Minha vida ficou meio chata

Preciso de algo que eu possa confessar

A luz forte bateu nos olhos de Máscara da Morte, o fazendo acordar. Percebeu que ainda estava no mesmo quarto com cheiro estranho e tão quente e tão frio. Ainda era difícil se mover, mas já percebeu que mexer as mãos e os braços com calma já era possível. Tentou se sentar, sem sucesso, o resto de seu corpo ainda muito dormente para responder. Tentou mover as pernas, mas elas pareciam pedra, como se não estivessem lá. Levantou o pescoço para ver o ambiente, mas estava tão duro e dolorido que não elevou mais que dois centímetros.

Procurou Aiolia com os olhos da maneira que podia, campo de visão limitado. Por mais que carregasse animosidade para com o leonino, ele era a única coisa familiar naquele lugar. Mas Aiolia não estava lá, ou ao menos não parecia. Então só restou a Máscara da Morte esperar, aproveitando o silêncio.

Era bem melhor que os sinos repetitivos de antes, mas o bip, bip ainda incomodava. Ficou olhando o ventilador balançar e girar e o mesmo pensamento de que cairia, cairia, cairia passou por sua mente.

Então Aiolia entrou, imaginando se Máscara demoraria muito tempo para acordar. Se ele estivesse mais forte hoje iria contar o quê exatamente acontecera. Não era o tipo de informação que se podia postergar muito. Viu que o outro parecia perdido, mas com os braços em posição diversa da que deixara quando saíra. Era um Cavaleiro de Atena, afinal. Iria se recuperar rápido.

- Consegue falar?

Máscara olhou direto para Aiolia, não demonstrando ter gostado de ver o leonino.

- Acho que sim.

A voz saiu fraca e baixinha, como se não utilizada por muito tempo, mas muito melhor que a noite anterior.

- Você ficou desacordado tempo demais, é normal ficar tão fraco quando se acorda assim. Com o tempo você vai melhorar.

- O quê aconteceu?

Aiolia olhou para Máscara da Morte com pena. O canceriano não iria gostar da notícia e, se tivesse forças, no mínimo procuraria briga com Aiolia e o resto do hospital. O leonino decidiu ser direto. Meios termos não iriam suavizar nada.

- Você teve uma lesão medular completa na T11 e T12.

Máscara da Morte o olhou com uma sombrancelha arqueada - Scusa?

Aiolia suspirou - Significa que você ficou paralítico.

O grego se silenciou, esperando uma reação, que veio em forma de um fraco riso de escárnio.

- Esse tipo de coisa só acontece na televisão, leone. - Máscara pausou para recuperar o fôlego e continuou, com a voz fraca - Acontece com outras pessoas, não comigo.

A expressão de compaixão de Aiolia se aprofundou, irritando o italiano.

- Não minta para mim, Aiolia... Não é engraçado.

- Não estou mentindo.

Máscara fez um muxoxo de indgnação, murmurando alguma coisa que Aiolia fez questão de não entender.

- Não vou tentar te convencer, cara. Com o passar dos dias você vai cair em si.

- Não se brinca com isso...

- Eu já disse que não estou brincando!

Aiolia foi ríspido, já irritado, mas sabendo não ser justo. Entendia a negação de Ettore e quando a ficha caísse seria ainda pior, só não esperava tamanha teimosia.

Uma reação positiva era pedir muito, não era?

- Ettore, cara...

Máscara da Morte torceu o nariz ao ouvir o próprio nome. Há quantos anos não o ouvia? Quinze?

- ... por que eu mentiria para você sobre isso?

- E perché non?

Aiolia rolou os olhos, sentando na cadeira em que passava os dias. Pegou uma revista em quadrinhos, A Queda do Morcego, que estava guardando em cima da mesinha ao lado e se dividiu entre observar o outro e ler.

Não estava a fim de conversar com Máscara da Morte. Mais que isso, era necessário dar um tempo para que ele pensasse e absorvesse a informação.

Por sua vez, Máscara estava ignorando Aiolia por pura pirraça; não conversaria com alguém que contasse mentiras tão abertamente, por mais que seja a única pessoa ali. E médico. Cadê um médico? Suspirou irritado. Essa história de paraplegia era idiotice. Devia ser efeito de anestesia ou algo assim.

Então passava seu tempo exercitando seu cosmos e seus músculos. Com alguns minutos seu cosmo já não estava travado como ontem. Estava longe do normal, mas conseguia sentir o de Aiolia, por exemplo. E já conseguia levantar os braços mais alto e mover os dedos melhor, apesar de não conseguir ainda se sentar ou levantar o pescoço.

Curiosamente, mesmo que depois de um tempo passou a sentir seus braços e tronco normalmente, ainda que meio dormentes e doloridos, suas pernas ainda eram pedra e pareciam não estar lá.

E o tempo foi passando. Um médico entrou e checou o prontuário do canceriano, a medicação e elevou um pouco o encosto da maca automática, deixando Máscara da Morte recostado e com um ângulo de visão melhor. O doutor tentou conversar, mas foi completamente ignorado.

