CAPÍTULO II - A verdadeira liberdade...

"A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão." (Massimo Bontempelli)

Gregory House estava sentado em seu quarto, encostado na parede, bem próximo a porta. Pensava no quão insana a vida podia ser; ele, o médico que tanto prezava inteligência e racionalidade foi parar no lugar onde possui o maior número de pessoas insanas e irracionais. Lembrava-se da angústia que sentiu ao perceber a gravidade de suas alucinações ao tentar matar o Chase na despedida de solteiro do australiano e na noite maravilhosa que alucinara ter com a Cuddy...

- AH! Lisa Cuddy... – Suspirou.

House tentava, inutilmente, negar para si mesmo seus sentimentos por aquela mulher, entretanto, a verdade é que ele sentia falta da mesma como nunca sentira de ninguém em sua vida. Nunca passou tanto tempo longe dela, e o fato dela nunca ter ido vê-lo o enchia de dor e rancor. Greg sabia que nunca aceitaria que ela o visse naquela situação. Se Lisa fosse visitá-lo, ele imediatamente negaria a visita, mas apenas saber que ela esteve lá o encheria de esperanças...

"Esperanças? Esperanças de quê? De ter uma vida normal? Uma vida pessoal? Uma família? Não! Isso definitivamente não é para mim!". Pensava.

Enquanto House refletia sobre sua miserável vida, levou sua cabeça para trás, encostando-a da parede e, sem querer, acabou ouvindo a conversa de dois enfermeiros do lado de fora.

- Eu tô falando, Joe. Acho que o patrão está pulando a cerca atrás dos muros desse hospital!

- EEEE! Você já vai começar de novo? Você acha que todo mundo está escondendo algo, mentindo, traindo... E por mais que seja verdade, o quê você tem haver com isso? Deixa o patrão ser feliz!

- Eu não estou dizendo que ele não deve transar, eu tô é com inveja da gostosa com quem ele tá transando! – Sorriu maliciosamente.

- Hum... agora me interessei. E quem é essa gostosa?

- Não sei, Joe. Nunca a vi por aqui antes. Mas que ela é gostosa, isso é! Deve ter mais ou menos 1,60 metros de altura, cabelos negros com grandes cachos, olhos azuis lindos e o melhor: um par de seios e uma bunda que... OH Deus!... Incríveis!

- Ei, Bob, é uma que chegou há umas três horas atrás?

- Isso mesmo! Ela já está a todo esse tempo com o Dr. Stevens.

- Seu idiota! Ela é reitora de medicina! Devem estar fazendo coisas de médicos administradores! – Balançou a cabeça negativamente. – Agora não me faça perder meu tempo com falsas fofocas e abre logo o 106.

Nesse momento House ouviu o barulho de sua porta sendo aberta e em seguida o enfermeiro falou:

- Hora da terapia.

- Eu tô falando, Joe. Eles estão fazendo alguma coisa a mais. Ninguém fica três horas apenas conversando! E ela deve ser uma stripper disfarçada! Nenhuma reitora é tão gostosa! – Insistiu na conversa o enfermeiro Bob.

House apenas ouvia calado, com um singelo sorriso nos lábios.

"Ela veio. OH, yeah! Ela realmente veio." Pensou.

- Enfermeiros, hoje é dia de visita? – Perguntou enquanto caminhavam pelos corredores.

- Não. Só daqui a uma semana e três dias. – Respondeu Bob.

- Mas se alguém, por acaso, não sabe e resolve vir, pode ver algum interno? – Continuou o infectologista.

- Não. Regras são regras. Apenas nos dias de visita os internos podem ser visitados. – Concluiu Joe encerrando aquela conversa.

Os três continuaram andando até a sala da terapia com o psiquiatra. House odiava essa parte do tratamento. Detestava o fato de ter alguém tentando ler a sua mente... e o pior, conseguindo lê-la. Pela primeira vez entendeu a raiva do Wilson quando ele tentava investigar a vida do amigo como um psiquiatra.

