Capítulo 2: Não vá

Sumário: Dois panacas fazem panaquice.

Porque eles são panacas.


All the small things
True care truth brings
I'll take one lift
Your ride best trip
Always I know
You'll be at my show
Watching, waiting, commiserating

...

Keep your head still, I'll be your thrill
The night will go on, my little windmill
-Blink 182 (All the Small Things)


Eu não consegui dormir depois de falar com Jean… minha mente estava muito preocupada, animação correndo pelas veias. Então eu fiz o que qualquer universitário doente que se preze faria: construí um forte de cobertores. Admito, era uma bela porcaria de forte; composto em sua maioria por lençóis pendurados na parte superior do beliche e cobrindo a parte inferior por inteiro. Mas ei – em minha defesa, eu estava fatalmente doente.

Acabado o meu forte patético, decidi que tomar um banho quente me faria bem, mas assim que retornei do banheiro (banheiros e quartos comunitários era na verdade bem legais: eu não tinha que limpá-los, eu não tinha que comprar meu próprio papel higiênico) voltei e me sentir entediado com o tanto de tempo que ainda tinha. Zapeei pelos canais de TV, mas não havia nada interessante no ar. Ficar doente era chato pacas.

No final, eu acabei apagando no forte por volta das duas da tarde. E não acordei até—

"Toc, toc!"

Meus olhos estavam pesados demais, e foi com esforço tremendo que abri um. Não conseguia ver nada além de escuridão e cobertores, e por instantes eu fiquei confuso. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Mas então lembrei…

Jean…?

"Você morreu aí dentro, foi?" ele gritou do outro lado da porta, e devagar eu saí da cama. Chiei ao encostar os pés descalços no chão frio, mas feliz em notar que minha dor de cabeça ficara mais fraca. Eu caminhei para a porta, pouco me importando em estar só de boxers e camiseta. Nós dois éramos caras, e eu duvidava que deixaria Jean desconfortável.

Como esperado, eu estava certo; assim que abri a porta e pisquei para a repentina rajada de luz que vinha do corredor, as mãos esfregando os olhos sonolentos, a primeira coisa a sair de sua boca foi "Bonito cabelo amassado".

Levei bastante tempo entre piscar e encara e focar a visão para finalmente enxergá-lo: Jean em skinny jeans, uma larga blusa verde de mangas compridas, um sorriso bobo no rosto e duas sacolas de papel do Panera, uma em cada mão.

"Eu… uh. Parece que você trouxe mais do que sopa." Eu disse, meu olhos na comida.

"Bom, é. Porque você não comeu nada o dia todo, comeu?"

Eu não precisei responder, meu estômago fez isso para mim: com um longo, profundo e alto ronco monótono.

Jean lançou-lhe um olhar assustado. "Acho que ele está bravo…"

Eu apenas pus a mão no estômago e fiz que sim devagar, ainda não completamente acordado quando dei espaço para o garoto entrar no quarto.

Rapidamente, acendi as luzes enquanto ele colocava a comida sobre minha escrivaninha vazia, ao lado da janela.

"… você tem seu próprio quarto?" ele perguntou em tom incrédulo.

"É…" eu suspirei, "O cara com quem eu ia dividir o quarto pediu transferência na última hora, então agora eu tenho o quarto só pra mim."

"Sortudo."

"Que? Não é tão legal, pra ser honesto… queria ter alguém pra dividir o quarto."

Jean levantou a mão em protesto. "Não, para com isso, você não sabe o que está dizendo. Cuidado com o que deseja, você poderia acabar com colegas de quarto malucos."

Eu o fitei com curiosidade. "Você acabou com colegas de quarto malucos?"

Ele abriu a boca rapidamente antes de fechá-la de novo com um claque, hesitante, como se não soubesse se respondia ou ficava quieto.

Eu levantei uma sobrancelha, sorrindo até ele finalmente soltar um longo suspiro pelas narinas, indignado. O que me lembrou vagamente um cavalo…

"Ok, tudo bem, você quer saber? Eu moro em Maria, então nosso dormitório é suíte, e nós quatro dividimos um banheiro. Você tem ideia do quão horrível é isso?"

