II
— Porquinha, você tá pelo menos me escutando?
Ino franze o cenho. Seu namorado tinha acabado de mandar uma combinação de cinco emojis que a deixou sem entender nada – geralmente ela gostava de emojis, é claro, mas só quando a outra pessoa sabia usar.
— Hã? Quer dizer, tô. Tô te ouvindo – murmura, sem tirar os olhos do aparelho por nenhum segundo. Está pensando no que responder. Ela tira um print e envia para o grupo de amigas que... – Sakura! Você desligou o WiFi!
Quando Ino ergue o olhar do celular, pode ver Sakura, em seu conjunto de calça moletom e regata, parada de frente à cômoda, a mão sobre o roteador. Ela tem um olhar zangado no rosto. Suspirando, Ino bloqueia o dispositivo e o deixa do seu lado, na cama. Move os ombros, com um olhar de desculpas.
— Foi mal. – Ela sorri amarelo, mas Sakura só revira os olhos, balançando a cabeça de forma bem humorada. – Do que você estava falando?
A garota de cabelos rosa se move até a escrivaninha e senta-se na cadeira giratória, de frente para o notebook vermelho. As duas se reuniram no quarto de Sakura para falar sobre o trabalho – como perfeccionista e com um forte senso de liderança, a Haruno preferia fazer toda a pesquisa, separar e mandar cada parte para um membro. Dessa vez, por se tratar de um assunto mais abrangente, ela tinha pedido ajuda de Ino. Essa ajuda, no caso, se resumia na loira dizer "ahan" e "hm", para demonstrar apoio. A verdade é que Sakura era uma líder muito orgulhosa e não gostaria de mudar nada em sua pesquisa, mesmo se Ino achasse melhor.
— Entãoo... Eu estava procurando alguns sites que não falassem só sobre os Uchihas, sabe, por que acho que podemos abordar o assunto de uma maneira geral, e com certeza aumentaria nossa nota...
Ino se senta na beira da cama, ficando próxima da cadeira da amiga. Tão próxima que ela estica as pernas e as coloca sobre as coxas magras da Haruno.
— Você quer dizer: "Ino, – a voz da loira se torna ainda mais fina e afetada. – eu estava aqui procurando por jeitos de complicar nosso trabalho já complicado, espero que você não se importe".
Rindo com a imitação, a Haruno empurra o ombro da amiga, que quase se desequilibra.
— Minha voz não é assim! – Sakura mostra a língua, as bochechas vermelhas. – E eu já disse, ok? Vou falar a maior parte.
— Sei, testuda. Quer dizer logo o que você achou?
Os olhos de Sakura praticamente brilham quando Ino a incentiva. A loira revira os olhos, contendo uma risadinha. Sakura sempre dizia que iria fazer a faculdade de enfermagem primeiro e depois partiria para medicina – Ino ficava pensando se ela não ia acabar encaixando história no meio. Ou talvez fosse só um hobbie, como o de comprar velas perfumadas que ela própria, Ino, tinha.
— Eu encontrei esse site muito maneiro, onde você coloca seu nome completo e eles te dizem quanto por cento você tem de cada clã nos seus genes. – Sakura vira a cadeira para o lado, dando espaço para Ino olhar no monitor. A loira se aproxima, um pouco curiosa. A página está aberta num grande site com o nome da rosada em cima e barras coloridas embaixo.
SAKURA HARUNO
Aburame – 1%
Akimichi – 1%
Fuuma – 25%
Hyuuga – 5%
Inuzuka – 10%
Nara – 15%
Sabaku – 20%
Sarutobi – 3%
Shimura – 0%
Uchiha – 9%
Uzumaki – 11%
Ino estreita os olhos para o resultado.
— Espera, eu não entendi. Todos esses clãs são, tipo, reconhecidos? Por que eu nunca tinha ouvido falar desse Shimura.
Sakura ri, se remexendo na cadeira.
— É tipo... digamos que por muito tempo todo o nosso país ficou dividido entre eles, então um clã foi absorvendo o outro. – Explica, mexendo as mãos. – Por exemplo, o clã Namikaze nem entrou aqui por que ele foi conquistado pelo clã Uzumaki. Mais tarde, durante uma crise, o clã Uzumaki fez acordo com os Uchihas, e acabou perdendo bom peso do seu nome, também. Outro caso foram os Fuumas, que tiveram sua vila mais importante, maior arrecadadora de impostas, tomada. – Ela aponta para a tela, explicando tudo com a maior clareza que pode. – Está vendo o Sabaku e o Uchiha? Eles estão em destaque no texto por que, em determinado ponto, os dois absorveram todos os outros clãs. E brigaram entre si pelo poder de maior e melhor clã.
Ino estala os dedos.
— Eu lembro disso! Dos Fuumas, quer dizer. O professor Aoba estava com um topete horrível quando comentou sobre, não tem como eu esquecer esse dia – e faz uma careta engraçada, lembrando-se do topete.
— Não fala assim do topete do professor! Eu gosto. – Ela também murmura algo sobre o que ele contou dos Fuumas ter sido "spoiler", já que eles não estavam lá ainda, mas Ino preferiu ignorar.
— Você gosta de tudo o que qualquer professor de história faz, testuda, então você não conta. – Ino balança a cabeça, como se isso fosse óbvio. – Você acha que as porcentagens estão certas?
A Haruno fica pensativa por um momento.
— Pode ser aleatório, sei lá, mas acho que existe dados o suficiente para fazer essa conta. Tipo, se você cruzar onde nascemos com onde cada clã ficava, os sobrenomes originados de vários casamentos... É, algo assim. Pode ser verdade. – Ela dá de ombros. – Mas quem liga? Pelo menos é divertido! Olha só, eu sou 9% Uchiha.
— Uau, testuda, já poderia se tornar chefe do clã, hein – brinca Ino, dando uma cotovelada nela. – Vai, põe meu nome aí.
Sakura revira os olhos verdes, sorrindo, e digita rapidamente o nome completo da loira. Poucos segundos depois, a página finalmente carrega.
INO YAMANAKA
Aburame – 0%
Akimichi – 1%
Fuuma – 5%
Hyuuga – 4%
Inuzuka – 1%
Nara – 0%
Sabaku – 15%
Sarutobi – 2%
Shimura – 1%
Uchiha – 14%
Uzumaki – 57%
— Uau, 57% Uzumaki. Você é, tipo, linhagem pura. – A rosada diz, olhando um pouco impressionada para o resultado. Os seus números tinham sido muito bem distribuídos, mas os de Ino eram tão concentrados.
— E 14% Uchiha. Há, testuda, perdeu! – Ino mostra a língua para ela que resmunga algum xingamento. A loira volta a se deitar na cama, com os braços atrás da nuca. – Mas isso não é meio... hm... estranho? Tipo, todo mundo é meio primo de algum grau. – Ela faz uma cara de nojo que só causa risadas em Sakura.
— E? Mesmo sem isso, somos todos primos em algum grau, sim. Se você acredita na bíblia, tem que saber que os filhos de Eva e Adão transaram entre si. E, cara, eles eram irmãos!
As duas se olham tensas por um momento e finalmente explodem em risada, a cadeira da rosada girando com os tremores do seu corpo.
— Argh, Sakura, isso foi nojento.
— Reclama com Deus.
Da cama, Ino balança a cabeça de um lado para o outro, com um falso olhar de aviso:
— É, fica aí. Uma hora ele vai cobrar.
Um zumbido insistente enche os tímpanos de Ino. É como se o sangue, devagar, começasse a percorrer todo o seu corpo, um pouquinho de cada vez – é quando ela começa a sentir. Contra suas costas, coxas, panturrilhas, algo pinica sua pele. Sua cabeça não está confortável e, cansada do zumbido, ela a mexe de um lado para o outro. Nesse momento, como se seu corpo se desse conta de que ela estava acordada, uma dor dilacerante começa a subir desde a ponta do seu pé até o fim da testa. Ino sobe as mãos imediatamente para o rosto, escondendo-o entre os dedos como se isso fosse melhorar algo.
Quando se encolhe em posição fetal, ainda tentando entender essa dor, consegue sentir o cheiro de terra úmida no seu nariz – cheiro de chuva. Na verdade, consegue senti-lo próximo demais. Num minuto, seu cabelo e lateral do rosto estavam secos, mas agora umidade faz com que ela se levante e se sente, num susto. Abrindo os olhos, Ino percebe onde está. Não na sua cama, confortável e quentinha, ou mesmo no chão do seu quarto, que não era tão confortável ou quentinho assim, mas era seu chão.
É uma clareira, rodeada por arvores que parecem formar um bosque profundo. A grama é verdinha e alta, como as das fazendas que ela tinha visitado certa vez. O céu fechado, a umidade e o cheiro indicam que já choveu e que, muito provavelmente, irá chover mais. Olhando para trás, Ino pode ver que um caminho de terra se faz presente entre as arvores. Terror enche seu peito e ela se levanta, assustada. O que raios estava acontecendo?! Onde ela estava?! Não se lembrava de Konoha ter um bosque desse jeito.
A sua primeira reação é passar a mão pelo corpo, procurando algum ferimento. Além da dor nos ossos, que parece diminuir a cada minuto, nada está fora de ordem. Não há sangue em nenhum lugar, nem em suas coxas, ela se certifica. Ainda está descalça e usando o vestido da festa. Já parece ser fim de tarde, então seja lá o que tenha acontecido com ela, aconteceu há horas. Será que a sequestraram?! Em seu próprio apartamento? Merda, Sakura estava sozinha. Será que estava bem?
