2. Casa

Harry despertou lentamente, respirando fundo. Manteve os olhos fechados, enquanto ainda se sentia no limbo entre o sono e o despertar, tentando se lembrar do sonho que estava tendo, mas as imagens pareciam fugir de sua memória como água vazando entre os dedos das mãos. Se lembrava vagamente do rosto do homem, dos óculos, um olhar que se lembrava já ter visto antes... Uma sensação estranha preencheu seu peito, e não soube explicar bem o que era.

Ainda estava calor, mas uma brisa suave lhe batia no rosto, provavelmente vinda do ventilador velho de Duda. Deixou-se demorar um pouco a despertar, pois sabia que quando o fizesse teria que ir tomar café da manhã com certa pressa, e então preferencialmente sumir andando por aí pelo resto do dia para evitar conflitos com seu adorado primo e sua gangue de marmanjos sem cérebro e noção de ridículo.

Ouviu uma batida de leve na porta, e recusou-se a abrir os olhos, rolando na a cama e enfiando a cabeça embaixo do travesseiro.

— Hey, Harry? O café já está na mesa, cara.

Harry arregalou os olhos e sentou-se na cama, de sobressalto, sentindo o coração acelerar. Não conhecia aquela voz, nunca a tinha ouvido. Ao abrir os olhos rapidamente, viu um garoto esguio, de cabelos cor de caju e olhos castanhos. Seu rosto era estranhamente familiar embora, com certeza, não se recordava de conhecê-lo de lugar algum.

O garoto pareceu perceber sua exaltação, e suas sobrancelhas se ergueram um pouco.

— Tá tudo bem, cara? – perguntou, com a voz num leve tom de preocupação. — Olha só, posso mandar uma coruja pro pessoal do time confirmando o treino de hoje à tarde? Rony mandou um bilhete logo cedo perguntando se estava confirmado.

— T-Treino...? – Harry balbuciou, com a voz fraca, como naqueles sonhos que você tenta muito, mas não consegue juntar forças para falar.

— É cara, o treino de quadribol. Duh, hoje é sexta-feira, você marcou o treino com os caras há umas duas semanas. – ele disse tudo de uma forma tão natural, que a única coisa que Harry conseguiu produzir como resposta foi uma meia risada, um tanto quanto exasperada.

— Deixa pra lá, depois que você levantar a gente vê. – O garoto à porta girou os olhos e encolheu os ombros, parecendo desistir. — Anda logo pra tomar café, ou mamãe vai subir aqui e ver a bagunça que tá o seu quarto. – E, sem dizer mais nada, ele fechou a porta e saiu.

Harry ficou parado, imóvel, por vários segundos, aturdido demais para dizer qualquer coisa. Afinal de contas, onde estava? E quem era o garoto à porta?

Olhou ao redor, constatando que, definitivamente, não estava em seu quarto na Rua dos Alfeneiros. O cômodo em que estava era amplo, claro e arejado, havia uma janela enorme na parede à sua esquerda. Uma cortina branca era balançada levemente pela brisa que entrava no quarto. As paredes eram pintadas num tom claro de cinza, e o papel de parede tinha pequenas estrelas em tons de chumbo estampadas. Boa parte delas estava coberta por imagens e pôsteres – havia uns cinco pôsteres nos quais jogadores de quadribol iam e vinham em vestes azul-marinho, e Harry reconheceu o escudo do Puddlemere United neles. Havia algumas flâmulas da Grifinória penduradas, e uma grande bandeira da casa, com seu brasão e o leão dourado, pendurado logo atrás da cama. Além disso, ainda nas paredes, havia esquemas de jogadas de quadribol desenhados em pergaminhos, e pôsteres de duas ou três bandas que eram obviamente bruxas, pois se mexiam, mostrando os instrumentos e dançando na gravura.

Na parede à direita havia uma escrivaninha, e o garoto podia ver vários livros da escola dispostos aleatoriamente por ali. Ao lado dela, a grande gaiola de Edwiges estava apoiada, e claramente precisava ser limpa, pois havia pequenos ossos espalhados por todo canto. A coruja, porém, não parecia estar ali. Ao lado da cama, no chão, havia uma goles e um pequeno pomo de ouro voava por cima de pergaminhos jogados que Harry reconheceu como sendo algum dever de casa de Transfiguração.