"Isso não parece tão r—"

"E eu e Connie temos que aguentar nossos dois colegas de quarto se comendo a noite toda."

Minhas bochechas esquentaram de repente. "O-oh."

"É…" Jean respondeu, coçando a nuca. Dava quase para sentir o gosto do desconforto no ar. "D-de qualquer forma" ele murmurou, tentando mudar de assunto, "Vai logo comer. Eu trouxe sopa de cheddar e brócolis, achei que tudo bem. E também trouxe mais coisa, caso isso não seja o suficiente…"

"Não, não, é perfeito! Obrigado, Jean."

Tirei um cobertor da minha cama por detrás das cortinas improvisadas e o coloquei nos ombros, me dirigindo até onde a comida se encontrava.

"Ah, e se seus colegas de quarto forem um problema muito grande, sinta-se a vontade pra passar a noite aqui, tá bom?" Me sentei rapidamente e comecei da devorar o que Jean tinha posto na minha frente.

Houve um breve segundo de silêncio antes de ele dizer "Eu acho que vou aceitar sua oferta um dia desses."

Como comecei a devorar graciosamente a sopa com que Jean tão bondosamente me abençoara, ele caminhou até havia colocado o filme, na mesa bagunçada do outro lado da sala, ainda em sua caixa de DVD.

"Porra, eu vou chorar", ele se queixou.

Engolindo rapidamente, e virei para ele. "Espero que goste de fantasmas e coisas do tipo, porque acho que o filme é sobre isso…"

Virei-me para ele a tempo de vê-lo tremer. Rolei os olhos e voltei a comer; pelo que ouvi, 'Sobrenatural' nem era assim tão assustador. Nos próximos minutos enquanto eu acabava a refeição, pude ouvir Jean suspirar e resmungar, lendo a sinopse e examinando a capa.

"Ei," chamei sua atenção, engolindo o que restava da sopa e deixando a tigela de lado. "Você viu aquele estudo novo? Sobre reclamar?"

Jean tirou os olhos da caixa e estreitou os olhos para mim. "Não…?"

"Pesquisas realmente apontam que reclamar não faz absolutamente nada pra melhorar a situação!" eu respondi, fingindo surpresa.

Capa do DVD voou pelo quarto e bateu na minha cabeça, caindo no chão.

Rindo e tossindo ao mesmo tempo, peguei o filme do chão, vesti meu cobertor como uma capa e andei até o aparelho de DVD.

"Você poderia apagar as luzes, por favor?" pedi agradavelmente, colocando o DVD no aparelho e pegando o controle remoto.

"Quê?! A gente… a gente vai ver isso no escuro?"

"Claro… é um filme de terror, afinal."

Resmungando comentários sarcásticos, ele rapidamente apagou as luzes, e eu subi na cama, puxando os lençóis pendurados para o lado e acenando para Jean se juntar a mim. Esperava que ele não me achasse estranho por convidá-lo a sentar na cama comigo… nós íamos assistir a um filme e éramos amigos, não havia nada de estranho nisso, certo?

Por sorte, ele pareceu completamente bem e confortável com o convite quando tirou os sapatos, e estava prestes a pular na cama quando ergui a mão.

"Agora Jean, antes que eu te deixe sentar aqui, você tem que prometer que não vai fazer xixi nas calças durante o filme."

Sua reação foi imediata. "Puta QUE PARIU, Marco, você quer que eu assista essa merda ou não?"

Eu rapidamente deslizei para trás, encostando-me contra a parede, e dei um tapinha no espaço ao meu lado. "Sim, por favor," sorri inocentemente.

Ele deu um suspiro longo antes de se juntar a mim.

Os trailers começaram e, enquanto apertava o 'skip' no controle remoto, me virei sorrindo para Jean. "Mas sério, se precisar ir ao banheiro não hesite em me avisar, ok?"

Aquilo me rendeu uma cotovelada nas costelas, e eu reclamei do quão ossudo ele era.

Virei-me para ele para descobrir que estava pegando um dos meus travesseiro e abraçando-o contra o peito.

"Uh… quê?" eu questionei.

"Estou me preparando" ele exclamou.

Decidindo não perguntar mais nada, apertei o play.

