CAPÍTULO II

Hermione parou de escrever e olhou em torno, satisfeita. O pessoal trabalhava em silêncio, e o escritório oferecia-lhe um mundo agradável de paz e segurança. Vivera duas semanas tumultuadas desde que começara a trabalhar, mas valera a pena. Seu primeiro emprego!

E toda essa mudança, devia-a a Harry. Naquela noite, ele lhe ensinara como achar dentro de si mesma o respeito próprio, o orgulho e a confiança. E agora, ali estava ela, mergulhada num mar de papéis e documentos, atolada de serviço, mas feliz. Tornara-se independente, e assim permaneceria até receber a herança dos pais.

Não fora fácil, entretanto. Tudo começara no escritório de Barry Holman, o advogado encarregado da herança; Hermione, decidida a declarar independência de tio Henry, fora perguntar se tinha direito a retirar mensalmente uma pequena quantia para se sustentar até completar a maioridade. E a resposta fora um solene e redondo não.

— O quê!? — exclamou ela, estarrecida. — Está me dizendo que não tenho direito a nenhum centavo, a menos que meu tio me dê a... a sua "sagrada" permissão?

— Infelizmente é assim, minha cara. Talvez você ache injusto, mas foi essa a decisão de seus pais.

— Não acredito. — murmurou ela, chocada. — Não quero depender de tio Henry, sr. Holman. É humilhante demais!

— Bem, você entrou aqui falando em procurar trabalho. Talvez seja essa a saída. A secretária de meu amigo Justin Ballenger está de licença de gravidez. Por que não tenta ir até lá e se oferecer para substituí-la? Posso recomendá-la a Justin, se quiser.

A inesperada oferta ajudou-a a recobrar o ânimo. Hermione sorriu, esperançosa e agradecida, para o advogado, cujos olhos castanhos denotavam compreensão. E, a julgar pela foto que repousava sobre a escrivaninha, era um homem feliz no casamento,

— Obrigada, o senhor é muito gentil. Claro que aceito!

— Entende alguma coisa de gado, Hermione?

Ela hesitou.

— Para dizer a verdade, não. Mas sou ótima aprendiz, garanto!

— Não duvido. Sabe bater à máquina?

—Ah, isso eu sei. E lidar com computadores também, arquivo, agendas. Fiz o curso completo antes de deixar o colégio.

— Ótimo! Parece que vem a propósito, porque não é fácil encontrar quem se disponha a trabalhar por pouco tempo. A secretária dos Bal­lenger deve voltar logo da licença, e por isso...

— Dos Ballenger? Não é um só?

— Dois. Justin tem um irmão que trabalha com ele. — Holman escreveu uma nota rápida e entregou-lhe o papel. — Tome o endereço. Procure Justin ou Calhoun e diga que foi recomendada por mim. Você vai gostar, Hermione, tenho certeza.

Ela se levantou e apertou a mão do advogado.

—Obrigada, sr. Holman. Qualquer coisa será melhor do que depender de meu tio.

— Henry não é má pessoa, Hermione. Ele... Bom, pode ser que ele tenha algum plano em mente para seu futuro.

— Com certeza. — murmurou ela, sentindo um calafrio na espinha. O modo como o tio a atirava nos braços do amigo solteirão dava-lhe nos nervos. — Sr. Holman, meu tio tem cuidado bem de meus negócios? Já faz dois meses que ele assumiu minha tutela.

— Não sei ainda. Pedi-lhe a folha de contabilidade, mas ele se recusa a me dar qualquer informação antes de você chegar à maioridade.

— Não estou gostando disso. — volveu ela, aflita. — Uma vez, papai mencionou que eu tinha pelo menos dois milhões de dólares no banco. Será que tio Henry... já gastou tudo?

— Nem haveria tempo para isso. — O advogado riu, abrindo-lhe a porta. — Sossegue, Hermione, tudo dará certo. Vá procurar os irmãos Ballenger em meu nome. E boa sorte!

Foi Justin Ballenger que a recebeu. Não era um homem bonito, mas cortês e gentil.

