Era o dia mais rígido do inverno e uma morena de cabelos negros curtos dormia aparentemente tranquila em um dos gramados congelados no Central Park. Todos que passavam por lá reparavam na mulher que dormia jogada de qualquer jeito no parque, mas ninguém fazia nada. Uns achavam que ela havia adormecido por ali porque ela estava bêbada, outros achavam que era uma simples moradora de rua. A palavra de ordem para a maioria das pessoas que moravam na caótica cidade era o interesse próprio. Para que perder um tempo que pode ser precioso ajudando alguma pessoa? De modo que ela ficou ali sozinha desfrutando de seu sono.
Algumas horas depois ela começou a se mexer um pouco desconfortável, enquanto alguns gemidos dolorosos saíam de sua boca. Poderia ser um pesadelo, ou em último dos casos, apenas o frio típico do inverno nova-iorquino. Ela foi acordada com a neve queimando sobre seu rosto. Suas juntas se mexiam com bastante dificuldade devido ao ar gélido que pairava sobre o Central Park naquele dia. Ela já não conseguia manter seus olhos cerrados e ao abrir os mesmos, ela deparou-se com a fraca luz solar que adentrava sua pupila. Ela não entendia o porquê de suas mãos estarem agarradas firmemente em seu ventre. Ao levantar sua cabeça sentiu uma leve tontura, a qual procurou ignorar. Precisava descobrir onde estava. Precisava saber que lugar era aquele.
Ela piscou seus olhos umas duas vezes, como que se tentasse adaptá-los ao ambiente em que estava. Parecia um parque, aliás, um parque muito frio por sinal, pensou consigo mesma. Logo depois, devido ao frio, encolheu-se tremendo em seu casaco. Saiu sem rumo e sem direção naquele parque. Tudo era diferente para ela. Não conseguia reconhecer aquele lugar, por mais que tentasse. Onde estava? Perguntava a si mesma quando uma onda de pânico adentrou o seu corpo. Indo mais fundo naquele ambiente desconhecido, ela não conseguia se lembrar de como havia chegado naquele lugar.
Aliás, ela não se lembrava de nada. Sua cabeça não passava de uma página em branco, sem lembranças, nem nada. Ela não sabia quem ela era. Lágrimas escorreram por seu rosto. Andava por entre as pessoas no parque e se sentia uma pessoa invisível, como que se ninguém a enxergasse. Como que se ninguém fosse capaz de vê-la. Sentou-se em um banco. Ela não se lembrava de seu nome, muito menos de onde havia vindo. Colocou suas mãos sobre seu rosto e ficou ali chorando, não tinha nada que pudesse fazer além de chorar.
Ela estava tão absorta em seus pensamentos, ou no caso, a falta de seus pensamentos, que nem percebeu que era observada por um grupinho que andava por lá.
– O dia hoje não está sendo produtivo. - bufou John. - O que vocês me dizem daquela madame sentada ali? - perguntou.
– Dela eu posso falar nada, mas aquele casaco que ela usa com certeza é de marca. Ela deve ter muito dinheiro. - palpitou Jimmy.
– Vamos nos aproximar, quem sabe tiramos a sorte grande hoje. E sem falar que não conseguimos roubar nada hoje. - complementou Tom.
– Eu tenho as minhas dúvidas sobre a vítima. Ela parece que está tão confusa. Eu não me sentiria bem em roubar nada dela. - a única menina do grupo se manifestou.
– Olha! Nós não costumamos aceitar nenhuma menina em nosso grupo e você insistiu para poder fazer parte. Se você não quiser fazer nada que fira seus princípios minha querida, você pode ir embora. Mas esqueça esse grupo. - disse John.
– Eu quero estar nesse grupo. Desculpe-me por qualquer coisa. Não está mais aqui quem falou. - disse a menina.
– Eu tive uma ideia Lauren. - o líder do grupo olhou maliciosamente para a garota e continuou. - Você irá falar com ela, e procurará saber tudo sobre ela. Uma menina sozinha indo falar com ela, fica mais difícil dela desconfiar de alguma coisa. Se todos nós formos juntos, ela poderá desconfiar de alguma coisa.
– O que me diz Lauren? Segue a sugestão de nosso líder ou está fora de todos os nossos esquemas. - disse Tom olhando em direção da garota que desviou seu olhar dos meninos em direção da mulher que parecia estar perdida. - Uma onde de bondade está adentrando a vida da temida Lauren? - perguntou sarcasticamente.