Agora, eu tenho um pouco de vergonha em admiti-lo, mas fui o primeiro a pular.

O título apareceu na tela e um coro de instrumentos de corda mal tocados quase explodiu meus tímpanos – e o volume nem estava tão alto!

"Essa bosta de música é irritante e muito desnecessária" Jean suspirou.

Me afundando mais no cobertor e ouvindo-o fazer comentários sobre o filme, eu sabia que seria uma noite ótima.

E cara, eu estava certo.

Na primeira parte do filme, nada terrivelmente ruim aconteceu. A família estava se mudando para uma nova casa, havia um monte de crianças barulhentas… tudo para nos dar uma falsa sensação de tranquilidade. O aperto de Jean no meu travesseiro se afrouxou consideravelmente enquanto a cena se passava, e quando a mãe começou a cantar uma calma melodia enquanto tocava piano, ele chegou até a comentar, "Até que isso não é tão ruim…".

Fiz que sim com a cabeça, para tranquiliza-lo.

Menos de cinco minutos depois de Jean julgar o nível de terror do filme, ele quase caiu da cama quando a caldeira do sótão começou a funcionar sozinha.

"PORRA" ele gritou, agarrando o travesseiro com mais força contra o peito.

"Você falou cedo demais," eu respondi, tentando controlar meu riso. "Aquilo nem foi assustador!"

"É, ok, mas não fui eu quem teve um ataque do coração no título."

Eu fiz bico. "Foi a música," murmurei para mim mesmo.

Nós continuamos a assistir em silêncio, Jean visivelmente mais tenso que antes.

Quando a porta do sótão se abriu sozinha, Jean soltou um grito agudo, que apenas aumentou de volume quando uma das crianças viu e decidiu subir as escadas para ver o que era.

"A criança tem coragem, tenho que admitir" ele murmurou, encostando o queixo nos joelhos.

"Tá mais para 'falta de senso'," eu acrescentei, e ele concordou.

Lembre-se que havia apenas alguns poucos centímetros de espaço entre nós naquela cama. Mas quando chegou a cena da babá eletrônica, aquilo rapidamente mudou.

"PUTA QUE PARIU!" Jean quase bateu a cabeça na cama de cima ao pular e cair em cima de mim, se agarrando ao meu braço.

"JEAN, fica calmo!"

Seus dedos estavam dolorosamente encravados em minha pele, e eu tentei tirá-lo de cima de mim, mas era inútil.

Enquanto o filme continuava sem mais nenhuma cena de susto, Jean relaxou mais e lentamente me soltou.

Mas então um cara aleatório apareceu no quarto do bebê, e Jean soltou um grito de "AH, MARCO!" e encostou sua testa no meu ombro, usando um de meus travesseiros para tampar sua visão da TV.

Eu ri ao entender que usar o travesseiro como um 'escudo visual' era sua intenção desde o início.

"Não ria de mim" ele falou em tom ameaçador, o que me fez rir ainda mais.

Foi mais ou menos assim que passamos o resto do filme; pulando e se agarrando um no outro (apesar de que, na maior parte do tempo, era Jean quem me agarrava) e zombando um do outro por causa de suas reações patéticas. De novo, era Jean o responsável pela maioria das reações patéticas.

Um dos momentos mais memoráveis do filme foi quando a coisa-demônio de cara vermelha espiava por trás da cabeça do pai, e Jean gritou todos os palavrões possíveis enquanto pegava minha mão e ao levava ao próprio peito, quase quebrando meus dedos.

Ao invés de reclamar da dor, eu murmurei "Nem um 'no homo'? Que rude," ao qual ele respondeu "Vão se foder você e o seu 'no homo', se alguma coisa gay acontecer aqui a culpa vai ser toda sua!"

Eu ri tanto durante o filme que me surpreendi por não ter botado a sopa pra fora, tamanha era a dor nos músculos da barriga. Mas tossi e espirrei bastante, e enquanto estávamos agarrados um ao outro durante uma cena particularmente assustadora do filme, eu acabei espirrando de verdade no ombro de Jean.

"Você acabou de fazer o que eu acho que você fez?"

"Não."

"Bem, ok então."