Depois de a garota ter deixado seu apartamento para buscar os outros presentes, Ino não se lembrava de absolutamente mais nada – não com clareza, pelo menos. Recordava-se de pequenos momentos, como quando andara para o quarto e sentira um perfume muito gostoso, mas que não era o seu, e de como se sentia tão cansada que queria deitar e dormir. O resto ela não saberia dizer se era sonho ou realidade.
Sem ter ideia do que fazer, começa a andar em direção ao caminho de terra, que se tornara barro, procurando vestígios do que poderia ter acontecido consigo. O som dos pássaros, insetos e outros animais, além do vento sobre a copa das grandes arvores, são sua única companhia. Talvez tudo isso seja só um daqueles sonhos esquisitos que parecem reais.
— Alguém?! – Ino grita, sem saber o que fazer, e começa a abraçar os próprios braços, com medo. Nenhum vestígio de gente. – S-Se isso é uma brincadeira, não é leg.. AI! – Sem ver por onde andava, Ino enfiou o pé descalço em um monte de barro. Ela olha com nojo para a canela, a única coisa a vista. – Merda, merda, merda. Que droga! Eu... fui... na pedicure... ontem... – reclama, chacoalhando o pé entre as palavras.
Ela se afasta e encosta-se ao tronco de uma arvore, aproveitando algumas folhas que estão no chão para limpar o pé. Não é o suficiente, é claro, e Ino tenta se consolar pensando que muitas mulheres pagam caro para ter partes do corpo cobertas por argila – e olha só, ela conseguiu de graça!
Prestes a voltar ao estado anterior de desagrado e confusão, um som incomum é ouvido. Ino pisca, franzindo o cenho. Eram... trotes? Trotes de cavalo, definitivamente. E algo como rodas, ecoando pela floresta. Bem, não era um som que você escuta todo dia na cidade grande, mas ela não tinha ideia de onde estava e como tinha ido parar ali, então seu peito encheu de alívio. Virando-se na direção do som, Ino colocou a mão na testa para tentar ver melhor. Lá de longe, um cavalo cinzento parecia conduzir uma carroça de madeira – o homem sentado nela, que segurava as rédeas do cavalo, usava uma calça marrom, botas que pareciam de pano, e uma camisa de linho meio amarelada, com cordas no peito.
Sem pensar muito no que estava fazendo, Ino foi pro meio da estrada e começou a acenar loucamente, para chamar atenção.
— Socorro! – gritava. Felizmente, a carroça ia se aproximando cada vez mais. Para o estranhamento de Ino, que não via muitas carroças por ai, essa parecia novinha em folha. O cavalo também estava bem tratado e parecia forte. No fundo da carroça havia alguns sacos, também de linho, que, se os olhos dela não estavam a enganando, pareciam recheados de farinha ou grãos.
A carroça enfim para, próximo dela, e Ino olha bem na cara do seu condutor. Os cabelos negros dele estão penteados para trás, ele tem ombros largos e fortes, como o resto do corpo, e deve ter pelo menos 40 anos. No seu rosto, duas cicatrizes marcantes deixam-no um pouco assustador. Os seus olhos castanhos descem pelo corpo dela de uma maneira que seria muito engraçada – se ela não estivesse completamente perdida! Engolindo em seco, Ino se aproxima em passos lentos.
— É... Oi. Hã... Você sabe me informar, tipo, que lugar é esse? – Ela espera não parecer completamente perdida, não querendo dar mais motivos para ele ficar olhando-a. Infelizmente, não funciona. O homem franze o cenho para ela, encara-a dos pés a cabeça, abre a boca em "o", fica pálido, fica vermelho. Tudo isso em segundos que parecem uma eternidade para ela. Ok, a roupa dele também é um pouco esquisita, mas como não tinha ideia de onde estava...
— Está em Areia Vermelha, terra de propriedade Sabaku – o homem a responde e Ino estreita os olhos, um pouco perdida no sotaque carregado. O tom de voz dele é... desconfiado? – Identifique-se, mulher. – Quando termina de falar, ele encara as árvores ao redor dos dois, procurando algo que Ino não tem ideia do que é.
Areia Vermelha? Propriedade Sabaku? Do que esse cara tava falando?
— Meu nome é Ino. Eu preciso saber como voltar para Kon... – enquanto falava e gesticulava, Ino sentiu uma coceira no braço. Quando alcançou a pele, porém, seus olhos se arregalaram e ela ficou mais pálida do que já estava. – Ai meu Deus, uma aranha. Uma aranha! – Ino grita, chacoalhando o braço e pulando de susto.
Seus gritos irritam o cavalo, que relincha, mas ela não poderia se importar menos. Lágrimas de pânico tomam seus olhos que fecha rapidamente, sem coragem de ver se aranha continua lá.
— Ei, você precisa se acalmar! – o homem grita para ela, tentando controlar o cavalo, mas Ino não o ouve.
Uma sensação imbatível de fraqueza atinge o corpo dela como um tiro e sua respiração falha. A última coisa que ela se lembra de ver, antes de cair dura sobre as folhas secas, é o cenho franzido no rosto martirizado do pobre homem, que parece girar ao seu redor...
Acordar em uma cama que não é a sua é sempre esquisito. Primeiro você sente o cheiro. O perfume que o rodeia já não é o do seu suor noturno, ou mesmo dos cremes que você usa no cabelo. Dessa vez o odor é forte, como terra e algodão, embora puro e refrescante de uma maneira inusitada – igual quando você visita suas primas do interior. E então você pode sentir o colchão duro contra suas costas; o travesseiro que não dá nenhum tipo de assistência ao seu pobre pescoço, acostumado com os travesseiros NASA que respiram. Esse é o momento em que finalmente abre os olhos e resolve descobrir onde está.
Ino, por sua vez, não abre os olhos. Ela se senta, fechando-os com ainda mais força e levando a mão até o fim da sobrancelha. Sua cabeça está latejando tanto que é como se ela tivesse passado 36 horas acordada, com a televisão ligada no Home&Health. Embora tal coisa nunca tenha a acontecido, a sensação deve ser, com toda certeza, a mesma.
Sem entender o que está acontecendo, ela pisca devagar, se acostumando com a baixa iluminação. À sua direita, uma janela quadrada, aberta, dá para um gramado irregular, com partes maiores e outras menores e... Ino pisca, a dor na sua cabeça aumentando quando ela escorrega a mão para o lado do corpo devagar, surpresa. É uma vaca. Realmente, ela está olhando bem nos olhos de uma pobre vaquinha, que come seu capim e encara Ino como se ela fosse a coisa estranha ali.
Ainda em choque, Ino tenta entender onde está. Ela olha ao redor. É um quarto que, além da cama baixa e desconfortável, só tem uma cômoda, um quadro velho na parede e um tapete vinho remendado em alguns cantos. As paredes são de pedra e, entre essas, Ino pode ver as fundações de madeira que as sustentam. Não é uma casa tão alta quanto às que ela está acostumada. Em cima da cômoda há um castiçal com a vela apagada, muito provavelmente por conta da, ainda, forte luz natural.
É tudo muito... rústico e ela até teria achado bonito e vintage se, pelo amor de Deus, soubesse onde estava! E o que exatamente estava fazendo ali. Tinha sido sequestrada por uma gangue de fazendeiros malucos? Será que Sakura estava por aqui, também?
Ino joga o lençol de um tecido pouco suave para o lado, se levantando ainda com as pernas fracas. A primeira coisa que faz, depois de ficar em pé, descalça no chão frio, é se certificar de que está tudo bem. Ainda está com o vestido e tudo, tudo parece intacto. Só o pensamento de ter sido tocada enquanto dormia lhe causava arrepios – não queria nem imaginar as possibilidades. Ela amarra o cabelo em si mesmo num coque, junto da franja que sempre lhe cobre um dos olhos, e tenta colocar os pensamentos em ordem, respirando para ficar calma.
Tinha acordo em uma clareira, num bosque desconhecido. Tinha visto um homem conduzindo uma carroça e ele parou para ouvi-la, embora fosse um pouco... hã... muito exótico. Ele tinha dito que ela estava em propriedade de não-sei-quem. E então havia uma aranha no seu braço. Ino arregala os olhos e olha para o braço, mas não há nenhuma mancha de picada – um suspiro de alívio foge dos seus lábios; não era agora que iria virar a mulher-aranha. Então ela tinha se sacudido e, muito provavelmente, perdido a consciência por causa do susto e fraqueza; o homem tinha a levado até a casa dele, ou de alguém. Isso não explicava por que raios Ino tinha acordado numa clareira, quando jurava que estava no apartamento – ! –, mas era um bom inicio.
Resolve andar até a única porta, de madeira velha, que fica paralela à janela. Ino dá uma última olhada na vaquinha e, quando começa a andar, algo úmido escorre pela lateral do seu pescoço. A loira coloca a mão depressa, só para sentir os dedos molhados e uma leve casca sobre sua pele. Quando traz a mão para frente, olhando-a, franze os lábios. Era sangue. Ela tinha batido a nuca em algum lugar e já havia muito sangue seco – talvez um pouco no seu cabelo, embora não tivesse notado por ser na parte de trás. Olhando para o travesseiro, a garota percebe que há um pano extra sobre esse e que tem uma mancha vermelha notável, mas não tão grande. Não está doendo e o sangue só foi o suficiente para sujar as pontas dos dedos, então não deve ser perigoso.