Após os cinqüenta minutos de terapia, House foi novamente escoltado para seu quarto pelos mesmos enfermeiros. Assim que entrou no cômodo pôde ouvir o mais agradável som que imaginaria escutar naquele momento: o tilintar de um par de saltos altos ao chocarem-se com o chão do hospital. Colocou a cabeça para fora olhando para os dois lados do longo corredor na tentativa de enxergá-la, porém o enfermeiro que abrira a porta estava distraído conversando com o outro e, sem perceber, fechou-a bruscamente, quase atingindo a face do médico.

House deitou-se em seu leito colocando as duas mãos atrás da cabeça para sustentá-la, e passou a pensar naquela conversa que ouvira há minutos atrás. Seria mesmo Cuddy ou apenas seu subconsciente desejando que fosse ela? Já tinha passado por isso uma vez... já fora enganado por sua mente e não sabia se poderia confiar novamente. Lembrou-se de quando chegou ao Hospital Psiquiátrico de Mayfield. No início, recusou-se ao tratamento. Engolia os remédios para, em seguida, vomitá-los, porém as alucinações continuaram e o medo de que nunca mais fossem embora tomou conta de seu pensamento. Juntando seu temor com seu insaciável desejo pelo seu remédio, Vicondin, resolveu aceitar os medicamentos dados pelo enfermeiro. Logo se acostumou a ficar dopado pelas drogas dadas e após cinco meses percebeu que, seja lá o que havia tomado, fez efeito, pois, finalmente, as alucinações desapareceram. Todos os meses seu amigo Wilson ia visitá-lo... sempre sozinho. No entanto, no sexto mês, poucos dias depois do desaparecimento dos delírios com Kutner e Amber, House viu sua porta ser aberta logo após a saída do oncologista e por ela passar ninguém mais ninguém menos que Cuddy. Um grande sorriso saiu de seus lábios e eles conversaram sobre banalidades por horas até a doutora precisar ir embora cuidar do Hospital. Um mês depois, ao conversar com James, descobriu que Lisa Cuddy não poderia ter o visitado; seria algo impossível já que a mesma estava numa conferência de medicina em Los Angeles. As alucinações com a administradora duraram por mais três meses até, finalmente, sumir de uma vez por todas. Mas será que realmente desapareceram ou aquela descrição e o som tão conhecido seria mais um delírio?

"Droga! Vai ver é só outra gostosa administradora de um hospital que adora usar saltos bem altos... Impossível. Lisa Cuddy é, sem dúvidas, a única mulher bonita, atraente e inteligente que conseguiu atingir um cargo tão importante como esse. É ela, eu tenho certeza... ou pelo menos preciso acreditar que é ela para poder suportar olha-la novamente quando sair daqui.". Pensou.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som da porta sendo novamente aberta.

- Hora da terapia artística. – Informou o enfermeiro.

Mais uma vez House levantou e caminhou, ainda mancando um pouco, pelos corredores do Hospital Psiquiátrico, mas dessa vez até o lindo jardim onde os internos caminhavam e pintavam quadros para serem analisados pelos especialistas. Assim que cruzou o grande portão, chegando ao jardim, a secretária do Dr. Stevens cochichou algo no ouvindo do enfermeiro que o guiava. Eles pararam de andar e o enfermeiro chegou mais perto de Gregory.

- Sua terapia artística acaba de ser cancelada. A partir de hoje você só terá terapias com o psiquiatra do hospital e em vez de cinqüenta minutos passará para cem minutos. – Informou o homem.

- Hora, mas porque isso? – Perguntou o infectologista furioso. Definitivamente odiava aquilo. – Eu sou tão louco a ponto de não poder me relacionar com outros loucos?

- Gregory, se acalme. Não é nada disso. Pelo que eu entendi você será liberado mais cedo. Daqui a exatos cinco dias. No sábado você estará longe daqui. – Sorriu.

House não podia acreditar naquilo. Foi a melhor notícia que recebeu em quase um ano e seis meses. Livre, estaria livre daqui a menos de uma semana! Sairia definitivamente daquela prisão. Abandonaria a solidão daquele lugar para voltar a sua vida solitária, porém uma vida livre! Ele apenas conseguiu sorrir e gargalhar como não fazia em anos.

- Então o que estamos esperando? Que comece a terapia! – Gargalhou enquanto caminhava mais rápido que de costume para o quarto, mancando quase imperceptível.