Era idiotice, Aiolia pensou, se alguém podia tirar as dúvidas de Máscara era o médico. Mas, ao mesmo tempo, o outro estava em estado de negação; não era só ignorância pura e simples, mas também havia o medo de ouvir aquilo que ele não queria, que havia ficado paraplégico.

Seria doloroso quando ele percebesse e resolvesse ouvir o que precisava, mas era necessário. Quanto antes ele começasse o tratamento melhor, já que o mesmo dependia principalmente da colaboração do paciente.

Aiolia suspirou pesado quando voltou da conversa com o médico e foi fazer a higiene de Máscara antes do almoço e para que ele fizesse os exames necessários à tarde. Se irritava só em imaginar a reação do italiano quando for informado da necessidade do banho em leito e da troca de fraldas.

E não foi diferente. Máscara da Morte escovou os dentes sozinho, mas lentamente. Não cogitou a possibilidade de sair da maca para escovar, estava se sentindo ainda muito fraco para tal. Mas toda a força que não tinha não era motivos para que ele precisasse da ajuda de Aiolia para fazer as necessidades e tomar banho.

- Eu não vou deixar você me levar no banheiro e dar banho! Posso fazer sozinho!

-Eu não disse que vou te levar no banheiro. - o leonino estava calmo. Sabia que viria chumbo grosso - Vou trocar sua fralda e dar banho em leito!

O canceriano arqueou uma sobrancelha e franziu o cenho, irritado - Não sou nenhum bebê para usar fralda e me darem banho!

- Você vai conseguir se livrar da fralda e fazer tudo sozinho com o tempo, mas só depois de muita terapia. Por enquanto me mandaram te ajudar!

-Eu posso fazer tudo sozinho! Só preciso esperar o efeito dessa merda dessa anestesia passar!

A irritação de Aiolia passou no momento em que ouviu isso. Não tinha como ficar irritado com ele, a negação e a irritação do companheiro de armas era completamente compreensível.

- Por favor, cara, eu só quero te ajudar...

- Eu não preciso de ajuda. Você nem quer... Nem quer estar aqui.

- Verdade, eu não queria. - Aiolia disse, se aproximando do outro e começando o que devia mesmo sob os xingamentos e protestos - Mas já que eu estou aqui, vou fazer as coisas direito.

Máscara tentava afastar Aiolia e xingava e gritava como podia, com o corpo e a voz fracos. Porém se calou, estupefato, quando Aiolia, com muito custo, conseguiu descobrí-lo e mostrar a realidade: que estava usando fraldas.

- Eu non... Como eu não senti isso?

- Por que você perdeu os movimentos e a sensibilidade das pernas, idiota. Eu já te disse isso. Agora me deixe te limpar, droga!

O que se seguiu foi, na cabeça de Aiolia, repetição. Na cabeça de Máscara da Morte, a mais pura e simples forma de humilhação conhecida pela humanidade. Tinha vontade de chorar, mas segurou o nó na garganta. Não podia ser verdade. Não podia.

Depois da cena e da higienização, de cuidar da sonda e fazer o necessário para evitar escaras, Máscara da Morte comeu a insípida e equilibrada comida de hospital, em silêncio, assim como os exames que faria, não respondendo aos vãos esforços da equipe médica e de Aiolia em retirar a expressão pensativa e tristonha de sua face e não se manifestou quando o pegaram para transferir de uma maca para outra e enquanto o empurravam. Se sentia um lixo, mas permaneceu calado. E isso se extendeu até quando voltou para o quarto, enquanto jantava e via Aiolia fazer o mesmo.

Máscara largou o garfo no prato, se controlando para não chorar - Aiolia...

O leonino levantou a face, com a boca cheia - O quê?

- O quê eu faço agora?

Aiolia estancou e perdeu a fala ao ver o ar perdido e as lágrimas contidas que corriam pelos olhos de Ettore. Ele havia caído em si.

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Máscara da Morte passou o resto da noite calado, ante a falta de resposta de Aiolia. Apesar de ter muitas dúvidas sobre sua situação agora, não se sentia bem para conversar com quem quer que seja.

Foi um acidente de moto. Não foi em uma batalha ou em missão, por alguma doença ou motivo nobre. E nem poderia dizer que era vítima; afinal, estava Máscara da Morte bêbado em cima de uma moto, em alta velocidade e avançando o sinal.

Quer dizer... Não se lembrava de avançar o sinal que o fez bater contra o caminhão, mas era o que Aiolia havia dito, certo?

De qualquer forma, seja lá qual for o seu futuro agora - se andaria, se se livraria das fraldas, se seria independente novamente, se conseguiria ter uma vida sexual ativa, se perderia a Armadura de Câncer, se perderia o posto de Cavaleiro de Ouro e sua morada no Santuário, o quanto se recuperaria... Todas as milhares de dúvidas e incertezas que vieram junto da paraplegia tinham uma única causa: ele mesmo.