Ela puxa o pano do travesseiro e o enrola no pescoço como um lenço, a fim de não se sujar mais e segue para a porta. Essa que se abre sem barulhos e, nervosa, sem saber o que esperar, Ino coloca a cabeça e os ombros para fora. É um cômodo muito parecido com o quarto, só que menos quadrado e mais retangular – e com muitos suportes de velas e lampiões. Dessa vez, os móveis parecem mais novos, menos arrebentados. Há armários encostados nas paredes, uma mesa de madeira clara com banquinhos ao redor. Do outro lado, uma lareira e uma cadeira de madeira maior, à sua frente, que parece a coisa mais confortável do recinto. Dá para ver um caldeirão pendurado lá e Ino tenta não pensar no quanto isso é estranho.
Só há mais uma porta e duas janelas, uma de cada lado dessa e, vendo-se sozinha, ela resolve sair, fechando a porta atrás de si delicadamente, com medo de chamar atenção. Começa a andar em passos lentos, temendo ser surpreendida. Do outro lado, há um mais um armário, dessa vez baixo, com potes de argila em cima e grandes colheres, algumas de argila e outras de madeira – em um dos potes, há ovos empilhados. Ela passa o dedo delicadamente pelos itens, pensando que é como se estivesse em um museu de coisas antigas. Sakura teria amado. É tudo tão bem conservado que com certeza algum colecionador rico, que amasse história, compraria a casa toda para usaria de ponto turístico. Ou simplesmente para passar algumas horas sozinho, imaginando como era viver no século XVIII.
Ino retira a mão de uma das colheres como se estivesse pegando fogo, dando-se conta do que tinha pensado. Ela nunca tinha se interessado muito por história, ao contrário da amiga, Sakura, mas alguns trabalhos tinham exigido muito de si durante o ensino médio. Konoha, onde morava, já tinha passado por muitos ajustamentos em seu território – frutos de antigas competições. Ino também já tinha lido muitos romances sobre essa época, embora a maioria se passasse nos castelos, nas cortes – os cidadãos pobres, das vilas, eram puramente citados, mas nunca explorados. Mesmo assim. Existiam carruagens durante o século XVIII, mas também existiam carroças. E toda uma população que criava gado.
Sentido-se nauseada e sem ter ideia do que pensar, de como continuar esse pensamento insano que a ocorreu, Ino se afasta, em direção a porta, sem se dar o trabalho de olhar pela janela antes. Tinha que encontrar seus raptores, seja lá quem fossem. Talvez eles aceitassem ligar para seus pais, pedir o dinheiro – ela não tinha duvidas que, se fosse uma quantia razoável, eles conseguiriam pagar. Eles iriam pagar.
Abrir essa outra porta é um pouco mais difícil, ela é mais pesada, mas logo a brisa de fim de tarde bate contra seu rosto e ombros nus. Ino pisca para a paisagem, extasiada. O céu é tão azul quanto ela não se lembra de ter visto, e tudo é verde até onde consegue ver. E a altura vai diminuindo até que, lá embaixo, ela consegue ver um conjunto de casinhas de pedra, como essa, com tetos de palha e, poucas, de pedra e tijolos. É um morro – ela está bem no topo. Depois das casinhas, que devem contar pouco mais de vinte e Ino consegue ver pessoinhas andando para lá e para cá, há uma floresta de arvores altas e verdes e o além é um mistério, pois ela não está tão alta assim. Ela esperava reconhecer o local assim que saísse da casa, mas nada aqui lhe é familiar. Nem o céu, e seu pai gostava de dizer que o céu é o mesmo em todos os lugares.
O medo, medo de verdade, a invade pela primeira vez desde que acordara. Ino o engole em seco. Ao menos tinha uma vila por perto – talvez... talvez eles tivessem algum tipo de tecnologia por aqui. Todos sabiam que muitos índios assistiam televisão e usavam rádios para se comunicar entre si. Quem sabe Sakura não estava lá embaixo, também? Ino não se lembrava de saber que havia uma comunidade antiga próxima de Konoha, sua cidade, ou dentro dela, mas não é como se ela fosse uma historiadora. Podia, sim, existir. Talvez, esperançosamente, ela ainda estava em Konoha, ou tão perto que os policiais, que alguém do seu prédio já teria acionado, a encontrariam facilmente.
Um relinchar e pequenos murmúrios de xingamento a acordam do transe. Parece vir de algum local detrás da casa que, olhando de fora, Ino pode perceber que é muito parecida com as outras lá de baixo. Com medo de a comunidade ser hostil, por que essas comunidades sempre tinham um pé atrás com forasteiros – com motivos, é claro – ela decide não descer; não ainda. Prefere ver o que é esse som. Mesmo assim, seus pés estão prontos para correr a qualquer momento.
Engolindo em seco, Ino anda devagar, as costas quase coladas na parede da moradia, como via os espiões fazendo nos filmes de ação. Quando a parede acaba e Ino pode ver o que tem atrás da casa, ela comprime os lábios em admiração.
É uma construção que se assemelha aos estábulos que ela conhecia, embora muito mais simples e mais aberto. Há somente um cavalo. O espaço atrás do pequeno estábulo é extenso antes de começar outra floresta e Ino pode contar um bom número de vacas, presas dentro de um cercado fechado. Ino reconhece o homem que viu mais cedo: ele está juntando o feno para o cavalo, usando um rastelo. As mangas da camisa foram levantadas acima do cotovelo. O animal, por sua vez, está inquieto, com fome, pois tenta se aproximar para comer e bate os cacos no chão com ansiedade; toda hora o homem precisa pará-lo com o braço e murmura alguns xingamentos.
— Maldito bicho impaciente. Não está vendo que estou juntando o feno? Fique quieto. – Ele reclama, parecendo certo que o cavalo irá entendê-lo.
Ino não controla uma risadinha e o homem levanta a cabeça na direção do som, olhos estreitos e lábios em linha reta. O coração dela dispara e Ino se prepara para correr, já se virando de costas.
— Eu não o faria, se fosse você. Se presume que alguém da vila te dará brigo... – Uma risada sinistra ecoa da garganta dele. Outra vez, o sotaque é carregado e Ino precisa afinar seus ouvidos para entender. Ele solta o rastelo, finalmente deixando que o cavalo coma o feno.
Seu corpo fica tenso com a fala dele. O que queria dizer? Ino se vira devagar, encarando-o com temor. Ela engole em seco, sem saber muito bem o que falar. Algo em tudo isso soa tão estranho. Ele não parece um sequestrador, na verdade a olha intrigado, como se fosse ela a errada de toda a história.
— Eu... Obrigada por ter me trazido para sua casa, quando eu desmaiei – solta, num fio de voz, tentando fazer com que suas pernas parem de tremer. Ele se aproxima dois passos, devagar, e os olhos dele percorrem seu corpo de uma maneira analítica. Ino se mantém parada onde está.
— Não me entenda mal, Srta. Ino... Ou devo dizer Senhora? – a voz dele é um murmuro amigável, mas ela consegue captar a desconfiança por trás.
Ino pisca, respirando fundo.
— Senhorita... Senhorita Yamanaka está bom.
— Srta. Yamanaka, então. – Ele se aproxima mais um passo. É uma agonia manter-se onde está. – Como eu estava dizendo; não me entenda mal, Srta. Yamanaka. Não temos nada contra forasteiros, não quando eles se identificam e provam tal origem, contudo não acredito que as mulheres te receberiam bem enquanto estiver usando... – Olha para o decote dela de um jeito estranho, que faz com que Ino tenha vontade de escondê-lo com as mãos. Não é como ela se sentia nas festas que ia, elogiada. É como se ela fosse... Algum tipo de pedaço de carne. Como as vacas. O olhar dele volta para seus olhos. –... Tais vestimentas.
E agora está tão perto que, mais um pouco, a loira seria capaz de sentir seu hálito. As duas cicatrizes que ele tem no rosto, uma que corte da sobrancelha até o queixo, passando pelos lábios, e outra debaixo do outro olho, por toda a bochecha, parecem doloridas daqui. Suor escorre da testa brilhante dele, pelo nariz. Algo na voz desse homem lhe confirma, assustadoramente, que ele fala sério – que ela não seria bem recebida nessas roupas.
Com os lábios trêmulos, Ino se esforça para dizer, tentando soar o mais natural possível:
— Sr...?
— Ibiki Morino.
— Sr. Morino. Eu não tenho nenhuma intenção de ir até a... vila... então a preocupação não é necessária. Mas fica aí o aviso, né. Valeu. – Ino ri amarelo e ele arqueia a sobrancelha. Mesmo assim, ela continua: — Se puder me mostrar onde posso achar um... Um telefone público, sabe, um desses orelhões, eu sei que eles são meio antigos, mas... Enfim, se puder me mostrar onde tem um, eu ligo pra minha família e logo eles vão tá aqui. E, claro, eu posso te recompensar com um bom dinheiro. Por ter... hã... me ajudado hoje, mais cedo, na estrada.
O rosto dele está tão sério que o sorriso de Ino vai diminuindo. Segundos depois, os lábios dele se abrem de uma forma engraçada e Ibiki está... rindo?! Ino não pode conter um olhar ofendido.
— Desculpe. Você fala de forma engraçada. É óbvio que não é daqui, embora eu já tenha visitado muitos lugares e você não me pareça de nenhum deles. – Ele cruza os braços no peito, parecendo curioso. – Veio das vilas dos Montes Verdes? Ou além? Talvez próximo ao Grito no Precipício?
A língua de Ino roda dentro da boca. Ela conhecia esses nomes. Já tinha os ouvido antes. Montes Verdes... Ela tinha feito uma excursão para um sítio que ficava lá, mas era muito depois de Konoha, próximo à Sunagakure, a cidade vizinha. Suna.