Ao final do filme, quando o título acompanhado daquela musica irritante apareceram na tela pela última vez, estávamos os dois enrolados e agarrados aos ombros um do outro, congelados no lugar.

"Ele… ele acabou de…?" Jean sussurrou.

"É," Sussurrei de volta.

Ficamos assim por um momento, sem querer se mexer. "Viu?" voltei a sussurrar, não querendo falar tão alto. "Não foi tão ruim…"

"Tch."

Depois de quase trinta segundos encarando os créditos, estiquei o braço para pegar o controle e apertei o botão de desligar. Instantaneamente a escuridão tomou conta do quarto.

Pude sentir o hálito quente de Jean em minha orelha – eu não tinha notado o quão próximo estava dele. "Por que você fez isso?" ele questionou, a voz falhando. "Me deixa acender a luz primeiro!"

"Sim, sim," eu respondi, tornando a ligar a TV. "Desculpe."

Assim que luz voltou à tela, Jean rapidamente se desenrolou de mim e saiu da cama, ligando as luzas apressadamente. Então eu desliguei a TV.

"Hey Marco."

"… o quê?"

Ele fez questão de estreitar os olhos diretamente para mim, o rosto assustadoramente sério. "Eu tenho que ir ao banheiro."

"Você tá falando sério?"

"Sim!"

"Então vai logo! O banheiro fica no fim do corredor" Eu ri.

A carranca de Jean piorou, seus olhos nublados pela sombra de seu rosto. "Você deve estar ficando loucose acha que eu vou até aquela porra de banheiro sozinho. Sina é velho e caindo aos pedaços e assustador pra caramba."

"… Sério mesmo?"

"É sério mesmo, cara, vamos logo!" Seus joelhos tremeram levemente.

Eu suspirei pesadamente. "Tá bom, vamos."

Me levantei da cama, e tive que conter o riso enquanto observava Jean abrir cautelosamente a porta do quarto e espiar o corredor pela fresta.

"Deus, anda logo," eu o apressei, abrindo a porta por completo e o empurrando para o corredor.

Ele praguejou baixo e foi e começou a descer o corredor, comigo seguindo-o de perto. E gostaria de dizer que não estava tão nervoso quanto Jean, mas eu estava. Era difícil não pensar paranoicamente que um demônio não iria aparecer de repente e rastejar pelas paredes atrás de nós.

Então esse era nosso cenário quando eu pisei no numa tábua de chão solta.

Como você deve ter adivinhado, nossa caminhada até o banheiro se tornou uma corrida não intencional, com Jean gritando xingamentos o caminho inteiro.

Depois de escancarar a porta, nós paramos, ofegantes, e olhamos uma para o outro. E desta vez, foi ele que explodiu em risadas.

"Cara, 'cê tava assustado pra cacete!"

Eu?! Ele, de todas as pessoas, está rindo de mim por ficar assustado? Ele começou a rir mais, por algum motivo. "E-e daí? Você estava com medo também!" A resposta não pareceu abalá-lo, então eu lhe dei um leve tapa no ombro. "Vai logo fazer xixi!"


Já eram onze da noite quando ele voltou para o próprio quarto. Nós passamos o tempo sentados em minha cama após o filme acabar, petiscando o resto da comida que Jean trouxe do Panera e vez o outra fazendo graça um do outro. As piadas eventualmente chegaram ao ponto em que quase recorremos à luta, mas as coisas voltaram ao normal quando eu o acusei de se aproveitar do meu estado frágil.

Quando vimos o quão tarde estava, Jean bufou alto. "Hmmm, imagino o que meus colegas estão fazendo…" ele comentou sarcasticamente.

"Minha oferta ainda está de pé" eu o lembrei, mas ele balançou a cabeça.

"Eu tenho aula amanhã…"

Suspirei pensativamente. "É, eu também."

Jean me lançou um olhar ameaçador. "Você vai ficar no quarto amanhã, entendeu, nem ouse ir pra drogada aula amanhã."

"Chato" bufei, Indignado. "Mas é, eu sei."

Jean desceu da cama e tornou a botar os sapatos. "E se eu viesse te ver amanhã?"

"E se você viesse me ver amanhã?"

"Eu quis dizer, o que você acha, gênio."

