Eu podia ver todos aqueles rostos. Sei que essa é uma afirmação estranha quando "aqueles rostos" são os de 60 mil pessoas. Mas eles não eram apenas um borrão pra mim, eles eram reais e suas emoções estavam claramente visíveis, mesmo à distância. A esperança e a emoção eram comuns em ambos os lados da multidão, o que os diferenciava era o time para o qual estavam torcendo.
Havia um mar de camisas brancas de um lado e o som dele cantando meu nome me arrepiou. Todas aquelas pessoas... as crianças, os idosos, as famílias, os hooligans, os fãs casuais. Todos estavam contando comigo.
Eu ainda me lembrava do que Richard Wishaw havia escrito sobre mim quando o meu técnico no Puddlemre United me dera a braçadeira de capitão. "Potter pode ter sido bem sucedido em Hogwarts, mas ele é muito jovem para entender as verdadeiras responsabilidades de ser um capitão em um time profissional. Ele pode ser tentado a jogar por sua glória pessoal, como tantos outros fizeram no passado. E o Puddlemere United precisa e merece mais."
Eu sei que ele não tinha contra mim, pessoalmente. Comentaristas de quadribol geralmente são assim – eles se esquecem que os jogadores são seres humanos e falam sobre nós como se não tivéssemos emoções. O artigo me ensinou a não ler o que é escrito sobre mim nos jornais – uma lição muito valiosa, devo acrescentar -, mas ele eventualmente me motivou e... bom, olhe pra mim agora, Wishaw!
E em um momento como esse eu podia dizer sinceramente que não havia nenhuma glória pessoal sendo perseguida no Estádio Nacional de Quadribol da Alemanha. Ser o capitão ou não era irrelevante pra mim. Eu jogaria com o meu coração por aquelas pessoas que ali estavam, meus compatriotas, em sua maioria. Ser campeão significava tanto pra eles quanto para mim, talvez até mais, e nos anos futuros, talvez as pessoas se lembrariam de quem pegou o pomo de ouro, ou o placar, mas eles provavelmente não se lembrariam de quem havia sido o capitão da Inglaterra na final de 82. E eu aceitava isso.
Respirei fundo uma última vez antes de me juntar aos meus companheiros de time no centro do campo. Não havia mais nada a ser dito, apenas sorrimos uns para os outros.
E logo o jogo começou.
Captain Fantastic 2
Capítulo Um – Wildfire
James Potter era um homem muito sortudo. Aos 22 anos ele era, não apenas um jogador titular do Puddlemere United, o clube de quadribol mais bem-sucedido do Reino Unido, como também era o capitão do time. Este era um feito impressionante para alguém que quatro anos antes estivera prestes a desistir de jogar profissionalmente.
Seu primeiro ano no United foi bastante agitado. James havia participado de apenas dois jogos pelos reservas quando Carlton Phillips levou um balaço na cabeça e foi forçado a se afastar dos campos até o fim da temporada (caso você esteja se perguntando o que houve com Carlton, ele está bem agora e joga na liga americana de quadribol). Carlton, naquele momento, era o artilheiro do campeonato e um dos favoritos da torcida. Não foi fácil substituí-lo, mas James fez o seu trabalho.
Quadribol profissional era muito mais duro do que o jogado nas escolas. Alguns jogadores roubavam descaradamente, outros jogavam extremamente sujo. Você tinha que ser três vezes mais cuidadoso, mas se tivesse talento, o resto poderia ser resolvido. E James tinha talento pra vender. Tanto que ele ganhou o prêmio de melhor jogador em sua primeira temporada, batendo muitos jogadores mais experientes, como Anthony Marcol, que havia ganho o prêmio por quatro anos consecutivos.
Não demorou muito para que as camisas do Puddlemere United com o número 16 fossem as mais vendidas no país. James passou de jogar em Hogwarts a jogar campeonatos europeus em 10 meses.