A respiração de Ino fica pesada outra vez. Seu sangue parece gelado nas veias. Ela se esforça para sorrir, porém sabe que é uma imagem trêmula e borrada que pergunta para Ibiki, tentando soar natural:
— Perdão, mas onde você disse que estávamos? Mais cedo, antes de eu desmaiar? – Ino dá um passo para frente, como que para ouvir melhor.
O bom humor no rosto de Ibiki parece ter se perdido com a tensão que surgiu na voz dela.
— Areia Vermelha. Propriedade Sabaku, como você deve saber.
Embora Ino balance a cabeça positivamente, ela sabe que isso não é possível, de forma alguma. Areia Vermelha era o nome do principal território que fundou Suna, junto de Montes Verdes. Areia vermelha era Sunagakure – três séculos atrás.
Se as coisas fossem um pouco diferentes, Ino teria recusado a comida. Ela teria dito "não, muito obrigada" e sorrido educada, tentando não transparecer que não tinha achado as questões higiênicas do dono da casa lá muito adequadas. Quando Ibiki a disse para se sentar e ofereceu-lhe uma sopa de vegetais já não tão quente e um pedaço de pão de cevada duro, porém, a loira aceitou como o melhor dos pratos. Não tinha percebido o quanto estava faminta até aquele momento e a sopa cheirava maravilhosamente bem, muito diferente das sopas enlatadas ou em pó que ela costumava esquentar no micro-ondas.
Quando o recipiente de argila foi colocado na mesa, cheio até o topo com o caldo, Ino esperou uma colher. Ibiki, por sua vez, só se sentou no outro banquinho, de frente para ela. A loira sorriu amarelo para ele ao reparar que não haveria colher alguma. Hã... Ok.
Ino mordeu um pedaço do pão e levou o pote até a boca, como se tomasse água. Um pouco escorreu por seu queixo até o decote, mas ela se limpou rapidamente e pegou outro pedaço de pão, sorrindo meio agradecida, meio constrangida para Ibiki, que sorriu levemente de volta. Logo o levantar de lábios desapareceu e ele batucou na mesa com a ponta dos dedos.
— Então... Você falava de sua família? De onde eles são? – ele pergunta, assistindo-a comer. A velocidade com que ela engole a sopa diminui. Ino não sabia ainda o que pensar sobre tudo o que estava acontecendo, mas, se toda aquela loucura era realmente verdade...
— Eles... Hã... Eu vim de... É uma vilazinha tão pequena, sabe? Poucas pessoas conhecem. Mas fica na Grama... – Ino diz, voltando a tomar a sopa como se a fome a interrompesse. Kusagakure era outra cidade de seu estado, mas que não ficava nem perto de Suna, nem de Konoha. Se ela estivesse correta, antes da fundação de Suna e Konoha, Kusa era um território com pequenos grupos guerreiros neutros, que ainda não tinham sido conquistados pelos grandes clãs. Seu nome, antes, tinha algo além de Grama, mas ela não conseguia se lembrar o quê e esperava que só isso fosse o suficiente.
Isso tudo era loucura, pois o rosto de Ibiki parece se abrandar gradualmente e ele balança a cabeça.
— Nas terras do Alto Céu? – Alto Céu! Um nome familiar. Era um dos shoppings de Kusagakure. Não que Ino já tivesse ido, mas digamos que era, hã, o maior shopping do país, com uma grande estufa de plantas bem no meio, então tinha se tornado uma espécie de ponto turístico. Ela balança a cabeça freneticamente.
— Sim, sim! Já esteve?
Ibiki franze os lábios, pensando por um momento.
— Nunca. – Ele encara o chão vazio e Ino continua a comer, alternando entre pedaços de pão e goles de sopa morna. – Embora as vilas de lá sejam famosas pela grande criação de ovelhas.
Ino concorda rapidamente, com medo que ele a pegue no pulo. Se estava certa e realmente ali era Areia Vermelha, ela não poderia dizer que era de Konoha. Na verdade, da Folha. Suna e Konoha só tinham ganhado esse nome quando, enfim, as pazes foram feitas entre os dois territórios. Entre dois c... Ino engole mais um pouco da sopa.
— É, nós... Nós produzimos muita lã e essas coisas – murmura, esperando que ele não veja como as mãos dela estão tremendo. Nunca tinha visto uma ovelha na vida.
Ibiki faz um som de concordância, observando-a comer e Ino sorri amarelo mais uma vez, desviando os olhos para a comida. O único som é o crepitar do fogo aceso na lareira e do vento batendo contra as janelas abertas. É tudo inacreditável. Que Ino esteja aqui, nessa simples casinha no meio do mato, visto uma criação de gado, comendo de um pote de argila sem qualquer talher, discutindo o fato de que mora no Alto Céu e tenha uma criação de ovelhas. Tudo isso na Areia Vermelha. Nas terras dos Sabaku.
A sopa parece engrossar na sua garganta. Fazer bolos no seu estômago fraco. Ela precisa de água e talvez de um banho gelado. Sentindo o pano ainda amarrado no pescoço, Ino o tira lentamente, dando uma olhada no pequeno círculo de sangue.
— Eu posso... Você teria um pouco d'água?
Ibiki se levanta, caminhando em direção a um dos armários, onde, do lado, no chão, há um balde d'água. Ele enche um dos copos, também de argila.
— E o que uma moça do Alto Céu faz por aqui, sozinha? Se me permite perguntar. – Ele questiona, levantando uma das sobrancelhas de modo gentil. Gentil demais. Ino segura o copo com as duas mãos, a fim de conter a tremedeira, e sorri para ele depois de tomar um bom gole e agradecer.
Ela sabia que essa pergunta chegaria. O problema é que, exatamente como ele, Ino não tinha a menor ideia do que raios ela estava fazendo ali. A água que está tomando tem um gosto diferente da encanada; deve ser o cloro. Precisa de uma resposta. Uma resposta com algum sentido. Nada de "eu estava no meu apê, depois da minha festa de aniversário, acabei desmaiando e acordei no meio da floresta. É. Festa louca."
O cabelo de Ino quer escapar do coque e ela sabe que deve estar muito, muito despenteada, então volta a prendê-lo com um risinho nervoso, tentando olhar qualquer lugar que não seja o homem na sua frente. Esse banquinho deve ser o lugar mais desconfortável em que já se sentou.
— É uma história engraçada. – Não é não. Ino pisca. – Uma Senhora do Clã Fuuma acabou acidentada na vila onde eu morava, e não podíamos negar ajuda a uma mulher, não é? Por mais que tentemos resumir nossas relações com Clãs em venda e compra. O marido dela ficou imensamente agradecido quando veio buscá-la, mas ela já tinha se apegado muito à vila e resolveu que levaria alguns de nós como... criadagem pessoal. – Ok, Ino está comprando isso. Parece uma história perfeitamente aceitável. Ela toma mais um gole d'água. Tinha estudado e decorado esses nomes há tanto tempo... – Ela escolheu meninas para ajudar com sua filha e meninos para as atividades mais pesadas... hm... masculinas, isso. Infelizmente eu... Houve uma discussão com uma das garotas. Uma briga, sabe, por que ela se achava muito mais importante que todas nós e eu não levo desaforo para casa. – Ino se empolga, mas Ibiki só pode juntar as sobrancelhas para ela, sem ter ideia do que essa garota está falando. – Enfim. Eu acabei para fora da carroça que nos levava.
— Em sua anágua...?
Ino pisca para a palavra. Anágua? Quê? Ela percebe que Ibiki está olhando para seu vestido roxo. Ah, ele deveria estar falando sobe isso. Se ela realmente estava no século XVIII, seja lá como isso era possível, não deveria vestir algo tão curto e decotado. Anágua deveria ser... Roupas de baixo? Provavelmente.
— Já dizia Thomas Hobbes, "a mulher é o lobo da mulher" – Ino ri amarelo, tentando transparecer bom humor. O rosto de Ibiki continua sério. – Mas você nunca deve ter lido isso... É claro... – murmura, perdendo o sorriso e engolindo em seco. – Sim, Sr. Morino, ela levou meu longo, bem longão, fechado e recatado, muito recatado mesmo, vestido. – Ino deixa claro, esperando que isso alivie os ânimos dele. Ela massageia a testa, sentindo todo o estresse nos ombros. Kim a ajudasse. Não, não. Kim não estava nem nascida ainda. Deus a ajudasse.
— Entendo. – Ibiki diz, e dessa vez parece realmente acreditar nela. Ino contém um suspiro de alívio. – Entretanto, se eles seguiam para o Castelo de Ferro, logo devem fazer uma pausa por aqui. A viagem é longa e eles preferirão o sul, já que cortaram as relações com os Uchihas. Poderíamos encontrá-los e então você...
— NÃO! – Ino o interrompe num grito, levantando-se imediatamente. Era isso; tinha calculado certo. Os Uchihas e os Fuumas não tinham mais relações; os primeiros tinham acabado de tomar o controle de Fira, uma das vilas que mais rendiam impostos para os Fuumas. Não poderia fazer muito tempo, pois meses depois eles cairiam com a falta de impostos e já não seriam um grande clã. Se não o tinha acontecido ainda, então deveria ser... 1740. Ela tenta absorver isso e lambe os lábios. Ibiki está esperando uma explicação. Ino respira fundo. – N-Não, por favor. Minha vida lá será o inferno com essa garota por perto. Eu só preciso... Preciso voltar para Alto Céu.
