Capítulo 1

O Primeiro Refúgio

Eu nunca estive tão bem como agora, finalmente tinha amigos de verdade. Nunca fui muito popular na escola, porém, para compensar, desde criança tive um amigo muito fiel, o Edwin. Eu e ele éramos muito parecidos, até fisicamente. Magrelos e sem graça. Também éramos altos para a nossa idade, e cabelos lisos escorridos e negros. A única diferença era a cor dos nossos olhos, o meu azul-claro e o dele eram castanhos.

Desde que eu me lembro Edwin morava na casa ao lado da minha. Uma vez fizemos uma passagem secreta(que logo foi descoberta pela mamãe) entre o muro de madeira que separava nossas casas. Estudamos sempre no mesmo colégio, regulávamos idade e ficávamos sempre na mesma classe.

Porém os anos foram passando e o que nos tornava diferente um no outro foi se acentuando. Nossa amizade e união não sofreram abalos com isso, ele continuava sendo o meu melhor amigo. Para falar a verdade, no colégio éramos ignorados, tachados como nerds. A única vantagem disso era que quase não nos chamavam para as atividades físicas.

Portanto um só podia contar com o outro. Até aos quinze anos foi assim. Foi então que chegou a carta. Papai ficou tão contente, mas quando ele dissera que mudaríamos para o condado de Kent, fiquei totalmente sem chão. Afinal sempre me comportei como um filho exemplar, e mesmo assim nada adiantou, eles sempre obrigavam que eu me submetesse as suas vontades.

Não esbravejei, apenas fiquei sério desde então. Quem ligava para a nova instituição estrangeira? Maldita hora que papai se candidatou ao emprego. Malditos Japoneses que instalam fábricas nos países dos outros. Na verdade não tinha nada contra os japoneses, mas era mais fácil culpá-los pela minha própria insatisfação.

Embora eu quisesse ficar, a viagem seguiu tranqüila e sem reclamações da minha parte. Aliás, fiquei calado o tempo todo. Kent não era muito longe dali, talvez Edwin pudesse nos visitar de vez em quando. Pelo menos o papai receberia mais que o dobro do seu antigo salário. Esses pensamentos me reconfortavam.

Foi tudo tão rápido, papai recebeu a carta e três dias depois já estávamos em Kent, mais precisamente em Dover. Nem perderia muitas aulas, fui logo remanejado para uma escola local. A casa também nos foi dada pela fundação, pareciam ser bem ricos. Espero que papai pelo menos compre um carro para mim antes que eu entre na faculdade.

Seria esquisito ver os porta-retratos da mamãe com as fotos do meu primeiro refúgio, Londres. Kent era tão... verde. Era um lugar bonito, mas não se comparava a Londres, meu verdadeiro lar. A primeira semana foi péssima, me senti mais sozinho do que nunca. Agora eu sei como os exilados se sentem.

Ok, talvez eu estivesse exagerando de novo, mas sentia falta das brincadeiras que fazia com Edwin e os outros. Na escola eu era totalmente ignorado, mas a matéria e a cobrança eram bem inferiores se comparada as do meu antigo colégio. Algumas vezes eu saía de casa, mas não conhecia ninguém, além de uma menina mais velha que era nossa vizinha. Ela parece trabalhar no meu colégio, todo dia ela estava por lá. Nossas conversas quase nunca se estendiam a mais do que um simples "oi, tudo bem?" e "até mais".

Duas semanas depois da minha chegada em Dover, e tudo parecia como foi desde o primeiro dia na cidade nova. Ainda ignorado no colégio, sendo a única pessoa que me cumprimentava era a minha vizinha, que por sinal nem me foi apresentada, não sabia sequer seu nome. Nem os professores iam muito com a minha cara, embora eu não soubesse o motivo.