— Faço questão de frisar que o emprego é temporário, para evitar desapontamento futuro de sua parte. Nossa secretária, Nita, deverá voltar dentro de uns dois meses.

— Já vim prevenida sobre isso, sr. Ballenger, e não me importo. Esses dois meses serão suficientes para eu aprender a viver sozinha. Eu... hã... morava com meu tio, mas a situação... não estava muito confortável para mim.

Sem saber como, Hermione viu-se contando para Justin Ballenger a história de sua vida.

- Pelo que vejo, seu tio é um homem mercenário. — sentenciou ele, depois de ouvir o breve relato de Hermione. — A senhorita tomou a decisão correta, em minha opinião. E peça a Barry que fique de olho nos seus negócios.

— Já pedi, obrigada. O senhor... vai guardar segredo disso, não é?

— Lógico! Esse assunto diz respeito somente a você, Hermione. No que me toca, você é uma garota pobre que teve uma pequena desavença com a família e veio me pedir emprego. Está bem assim?

— Perfeito. — sorriu ela, aliviada. — Na verdade, eu sou mesmo pobre, uma vez que a herança está vinculada. Mas é por pouco tempo. Não que eu ligue muito para dinheiro, isso não. Por mim, mil vezes viver numa cabana ao lado de quem amo a morar num palácio com um ilustre desconhecido.

— É uma moça sensata, Hermione. Shelby e eu também pensamos do mesmo modo. Não somos pobres, mas se fôssemos, não faria a menor diferença. Temos um ao outro, temos nossos filhos. O destino foi bondoso conosco.

Hermione sorriu, porque conhecia a história do casamento de Shelby com Justin. Era uma linda história de amor, e com final feliz. Sem saber por que, seu pensamento voou para Harry.

— Talvez um dia eu tenha essa mesma sorte, sr. Ballenger.

— Será bem merecida. Bom, Hermione, o cargo já é seu. Bem vinda a bordo de nossa equipe! Venha, quero apresentá-la ao meu irmão.

Calhoun Ballenger, alto e louro, estudava com atenção a papelada espalhada sobre a escrivaninha.

— Esta é Hermione Granger, substituta de Nita, — anunciou Justin. — Hermione, este é meu irmão Calhoun.

— É um prazer, srta. Granger. — O louro estendeu-lhe a mão e sorriu com sinceridade genuína. — Quem vai gostar da novidade é minha mulher Gina. Ela tem passado uns dias "quentes" por aqui, tentando nos ajudar. Mas não é fácil cuidar de três capetas, da casa e de nosso escritório ao mesmo tempo!

— Realmente. — Hermione riu. — É muita coisa para uma mulher só!

Nesse momento, uma mulher jovem e bonita entrou esbaforida, equi­librando uma pilha de pastas, os cabelos ruivos despenteados. Seus olhos azuis fixaram-se nos de Hermione por alguns instantes, curiosos.

— Oh, por favor, por favor, diga que aceita! — implorou ela, com tanto fervor que Hermione se pôs a rir perdidamente. — De minha parte, eu tenho um suborno para você infalível: trufas de chocolate feitas em casa...

— Não é preciso. — cortou Hermioen, divertida. — Já aceitei substituir Nita até ela voltar.

— Aleluia! — gritou Gina, jogando as pastas sobre a escrivaninha. Depois voltou-se com ternura para o marido. — Hoje vou fazer um jantar especial para você, amor.

— E o que está fazendo aqui ainda? — explodiu ele, feliz, enquanto piscava um olho para Hermione. — Gina faz os melhores quiches do Texas. Não, do mundo! E eu venho comendo cachorro-quente há uma semana por causa deste bendito escritório... Meu estômago anda em pandarecos!

— E o meu também. — acrescentou Gina, risonha, puxando Hermione pela mão. — Venha, querida. Vou lhe emprestar um pouco de minha sabedoria, para você não se sentir muito perdida aqui dentro.

As duas deixaram os homens conversando e foram para a saleta que dali em diante seria de Hermione. Gina fez um breve resumo das tarefas, explicando como preencher formulários e controlar a ração do gado no computador.

— Do jeito como você explicou parece simples. — disse Hermione, ao cabo de meia hora. — Mas deve ser mais complicado, não é?