À sua frente, ao lado da porta, havia um guarda-roupas branco, gigante se comparado ao guarda-roupas que tinha na casa dos Dursley. Reparou, ainda, que os lençóis da cama em que estava sentado – e que era, decididamente, três vezes maior do que a cama velha que usava na rua dos Alfeneiros – eram azul marinho, e tinham pequenos hipogrifos dourados gravados. Ainda, o pijama branco que vestia parecia ser exatamente de seu tamanho – seu, e não algo que restara de seu primo.

Sentia-se confuso e aturdido. Tentava entender, sem sucesso, onde estava, o que estava fazendo ali, como havia ido parar ali, mas nenhuma resposta parecia lhe ocorrer, a não ser a teoria óbvia de que, provavelmente, ainda estava sonhando. A porta do quarto voltou a se abrir e nada, nada no mundo, poderia tê-lo preparado para o que veria.

Uma mulher de meia idade entrou. Seu cabelo, ondulado até o meio das costas, tinha um tom intenso de vermelho escuro. Sua expressão era absolutamente bondosa, e o ar pareceu ficar mais leve assim que ela entrou. Ela lançou os olhos verdes, fortes e perfeitamente idênticos aos de Harry ao encontro do filho, e ergueu as sobrancelhas.

— Bom dia! O café está pronto, vamos? – perguntou, animadamente. Ela parou e olhou ao redor, reparando na sujeira na gaiola de Edwiges e nos pergaminhos espalhados pelo chão. —Que bagunça é essa? O senhor pode tratar de limpar esse quarto antes do almoço, ou diga adeus ao treino de quadribol desta tarde! – Ela disse, de forma energia. Harry, mais uma vez, não conseguiu se mover, dizer ou pensar qualquer coisa com clareza.

Lílian Potter tornou a olhar o filho, e sua expressão, que até então estava zangada por ter visto a bagunça, se abrandou.

— Harry? Está tudo bem, querido? – perguntou, se aproximando da cama. Ergueu uma das mãos e colocou em sua testa, como se para sentir se ele estava com febre.

Harry sentiu, quando ela se aproximou, um perfume leve e floral, muito... Real. Maravilhosamente real. Sentiu-se um pouco tonto, mais uma vez abriu e fechou a boca sem conseguir dizer nada. Sentia como se o sangue não conseguisse chegar ao seu cérebro, como se não conseguisse pensar.

— Eu... – tentou ele, balbuciando com a voz fraca. — Eu só não quero... Acordar. – finalizou, olhando-a fixamente. Lily ergueu as sobrancelhas, numa expressão curiosa.

— Mas você já está acordado, não está? – perguntou, com a voz doce. Harry não conseguia se expressar. Simplesmente não conseguia. Tentava guardar na memória tudo o que estava acontecendo, cada momento. Poderia se apegar a cada um daqueles segundos que estava vivendo, naquele sonho, se precisasse conjurar seu patrono em algum momento.

— Eu vou descer e pegar um tônico na cozinha, acho que pode ajudar. – disse Lily, mas o garoto segurou em seu braço de forma abrupta, assustando-a.

— Não, não vá! – disse, de sobressalto. — Só vai durar mais um pouco, e eu quero me lembrar de você... – disse, com um tom de voz um pouco mais triste.

— Harry, você está me assustando – disse a mulher, sentando-se na beirada da cama. — O que está acontecendo?

— Eu vou acordar em alguns instantes, e quero me lembrar de você quando isso acontecer! – falou, atropelando um pouco as palavras.

— Filho, você já está acordado. Está acordado, em casa, e está na hora do café da manhã. Qual a última coisa que você se lembra, antes de dormir? – Perguntou a mãe, num tom ainda mais preocupado. O garoto conseguia sentir o cheio de bacon que vinha do corredor, e que confirmava a fala da mulher.

— Eu... Eu me lembro de estar calor, e de terminar o jantar e subir enquanto tio Válter assistia o noticiário na televisão... – começou, tentando se lembrar. — Edwiges estava na gaiola, estava muito quente mesmo, então me deitei para tentar dormir um pouco... E então eu tive um sonho, não, dois sonhos, muito ruins... E aí aquele garoto me chamou, e eu estava aqui. Mas esse sonho é bom, então só quero que ele dure mais um pouquinho.

Lílian o olhou, agora realmente preocupada. Levantou-se devagar e mordeu o lábio de forma nervosa, assentindo logo depois, como se tivesse tomado uma decisão.

— Ok, algo está errado. Levante-se e troque de roupa, vamos ao St. Mungus.