II
Saga fazia sua ronda habitual pelo Santuário, agora assustadoramente calmo pelos tempos de paz. Uma paz tão improvável quanto inédita.
O que expunha ainda mais sua fragilidade
- Salve, Saga. - A voz rascante de Ikki de Fênix o tirou de seus pensamentos.
Sentiu uma ponta de amargura, já que nutria uma certa antipatia por ele. Não lhe agradava em nada seu comportamento sarcástico e muitas vezes deliberadamente anti-social. O oposto do irmão mais novo, a viva imagem da educação e doçura.
Nesse ponto, Ikki lhe lembrava muito seu irmão: o mesmo sarcasmo, a mesma agressividade nata, um certo desprezo por grupos e convenções sociais. Talvez fosse esse o motivo da antipatia, mas enfim.
- Salve, Ikki de Fênix. Deseja alguma coisa?
- Não, nada demais. - O outro disse, num tom desinteressado.
- Hum. - Saga meneou a cabeça, se preparando para seguir em frente, quando foi interrompido pela voz do outro.
- Ah... - Ikki deu um sorrisinho de lado. - Tem notícias de seu irmão?
Saga sentiu os músculos das costas se retesarem, e trincou os dentes.
Ikki sabia perfeitamente que, desde que Kanon fora encaminhando ao templo submarino por exigência de Poseidon, ele não mais se falaram. Não que tivesse feito questão de saber, ou ido atrás de notícias; nenhum dos dois fizera nenhuma menção de buscar contato com o outro, muito apesar do próprio Saga ter declarado em mais de uma ocasião que aceitava que seu irmão estivesse redimido de sua anterior maldade e de seus pecados.
Todos sabiam, e todos evitavam o assunto. O que apenas deixava em Saga o ranço amargo de ver esse assunto ser tratado como um elefante branco em sua sala de estar, que todos sabiam existir e viam claramente ali, mas fingiam que não existia. Ele incluído.
Menos, claro, Ikki de Fênix. A única criatura daquele Santuário que teria a ousadia de trazer esse assunto à baila. E o fez, o bastardo, na primeira oportunidade que teve.
- Não tenho notícias dele. - Saga respondeu num tom levemente áspero, mas perceptível o suficiente para denotar seu incômodo. Ikki, porém, não se fez de rogado. Deu uma risadinha seca. - Acha algo de engraçado nisso, Fênix?
- Na verdade sim, já que você perguntou. Sabe, você até disse que perdoava seu irmão e tudo, mas... Sei lá, é meio engraçado ver que, enquanto ele está isolado no Reino Submarino aos cuidados de um Deus que ele foi acusado de enganar, você está aqui como se nada tivesse acontecido, com essa cara de bunda como se não tivesse nada com isso.
Saga prendeu a respiração e apertou os punhos até que seus nós dos dedos ficassem quase brancos.
Moleque insolente.
- Modere sua língua, Fênix. - Saga disse entre os dentes. - E modere também o tom de suas insinuações.
- E eu estou insinuando alguma coisa, Saga? - Ikki deu outra risada seca.
- Já que você perguntou, parece que sim, você está insinuando algo. - Saga devolveu, em tom irônico. - E o que você insinua não me agrada. Portanto, para seu bem, é recomendável que você não fique se fazendo de desentendido enquanto levanta um falso sobre minha pessoa.
- Falso? - Ikki agora riu abertamente. - E o que há de 'falso' no que eu estou dizendo, Saga? Nada. E é isso que te incomoda tanto: o fato de que o que quer que eu tenha insinuado, aqui, seja verdade. Porque é.
- Fênix... - Saga sibilou em tom perigoso. O menino estava passando dos limites, mas parecia não se intimidar.
- Vai ter a cara de pau de dizer que o que eu digo é mentira? - O outro devolveu, em tom desafiador. - Vai mesmo dizer que você perdoou de coração o irmão que você e o resto desse Santuário de merda agora tanto fingem que não existe?
- Se ele está no reino Submarino sob os cuidados de Poseidon, é por obra de suas próprias ações, Fênix. Não há nada que eu possa fazer a respeito disso.
- Sim, claro, que conveniente. E não é como se você tenha tentado fazer alguma coisa, não é mesmo?
- A minha relação com meu irmão não é da sua conta.
- Pode até não ser, Saga. - Ikki rosnou. - Mas, se quer saber, me desagrada muito que ele esteja lá, pagando por seus crimes à mercê de Poseidon, enquanto você está aqui desfilando impunemente sua cara de pau pra todo mundo ver, posando de cavaleiro arrependido dos crimes que cometeu.
Saga apertou os punhos com força, muita força. E o rapaz também sentiu que acabara de tocar em um ponto nevrálgico, e que agora exploraria ao máximo.
- Escute aqui, Fênix... - Rosnou o mais velho, enquanto se controlava para não lhe partir a cara. - Eu não admito que você sequer insinue que meu arrependimento é falso. Ademais, todos sabem que não era por minha vontade que eu fazia aquelas barbaridades...