— Bem mais. — admitiu Gina. — Especialmente quando se tem de lidar com clientes como H. J. Potter. Homem exigente está aí, capaz de fazer um santo perder a paciência.

— Quem é ele?

— Um... fazendeiro de gado, digamos assim. Mas ele lida com gado de terceiros. É também o conselheiro da Associação Mesa Blanca.

— Já ouvi falar em Mesa Blanca. É uma associação de criadores, não é?

— Exato. Mas não me interprete mal, H. J. é excelente profissional, e por isso mesmo, exigentíssimo. Uma vez ele viu um vaqueiro tocando as reses com vara de gancho e foi um deus-nos-acuda. Pulou na garganta do homem, rolaram em cima dos trilhos do trem... Foi um carnaval. Ele verifica a qualidade dos grãos que fornecemos, a porcentagem de melaço, e é capaz de brigar por diferenças mínimas. Em resumo, H. J. não faz muita questão de facilitar nosso trabalho.

— É rico?

— Não. Seu poder vem apenas da inesgotável capacidade profissional. Tem um temperamento esquentado, mas os criadores sabem que não existe ninguém melhor para cuidar do gado. Ai de quem se atreve a discutir com ele!

A descrição de Gina trouxe à cabeça de Hermione, sem que ela soubesse por quê, a lembrança de uma noite mágica e inesquecível. Por mais de uma vez ela voltara ao pequeno bar onde encontrara Harry, mas não tivera coragem de entrar, não queria dar a impressão de que estava à caça dele. O que, em última análise, seria a expressão exata da verdade.

— Esse Potter é casado? — quis saber.

— E que mulher teria coragem de se casar com essa fera? O casamento do pai deixou-o amargurado e cheio de preconceitos contra nós, as do chamado sexo frágil. H. J. andou brincando de playboy durante algum tempo, mas acabou assentando a cabeça. O presidente da Mesa Blanca já anunciou que vai passar o cargo para alguém de capacidade, e todos logo pensaram em H. J. Contudo, outra exigência do presidente é que seu substituto seja casado e tenha filhos, portanto nosso herói está riscado da lista. — Gina soltou uma risada alegre. — Não posso imaginar H. J. como um pacato chefe de família! A única criança que vai existir na vida dele, na minha opinião, é o sobrinho que mora em Houston, filho da irmã.

— Nossa, o homem deve mesmo ser difícil...

— Sempre foi. Eu, porém, dou o devido desconto, afinal, o casamento e a morte do pai deixaram cicatrizes profundas na alma de H. J. Meu Justin até que compreende melhor o problema, mas Calhoun... Quando meu cunhado e ele se encontram, sai até faísca.

— Já estou com medo de encontrar esse cidadão. H. J. costuma vir sempre ao escritório?

— A cada quinze dias, e nunca falha. Traz sempre uma lista de reclamações consigo.

— Ainda bem que não vou ficar aqui por muito tempo!

Gina riu alto.

— De qualquer modo, você nem precisa conversar com ele. Quem o atende é Justin ou Calhoun.

— Ah, já estou respirando melhor...

O primeiro dia foi ao mesmo tempo cansativo e produtivo. Hermione apren­deu a separar os lotes de rebanho, catalogar as fichas individuais de cada rês, modificar o balanceamento da ração de acordo com a variação de peso dos animais. Teve as primeiras noções de serviços veterinários, além de controle de vacinas, e no fim do dia já preenchia os formulários com rapidez e eficiência. A tarefa mais tediosa era preparar extensos relatórios diários para cada cliente, dando conta minuciosa do que acon­tecera com cada rês.

À medida que os dias se passavam, Hermione foi ganhando mais confiança no que fazia, incentivada pelos elogios de Justin e Calhoun. Cultivava a esperança de um dia rever Harry, pois ele também lidava com gado. Se a fazenda onde trabalhava cuidava bem dos animais, decerto utilizaria os serviços do escritório, pelo menos no que tocava a rações.