– Por que vocês sempre gostam de me subestimar tanto? Vocês não sabem do que eu sou capaz de fazer meu bem! - respondeu Lauren com um olhar desafiador.
Assim que os olhos de Lauren bateram o da mulher desolada sentada naquele banco seu coração se apertou. Não queria lhe fazer mal, mas se quisesse continuar e ser aceita de forma definitiva naquele grupo teria que lhe roubar. Tinha tantas dúvidas naquele momento. Queria ser capaz de ajudar aquela desconhecida, mas também queria garantir permanência nesse grupo. Sentia-se tão confusa.
– Parece que alguém aí está bastante confusa. - Jimmy provocou.
– Cala a boca Jimmy. - sibilou. Vocês sabem ser bastante desagradáveis. - rosnou Lauren. - Deixa que eu irei falar com ela.
Lauren se aproximou do banco onde a desconhecida estava e se sentou ao seu lado. Notou que a morena ainda chorava, por isso lhe ofereceu um lenço para que ela pudesse enxugar suas lágrimas.
– Obrigada! - disse timidamente ainda encarando o chão.
– Não há de que. Eu gosto de ajudar as pessoas. E eu percebo que você precisa de ajuda. - diz Lauren começando a colocar o seu plano em pratica.
Ela tinha que conseguir a confiança da mulher. E nada melhor do que se fazendo de sua amiga. Não deixou de notar que o longo casaco negro que a mulher usava era de grife e não deixou de esboçar um sorriso malicioso em sua face. Havia chegado o seu dia de sorte. Finalmente seria aceita no grupo.
– Eu estava passando por aqui e ao te ver aqui tão triste e cabisbaixa eu fiquei preocupada. Aconteceu alguma coisa com você? - perguntou.
– Eu... Eu... Eu não sei. Eu queria saber explicar tudo o que acontece comigo, mas sinceramente eu não sei. Eu não me lembro de nada, foi como se a minha memória tivesse sido apagada. Tudo não passa de um borrão que não tem nenhuma forma. - diz se entregando as lágrimas. - Eu não sei quem eu sou, nem de onde venho e nem onde estou. Eu me sinto como uma página em branco. Eu não sei que direção seguir. Eu não sei o que eu faço. Estou tão confusa. Você pode me ajudar a descobrir quem eu sou? - pergunta soluçando.
– Eu sinto muito que tudo isso lhe aconteceu. - respondeu Lauren se sensibilizando com a história contada pela morena, porém logo ela procurou colocar uma máscara, afinal agora não era hora de ser sentimentalista. Precisava ser objetiva. - Quero que saiba que lhe ajudarei em qualquer coisa que precisar.
– Você vai me ajudar? - perguntou com um sorriso melancólico. - Eu nem sei como lhe agradecer por tudo.
– Não precisa me agradecer. Eu gosto de fazer o bem para as pessoas. - respondeu com o melhor sorriso que conseguiu. - Mas, receio que tem um probleminha.
– Que problema? - perguntou assustada. - O que está acontecendo? Você está me assustando!
– Existem algumas regras de convivência nessa cidade. -respondeu Lauren enquanto revistava a mulher. Chanel! Ela se admirou ao notar que o casaco que aquela estranha usava era de marca. Não viu ao seu redor nenhuma bolsa e nem nada do gênero. Em suas mãos tinha um anel de... DIAMANTE! Era definitivamente o seu dia de sorte.
– O problema é esse anel de diamante em seus dedos. Todo mundo que usa esse anel, se for pego pela polícia é condenado à morte. - disse Lauren enquanto via a face da mulher se transformar de confusão ao terror em instantes.
– Morrer? Eu não quero morrer. - respondeu a mulher choramingando. - O que eu posso fazer para evitar isso? - perguntou.
– Bem, deixa-me pensar um pouco. - diz colocando suas mãos na cabeça fingindo que pensava em alguma solução. - É só deixar esse anel comigo e eu me encarregarei de destruí-lo. Assim você preserva a sua vida.
Sem pensar, a mulher tirou o anel e o deu a Lauren. Os olhos da jovem brilharam quando entraram em contato com aquela pedra preciosa. Finalmente seu dia de sorte havia chegado. Pensou Lauren.