"Eu acho que isso faria meu dia." sorri.

"Legal." Ele respondeu, se levantando. "Você gosta de Call of Duty?"

Se eu gosto de Call of Duty, ele pergunta…

"Se você trouxer Call of Duty amanhã eu vou te amar pra sempre."

Ele abriu um sorriso. "Cuidado, eu posso usar essa contra você." Eu o observei enquanto ele seguia em direção à janela.

"Tá escuro pra caramba lá fora" ele reclamou, e eu lhe disse para andar logo.

Ele agradeceu pelo conselho surpreendente e seguiu seu rumo, me desejando boa noite e me falando para "andar logo e melhorar". Quando a porta se fechou atrás dele, eu fui deixado com uma sensação agridoce.

Amarga porque eu meio que não queria que ele fosse embora, e acabei me sentindo ainda mais sozinho do que antes.

Mas doce porque me diverti demais com ele, e porque agora eu esperava ansioso pela sua visita no dia seguinte. Ele até me fez esquecer que eu estava doente; assim que foi embora, voltei a sentir a dor pulsante em meu crânio.

Eu tranquei a porta, fechei as cortinas e apaguei a luz, subindo na cama e deixando os lençóis do meu "forte" se fecharem atrás de mim. Abraçado aos cobertores, minha cabeça atingiu o travesseiro assim que fechei os olhos, tentando dormir.

Exceto…

Que cheiro é esse…?

Inalando profundamente, identifiquei o aroma como traços de suor e sabonete barato e… aquilo era Axe Chocolate? Esfreguei o rosto pelo travesseiro, feliz. Eu não ligo para o que os comerciais dizem, pensei, Garotas não são as únicas a amar cheiro de Axe, eu sou a prova disso.

Então percebi que o travesseiro em que eu estava me esfregando sem pudor era o mesmo que Jean abraçara durante todo o filme.

Abrindo novamente os olhos e encarando a escuridão, brevemente me perguntei se devia me preocupar com o fato de achar o aroma daquele garoto tão reconfortante, e que estava essencialmente tentando inalar o travesseiro inteiro, mas no fim, eu estava cansado demais para me importar.

Naquela noite, adormeci respirando o perfume de Jean.


No dia seguinte, me surpreendi ao perceber que havia dormido até as duas da tarde e acordei com o celular tocando.

(3) Novas Mensagens

De: Jean

Ei hj eh uma boa noite p passar a noite?

De: Jean

... vc n ta dormindo ainda, ta?

De: Jean

Acorda logo porra, bela adormecida

Eu rolei os olhos e digitei a resposta.

Para: Jean

Aw, você me acha belo? Isso é tão fofo.

De: Jean

Responde logo a droga da pergunta

Para: Jean

Já te disse duas vezes que você pode vir quando quiser. É claro que pode dormir aqui. (:

De: Jean

Maravilha

Meu estômago virou quando registrei a ideia de que Jean não precisaria ir embora naquela noite, e com uma explosão de energia repentina que não era característica de uma pessoa congestionada como eu, desci da cama de um pulo e me dirigi ao chuveiro.

Jean apareceu naquela noite com sua mochila e um saco de dormir, o Xbox360 a tiracolo. Nós rapidamente começamos a ligá-lo com a TV, apesar de Jean fazer todo o trabalho enquanto eu examinava os jogos que ele havia trazido e escolhia os que queria jogar.

"Connie vai ficar bravo por eu ter pegado o Xbox, mas é isso que ele consegue por fazer nosso quarto feder a maconha. É meu Xbox de qualquer forma" Jean meditou.

Antes mesmo de me deixar jogar, ele insistiu em dormir embaixo no beliche, e eu timidamente aceitei, falando-o de todas as vezes em que bati a cabeça na parte de cima. Ele se espantou com a minha preguiça de não trocar de cama tão cedo.

Naquela noite, colocamos seu saco de dormir perto da janela, ao lado da carteira vazia, e pedimos três pizzas grandes de frango com churrasco. Elas foram devoradas em menos de dez minutos.

Call Of Duty tomou a maior parte da noite, e nós jogamos até a meia-noite, quando acabamos por trocar tapas depois de nossas piadinhas e provocações irem longe demais. Não houve vencedor, apesar de eu ter certeza que, se estivesse completamente saudável, teria acabado com ele.