Desejava contar-lhe o quanto fora importante àquela noite em sua vida. A conversa com Harry alargara-lhe o horizonte e dera-lhe a tão sonhada independência pela primeira vez. De moça tímida e medrosa, Hermione se transformara numa mulher segura, e agora queria demonstrar sua gratidão. Por diversas ocasiões, ensaiou perguntar a Gina se ela conhecia alguém chamado Harry, mas recuava sempre, sabendo que a nova amiga, decididamente, não era freqüentadora de bares de estrada.

O tio tentara demovê-la da idéia de ir morar sozinha, mas Hermione se mostrara irredutível.

— Não, tio Henry, não quero mais depender de você. E, por favor, faça o quanto antes um relatório da contabilidade de meus negócios para o sr. Holman.

Ao ver a expressão aborrecida e indecisa do tio, a desconfiança de Hermione aumentou. No dia seguinte, ela telefonou para o advogado:

— Sr. Hollman, meu tio tem autoridade absoluta sobre minha herança? Em outras palavras, ele pode tirar o quanto quiser da conta sem me avisar nada?

— A procuração dele é limitada, Hermione. Não se aflija tanto, seu tio deve estar agindo dentro da lei.

Ela ficou na mesma. O tio era astuto o suficiente para saber como se manter "dentro da lei" e, ao mesmo tempo, dissipar sua fortuna.

A pilha de papéis que encontrou em cima da mesa naquela manhã desviou sua atenção até a hora do almoço. Hermione desceu para comer um sanduíche, e quando voltou ouviu uma discussão acalorada vindo do gabinete de Calhoun.

— Seja mais razoável! — a voz irritada de Calhoun reboou pelo corredor.

— Você é que não está sendo razoável! — a outra voz, igualmente inflamada, eriçou os cabelos de Hermione. — E se quiser que eu continue utilizando seus serviços, comece a tratar do gado sob minha responsabi­lidade como eu exijo!

— Mas o que você quer, homem de Deus? Que eu ponha um guardanapo em volta do pescoço desses bichos e lhes dê a ração na boca com colher e garfo?

— Quero que os animais sejam tratados com humanidade, nada mais.

— É o que estamos fazendo!

— Desde quando choques elétricos significam tratar com humanidade? As reses ficam assustadiças, comem menos e acabam doentes.

— Por que não se inscreve na Associação Protetora de Animais?

— Já faço parte de duas.

A porta se abriu com violência, e Hermione, tremula, ergueu os olhos. Aquela voz...

Sim, só a voz dele poderia deixá-la naquele estado. Harry. Alto, moreno, os olhos cintilantes e claros contrastando admiravelmente com as sobrancelhas bastas e negras.

Hermione sentiu vontade de dançar de alegria, mas seu sorriso morreu quando ele franziu a testa ao vê-la. Parecia contrariado, e com cara de poucos amigos.

— O que você está fazendo aqui?

— Substituindo Nita.

— O quê! Não me diga que agora precisa trabalhar para viver?! - Hermione se encolheu, intimidada. Sabia que Harry tinha gostado da festa tanto quanto ela, e não podia compreender a razão de tanta agressividade.

— Bem, eu... Sim, preciso.

— É uma queda e tanto. — Os olhos de esmeralda indicavam incredulidade patente. — Ainda se exibe pela cidade com o Mercedes?

— Vocês se conhecem? — perguntou Calhoun. Harry tirou uma baforada do cigarro com toda a calma.

— De vista.

— Nesse caso, vou voltar para meu gabinete. Passe bem, H. J. -Harry esperou que a porta se fechasse atrás de Calhoun antes de falar.

— Você anda rondando aquele bar com regularidade.

Hermione baixou a vista, encabulada. Não tinha como negar, de fato fora ao bar algumas vezes, na esperança de encontrá-lo. Sua intenção era agradecer-lhe os conselhos e contar que tinha declarado independência por causa dele. Harry, contudo, interpretara aquela atitude à sua maneira.

— Foi lá que você descobriu que eu tinha negócios com os Ballenger?— Sem dar tempo para ela responder, continuou, num tom abertamente hostil. — Não adianta, moça. Eu avisei naquela noite, e repito agora: não quero saber de debutantes enrolando minha vida. Quis se dar ao trabalho de procurar emprego aqui só para me encontrar, o problema é seu. Desista e volte para seu caviar com champanhe. Você é bonitinha, mas eu estou fora do mercado. Entendeu ou quer que explique melhor?