– Tem mais alguma coisa que eu tenha que fazer? - a mulher perguntou novamente despertando Lauren de seus devaneios.
– Deixa-me pensar um instante. - disse enquanto seu olhar se fixava em seu casaco. - Esse seu casaco preto, também não é uma boa usar nas ruas da cidade. Pode ser bastante perigoso.
A mulher havia acreditado em todas as palavras usadas por Lauren. Nunca havia sido tão fácil realizar um roubo. Era como se ela estivesse roubando doce de uma criança. Aliás, seria mais complicado roubar uma criança. Logo Lauren estava com aquele anel e o casaco e se dirigiu ao grupo.
– Consegui! - disse Lauren sorrindo. - Olha, é um casaco Chanel e um anel de diamantes. Vamos ficar ricos.
– Lauren, minha cara Lauren. Esse anel, nós iremos vender por nem um terço do que ele realmente vale. Grande inocência sua ao pensar que ficaríamos ricos vendendo um anel desses de diamante. - disse o líder do grupo.
– Mas, acho que irá nos ajudar um pouco. Dê os créditos que ela merece. - Jimmy retrucou.
– Meus parabéns pelo ótimo serviço Lauren. - o líder sem opção parabenizou a garota.
Assim que pôs seus olhos na mulher, o coração de Lauren se apertou. A mulher agora tremia de frio sem seu agasalho e seu coração começou a se arrepender de tê-la roubado. Seus olhos começaram a lacrimejar.
– Lauren! Lauren! - os meninos a chamaram.
– Sim? - respondeu totalmente aérea.
– O que aconteceu Lauren? Está arrependida de ter roubado a pobre mulher indefesa. - o líder a zombou.
– Eu quero lhe devolver suas coisas. - disse firmemente. - Não me sinto bem em roubá-la. Cadê suas coisas que eu roubei. Eu irei devolvê-la.
– Eu não irei devolver nada! - disse o líder do grupo. - Irei agora mesmo avaliar quanto esse belo anel vale.
– Por favor, devolva pelo menos o casaco. Ela está morrendo de frio. - disse enquanto derramava algumas lágrimas.
– Você está livre para fazer o que quiser agora, mas sem o anel e o casaco. E a propósito minha querida, você está fora do grupo. E sem chance de retorno. -o líder diz e se afasta de Lauren junto com seu bando.
Lauren deixa derramar suas lágrimas solitárias enquanto se aproxima daquela mulher.
– Você está de volta! Muito obrigada por me ajudar. -disse a morena.
Ao olhar aquela mulher em sua frente, Lauren não consegue conter suas lágrimas e começa a chorar. Sentia-se tão culpada e sem saber o que fazer. Tinha que lhe contar a verdade.
– Mas o que está acontecendo? - perguntou a mulher. - Por que está chorando?
– Eu fiz uma coisa errada, mas eu não sei se um dia vou ser perdoada pelo o que eu fiz com você. Eu menti para poder roubar seu anel e seu casaco, mas eu me arrependi. Mas, os meninos não quiseram me devolver. - suas lágrimas agora banhavam seu rosto. - Perdoa-me, por favor. - parou ao perceber que não sabia o nome dela. - Meu nome é Lauren.
– Lauren, bem, eu não sei nem porque eu uso aquele anel. Certamente ele não fará falta alguma para mim. - respondeu sorrindo.
– Você se lembra pelo menos de seu nome? - perguntou Lauren e a morena respondeu negando. - Você precisa de um nome então. Posso escolher um para você.
– Pode escolher, eu acho que eu preciso de um nome, já que não me lembro do meu. - respondeu.
– Que tal Samantha? - perguntou. - Eu sempre via uma série na TV chamada a Feiticeira, e eu gostava tanto desse nome que eu sempre quis colocar esse nome na minha filha. Você gostou?
– Eu achei um nome encantador. Samantha! - tornou a repetir. - Gostei do nome. - disse a morena se levantando, mas a tontura que havia conseguido controlar antes voltou com mais força. Seu corpo se curvou para trás, sua visão embaçou, até que a escuridão tomou conta de tudo.
– Samantha! Samantha! - gritou Lauren pegando o corpo da mulher antes que caísse no chão. - Por favor, acorde. Não faça isso comigo. - disse tentando reanimá-la.