Não. Ino precisava ir para Konoha – ou Folha, como eles chamavam aqui. Se havia qualquer explicação para tudo isso que estava acontecendo com ela, deveria estar lá. Deveria ter algo a ver com isso. Mas ela não podia dizer isso para Ibiki – se ali era Areia Vermelha, Ibiki era fiel ao clã Sabaku. Se soubesse para onde ela iria, poderia pensar que tinha relações com os Uchihas e então Ino estaria morta. Já era uma sorte que esse homem não tivesse a estuprado ainda, considerado a situação como um todo – ela não podia abusar muito mais.
Ibiki a encara em silêncio por um tempo.
— Muito bem. Eu posso redigir uma carta para sua família e me certificarei de que será entregue; estou certo que eles mandariam algum dinheiro para sua viagem.
Ino arregala os olhos para ele.
— Não é necessário! Sem cartas! – Ino diz, rapidamente. Se escrevesse uma carta, estaria esperando pelo vento. Afinal, não existia família alguma. – Hã... Minha família... Não sabe ler. E, tipo, meio que estamos brigados com o único leitor da cidade, então, hm, não seria de muita ajuda. Acho que estava... estava delirando de saudades, mais cedo, quando disse que eles poderiam vir.
— Então a facilidade para a discórdia é hereditária? – Ibiki pergunta, um toque cínico na sua voz. Ino sabe que ele está se referindo à outra "briga" que ela disse que teve, mais cedo. Abre outro sorriso amarelo.
— Pois é, fazer o que, né. Cabeça quente, haha – ela fala, rindo de nervoso. Céus. – Então... hã... Um cavalo. Se eu puder ter um cavalo, então eu poderia cavalgar até Alto Céu. Não que eu tenha feito isso muitas vezes, sabe, mas é aquela coisa. Segue na floresta, ó, no fervo, e é isso ai. Uma hora eu tô lá. – Ao ver o rosto confuso de Ibiki, a Yamanaka tosse. Droga, agora tinha que tomar cuidado em como falava as coisas. – Digo, vou fazer o meu caminho com a graça do Senhor, que está convosco. Cof. Conosco. Que está conosco.
Ibiki estreita os olhos, olhando-a como se ela fosse louca.
— Amém...?
— Amém. – Ino balança a cabeça positivamente, com muita intensidade.
Os lábios de Ibiki se inclinam só um pouco para cima, mas logo estão em linha reta outra vez. Ela pega a vasilha de cima da mesa e o copo d'água, deixando-os em cima do armário.
— Eu lamento muito, Srta. Yamanaka, gostaria de ser capaz de ajudá-la, porém cavalos custam muito e eu só tenho o meu por aqui. – Diz, movendo-se pela cozinha e fazendo coisas que ela não consegue ver muito bem. Ino se senta, sem saber o que dizer. É claro que não conseguiria um cavalo assim tão fácil. Como chegaria até Konoha, então? Ela não conhecia o mapa do seu estado de cabeça, mas, se lembrava-se bem, a Areia Vermelha, que só de nome tinha areia, era o centro comercial, onde ficava o shopping, de Suna. A Folha, por sua vez, o sul de Konoha. Ela morava pelo norte. Resumindo o drama, deveria levar pelo menos 2 semanas à cavalo, por conta das paradas, e muito mais a pé. E, hm, meio que Ino nunca tinha montado num cavalo. Ou feito uma viagem por bosques. De costas para ela, Ibiki deixa de se mover, os ombros largos de repente tensos. – Embora... Talvez eu possa interceder ao seu favor com o chefe do nosso clã, durante a oitiva de quarta-feira.
Oitiva? Ino nunca tinha ouvido tal palavra. Mas se Ibiki disse que poderia interceder ao seu favor, devia se tratar de um pedido. Ela tinha conhecimento o suficiente para saber que nenhuma decisão num território de um clã poderia ser feita sem a aprovação do chefe. Talvez, se Ibiki fizesse o pedido e ela tivesse a sorte dele ser importante nesse lugar, ela conseguiria o cavalo. Era isso que importava. Mas... Quem era mesmo o chefe do Clã Sabaku, em 1740...?
— Seria perfeito, Sr. Morino.
— Mas você deve entender, Srta. Yamanaka, que não posso ter tal atitude assim, só por gentileza.
As pernas dela enfraquecem e Ino agradece mentalmente por já estar sentada.
— N-Não, é claro que não – murmura, olhando para a madeira. Ibiki se vira devagar e a encara. Ino franze os lábios.
— Eu aceitaria a sua ajuda.
— A minha ajuda...?
— Acabo de voltar de Galaria; seria bom ter alguém que me ajudasse com a administração dos animais e da casa. Você pode usar aquele quarto até quarta-feira, também. E então, pela noite, teremos seu destino decidido.
A voz dele e seus olhos não passam muita confiança para Ino, apesar da nuance gentil e amigável que ele assume. As cicatrizes em seu rosto sempre parecem suspeitas. Mesmo assim, ela só pode se sentir imensamente grata. Se era esse o jeito para sair dali, que fosse. Faria o chefe lhe dar um cavalo – ele não poderia ser assim tão hostil, poderia?
— Muito, muito obrigada, Sr. Morino.
In de ochtend word je wakker op een diepe groene sluier. De tranen zullen je gezicht bedekken en kaarsen zullen op uw naam worden aangestoken.
Pela manhã você acorda em um véu verde escuro. Lágrimas mancham o seu rosto e velas se acendem em seu nome.
Quando Ino abre os olhos, ela está de frente para uma bela mesa, decorada com frutas e flores. Um jarro dourado de vinho, porém, é o que chama sua atenção e ela serve a taça até que o líquido transborde. Está vestindo um tecido claro, muito mais claro que sua pele, embora possa sentir o ar da primavera como se estivesse nua; o cheiro de terra molhada transbordando por sua barriga e o peito.
In de middag tussen de schaduwen van de bergen, verborgen in de grotten, verloren in de wateren van de lagune.
À tarde estará entre as sombras das montanhas, escondido nas cavernas, perdido nas águas da lagoa.
Ela não sabe onde, mas já ouviu essa voz. Já ouviu essa história, que se traduz pela primeira vez em sua mente. Embora não seja sua língua, Ino pode dizer que não, ela consegue entendê-la perfeitamente. Deixando a taça vazia sobre a mesa, caminha pela terra até o lugar de onde o som vem, uma poesia cantada com harpas. Duas grandes macieiras estão no seu caminho e o espaço entre elas é estreito; Ino ignora que tenha pisado sobre uma maçã e ergue seu braço, o braço que parece mais pesado, o esquerdo, de forma que ele entre no pequeno buraco entre as duas arvores.
Maar als 's nachts de zon opkomt, klaar zal zijn. De tweeling zal het vinden, zoals het zou moeten zijn.
Mas quando o sol aparecer à noite, estará pronto. O gêmeo vai encontrá-lo, como deveria ser.
Ino é puxada e, num movimento brusco, ela escorrega entre o buraco como se fosse exatamente do seu tamanho e está numa clareira, a mesma que estava mais cedo, embora agora cheire a flores. O sol brilhante refresca a sua pele e uma sensação de paz a invade de uma forma inexplicável. É quando ela sente que a voz na verdade não vem da clareira. A voz vem dela. Não, não dela. Ino estende o braço outra vez, maravilhada com tal luminosidade. A voz vem dele. Do anel brilhante em seu dedo, preso em seu dedo médio como se sempre tivesse sido parte dele. A loira o observa, contendo um suspiro. É tão bonito.
Tranen zullen goud zijn, ele diz.
"Lágrimas tornar-se-ão ouro", Ino sussurra para si mesma.
Het bloed zilver zal zijn, ele diz.
"Suor tornar-se-á prata", ela continua, estreitando os olhos para o anel.
Zoals het zou moeten zijn.
"Como deveria ser."
Como deveria ser.
Como deve ser.
Subitamente, Ino abre os olhos e se levanta. Suor frio escorre por suas costas seminuas, o decote encharcado, como o cabelo. Não está em clareira nenhuma, senão num quarto pequeno, escuro, que cheira à terra. Trêmula, ela olha para o anel que continua no seu dedo, de onde nunca tirou. É necessário conter a vontade de vomitar. Tinha sido ele. O anel a trouxera até aqui.
Seu primeiro pensamento é procurar por papel e caneta, marcar o que ainda lembrava do poema. Mas não há tais coisas aqui, nesse quarto, e ficou com medo de acordar Ibiki, cujo quarto ficava em outra porta, depois da sala/cozinha. Ino voltou a se deitar com o estômago dolorido.
Pela manhã, quando acordou, descobriu que era segunda-feira. Só dois dias. Ino precisava aguentar por dois dias. Só isso. E então teria um cavalo e pensaria na sua situação direito; se o anel tinha a trazido até ali, o anel podia fazê-la retornar, não podia? Se ela encontrasse a localização exata do seu prédio na Folha, então seria capaz de recriar os eventos que a trouxeram; bem, parte deles. Ino não tinha muita noção sobre fases da lua, mas talvez conseguisse se virar até ter uma lua cheia. Com sorte o seu aniversário não teria nada a ver com toda aquela bagunça e ela logo retornaria.
Como será que estava Sakura? Seus pais? Seus amigos? O tempo também estava passando para eles, não? Então já fazia um dia que estava desaparecida. Pobre mamãe. Pobre papai. Ino esperava que Sakura estivesse calma o suficiente para lidar com eles – mas o que os diria? "Deixei sua filha aqui e ela sumiu!". Esperava que não culpassem a Haruno por nada. Era tudo o que ela não merecia, definitivamente. Também estava se perguntando sobre as redes sociais, louca para jogar um Candy Crush, mas espantava esses pensamentos.