- Não? Então era pela vontade de quem, da sua dupla personalidade? Porque, se for o caso, eu realmente não sabia que doentes psiquiátricos podiam ingressar nas filas da Ordem. Ainda mais como cavaleiros de Ouro, nossa...
- Fênix...
- Certeza que você está tomando seus remédios direitinho?
- ...Cale essa boca! - Saga desferiu um golpe no rosto do mais jovem, que caiu no chão. Mas Ikki, ao contrário do que Saga pensava, não se levantou imediatamente para iniciar uma briga. Ficou no chão, rindo, até que se levantou e limpou lentamente a terra de sua roupa, aparentemente contente.
- O que você tem contra mim, Fênix? - Saga tentava se controlar novamente, agora arrependido pelo golpe que dera no rosto do outro. - Por que está me atacando assim? O que foi que eu te fiz?
- Você? - Ikki perguntou de volta, num tom raivoso. - Você destruiu a vida de pessoas que eu amava. De pessoas que eram caras a mim, Saga. Meu mestre, você o manipulou para transformá-lo em um monstro. E aquele monstro que você criou matou a própria filha, a Esmeralda. A Esmeralda era uma pessoa especial pra mim. Que morreu, está morta, e por culpa de suas ações diretas. Foi isso que você fez, Saga. Você, não seu irmão. Você.
Saga sentiu a culpa crescer em si. Ele sabia que cada palavra do que o jovem dizia era verdade. Baixou os olhos, agora com a vergonha estampada no rosto.
- Eu... Não tive a intenção...
- Não me interessa se você teve a intenção ou não, Saga. Suas lágrimas de crocodilo não vão trazer ninguém de volta. E nem lavar o sangue das suas mãos. Porque ele está aí, o sangue dos inocentes que você matou. E não me importa se foi por loucura, ou por ganância, eu não dou a mínima. Eu só não entendo porque seu irmão é tratado como um criminoso e você não.
- Ele fez tudo o que fez porque queria fazer!
- E se arrependeu porque queria se arrepender, Saga. Não varreu a merda que fez pra debaixo do tapete que nem você. Nesse caso, ele é muito mais digno do meu valor. Muito mais.
OOO
Uma noite mais, e Saga continuava sem conseguir dormir.
Não por outro pesadelo. Já tinha certo tempo que não tinha um. Agora os pesadelos deram lugar à insônia. Noite após noite, era simplesmente impossível pregar o olho por dias consecutivos, até que ele resolvesse tomar um comprimido, ou uns goles de vinho.
Permaneceu acordado em sua cama olhando para o teto, perdido em pensamentos.
Parte dele dizia que ninguém poderia julgá-lo. Muito menos Fênix, aquele pirralho.
Como ele poderia julgá-lo por sua relação com seu irmão? O que ele sabia de Kanon? O que pensava aquele moleque, que conhecia seu gêmeo porque o enfrentou algumas vezes na batalha contra os exércitos de Poseidon e lutou ao lado dele na Guerra Santa contra as hordas de Hades?
Ninguém conhecia seu irmão como ele. E ele sabia disso, melhor que todos.
Muitos foram os enganados e prejudicados por Kanon. Sim, ele sabia. E sabia melhor que todos, porque ninguém sofreu pela maldade do seu irmão como ele. Os erros e crimes de Kanon eram parte de sua vida, uma parte dele mesmo até. E como se enganavam aqueles que pensavam que ele não o amava. Ele sempre o amou. Ele o amou desde que nasceram, sempre lutou para que ficassem juntos, para que ele não ficasse desamparado. Sempre o defendeu, muitas vezes até quando sabia que não deveria. Amou-o com tudo o que tinha, até mesmo com sua loucura.
E o que ganhou em troca?
Seu irmão o odiava. Não, não só isso. Seria até melhor se ele o odiasse, porque isso significava que ele sentia algo por ele, mas não. Kanon o via como uma ferramenta para atingir seus objetivos, porque era assim que ele via a todos. Inclusive Atena.
Por um acaso não sabiam o quanto lhe doeu trancar seu irmão, seu sangue, sua única família, dentro de uma cela imunda de onde ele mesmo não acreditava que ele pudesse sair vivo? Não, ninguém sabia. Ninguém sabia de seu irmão, dos treinamentos no Santuário, da sua rebeldia, da dificuldade que tinha para controlá-lo. Ninguém sabia o quanto ele lutara além do limite de suas forças para fazer dele uma pessoa melhor, para tentar salvá-lo de sua própria maldade. Ninguém sabia que, quando ele decidiu que era melhor vê-lo morto do que totalmente perdido para seus pecados, uma parte dele enlouqueceu porque não pôde lidar com o tamanho de sua falha.
Era por isso que lhe doía tanto crer que, ao fim de tudo, ele se convertera em uma boa pessoa. Não porque não pensava que isso era possível, mas porque já tinha acreditado nisso tantas vezes, mas tantas... E em todas elas foi cruelmente punido pela sua ingenuidade. E isso ele não faria mais, estava farto.