Nós apagamos logo após a briga.

A manhã chegou logo, e eu descobri que Jean era um madrugador… ele arremessou um travesseiro na minha cabeça às oito da manhã e reclamou em voz alta sobre como ele ia morrer de fome e a culpa seria minha. Eu me afundei ainda mais nos cobertores e lhe disse que ele não precisava de mim para alimentá-lo, mas isso só o fez arrancar minhas cobertas e me arrastar para fora da cama pelos pés.

"Você sabe como eu sou antes de ter meu café, Marco." Ele me lembrou, em tom baixo e intimidador.

O bom dia mais interessante que havia tido em tempos.

O sábado estava frio e cinzento, completo com a garoa gelada encharcando nossos cabelos e pequenas nuvens de fumaça que surgiam por entre nossos lábios toda vez que respirávamos.

Tomamos café da manhã, Jean tomando seu café com total despreocupação e uivando quando queimou a língua. Nós passamos boa parte daquele dia só conversando sobre escola e família; Jean vinha de uma família rica e não tinha irmãos – e, aparentemente, não era nada próximo dos pais.

"Eles tentam controlar demais a minha vida, e ela não pertence a eles, entende?" ele me disse, contando sobre como frequentemente discutia com seu pai enquanto sua mãe o ignorava completamente. "Acho que eles estão mais preocupados com a sua reputação que com o meu bem-estar." Mas Jean me assegurou de que estava em paz com seus problemas familiares, e que não havia nada que se preocupar.

Então eu lhe contei sobre minha família – eu tinha uma irmãzinha de 6 anos chamada Marie, eu meus pais tinham acabado de se divorciar. Eu discutia com meu pai de vez em quando, mas não era nada demais, e minha mãe era muito doce – eu sempre reclamava que ela me mimara demais.

"Você é um filhinho da mamãe."

"Não sou!"

"É sim."

"Argh!"

"Hahaha!"

À tarde, voltamos ao meu quarto e jogamos mais, até Jean anunciar que dormiria ali de novo e já tinha trazido roupas suficientes para o dia seguinte. "Você planejava ficar o fim de semana inteiro, não planejou?" eu comentei, e ele nem chegou a negar.

Eu o deixei pegar meu sabonete e xampu para tomar banho ("Por que você tem xampu de menininha?" "Minha mãe que comprou!" "Filhinho da mamãe!") e depois de ambos estarmos limpos, passamos o resto da noite conversando e comendo pizza.

É claro, quando se passa o fim de semana todo com alguém, e chega a madrugada, você começa a falar sobre coisas bem pessoais…

Estávamos deitados em minha cama e olhando para o teto, os joelhos pendurados para fora e os pés balançando acima do chão enquanto conversávamos.

"Ei… Marco?" Jean disse, após alguns minutos de silêncio.

"Hm?" Eu respondi, tão calmo quanto ele.

"Eu tava pensando… com quem mais você anda? Além de mim?"

Senti minhas sobrancelhas franzirem enquanto me focava numa lasca de tinta no teto. "Por que você quer saber?"

Senti-o dar de ombros ao meu lado. "Estava pensando, só isso…"

Eu suspirei levemente antes de responder. "Hmmm, se você quer mesmo saber… aqui na TrostUni? Ninguém."

Engoli em seco e esperei que Jean me provocasse e me chamasse de perdedor sem amigos… mas ele não fez isso.

"Oh" ele quase sussurrou. "Como?"

Voltei a franzir as sobrancelhas, pensando. "Bem… não me leve à mal, não é como se eu tivesse passado a vida toda sem amigos. Eu tenho vários amigos em casa. Mas todos sabem quanto amizades de colegial duram…"

Virei a cabeça para onde Jean estava, ainda encarando o teto, o cabelo de areia pressionado contra meus lençóis e usando a velha carranca novamente. Ele acenou com a cabeça, ainda sem olhar para mim, e eu voltei a fitar o teto.