Foi então que, no refeitório, enquanto eu apenas comia sem muito gosto uma maçã, senti uma mão passar suavemente pelo meu ombro. Era a minha vizinha, ela era loira e usava um pequeno coque. Era bem magra também e seus olhos eram da cor dos meus. Olhei atentamente sua expressão de alívio, parecia que ela estava ávida pra falar comigo.

- Oi... – disse ela, com um sorriso no rosto. – Sou Têmi, e bom... somos vizinho.

- Sim...er, tudo bem? – Respondi, com um pouco de espanto. Até então ninguém se dera ao trabalho de me chamar para uma conversa.

- O que está achando da escola? Não se compara a Londres, né?

- Sabe que eu sou de Londres? – Fiquei ainda mais espantado.

- Claro... sou a inspetora do colégio, tenho que saber. – Ela tinha uma voz muito tranqüila e clara. – E meu pai foi quem entrevistou o seu para o emprego lá na fundação, portanto eu soube por aí também...

- Ah, que bom. – Menti. Na verdade não via nada de bom em Dover. – E você não quis trabalhar na fundação também?

Ela me olhou desconfiada. Parecia uma pergunta bem óbvia, afinal se a fundação era tão rica quanto aparentava ser, qual a razão dela não trabalhar lá? Ela me olhou um tanto séria, mas logo voltou a sorrir.

- Sinceramente não tenho vontade de trabalhar lá... – Ela parecia estar contrariada. – Mas então, o que você está achando do novo colégio Daniel?

- Também sabe meu nome?

- Claro, já disse que sou sua inspetora... – Ela pegou alguma coisa no bolso. – Daniel Garnet. Data de nascimento foi em primeiro de junho do ano de 1974...

Olhei surpreso para ela. Foi então que ela me mostrou uma caderneta com a minha foto e todos os meus dados, inclusive com as datas que eu freqüentei as aulas com um "Presente" carimbado em azul. Ela me entregou e pude conferir todos os dados, estavam corretos.

- Vim aqui te entregar sua caderneta do colégio, tem que trazer todo dia, viu? – Ela ficou me olhando com curiosidade. Eu disfarcei demonstrando um falso interesse pelo interior da caderneta. – Bom, então... estava pensando se você não quer carona para casa?

- É tão perto que eu acho que não precisa. Obrigado mesmo assim, fico lisonjeado pelo convite.

Um silêncio incômodo mostrou-se presente, enquanto encarávamos um ao outro. Era como se estudássemos o comportamento de cada um. O mais estranho era que eu sentia uma certa familiaridade com Têmi, pensei até que a conhecia de outro lugar. Isso justificaria o fato dela saber meu nome, mas não era o caso.

- Você é Têmi...

- Têmi Singer. Quer saber o ano que nasci também?

- Não, não... – Sorri para ela. Foi o primeiro sorriso sincero dessa última semana. – Então, prazer Têmi Singer.

Ela olhou o relógio grande que estava atrás de mim, se levantou e eu fiz o mesmo. Ela se despediu rapidamente e foi embora, estava no horário de trabalho. O refeitório começara a se esvaziar, sinal de que a aula já estaria preste a começar. Mesmo não estando muito animado, corri para a sala. Quando chegou o final do dia, vi que Têmi estava me olhando ao longe. Fui na sua direção e a vi esperando todos irem, para, enfim, ela poder voltar para casa.

- Tem certeza de que não quer a carona? Não me custaria nada, somos vizinhos e se você esperar só um pouquinho até eu fechar tudo aqui...

- Não, sério mesmo não precisa, obrigado. Estou querendo andar um pouco, sabe? – Era a segunda mentira que ela me obrigara a fazer. É óbvio que ela não engoliu nenhuma das duas, mas deixou eu partir.

Enquanto voltava para casa só conseguia pensar em Têmi. Chegava a ser estranho o tamanho interesse por mim, parecia que ela queria ser mesmo amiga minha. Por que não? Pensei. Estava me queixando tanto de não ter amigos e de estar insatisfeito com a cidade, talvez eu precisasse dar uma chance para Dover e seus habitantes.