Mas o sucesso nos campos não era o único motivo pelo qual James Potter era um homem de sorte. Ele estava namorando uma das melhores aurores que o Ministério da Magia já havia empregado, que coincidentemente era a mulher mais linda do mundo – a primeira e única Lily Evans.
Ele pretendia elevar a relação dos dois ao nível mais alto. James já sabia fazia muito tempo que queria passar o resto de sua vida ao lado de Lily e vinha planejando há meses o pedido de casamento perfeito. James a levaria ao Le Boss, um pequeno restaurante francês em Puddletow que Lily amava e insistia para que eles jantassem lá sempre que ela estava na cidade – o que acontecia com menos frequência do que James gostaria. Lily morava em Londres e ela tinha apenas uma semana por mês para se juntar a ele na cidade onde o Puddlemere United era sediado.
James odiava essa situação e ele sabia que se casar com Lily não mudaria nada – ele não tinha a menor intenção de sair do clube e Lily também não pretendia deixar seu trabalho, algo que ele jamais pediria que ela fizesse -, mas ele queria se comprometer, queria construir uma família e queria que todos soubessem que seu coração pertencia à ruiva que ele amava há mais de dez anos.
Seus planos tiveram que ser alterados, no entanto, quando John Martin o convocara para a Copa Mundial. James deveria se encontrar com os colegas em uma semana, no mesmo dia que ele havia escolhido para pedir Lily em casamento. Ela não poderia ir a Puddletown, então James teria que ir até Londres. Ele amava Londres, de verdade, mas isso era desapontador. Lily não gostava de nenhum restaurante londrino do jeito que ela gostava do Le Boss. Nenhum lugar em Londres guardava tantas memórias deles juntos.
Depois de pensar por horas, entretanto, James conseguiu formular um novo plano perfeito.
Lily estava incrivelmente cansada naquela noite. Tudo que ela queria era chegar em casa, tomar um longo banho e cair na cama. Na manhã seguinte ela teria que acordar cedo para surpreender seu namorado na estação de St. Pancras, de onde ele embarcaria para Bruxelas, na Bélgica, e depois para Colônia, na Alemanha, com o resto da delegação da Seleção Inglesa de Quadribol. Lily sorriu ao pensar em James. Já não era o bastante ele ser capitão do Puddlemere United, ele agora era oficialmente jogador da seleção!
Cheia de orgulho e com a cabeça nas nuvens, a ruiva virou o corredor que levava ao seu apartamento e quase tropeçou em alguma coisa no chão em frente à sua porta. Olhando de novo, ela percebeu que não era coisa e sim alguém. Ninguém menos que James estava sentado ali, vestindo sua camisa azul claro favorita e com os cabelos levemente mais alinhados do que o normal.
Lily puxou o namorado pelo braço, fazendo-o ficar de pé para que ela pudesse beijá-lo. James riu entre os beijos apaixonados. Os reencontros dos dois eram sempre assim, alguns minutos de muitos abraços e beijos e sussurros de "eu senti tanta saudade de você" antes de qualquer outra coisa.
- Não me entenda mal, mas o que você tá fazendo aqui? – Lily perguntou, puxando James pela camisa, pra ter certeza que ele estava li mesmo, que ela não estava alucinando.
- Eu vim te levar pra jantar, oras! – James respondeu, trazendo-a mais pra perto. – Nós não vamos nos ver até depois da estreia da Inglaterra, o que vai levar, muito, muito tempo.
E era verdade, o primeiro jogo aconteceria dentro de um mês, e durante todo o tempo de preparação, os times estariam seriamente concentrados e com pouco contato com o mundo alheio ao quadribol. John Martin acreditava que quanto menos distrações, melhor.
O estereótipo de que mulher demora muito para escolher roupa não era verdadeiro para Lily. Em poucos minutos ela saiu de seu quarto usando um vestido verde escuro que ela adorava. Os dois caminharam pelas ruas de Londres, aparentemente sem rumo, mas logo James parou em frente à estação de King's Cross. Lily olhou para ele, esperando alguma explicação, mas nenhuma veio.