Em meio à confusão que se instalou em seu cérebro, Hermione conseguiu manter a aparência serena.

— Fui recomendada para este cargo pelo meu advogado, o sr. Holman. — explicou, enquanto escondia as mãos tremulas sob a pilha de docu­mentos. — Não posso tocar num só tostão da minha herança antes de completar vinte e um anos, e este era o único emprego disponível em Jacobsville. Uma vez que estou morando sozinha, preciso pagar meu aluguel e minha alimentação. Quanto a ir ao bar, é verdade. Minha intenção era procurá-lo para... para dizer que você mudou minha vida. Que eu estou aprendendo a sair da redoma sozinha e... e que estou agradecida pelo que você me ensinou.

Harry não amoleceu. Ao contrário, suas mandíbulas se contraíram e seu olhar ganhou um brilho de aço gelado.

— Não preciso dos elogios nem da idolatria de uma adolescente. Em todo o caso, se isso a faz feliz, aceito seus agradecimentos.

A voz zombeteira soava como chicote nos ouvidos de Hermione. Que boba fora! Chegara até a sonhar com esse reencontro, planejara contar tudo o que aprendera e mostrar, orgulhosa, o recibo do primeiro aluguel. A atitude protetora e firme de Harry naquela noite fizera com que ela se sentisse mulher, estranhamente mulher. Despertara nela a vontade de vê-lo, tocá-lo, senti-lo. Contudo, Harry deixava claro que não pre­cisava de sua afeição. Havia honestidade em sua atitude, sem dúvida. Mas essa honestidade doía-lhe fundo na alma.

— Fique sossegado. — disse, com um sorriso forçado. — Não tenho nenhuma intenção de correr atrás de ninguém. A única coisa que eu queria era agradecer-lhe.

— Já agradeceu.

— Eu... estou aqui só por algum tempo, até Nita se recuperar. E quando eu receber a herança, vou embora para a Geórgia. Vou mesmo, garanto!

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Não lhe pedi nenhuma explicação, debutante.

— Então com licença.

Hermione fingiu concentrar-se no computador, mas seus olhos ardiam como brasa e os números se embaralhavam na tela. Sentiu as mãos pesadas e frias, mas forçou-as a acionar o teclado, timbrando em não erguer mais a cabeça.

Harry não se fez de rogado para sair. Em poucos segundos, tudo o que sobrava dele na sala era o aroma penetrante de tabaco e couro.

— Hermione, preciso sair por uma ou duas horas. — avisou Calhoun, deixando o gabinete. — Explique a Justin quando ele chegar, sim?

— Pois não.

Calhoun estacou, surpreso. Não era preciso ser psicólogo para saber que a moça estava sofrendo, e bastante.

— Não se deixe abater pelas palavras dele, querida. Eu mesmo custei a perceber que o diabo não é tão feio como o pintam. Tive umas duas ou três brigas com esse homem, das feias, mas acabei descobrindo que não vale a pena. Ele não sabe ser gentil com ninguém, faz parte de sua personalidade. É uma simples questão de aceitá-lo como é.

— Ele me tirou de uma situação difícil, e eu só queria agradecer, mas houve um mal-entendido. Deus, o homem pensa que eu vim trabalhar aqui só para vê-lo!

Calhoun soltou uma gargalhada.

— Pois fique sabendo que você não seria a primeira, minha cara. Muitas tentaram essa manobra, acredite! O pior é que quanto mais ele rosna, mais as mulheres se assanham. É natural, pois é bonitão, livre e desimpedido. Além do mais, estamos diante de um gênio brilhante. Seu trabalho na Mesa Blanca é assombroso.

— Mesa Blanca? — repetiu ela, aérea. As peças do quebra-cabeças começaram a se ajustar nos lugares certos. — Mesa Blanca?

— Mas como é isso? Vocês não se conheciam então? Bem, esse furacão que saiu daqui atende pelo nome de H. J. Potter.