Ino sabia que não podia ficar com a mente no futuro, não por enquanto. Logo quando acordou, Ibiki deu-lhe um vestido longo, marrom, com poucos detalhes e que estava velho e grande demais. Mesmo assim ela agradeceu e decidiu que era melhor vesti-lo. Conseguiu convencê-lo a lhe entregar uma bacia e, com a água gelada, tomou um banho de gato – lavou as partes, as axilas, o rosto suado, deu uma ajeitada no cabelo e torceu para isso ser o suficiente. Descobriu um pequeno e manchado espelho de mão numa das gavetas do cômodo do quarto e o usou para ajudar a se arrumar. Ainda conseguia sentir o cheiro de suor em si mesma, mas era o melhor que podia fazer. Mais tarde, sem que Ibiki visse, ela roubou um limão que encontrou nos armários e passou nas axilas. Se ficasse aqui para sempre, daria um jeito de ser a primeira a inventar o desodorante!
Quando colocou o vestido, porém, percebeu que tudo aquilo fora para nada. Ele cheirava a pó e escondia qualquer progresso olfativo que ela tivesse feito. Ino precisou prendê-lo em si mesmo e a silhueta ficou um pouco esquisita, mas pelo menos cobria tudo o que deveria cobrir. Agora sabia que esses vestidos, mesmo os velhos, eram extremamente calorentos na parte de cima – e ela nem estava usando um espartilho, como imaginava que deveria ser feito. Ibiki a explicou por cima que tinha conseguido o vestido com uma mulher da vila. Também ganhou sapatos, esses que serviram muito bem – Ino usava 37 – mas que não pareciam sapatos de verdade; ela quase conseguia sentir a terra no pé, então era um pouco como não usar nada.
Agora, o que era interessante era a parte debaixo do vestido. Essa sim era muito bem ventilada, obrigada! Provavelmente por que tinha muitas peças faltando, como meias e a calçola, certamente, mas Ino estava curtindo. Ficar depressiva pelos cantos não adiantaria de nada, então era melhor se divertir com a própria situação. Quando se olhou no espelho, teve vontade de rir. Estava mesmo parecendo uma das mocinhas dos livros que tinha lido – hã, uma versão muito pobre delas. Talvez algo como a Cinderela antes da Fada Madrinha. Ignorando o pensamento, Ino prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto e, sem aguentar ficar olhando para a raiz do seu cabelo, que já estava oleosa por conta de tudo que tinha vivido, fez uma trança na franja, cobrindo boa parte do couro cabeludo. O ferimento na sua nuca já tinha se fechado e não era mais uma preocupação.
Naquela segunda e terça-feira tragicômicas, Ino descobriu todas àquelas pequenas coisas que a gente se pergunta quando está estudando história. É claro que ninguém vai levantar a mão e perguntar essas bobagens para o professor, mas: sim, ela precisava usar um penico. E se livrar de tudo no penico depois. E, para ser sincera, não tinha ideia se deveria cultivar um paninho para se secar toda vez que fizesse xixi, ou se era melhor não secar nada – as duas coisas lhe pareciam absurdas. Mas não havia papel higiênico e algo lhe dizia que Ibiki não iria gostar nadinha de encontrar pedaços de pano rasgados por ai. Por isso, mesmo sabendo dos enormes ricos de infecção urinária, preferiu segurar até onde desse. Imaginou que havia algum tipo de folha que, hm, pessoas mais pobres usavam, mas preferiu não perguntar sobre isso. Se ela achasse um rio por ai onde pudesse tomar um banho, seus problemas seria resolvidos.
Ah, ela também descobriu que Ibiki, além das vaquinhas fofas que a loira teve que ordenhar uma par de vezes – nunca tomem leite direto da vaca! Dá vontade de vomitar – a ponto de logo odiá-las e sair com o vestido todo molhado de leite – e fedendo –, também tinha um galinheiro. Pelo menos ela não teve que chegar perto das galinhas ainda; sentia que as bichinhas iriam bicá-la a qualquer momento. E ordenhar tinha sido uma tarefa difícil o suficiente por dois dias – parecia que todas as vacas a odiariam por roubar a comida dos bezerrinhos delas. E pegar nas tetas era engraçado.
Argh, mas nada podia ser pior que limpar o esterco das vacas. Pelo menos o leite era, sei lá, puro, né. O alimento de Deus – seja lá o que isso queria dizer. Mas Ino foi obrigada a juntar o esterco por que Ibiki também tinha umas plantações – não a pergunte do quê! –, começaria novas e queria adubar a terra antes. Ele disse que precisava ir para a cidade fazer algo a ver com documentos, mas algo gritava para Ino que ele só estava querendo se livrar do trabalho duro. De noite, ele a pediu para cortar os legumes e limpar um peixe e Ino o fez com toda a qualidade que os utensílios de cozinha do século XVIII a permitiram.
No fim, quando estava comendo, também fedia à leite, à esterco e à peixe.
Ibiki não parecia desagradado, no entanto. Todo o tempo, quando estava por perto, ajudando-a ou fazendo outras coisas, sempre a olhava por cima dos ombros. Parecia analisar tudo o que Ino estava fazendo. A loira não sabia se gostava disso ou não, mas estava comendo da comida dele e tomando sua água e até uma cerveja forte, mas muito agradável para seu paladar de amiga-que-dá-PT, e também dormindo no quarto dele, então não reclamava. Para ser gentil, às vezes até sorria quando o pegava olhando-a. Ele falaria com o chefe por ela, não? Então estava tudo bem. Logo teria um cavalo e conseguiria montá-lo, se Deus quisesse.
Eles não conversaram muito. Ino tentava não falar muito de onde tinha vindo e Ibiki às vezes se irritava com as coisas que ela deveria saber e não sabia – como, hm, eviscerar o peixe. Provavelmente qualquer garota de vila sabia como fazê-lo, mas Ino precisava de uma torneira, no mínimo. E de uma faca menos afiada, honestamente. Ela sentia que poderia matar alguém com aquela faquinha que parecia ter vindo diretamente de um filme de terror. Por questões de segurança, Ino tinha preferido não ficar perguntando sobre o chefe, com medo que Ibiki achasse que ela fosse uma espiã ou coisa assim – que ela sabia que era muito comum nessa época – para os Uchihas. Toda a sua história já era bem enrolada.
Mas conseguira confirmar que estava em 1740 quando ele contara que, 5 anos atrás, em 1735, chegara na vila e fora bem recebido pelos cidadãos. Era viúvo, sem filhos. Ibiki parecia um guerreiro, mas, de alguma forma, tinha se tornado uma espécie de contador da vila. Provavelmente por que era um dos poucos que sabia ler. Isso explicava por que sua casa ficava num local tão alto e como tinha um cavalo próprio tão bem tratado, com pose de garanhão, e não algum muito magro e mal cuidado. Mesmo assim, a hierarquia era clara; Ibiki podia até ter certa confiança da comunidade e do chefe, mas tinha uma casa simples e nem um criado. Provavelmente, quando viajava contratava alguém temporariamente.
Ele não era tão importante assim. E Ino não podia saber como o seu pedido seria levado.
Ela também teve tempo para focar nos próprios pensamentos.
Pensou muito sobre o anel. Repetia o poema na própria mente o quanto pôde – não pediu por papel ou tinta para Ibiki com medo que isso causasse desconfiança. Ela era pobre, não deveria saber ler. E, mesmo se não se importasse de dizer para ele que, sim, lia, teve medo de ele estranhar o conteúdo, que com certeza gostaria de verificar. Então guardava tudo o que se lembrava do poema para si mesma, apesar do sonho não ter se repetido na noite de segunda-feira.
Pensou em Konan. Será que ela sabia dos efeitos desse anel? Ela tinha comentado sobre a lua cheia, Ino se lembrava, mas será que já premeditava? Tinha feito de propósito, então? Mas ela mesma usava um anel, um com uma pedra amarela – será que já passara por coisa parecida? Ou era mesmo uma bruxa e tinha enfeitiçado o acessório? Ino não podia entender os motivos da garota para mandá-la para o passado. Se queria se livrar dela, poderia ter usado o jeito tradicional – -maneiras-de-matar-algué .br.
A manhã de quarta-feira finalmente chegou.
Depois de eles terem comido mais pão de cevada com sopa de cebola e algumas frutas como morangos e amoras, Ibiki disse que precisava ir até a vila para cobrar os empréstimos que aconteciam entre os próprios moradores. Algo sussurrava para Ino que isso era ilegal e que o chefe não sabia, mas quem era ela? Estava um pouco curiosa sobre as pessoas da vila como um todo, mas disse que estava tudo bem. Ibiki então pediu-lhe que recolhesse os ovos. Quando ele se foi, Ino aproveitou para se lavar mais uma vez sem causar muita desconfiança ou murmúrios sobre a água, que tinha que ser buscada por ele de um poço, e foi atrás do galinheiro.
Ino olhou para todas as galinhas em seus poleiros, suspirando.
— Muito bem, amiguinhas, agora somos só nós. Então sejam legais comigo e prometo fritar seus filhotinhos bem rápido. – Ino só tinha visto um galo e duvidava muito que vários ovos fossem dar origens a pintinhos, mas pelo menos ela esboçou um sorriso.
