lado outras discutiam se o Hagrid não era o Papai Noel mais alto depois de um longo dia em um salão de beleza encrespando os cabelos e pintando-os de preto. Por um momento, senti medo de que tivesse que estudar com esses pirralhos.
Já dentro do castelo, após subir uma ou outra escada estávamos em um sala que logo reconheci, era o Saguão de Entrada. Uma gata que parecia estar preparada para dar um bote nos esperava, Hagrid já havia ido embora. De repente, a gata se transformou em uma mulher, aliás, uma "véia" descabelada e com óculos meio embaçados.
-Olá garotinhos, me chamo Minerva McGonagall! Sou a tia Minerva! Vocês já conhecem as casinhas de Hogwarts? As casinhas são como suas famílias. Aqui não há papai e mamãe não, só os diretorezinhos de cada casa! - dizia ela.
Senti-me enojado. Foi um retrocesso, como se estivesse no Jardim da Infância, o que aliás, nunca estive. Desprendi-me do local, e saí voando em meus pensamentos. Enquanto Tia Minerva (risos) ia apresentando aos alunos as casas de Hogwarts com figuras animadas, uma aluna magricela estilo vara-pau amarrava os cadarços da Tia Minerva um ao outro. Quando as portas se abriram para o Salão Principal, a pobre caiu. Os alunos que lá dentro já estavam se riram, mas eu senti pena daquela velha ali no chão, tão fodida. Ajudei-a a se levantar, ela olhou em meus olhos, passou a mão em meu peito e disse "Depois daqui quero vê-lo em minha masmorra". Será que a Tia Minerva era pedófila? Deixa estar.
Os alunos me olhavam com desprezo e cochichavam, já que era tão alto, tão diferente. Fui um primeiro a ir para a frente e ter sob minha cabeça um chapéu velho, o Chapéu Seletor.
-Sonserina! - falou o chapéu assim que foi posto em minha cabeça.
Sentei-me a mesa com meus sonserinos. Estava orgulhoso, fazia parte da Sonserina, a Astúcia Verde. O jantar estava terrível. Acho que aquela goroba nem merece ser chamada de jantar, e sim de merenda. Uma elfa desdentada e sebosa se aproximou e com a varinha encheu todos os pratos.
-Pão com "sarchichinha"! - exclamou.
Comi enguiando, foi a pior comida que já comi em toda minha vida. Assim que acabou o jantar, Minerva fez um sinal para mim e deu uma piscadela. Eu a acompanhei até sua masmorra. Uma coruja preta estava na sala, e veio voando para meus ombros. Em cima de sua mesa havia uma pilha de cartas, reconheci a letra. Eram cartas de meu pai.
-Você sabe porque está aqui? - perguntou ela, agora penteada e re-erguida, mais simpática.
-Não, não sei. Você sabe?
-Sei sim...
-Então diz...
-O quê?
-Então diz porque estou aqui...
-Ergh... Mas você sabe já?
-Não, não sei. Você sabe?
-Sei.
-Então diz logo!
-Mas você já sabe?
-Não, não sei... Dá pra dizer?
-Pra que eu vou dizer se você acabou de dizer que já sabe?
-Oh véia, tu tá MOCA é? Sua BOCÓ! Eu ACABEI DE DIZER QUE EU NÃO SEI ESSA PORRA, NÃO! DESEMBUCHA!
-É, bem... Acho que todos já entenderam que só no próximo capítulo. Até lá!
-Até lá! - e calei-me.
