Título: Em frente.
Aviso: Coleção de drabbles, baseado na cena entre Harry e Dumbledore em Relíquias da Morte, sobre a morte de cada personagem.
Personagem: George Weasley
Considerações: Todas as ficlets escritas aqui se baseiam na viagem de Harry, após sua suposta morte, onde ele visita King's Cross na companhia de Albus Dumbledore. Escolhi os personagens aleatoriamente, não tem ordem cronológica alguma, e alguns deles a morte nem chegou a ser narrada na obra original.
Sinopse: Francamente! Seis décadas sem olhar na minha cara, e você não teve tempo de bolar um nova piada para a sua própria morte?
Viagem 2 – George Weasley
A primeira coisa que ouviu foi uma risada. E foi confuso porque como ele poderia estar rindo no meio da guerra? Porque a risada fora sua, e ele não se lembrava de estar rindo quando alguma coisa muito pesada caiu em sua cabeça. Esmagara a lateral de seu rosto com violência. O que levava a outra consideração: sua cabeça parecia mais leve do que nunca. Era como se estivesse vazia.
Estava deitado no que parecia ser o chão, e abriu os olhos como se acordasse de um sono especialmente agitado. Havia um teto, sem dúvidas, mas tão apinhado de coisas que era quase impossível ver seu final. Se é que tinha um final. Sabia bem onde estava. E a risada ecoou de novo, e não era ele, ou devia estar ficando louco, porque a risada era igual a sua. Ele se sentou.
— Devo confessar que estou impressionado com a sua falta de originalidade.
Uma cabeça ruiva se deslocou no meio de algumas prateleiras logo a frente. Fred Weasley cutucava com muito interesse uma gaiola repleta de bichos peludos e esquisitos, que guinchavam muito alegremente com a possibilidade de morder o dedo intruso entre as grades. Sua expressão de curiosidade não tinha concordância alguma com o tédio em sua voz.
— Como você está?
Houve um minuto de pausa.
— Mouco — George levou as mãos à orelha esquerda, que supunha ter sido destruída pelo impacto do que havia atingido seu rosto. Estava intacto. Continuou sua análise e descobriu, com muita surpresa, que a orelha que havia perdido alguns anos atrás estava de volta.
— Francamente! Seis décadas sem olhar na minha cara, e você não teve tempo de bolar um nova piada para a sua própria morte? — Fred ergueu as mãos, balançando um mini-pufe entusiasticamente — minha ausência te fez muito mal, George.
Os dois riram. Era como se fosse uma risada só, e eram iguais, e se misturaram e sumiram no ar. Fred correu um olhar terno pela loja.
— Esperei muitos anos para que você chegasse. Quer dizer, não pela sua presença em si, mas pela sua viagem. Queria voltar aqui — ele correu os dedos ao longo das caixas empoeiradas, das Gemialidades Weasley, como se fossem suas filhas — se você morresse e escolhesse outro lugar além daqui, eu ia ter que te mandar de volta, te matar, e esperar por alguma coisa melhor da próxima vez.
George piscou, parecendo consciente de que o irmão afirmara sua morte. Sua confusão pareceu atrair Fred.
— Você veio muito de repente. É normal se sentir assim.
George o olhou com assombro, como se finalmente se desse conta de que havia sérias possibilidades de aquilo ser real. Ele se levantou do chão empoeirado, e se aproximou.
— Fred, se isso for uma piada, eu mato você.
— Se você descobriu como se mata alguém que já está morto, meu caro, devo pedir que compartilhe a informação — ele sussurrou em seguida — tem muita gente pé no saco aqui. Essa história de "descanse em paz" é tão real quanto Babbity e o Toco Gargalhante.
O mini-pufe na mão de Fred parou de se agitar quando foi devolvido a gaiola, e George agora estava tão próximo que podia ver que o irmão era substancial. Estava mesmo parado ali, vasculhando as prateleiras com educado interesse, e poucas coisas haviam perturbado tanto George Weasley.
— Ora vejam só! É assim que você me agradece? Esperei uma reação um pouco mais calorosa. Você faz ideia de como foi difícil convencer a mamãe a me deixar vir primeiro? Ela quase enlouquec-
As palavras sumiram quando George provou que era real. Abraçou o irmão. Os mini-pufes gritaram agitados, amontoando-se para ver o que acontecia. Muitos minutos se passaram. Aquele sentimentalismo tolo era algo que não combinava com nenhum deles, e quando George se deu conta disso e se afastou, Fred riu.
— Não se preocupe, é assim mesmo. A gente solta a franga quando chega aqui, é bem difícil de controlar. As coisas simplesmente... Saem, entende?
— Onde está mamãe? — ele riu, os olhos secando rapidamente das lágrimas que deixara extravasar, e olhou ao redor.
— Não está aqui — Fred sorriu como costumava sorrir ao constatar a ausência da mãe, quando ele e George estavam tentando fazer algo errado — mas logo você a verá. Tem que vir comigo.
— Para onde?
— Em frente.
George piscou. E depois riu. Algo no ambiente levou a risada embora, aos poucos, e lhe trouxe a nítida sensação de que ela não morreria nunca mais. Apenas se perpetuaria, infinitamente, porque infinito era a ideia que o lugar passava. Nada existia, mas nada deixava de existir também.
— Que clichê, Fred. Esperava mais de você.
— Não é simples assim. Tem todo um protocolo que preciso seguir. Foi um custo convencer os outros de que não precisava me vestir de branco e pendurar asas nas costas.
— Você de asas nas costas ficaria absolutamente perturbador.
Os dois riram. Caminharam juntos entre as prateleiras, e aos poucos os guinchos dos mini-pufes pararam de existir. Na verdade, George ainda não estava totalmente convencido de que qualquer coisa ali realmente existisse.
Fred abriu a porta da loja. A sineta que avisava a chegada – ou a saída – de algum cliente tocou. George saiu primeiro, e ouviu novamente a sineta tocar quando o irmão fechou a porta.
Talvez o tilintar da sineta nunca mais parasse também.
NA: Os lobisomens também merecem o céu.