Foi o que jurou a si mesmo, quando o prendeu no Cabo Sunion.
Mas uma parte dele queria acreditar de novo, e acreditaria quantas vezes fossem necessárias. Era a mesma parte de si que chorou ao vê-lo defender a casa de Gêmeos na Guerra Santa. A parte de si que seguia amando-o.
Suspirou longamente, já cansado do turbilhão de sentimentos dentro de si.
OOO
Na manhã do dia seguinte, Saga foi falar com Atena.
Encontrou-a em sua sala privativa, pediu permissão para entrar e foi recebido com o sorriso de sempre. Após uma saudação formal, começou a falar sobre seu irmão.
Disse-lhe, entre alguns pedidos de desculpas pelo incômodo e por importuná-la com seus problemas pessoais, que estava há muito tempo sem notícias de Kanon e que por isso queria permissão para procurá-lo.
A garota conhecida como Saori Kido não conseguiu esconder seu contentamento ao ouvi-lo. Disse-lhe inclusive que ela mesma também não tinha notícias de seu irmão, e também queria saber dele. Até mesmo tinha perguntado sobre Kanon ao General Marina do Oceano Ártico, amigo de longa data do Cavaleiro de Cisne, e também ao próprio Poseidon. Foi informada que ele estava se saindo muito bem. Mas enquanto todos se apressavam em dizer o quão bem ele estava, também sempre o encontravam muito ocupado para falar com ela, o que sempre postergava a conversa para uma oportunidade posterior que nunca chegava.
E isso não agradou a Saga.
Não podia parar de pensar no quanto seu irmão estaria ocupado nesses tempos de paz. Seguramente tão ocupado como ele ou ainda menos, assim que ele teria tempo livre o suficiente para falar com quem quer que fosse, se ele quisesse.
Então, por que Kanon não podia a encontrar um espaço em sua disputada agenda para falar com Atena?
Ou a dificuldade viria do fato de que ele não queria falar com ela?
Por quê?
Por isso, Saga saiu da audiência com a Deusa ainda mais convencido de ver o irmão. Essa história não lhe agradava em nada, considerando-se especialmente o quão bem conhecia Kanon. Porque sempre que seu irmão ia aprontar alguma, esse era justamente o primeiro sinal.
Ele se distanciava dos que poderiam atrapalhá-lo. Sutilmente, sem alarde; mas era o que ele fazia.
Exatamente como agora.
Kanon poderia muito bem estar tramando algo com Poseidon, ou mesmo sozinho. Não seria a primeira vez; aliás nada soaria mais típico de Kanon.
Tinha que vê-lo o mais depressa possível.
Poderia também alertar Atena sobre suas suspeitas. Pensou seriamente em fazê-lo, mas logo reconsiderou: Não poderia acusá-lo sem provas concretas. Se o fizesse, Kanon teria o material necessário para retorcer a situação a seu favor e isolar-se dele de vez, chamando-o de mentiroso e caluniador. Verdade que Kanon acusando alguém de mentiroso seria a piada do ano, mas não podia nem dizer que não o via fazendo isso.
A propósito, agora já não pensava que seria uma visita oficial pudesse ser uma boa ideia. Sim, porque se ele estivesse planejando alguma coisa contra Atena e a Ordem, nada seria melhor do que pegá-lo de surpresa, não?
Foi assim que Saga decidiu ir ao Reino Submarino em segredo.
OOO
Saga achou Ikki na arena, depois de um turno de treinos.
- Olá, Fênix. - Sua voz chamou a atenção do rapaz, que parecia bem desgostoso por vê-lo. Não que ele se importasse, saber o que seu irmão estava fazendo era mais importante.
- Que é?
- Preciso de sua ajuda. - Saga sorriu com o canto da boca.
- Fala.
- Vai me ajudar?
- Não sei, depende do que você vai pedir.
Justo. Ikki podia ser um moleque malcriado, mas não era assim tão burro.
- Quero que me leve até o Reino Submarino.
- Nossa... Vai visitar seu irmãozinho?
- Por aí.
- E por que tenho que ser eu quem vai te levar até lá? Não seria mais prático chamar a Sereia para te buscar?
- Eu não quero fazer uma visita pública. Há algumas coisas que eu quero verificar de perto, e anunciar minha visita seria uma má ideia.
- Então você tá dizendo que cê vai lá escondido?
- É.
- Vem cá... cê ficou louco, foi?
- Não.
- Cê sabe que essa ideia pode arriscar a trégua, não sabe?
- Não é minha intenção ser descoberto.
- Claro que não, Saga. Mas e se as coisas não saírem como você quer, como é que fica? Que desculpa você vai dar para estar lá?
- Eu dou um jeito, Ikki.
- Bem, me perdoe por ser inconveniente em insistir, mas se você for pego, Saga, sou eu quem me meto em uma confusão por sua causa.
- Bom, você vai me ajudar ou não vai?
Ikki franziu a testa.
- Certo. - Suspirou o rapaz.
Saga sorriu, até agora tudo ia como planejado.
OOO