E, de certa forma, saber disso era mais doloroso que as dúvidas e a deficiência em si. Era como um castigo, e Máscara sabia muito bem que pecados ele tinha para serem castigados.

Toda essa martirização e linha de pensamento calou seus lábios até o fim da tarde do outro dia, quando a curiosidade e necessidade de se informar ganharam do medo de ouvir a verdade.

- Aiolia, o quê aconteceu?

Máscara da Morte não era pessoa de se abater por sentimentos e situações ruins, ao menos não conscientemente. Por isso, sua voz, ainda meio fraca, mais parecia curiosa do que tristonha e abatida.

- Eu já disse. Você teve uma lesão completa na medula ou que o valha, na T11 e T12.

Máscara bufou e girou os olhos, irritado - Disso eu já sei, idiota. E por isso fiquei aleijado...

- Paraplégico, na verdade.

- E por isso fiquei paraplégico - repetiu o canceriano, imitando o outro - Mas e daí? O que acontece depois?

- Um médico seria melhor para falar com você.

- Um médico vai me responder, com certeza, minha situação no Santuário agora, obrigado pela luz de sabedoria, Salomão. - o italiano disse áspero e irônico - Custa me responder se eu perguntei para você?

Aiolia fez um muxoxo de indgnação antes de responder - Os médicos dizem que você não volta a andar, mas que com o tempo e terapia pode ser totalmente independente. Mas, claro, vai precisar de uma cadeira de rodas.

- Ah, claro - Máscara da Morte fez uma careta - cadeira de rodas. E demora muito até isso?

- Não sei, depende de você e do tempo.

- Sei. E a fralda?

- Pô, sei lá. Fala com o médico, ele vai saber te responder, porra.

- Tu é inútil mesmo, cacete. De quê adianta ficar enfermo se não tenho uma enfermeira gostosa?

- E por acaso seu pinto ia subir? - Aiolia riu.

- Vai subir é um soco na sua cara se continuar rindo de mim, leone.

Aiolia riu ainda mais, ao ver Máscara xingando baixinho por não poder levantar e puxar briga. O humor de Máscara da Morte parecia normal; só esperava que ele realmente encarasse as coisas com tanta naturalidade. Apesar de odiar (praticamente) o italiano, o preferia assim do que calado, triste e pensativo.

- E o Santuário?

- Atena está pagando o hospital.

- Aham, quê mais?

- Ela não disse nada sobre sua situação por lá, acho que ela vai te esclarecer isso quando vier te visitar.

- E os outros?

- O que é que tem?

Aiolia ficou confuso, Máscara da Morte não parecia ser do tipo que se importava com opiniões alheias.

- Aposto que eles estão rindo de mim e dizendo "bem feito".

O canceriano riu amargo. Ninguém além dele mesmo sentira o peso do acidente.

- Na verdade, não. - Aiolia mentiu; "bem feito" e "ele mereceu" foi o que mais se ouviu quando a notícia do acidente e suas implicações foram conhecidas pelo Santuário. - Não foi um bafafá tão grande.

Máscara arqueou uma sobrancelha em dúvida - Então tá... Mas e as fraldas? Você não me respondeu.

- Ah. Eu não sei direito. Eu andei pesquisando e me parece que você tem que educar seu intestino e usar uma bombinha, cateter ou algo assim pra cuidar da bexiga, daí você mesmo pode cuidar disso sem precisar das fraldas. Tomar banho sozinho também é tranquilo.

- Você não tem nenhuma informação concreta, eh? - o italiano riu - E meu possante?

- Que possante?

- A cadeira de rodas.

- Bem, você ainda não tá podendo usar. Quando puder usa uma do hospital e depois encomenda a sua.

- Encomenda?

- É. - Aiolia disse, cansado de responder perguntas - São feitas sob medida.

- Saquei.

Então Máscara da Morte se calou. Mesmo depois de todas essas informações, seu futuro e presente eram uma incógnita e parecia tudo tão irreal... Ainda esperava a hora em que Aiolia diria que "é uma pegadinha". Era mais fácil acreditar. Qualquer coisa era mais fácil acreditar que a realidade. E, por mais que não se deixar abater por isso seja seu lema agora, era tão difícil. Máscara sabia da verdade... Era verdade. Então por que era tão intangível, tão surreal?

E todas as possibilidades de seu futuro com e sem o acidente passavam pela sua cabeça como um filme "E se?". E se eu não tivesse saído, e se eu não tivesse bebido, e se eu não tivesse decaptado tanta gente, e se eu tivesse sido uma pessoa melhor... Naaah, nada mudaria. Nada.

Não adiantava vir com "e se". Não há maneiras de saber o que aconteceria. O quê de diferente poderia ter feito pra evitar. Não é como se pudéssemos voltar no tempo e fazer diferente, ou ver as possibilidades em uma tela de TV. Especular assim é burrice e dolorido demais... Então tinha que encarar seja lá qual for seu futuro de frente. Não tinha outra alternativa. E isso era assustador.

Cansado e pensativo, Máscara da Morte adormeceu.