Primeiro ela limpou o galinheiro, por causa de todo o esterco de galinha, e depois, já suada, pegou uma cesta para recolher os ovos. Foi mais fácil do que parecia; era só espantar as galinhas para o lado e pegar os ovos rapidamente. Algumas ainda pareciam estar botando mais e Ino seguia para as outras – um total de 10 galinhas. Os ovos que estão quebrados Ino não sabe muito bem o que fazer e logo vai juntando-os num cantinho do galinheiro. Depois de dois dias comendo só sopa, era difícil não imaginar uma delas assada com batatas e... Ino balança a cabeça, tentando ignorar a fome de frango de padaria. Ah, cara. Ela daria tudo por um franguinho de padaria. Ou uma bomba de chocolate. Ou um brigadeiro! Olha, nem precisava ser de Nutella...
— Nove... De... – Ino para, arregalando os olhos. Ela volta. – Sete, oito, nove. Nove. – Pisca, sem entender. – CADÊ A DEZ? – as galinhas se assustam com seu grito, mas Ino corre, fechando o galinheiro imediatamente e deixando a cesta no chão.
Merda. Merda. Tinha perdido uma galinha. E dessa vez não se tratava das piadinhas quando ela e Sakura se desencontravam nas baladas – ela tinha mesmo perdido uma galinha! Ok, calma, sem desespero. Ela só precisa encontrar a galinha antes que...
— Ino?
Seus pés param onde estão. Puta que pariu. Alguém lá em cima realmente não estava de bem com ela... Ino se vira devagar, sorrindo torto.
— Sr. Ibiki... – Ela começa a mexer os dedos, sem conseguir controlar a ansiedade. – Como você voltou cedo...
— Está tudo bem? – ele pergunta, com um olhar estranho, dando um passo à frente. Ino se pergunta como ele conseguiu essas cicatrizes. Kim a ajudasse. – Você parece pálida.
Ino franze os lábios, dando uma olhadinha para o galinheiro. Como diria isso para ele?! Até onde ela sabia, perder qualquer animal nessa época não poderia ser bom. Ele olha na mesma direção dela e a loira arregala os olhos ao vê-lo ir até o galinheiro.
— Aconteceu algo com... – Ele para de falar imediatamente, franzindo o cenho. – Ino.
— S-Sim? – Ela cruza os braços atrás das costas. E seu cavalo estava tão, tão perto!
— Onde está a décima galinha? – pergunta, num fio de voz irritado, pausadamente. Como ela queria que não tivesse entendido nada. Infelizmente, mesmo com o sotaque dele, entendeu tudo.
— Eu... Eu...
— Você perdeu uma galinha?! – Ibiki se vira, irritado, e Ino dá um passo para trás ao ver a expressão dele.
— O quê?! Não!
— E onde ela está?!
— Ela... Ela... Talvez ela tenha achado o espaço pequeno e resolveu tomar um ar...? – sugere, com a maior boa vontade.
O Sr. Morino não parece nada convencido, pois parte para cima dela muito, muito irritado. Ino quase sai correndo, olhos por pouco não saltando das órbitas. Ótimo, ia morrer aqui mesmo, no século XVIII, sem nem um banho tomado. Era muita falta de dignidade, mesmo, viu. E pensar que uns dias atrás estava plena, na sua banheira, mexendo no Iphone. E agora celulares nem existiam ainda! Quanto mais Iphones.
— Sua tonta, não seja cínica! – Ibiki grita, e Ino desvia dele para o lado, tentando não trombar na cesta cheia de ovos. Ele parece perceber que está um pouquinho descontrolado, com a mão levantada para cima, e respira fundo, abaixando a mão com certa dificuldade. Ino se encolhe toda, morrendo de medo. – Ela não deve estar longe. Não fique aí, vá procurá-la!
— S-Sim, m-me desculpe.
E Ino sai correndo, segurando o vestido para cima. É um milagre que não tenha caído em cima dele, na verdade. Ibiki realmente tinha ficado furioso – e tudo por conta de uma galinha! Ou talvez ele já tivesse chegado estressado e perder um bichinho – ou comida, seja lá como você queira ver isso – não deve ser exatamente a coisa mais relaxante para a alma.
Ino vai em busca da galinha. Ela não estava ali, perto do galinheiro, e nem na primeira volta que a loira dá pela casa. Mesmo assim, no chão ainda lamacento da chuva da noite anterior, ela pode ver algumas pegadas de pé de galinha. Ino pensa nisso por um segundo – do que era a plantação que Ibiki mantinha ali, naqueles lados? Talvez, se fosse do que ela tinha imaginado...
Devagarzinho, ela chega atrás do outro lado da casa, paralelo ao galinheiro, onde não tinha ido antes. A casa de Ibiki é cercada por muitas árvores que formam um bosque – provavelmente o bosque cuja clareira ela tinha acordado em – mas Ino logo encontra o que procurava. Ela prende o ar quando se depara, um pouco fascinada. É um pequeno campo aberto, com uma rotação de culturas. Ela não tinha se afastado do galinheiro e do cercado do gado, que também não era tão grande, então não tinha tido oportunidade para ver. Era dali que saia o que comiam, provavelmente.
E então Ino a vê, bicando o chão com uma enorme paciência.
— Te peguei no pulo – murmura, para si mesma, aproveitando que a galinha está de costas. É isso, é só se aproximar, devagar... Ino dobra os joelhos, dando passos lentos, com muito cuidado. A ave continua bicando inocentemente, à procura de minhocas, sem saber que seus dias estão contados e que participa de uma comida assada que Ino está imaginando agora mesmo.
Só mais um pouquinho... Mais um pouco... Ino se curva para pegá-la pelo rabo e a galinha bate as asas e sai correndo dali, passando pelo meio das pernas da loira, que grita de susto.
— Volta aqui! – grita e sai correndo atrás do bichinho, que foi para perto das árvores. Há um caminho de terra ali, e a Yamanaka imagina se é por onde Ibiki faz suas viagens até outras cidades e retorna.
Ino corre em direção à galinha, que hora vai para o meio das árvores, hora vai pela estrada, muito afoita. Como esses bichos podiam ser tão rápidos?! Ino tenta sempre circulá-la para que ela não vá muito para longe da casa do Morino. De repente, a galinha grita e bate as asas. A outra galinha, quer dizer, Ino, grita também, de susto e pula para trás. E o cavalo relincha para a galinha, que sai voando e pulando sob os olhos atônicos da loira, que sente que quase passou por um ataque do coração.
— Calminha, calminha... – Uma voz diz, de cima do cavalo, tentando acalmar o bicho que dá trotes para trás e mexe o focinho.
A loira pisca, levantando os olhos contra o sol. Era uma voz masculina, mas muito diferente da de Ibiki. Era mais forte, mais autoritária, embora mais jovem. O cavalo é marrom, bonito e forte, e a faz lembrar-se dos cavalos árabes que tinha visto na televisão, embora duvide que esse seja um. Das rédeas, o olhar de Ino passa para a sala – para quem está montado nela. Ele usa uma calça negra, como as botas de montaria, e os músculos de suas coxas se destacam no tecido apertado. Pode ver uma camisa vinho e um espesso casaco negro cobrindo-a, meio aberto. Os ombros deles são largos e fortes. É quando Ino vê seu rosto. Sua pele é bronzeada de sol e o nariz reto junta um milhão de sardas rosadas, como nas bochechas. O queixo quadrado e altivo. O cabelo vermelho-fogo, vivo, quente e bagunçado. Não é um tom que ela já tenha visto antes. Os lábios são finos e rosados.
E então os olhos. O fôlego dela desaparece quando entreabre a boca. Íris profundas como um lago fundo, embora manchado pelas olheiras roxas. Ela conhece esse tom, profundamente azul e verde. Ela já o viu antes. Em seu... Outro arquejo da galinha faz com que Ino acorde de seus pensamentos e olha zangada para o homem em seu cavalo.
— Você ficou maluco?! O seu cavalo espantou a minha galinha! – Ela aponta para as árvores, onde, passando os olhos, não encontra nem uma pena sequer da dita cuja. Filho da puta. Ela estava tão, tão perto!
— Como? – o homem pergunta, lá de cima, usando a mão para cobrir o sol.
Ino o encara como se ele fosse retardado.
— O seu cavalo espantou a minha galinha! Tem como dar o fora?!
Ele franze o cenho para ela e, chacoalhando as rédeas levemente antes e assoviando, desmonta do cavalo. Ino dá um passo para trás. Ok, uou. Ele era muito bonito. Alto, forte, vestido tão bem... Ela até passa os dedos levemente na cabeça, a fim de diminuir todos os fiozinhos que devem estar voando. Deve ser pouco mais velho que ela, talvez 25 anos, no máximo 29; sem chegar aos 30. E ela amava ruivos – embora o cabelo de Sasori nem se comparasse com essa cor, nunca. Quando Ino olha para a expressão de superior dele, porém, todo o tesão desaparece. Ah, arrombado. Tinha espantado sua galinha e ainda a olhava desse jeito? Mas nem pensar!
— Você é nova por aqui? – ele pergunta, devagar, como se ela tivesse algum tipo de atraso mental. Ino olha feio para ele, dando outro passo para trás. Estava na casa de Ibiki, então esse idiota não teria coragem de fazer-lhe nada; até onde sabia, Ibiki era um pouco importante na vila. Com certa autoridade. Como o Morino, ele também fala com um forte sotaque, embora isso fique muito melhor nele do que no outro.
— E isso te interessa? Vai emitir minha identidade? – Ino revira os olhos para o olhar de confusão dele. Como as pessoas se achavam por aqui, hein? Todo mundo sabia o nome de, tipo, todo mundo? – Você não vai nem pedir desculpas ou coisa assim? Eu pego ovos daquela galinha, ok? Ela é importante. Tipo, pro meu sustento... hã... campesino.