- Vamos – ele disse simplesmente, encorajando-a a continuar.
- James, você sabe quantos restaurantes existem por aqui? Por que você quer jantar em um que precise ir de trem?
Ele não respondeu, apenas conduziu-a até a plataforma nove e meia. Aquele era um dos portais entre o mundo dos trouxas e o mundo dos bruxos, e Lily o conhecia perfeitamente bem. Ela sabia, inclusive, que o Expresso de Hogwarts não estaria ali até o fim do ano escolar, dali duas semanas. James, no entanto, insistiu para que ela fosse com ele e, mesmo reclamando, Lily o fez.
O que estava do outro lado da plataforma fez os olhos da ruiva saltarem. A surpresa foi tão grande que tudo que ela pode fazer foi olhar para James de boca aberta.
O Expresso de Hogwarts estava sim parado ali, seu exterior iluminado por milhares de luzinhas e parecendo ainda mais encantado do que o normal. Havia uma cabine em particular que brilhava na escuridão que era dentro do trem.
- Vamos – James repetiu, dirigindo-se até lá.
Lily se lembrava daquele lugar. Eles haviam se conhecido ali.
- O que está acontecendo? – ela perguntou. Seu coração estava tão disparado que ela tinha certeza que James podia ouvi-lo. Merlin, até o maquinista devia estar ouvindo!
- Estou te levando para jantar – ele respondeu, sorrindo.
- James...
A cabine estava decorada com daffodils, os narcisos amarelos típicos do País de Gales. O quintal da casa de James em Puddletown era cheio deles e Lily fazia questão de cultivá-los. Ela levava alguns consigo toda vez que deixava a cidade, e os colocava em um vaso perto de sua cama. Sentia-se mais perto do namorado assim.
A luz da cabine provinha de algumas velas espalhadas estrategicamente pelo recinto. Os bancos haviam sido magicamente retirados e no centro da cabine havia uma mesa e duas cadeiras. O prato principal era risoto de frango – na primeira vez em que James fora para a cozinha preparar um jantar romântico, esta havia sido sua escolha.
Ele puxou uma cadeira para a namorada e sentou-se de frente para ela na outra. James havia planejado tudo detalhadamente, mas não contava com o nervosismo que começava a tomar conta de seu corpo. Ele envolveu as mãos de Lily nas suas e respirou fundo várias vezes antes de reunir a coragem necessária para fazer o pedido mais importante de sua vida.
- Eu tinha um discurso enorme preparado, mas as palavras estão fugindo de mim. Então, eu só... – ele passou a mão nos cabelos. Respirou fundo mais uma vez antes de se ajoelhar aos pés da namorada. – Lily Evans, você quer se casar comigo?
Lily tinha certeza que agora até pessoas na lua poderiam ouvir o coração dela batendo desesperadamente em seu peito. Eles estavam namorando há quatro anos e é claro que ela imaginava ficar com James para sempre, mas Lily realmente não estava esperando ser pedida em casamento por ele. Não tão já, pelo menos. A situação era complicada, o trabalho de ambos os mantinha separados na maior parte do tempo... Mas mesmo assim, all you need is love, não é?
- É claro que eu quero, James Potter! – ela respondeu, lágrimas se formando em seus olhos. O anel que ele lhe dera não tinha nada de extravagante, era simples e elegante como tudo mais que dizia respeito à Lily. E por isso mesmo, era perfeito.
Aquela noite foi tão longa, que, na manhã seguinte, por pouco o trem da Seleção Inglesa não partiu sem um de seus mais promissores jogadores.
N/A: Olá!
As notas sobre esse capítulo estão em emotional-latitude (ponto) tumblr (ponto) com/na
Obrigada pela leitura! =D
Espero que tenham gostado!