"Eu só… eu não estou envolvido com nada. Não frequento clubes, ou festas de fraternidade ou a igreja… e não sei se você percebeu, mas não gosto muito de sair da minha zona de conforto. Eu não ligo de falar com as pessoas, mas desde que cheguei aqui, eu só… não falo."

Jean murmurou baixo, pensando. "Mas nós já estamos estudando aqui há um mês e meio… você não se sente sozinho?"

Eu dei de ombros. "Tudo bem não ser terrivelmente sociável, mas… é. Eu me sinto sozinho," suspirei, sentindo meu peito apertar. "É por isso que eu queria ter um colega de quarto, sabe? Tenho um pouco de inveja de você… eu queria três colegas de quarto."

Ele se virou e sorriu ironicamente para mim. "De preferência que não fizessem tumulto a noite toda, né?"

"É," eu respondi, soltando um riso triste.

"Bom," Jean murmurou. "Tudo bem se você não anda com um monte de gente. Eu sou o único amigo que você precisa, certo?"

"Porque quem precisa de outro amigo que não seja Jean Kirschtein?" eu falei sarcasticamente.

"Exato."

Voltamos a cair no silêncio e, dessa vez fui eu quem o quebrou.

"Então, Jean?"

"Sim?"

"Com quem você anda? Sabe… além de mim,' eu copiei sua pergunta.

"Hm… quem…" ele pensou em voz alta. "Ninguém."

Voltei a fitá-lo. "Nem seus colegas de quarto?"

"Não, nem eles…"

"Mas você mora com eles!"

"Só porque você mora com alguém não quer dizer que vocês sejam automaticamente melhores amigos. Eles são legais e tal, mas…"

"Mas… o que?"

Jean apenas balançou a cabeça, franzindo mais as sobrancelhas. "É… nada."

Ele não parecia querer me contar, e eu não o forcei. "Você também se sente sozinho, então?"

"Bom, todo mundo se sente sozinho, é normal, né? Mas… considerando que moro com mais três caras, na maioria do tempo eu estou tentando ficar na minha. Eu duvido que me sinto tão sozinho quanto você…"

"Mas você ainda se sente assim?"

"Na maior parte do tempo."

Senti meu meio apertar desconfortavelmente com a sua resposta, quase doendo, então desviei o olhar dele e voltei a fitar o teto. "Bom, tudo bem, porque você tem a mim agora, certo? Você pode ficar comigo sempre que estiver sozinho."

"Verdade," ele respondeu, e um olhar de relance me fez notar que ele estava sorrindo agora. "Na verdade eu não me sinto sozinho quando estou com você."

Eu pisquei para a tinta lascada, confuso. "Bem, é claro que não! Nós somos amigos, é claro que você não se sente sozinho entre amigos…"

Jean não respondeu, e aquilo me assustou um pouco.

"Uh… Jean? N-nós somos amigos, não somos?"

"Que? Ah, sim, claro, você nem precisa perguntar… eu não passo meu fim de semana inteiro com qualquer um, sabe."

Uma sensação quente se espalhou pelo meu peito quando ele disse aquilo… eu me senti bem. Suas palavras me fizeram sentir especial.

Então ele disse "Nós somos dois perdedores solitários, então a gente tem que ficar junto, né?"

Naquele momento, eu implorei para qualquer entidade que controlasse o universo e o destino que eu e Jean nunca nos separássemos… que nossa amizade não acabasse.

Nós dormimos daquele jeito; em minha cama, lado a lado.


N/A: /suspira sonhadoramente

Isso foi muito divertido, pessoal. Vocês sabiam que eu realmente assisti 'Sobrenatural' ontem a noite e escrevi como achava que os dois reagiriam durante o filme? Porque eu fiz isso. Eu escrevi mais do que está aqui, esses são só os destaques.

Espero que vocês tenham gostado desse capítulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo! Muito obrigada!

(Partiu trabalhar no POV do Jean… huehuehuehuheueh)

N/T: Então. Oi!

Desculpem a demora, não me odeiem, eu vou caprichar mais no próximo, eu juro. Obrigada por lerem mesmo assim!

Mandem reviews, porrrr favorrrrr (nem que seja só pra dar uma complementada na tradução~~~) e é. O "No homo" fica, porque sim, hehehehehe.

Até o próximo capítulo!