Ele junta as sobrancelhas para ela.
— Você a perde e a culpa é minha? – diz, e dessa vez tem humor na voz.
É a primeira vez que Ino cora desde que chegou. Na verdade, a primeira vez em anos. Quase nunca alguém conseguia deixá-la constrangida. Contudo, esse homem tinha praticamente zombado dela com poucas palavras. Ela franze os lábios, cheia de raiva. Nem percebe, ou prefere ignorar, quando os olhos dele passam pelo corpo dela com certa curiosidade.
— Quer saber? Vai pro inferno. Eu tenho uma galinha para pegar, licença. – E faz questão de bater no ombro dele quando sai, embora pareça ter doido mais nela, do que nele.
Ino a procura entre as árvores, torcendo para que a bichinha esteja por perto. Resolve fazer o caminho de volta para a plantação.
— Nada disso teria acontecido se você tivesse apenas fechado o galinheiro. – Ela leva a mão para o coração, contendo o susto. É ele de novo. Dessa vez não parece desdenhar dela, na verdade é um tom calmo, como se só constatasse. Mas Ino não precisa de afirmações ou de ser lembrada onde errou; ela precisa da galinha! Por isso lança um olhar feio para ele e continua andando, segurando a saia do vestido para cima.
— Disse o especialista em galinhas – ironiza, revirando os olhos. – Me poupe, meu anjo.
Ino consegue ouvir uma risada rouca, mas não se vira, só continua andando. Se ela não conseguir essa maldita galinha, também não vai conseguir o maldito cavalo. E terá que arranjar outro plano para chegar à Folha – e o primeiro já tinha sido ruim!
— Você realmente não é daqui. Qual o seu nome? – ele está curioso, embora sua voz seja um sopro.
Céus, ela nem tinha percebido o quanto se afastara da casa. Parecia que andava, andava, com esse cara atrás dela, e não chegava a lugar algum. Ino para de andar, fazendo uma careta, para ver se ele se toca e tira o cavalinho da chuva – quase literalmente; exceto que não estava chovendo.
— Eu já falei; a não ser que queira emitir minha identidade, não precisa saber disso. – Ela o encara desaforadamente, como se o desafiasse a continuar com as perguntas. O ruivo, no entanto, também deixando de andar, está sério, embora seus olhos sejam divertidos. Ele balança a cabeça, movendo um pouco as sobrancelhas quando o faz.
— Identidade?
Ino franze os lábios. Argh. Eles também não tinham isso aqui. Como privadas. Ou Iphones. O século XVIII era mesmo uma merda. Por que ela não podia ter sido enviada para, sei lá, os anos 70? Seria tudo mais divertido. Ele parece tentar esconder a confusão, o que ela acha fofo – em partes por que ele é gato, dã – e os músculos do seu rosto relaxam quando explica, devagar:
— É como... Um número de identificação. Todos tem um de onde eu vim.
A seriedade some do rosto dele por um instante e Ino arqueia a sobrancelha, pois o homem sorriu de canto, zombeteiro.
— Ah. Como na prisão?
— O quê?! Não, não como na prisão.
— Então já esteve presa.
— Eu nunca estive presa! – grita, inconformada. Ino nunca nem sequer tinha sido multada. Ela se dava muito bem com todas as leis, obrigada.
— Hm. E qual a sua identidade?
— 143.285... Argh. – Ino deixa de falar, batendo na própria testa. Como tinha caído nessa?! Ao menos ele ri; muito mais com os olhos do que com a boca, mas lhe cai bem. Ela balança a cabeça e se vira, voltando a andar. – É só um bom sistema para nos acharmos – explica, tentando se lembrar de que ele é um homem do século XVIII.
— Enumerar pessoas é um bom sistema? Quando todas elas têm nomes e sobrenomes de suas famílias para representar? Soa preguiçoso para mim. Ou prisioneiro. O que a Srta. preferir – diz, devagar. Ino absorve as palavras, olhando-o além do ombro por um instante. Sim, um homem do século XVIII, embora seja difícil de discordar de suas palavras quando ele as diz com tanta... graça. No seu tempo, ele seria um ótimo político. Ou youtuber.
Ino controla a risada do último.
— Pense o que quiser; eu só estou interessada em achar a ga... – ela se interrompe, deixando de andar. Está de volta à plantação e, como tinha imaginado, a galinha também. Ino se abaixa, começando a andar em passos lentos. – Galinha... Galinhasinhaaa... Aqui, bonitinha – chama, em murmúrios, determinada. – Vem pra mamãe.
A loira até se esquece do homem ruivo atrás de si, motivada a pegar o animal. É o seu caminho para Konoha – para a Folha, no caso. Então ela pegaria a ave custasse o que custasse. Prende a respiração e, vendo-se próxima, Ino pula; não adianta de nada, pois o bicho sai voando mais uma vez, gritando seus cocoricós. A loira acaba caindo no chão.
Ino se ajoelha, socando a terra antes de tirar a que está no rosto. Perfeito. E pensar que antes já estava suja. Ela nunca iria pegar a tal galinha, essa é a verdade. Ino começa a limpar o vestido, murmurando alguns palavrões e tentando botar sua cabeçinha do século XXI para pensar – talvez se atraísse a galinha com alguma coisa, como milho, ou minhocas... Ino já tinha feito coisas muito nojentas nesses dois dias; pegar minhocas não era nada comparado a esvaziar penicos. Ela dá uma olhadinha na terra, procurando alguma dica de onde tem minhocas por ali, quando os passos das botas de montaria chamam sua atenção.
Ela pisca – ele não tinha ido embora ainda? Seu cenho se franze quando percebe o que está fazendo. A galinha está, mais uma vez, tranquila, bicando seu caminho para a felicidade. Com passos lentos, um pé na frente do outro, ele se aproxima com as mãos abertas. Ino já tem um sorriso no rosto – o idiota ia se sujar exatamente como ela e passar um pouco de raiva também. Vê? Deus já estava a recompensando.
E, então, como um milagre, ele se agacha e segura a galinha pressionando as suas duas asas juntas ao corpinho gordo. O bicho se revira um pouco, mas logo está quieta, mexendo seus pezinhos amarelos no ar. O ruivo se vira para ela e ele abre um sorriso – ! – quando vê sua expressão de choque. Ele tinha conseguido pegar a galinha na primeira vez! Primeira! E ela estava há pelo menos meia-hora tentando. Ele traz o bicho amarelado para perto do peito, com muita intimidade, como se fosse um cachorrinho.
Ino fecha a cara numa carranca. É, o panaca tinha experiência com galinhas. Grande coisa. Metade dos homens do seu tempo tinham também. Cof. Ela se levanta, limpando os joelhos com tapinhas.
— Você quer uma medalha? Por que acho que O Amostrado de 1740 já é seu, parabéns – diz, chacoalhando a mãos no ar quando se aproxima dele. O sorriso dele desapareceu, mas o bom humor continua nos olhos.
— E como tinha conhecimento de tal premiação? Ficou em primeiro lugar no ano passado? – ele arqueia as sobrancelhas para ela.
— Haha, ri muito, agora passa a galinha para cá. – Ino tenta pegar a galinha dele, mas o homem desvia com muita facilidade e o bicho continua mexendo suas perninhas.
— Quem é você? – pergunta, a voz num murmúrio rouco. Está sério como a morte e seus olhos, um lindo tom de verde-água que se mescla num profundo azul nos cantos, já não é nada divertido. É uma advertência. Um aviso de que se ela não disser agora, irá se arrepender.
A boca dela seca de repente. Nada mais parece engraçado – tudo parece um risco. Um risco a sua chance de voltar para o seu tempo. Aqui, tão de perto, suas íris azuis agora estão trêmulas. Consegue ver as várias sardas no rosto bem desenhado. As olheiras profundas, mas que não diminuem em nada a beleza dele. Pequenas rugas de preocupação, mas quase nenhuma de sorrisos. Ino lambe os lábios. Ela conhece esse tom de verde-água. Mas...
— INO! O que você... – A voz de Ibiki se interrompe imediatamente.
Ino sente um forte arrepio na espinha e olha para o homem da sua frente com medo. Ele, no entanto, parece tranquilo, olhando para além dela, onde Ibiki deve estar. Num movimento rápido, ela sente a galinha se acomodando nos seus braços e a aperta contra si com força, com medo que o animal escape outra vez. Ainda está trêmula.
— Ibiki. É bom vê-lo. Essa moça está com você?
O ruivo passa ao lado dela, em direção ao dono da plantação, sem se incomodar. Como se Ino agora não passasse de algum tipo de decoração. Deixa um forte odor amadeirado para trás e algo que também a lembra de algum chá. Erva-doce. Vira-se devagar, minutos depois, o cheiro ainda no seu nariz, e olha para Ibiki. Com um só olhar, meio de aprovação e reprovação ao mesmo tempo, ele acena para que ela entre na casa.
Ino nem pensa em discutir. Ela sai correndo com a galinha. Quando passa por eles, ainda pode ouvir parte da conversa.
— Eu pretendo falar sobre isso na oitiva, essa noite – O mais velho diz, parecendo bem humorado.
— Muito bem; se os dois estão de acordo.
O ruivo, sorrindo, bate no ombro do outro e o segura com a aprovação, com a mão esquerda. Ino franze o cenho. Antes que possa dizer ou pensar qualquer coisa, porém, ele a olha. Isso a faz se virar imediatamente, fugindo do olhar com o galinheiro em mente.
Exceto... Era um anel no dedo médio dele?
